Os órfãos de ditaduras – por Moacir Pereira Alencar Junior

          mixditadoresna foto os ditadores: Francisco Franco; os irmãos Castro; Anastásio Somoza e seu filho; e Ceausescu.

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   Direitos civis e direitos políticos sempre devem ser respeitados para chegarmos à efetivação dos direitos sociais em uma sociedade civil, pela via democrática. Impor direitos sociais matando os direitos civis e políticos levam a ditaduras personalistas, discricionárias e assassinas.

   O que separa um Anastasio Somoza (Nicarágua – família governou de 1936 a 1979) de um Fidel Castro (Cuba – de 1959 até o presente, com seu irmão Raul)? O que separa um Francisco Franco (1936-1976 /Espanha), de um Nicolae Ceaucescu (1967-1989 /Romênia)? Nada. Logicamente cada regime tinha sua peculiaridade e particularidade, que não serão tratadas aqui, mas todos “entregavam” direitos sociais ao mesmo tempo em que impunham uma mordaça a pluralidade de pensamento e a diversidade cultural, por meio de um estado policial opressivo, onde os indivíduos estavam sujeitos ao arbítrio do estado, subjugados a uma ditadura de fato e de direito.

   Podemos encontrar ‘feitos’ positivos de ditaduras no campo dos direitos sociais passando de Getúlio Vargas (que promoveu a Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT), assim como o salário mínimo, jornada de trabalho de 8 horas e direito de férias- os trabalhadores foram incorporados à sociedade por meio de leis sociais para o trabalhador urbano, e não de sua ação sindical e política independente), aos militares pós-1964 (que criam o INPS – Instituto Nacional de Previdência Social e o Funrural (que efetivamente incluía os trabalhadores rurais na previdência, assegurando seus direitos trabalhistas até então inexistentes), e que também criariam o FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço), que serviria como um seguro-desemprego a classe trabalhadora). E tanto o Governo Getúlio Vargas, como os Governos Costa e Silva e Médici, “deram” as conquistas sociais acima citadas à população por meio do império do arbítrio e da repressão aos grupos opositores na estrutura social. Predominava a restrição dos direitos civis e políticos (censura, pena de morte, torturas, expurgos).

    A ‘conquista’ destes direitos sociais valeram o preço do fim das liberdades democráticas e da extinção dos direitos civis e políticos? Certamente alguns dirão que sim: a intelligentsia fanática e sectária por suas respectivas ideologias. Outros não: meu caso e certamente de muitos outros que acreditam na democracia liberal.

   Ora, para meu espanto e perplexidade, a paixão ideológica parece ter cegado a história da humanidade para muitos intelectuais, tanto à esquerda quanto à direita. Quando vejo alguém em pleno século XXI, após a morte de Fidel Castro (o último ícone histórico da Guerra Fria), fazer defesa de sua ‘face humana’ e das conquistas sociais que ele teria consagrado ao povo cubano após de mais de meio século no poder, sem dizer uma linha do arbítrio e da falta das liberdades democráticas que se vivenciou e se vivencia em uma ditadura marxista-leninista, me questiono, recorrendo a afirmação feita no passado pelo historiador lituano Moshe Lewin para analisar à URSS:

   “Tal regime tem de oferecer e inculcar valores, extirpar uma fé e instilar uma outra, legitimar as próprias opções e o próprio caráter aos olhos do povo, num mesmo tempo que esta elevando e degradando a posição social de milhões de pessoas”. “…Utilizar para seus próprios fins métodos e estruturas similares aos empregados na experiência religiosa e eclesiástica”. “… transformando um Partido revolucionário numa organização burocrática, com uma poderosa hierarquia, por um lado, e um “laicato” privado de direitos, por outro, com os privilégios da cúpula e o catecismo que vem do alto, até os níveis inferiores, e, finalmente, com uma versão laicizada do pecado, da heresia e da inquisição”.

    Abraçar a existência destes regimes que santificam o poder total do estado e que promove um culto ao personalismo de tiranos é um retrocesso em toda e qualquer escala. Ou defendemos a democracia liberal e seus valores basilares, que buscam aceitar a diversidade e conflito como fontes de inovação, da mudança, do progresso, visando promover o exercício do poder tendo como base a regulação por normas gerais (Constituição), incorporando neste conjunto de normas, as garantias aos direitos considerados fundamentais, e distribuindo este poder entre os diferentes grupos da sociedade civil; ou estaremos fadados a novas aventuras autoritárias, antidemocráticas e antiliberais que causaram e causam a humanidade os mais profundos danos no campo dos direitos humanos e das liberdades.

   Todos direitos sociais conquistados em ditaduras levam a uma falsa emancipação do homem. Criar eufemismos visando suavizar o que de fato prepondera em uma ditadura, e romantizar a imagem de um tirano dando ao mesmo uma face humanista por haver mera afinidade ideológica, mostra o descompromisso com a história e com a ética. Descompromisso este que é levado a cabo por uma legião de intelectuais e formadores de opinião da imprensa e outros veículos da mídia.

   Ao sacrificar se pela aceleração de uma felicidade futura que a humanidade alcançaria pelo desenvolvimento indefinido do progresso, e que traria consigo a isenção de qualquer sofrimento, de todos os defeitos e quiçá da própria morte, os comunistas, também no caso do ditador Fidel Castro, fazem com que a noção de crime perca sua razão de ser se esse crime não tiver consequência perturbadora do progresso da evolução da humanidade para a felicidade. Somente a utilidade das coisas para o progresso humano é que as tornam boas ou más. Não vendo problemas em dispor o estado dos particulares, de suas aptidões e capacidades, com um despotismo tirânico.

    A história não deve e jamais irá absolver nenhum ditador. O Paredón não é a solução. Não é eliminando da face terráquea os elementos que você julga atrasar a marcha do universo para a sua felicidade que levará ao êxito da civilização humana.

Donald Trump e a vitória da anti-razão – por Moacir Pereira Alencar Júnior

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Este artigo foi publicado em 15 de novembro de 2016, no site da Revista Amálgama (http://www.revistaamalgama.com.br/11/2016/donald-trump-e-vitoria-da-anti-razao/ )

Em janeiro, quando a corrida pela indicação dos futuros candidatos à presidência americana estava a todo vapor e ganhando formas mais definidas, muito surpreendia o nome de um outsider da política tradicional – era Donald Trump entre os quadros dos possíveis presidenciáveis do Partido Republicano. Muitos consideravam tratar-se de um simples “amor de verão” de 2015, onde um candidato que sempre se manteve alheio à política (visto por muitos como um mero empresário e magnata imobiliário e um pop star televisivo) não viesse a prosperar.

Pesquisa divulgada pelo Pew Research Center (PRC) na primeira quinzena de janeiro indicava que Hillary Clinton e Donald Trump possuíam ligeira vantagem diante de seus respectivos adversários de partido. Um dado curioso é que entre eleitores republicanos Bernie Sanders possuía índice de reprovação menor caso viesse a ser um potencial candidato a presidente pelo Partido Democrata: “apenas” 60% dos eleitores republicanos reprovavam Sanders, frente a uma reprovação de 80% dos republicanos diante de uma potencial presidência encabeçada por Hillary Clinton. Um sinal de que os velhos clãs políticos – de ambos os partidos – estavam desgastados e sendo repelidos por grande parte do eleitorado. Vale ressaltar que entre os republicanos, Jeb Bush, de outro clã político tradicional, tinha a maior taxa de rejeição (36%).

Problemas econômicos que ainda marcam profundamente os EUA desde a crise de 2008, somado ao tema da imigração mal resolvida e a problemas com a segurança das fronteiras foram se tornando um prato cheio para os discursos teatrais de Trump. O ataque terrorista de San Bernardino, na Califórnia, também serviu de alavanca de propulsão para o discurso do medo e da cisão social praticado pelo magnata, com uma reação tímida e mesmo inócua do Partido Republicano diante dos rumos que a campanha tomava.

Em março a força necessária para Trump assumir de vez a liderança das prévias entre os republicanos se concretizou: a vitória avassaladora da Superterça. Dos onze estados em jogo, Trump conquistaria sete estados, e abriria larga vantagem diante do establishment republicano. A inatividade congressista dos republicanos produziu o sucesso e desempenho de Trump.

O fato de Trump ser o mais desqualificado candidato à presidência na história republicana era evidente. No outro lado da disputa, Hillary tinha o controle da máquina do Partido Democrata, e tinha o apoio explícito dos superdelegados, deixando Sanders (senador com dois mandatos por Vermont) com mínimas chances de disputar o processo em pé de igualdade diante do clã Clinton. Mesmo assim, Sanders, com um discurso mais à esquerda dentro do espectro político do partido (discurso contra Wall Street e as políticas econômicas) conseguiu bater Hillary em alguns estados, e ganhou sempre com folga entre os votantes com menos de 40 anos com uma visão anti-establishment, assim demonstrando certa fragilidade que acompanharia a candidatura de Hillary até novembro.

Junto ao sentimento anti-establishment que se encontrava cada vez mais forte no eleitor americano, havia também um sentimento de polarização partidária em escala nunca antes vista. Estudo também realizado pelo PRC em 2014, com mais de dez mil eleitores, mostrava um maior engajamento e participação no processo político entre a população.

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A proporção de americanos que expressam opiniões consistentemente conservadoras ou consistentemente liberais dobrou nas últimas duas décadas, de 10% para 21%. Como resultado, a quantidade de sobreposição ideológica entre as duas partes diminuiu. O republicano “mediano” ou típico é agora mais conservador do que 94% dos democratas, em comparação com 70% há vinte anos. E o democrata mediano é mais liberal do que 92% dos republicanos, acima de 64% apresentado em 1994. Entre os republicanos e democratas que estão altamente envolvidos na política, 70% agora assumem posições que são na maior parte ou consistentemente em linha com a tendência ideológica do seu partido.

Dentro deste clima de polarização, a antipatia e a intolerância entre as visões ideológicas dos dois eleitorados ficaram mais visíveis a ponto de pessoas evitarem o convívio e a associação com outros indivíduos que não possuíssem pontos de vista compatíveis – fenômeno similar ao ocorrido no Brasil nas eleições presidenciais de 2014.

Com este cenário, Donald Trump soube usar o rancor e o ressentimento de certos setores da sociedade civil que se sentiam abandonados e os conclamou a segui-lo numa aventura nada grandiosa, manipulando os ingredientes de preconceito e irracionalismo destrutivo que estavam adormecidos, vertendo ódio e fundamentalismo, assim como fanatismo em certos momentos. A polarização também chegou à mídia televisiva, casos da FoxNews  (conservadora) e MSNBC (liberal).

Não surpreendeu, portanto, quando os mais “célebres” pronunciamentos de Trump evocavam coisas como: “expulsaremos onze milhões de imigrante ilegais”,  “forçaremos o México a pagar pelo muro que construiremos na fronteira sul”, “derrotaremos o Estado Islâmico muito rapidamente e como bônus tomaremos seu petróleo”, “impediremos os muçulmanos de imigrar para os EUA”, etc. Era um discurso onde jogava para a platéia. Sem contar o prazer que ele apresentava em exaltar figuras anti-americanas como o presidente russo Vladimir Putin, exemplo daquilo que a América jamais deveria ser; além de provocar simpatia e ganhar elogios de instituições como a Ku Klux Klan, a cada discurso de cisão e ódio veiculado.

Os tradicionais valores republicanos foram sendo atacados a cada fala e a cada ato de campanha de Trump. A retórica imprudente que antes era deixada à margem do partido, e só ecoava em figuras como Sarah Palin e Ann Coulter na atualidade, ou Pat Buchanan nos anos 90, agora passaria a reger a principal figura que disputava a Casa Branca. Nenhum grande candidato à presidência jamais foi tão desdenhoso do conhecimento, tão indiferente aos fatos, tão despreocupado por sua “ignorância”.

Nem mesmo um manifesto “Against Trump”, feito por figuras de relevo do partido republicano e pela principal revista conservadora do país (National Review), conseguiu parar o progresso da campanha de cisão social e mal-estar perante a sociedade americana. Para muitos republicanos ele representa o perigo mais sério para o movimento conservador desde a extrema-direita dos anos 50 da John Birch Society.

Com sua vitória conclamada em 9 de novembro, muito espanto e incertezas se criaram no horizonte da política interna e externa. Conforme destacava Alexis de Tocqueville, em Democracia na América, as administrações estaduais americanas possuem seus próprios setores de governo e sua própria constituição, além de existir grupos de cidadãos que em conjunto buscam contrabalancear o poder do governo federal. Todo cidadão tem na Constituição a garantia de certos “direitos inalienáveis”. No entanto, um dos problemas mais graves da democracia na América é a “tirania da maioria”. Criam-se fortes pressões sociais para se internalizar o controle social. Os cidadãos são leais ao “aplauso a si mesmo”. Que esta tirania do rancor e do ressentimento levada às urnas por boa parcela do eleitorado que votou em Donald Trump não recrie um cenário que foi marcadamente vergonhoso para a história americana até a segunda metade do século XX, onde cidadãos estavam ligados à democracia, mas viviam em sociedades paralelas.

Os primeiros discursos como candidato vitorioso e suas primeiras nomeações não parecem dar certezas de uma ruptura profunda entre o Trump bufão e inconsequente e o Trump de fato e de direito da Casa Branca. Logicamente que as duas casas legislativas que serão comandadas pelos republicanos (Câmara e Senado) poderão tentar contrabalancear qualquer ato impulsivo ou desequilibrado de Trump como chefe do Executivo, mas toda atenção será necessária por parte de todos os cidadãos do mundo.

Steve Bannon, “estrategista chefe e conselheiro sênior” do presidente eleito, nomeado nesta semana, tem um passado e presente controverso. Sua ascensão nos últimos tempos como gestor do site Breitbart News levanta questionamentos sobre sua capacidade de adequar sensatez e equilíbrio à realidade social americana. Muitos taxam este site como “um polo do nacionalismo étnico branco”, o que parece ser um fato concreto, já que David Duke, ex-“imperial wizard” da Ku Klux Klan, chamou a escolha de “excelente” e disse que Bannon estava “basicamente criando os aspectos ideológicos para onde estamos caminhando”.

O presidente Obama, em seus últimos dois meses de Casa Branca, faz seu papel rumo a uma transição conciliadora para o governo Trump, e ainda diz acreditar num Trump pragmático no governo, mantendo algumas políticas atuais americanas na política interna e externa. Segundo Obama: “Uma das ótimas coisas sobre os EUA é que em temas mundiais nossa influência é resultado não apenas do presidente, mas de múltiplas interações que envolvem diversos atores. Isso é o que nos torna uma nação indispensável em manter a ordem no mundo.”

Esperemos que uma ideologia tóxica e desagregadora não domine a Casa Branca e a democracia americana.  Que todos ajam como no “Panóptico” (máquina capaz de ver tudo o tempo todo) de Jeremy Bentham, e fiquem de olhos abertos nos rumos que a gestão Trump tomará a partir de 20 de janeiro de 2017. Que um estado permanente e consciente de visibilidade assegure o funcionamento do Estado representativo, constitucional, evitando desvios e possíveis retrocessos.

A perversão maniqueísta do petismo – por Moacir Pereira Alencar Junior

Dilma Rousseff

Dilma Rousseff

Este artigo foi publicado originalmente na Revista Amálgama em 1ª de maio de 2016 (http://www.revistaamalgama.com.br/05/2016/perversao-maniqueista-do-petismo/)

Na última sexta-feira, durante cerimônia no Palácio do Planalto onde anunciou a prorrogação de contrato dos Mais Médicos, a presidente Dilma Rousseff classificou de “ridícula” a acusação que recebe no processo de impeachment. Dilma também criticou as medidas anunciadas pelo vice-presidente Michel Temer caso o mesmo venha a assumir o governo, alertando para o “grande retrocesso” em um ajuste fiscal que cortaria direitos. A presidente declarou ainda que “luta não só para se manter no Planalto, mas para preservar conquistas da população”, que é “acusada de ter ampliado gastos sociais”, e que, nessa tese, se sente “orgulhosa” de transferir mais renda para a população pobre.

Dilma discursa para as “massas”, como se a nação vivesse um cenário de bonança econômica, política e social, e ela fosse uma pobre vítima de elites “golpistas” que visam destruir o “doce sonho brasileiro” representado pelas ações do governo petista em 14 anos de poder. O Brasil do discurso de Dilma inexiste na realidade. A recessão econômica é clamorosa, acompanhada de profundo desemprego e de falências de várias empresas em diferentes setores, assim como de queda acentuada da renda dos trabalhadores nos mais variados extratos da população.

O teatro farsesco levado adiante por Dilma, na maratona de eventos que antecede a votação do processo de impeachment no Senado, tem dois intentos: 1) é o último apelo e suspiro do governo aos “movimentos sociais”, que foram cooptados historicamente pelo partido e se desvirtuaram progressivamente conforme o PT ia se apoderando da estrutura do estado brasileiro, e que hoje se auto-intitulam “exército contra o golpe”; 2) sabendo do estrago das finanças e do rombo orçamentário, os gastos fora da realidade, anunciados como “bondades” pela equipe do governo nesta maratona de eventos, caminham na contramão da “responsabilidade” e do compromisso com a “austeridade fiscal” necessária para adoção de políticas fiscais e econômicas que tirem o país do atoleiro em que se encontra. Mais uma comprovação do descompromisso de Dilma Rousseff como comandante em chefe da nação com a Lei de Responsabilidade Fiscal e com a Lei de Diretrizes Orçamentárias, por sinal um dos fatores principais que desaguaram na abertura de processo de impeachment na Câmara dos Deputados.

Para fazer uma breve análise de nossa situação econômica e política, recorrerei a Vilfredo Pareto, um dos fundadores da Teoria das Elites. Adaptando Nicolau Maquiavel, Pareto dividiu as elites políticas em raposas e leões. Os dois tipos conquistavam o poder recrutando o apoio de coalizões de grupos sociais e econômicos muito mais heterogêneos, que possuíssem características paralelas associadas aos “especuladores” inovadores ou aos investidores “rentistas”, respectivamente. Pareto afirmou existir uma circulação cíclica de elites que acompanhava os ciclos socioeconômicos. Assim, as raposas adulavam os especuladores, ajudando-os tácita ou ativamente a espoliar os rentistas – fossem eles poupadores da pequena burguesia ou acionistas majoritários. Inicialmente, a prosperidade crescente seria acompanhada do questionamento da moralidade tradicional e de uma expansão do consumo. Mas o governo e o populacho  se endividariam devido ao sobreconsumo baseado no crédito, enquanto a escassez de capital e a falta de investimento produtivo levariam a economia a se contrair. A necessidade de comedimento e de poupança se tornaria evidente, e um governo mais conservador, de leões, assumiria a ribalta, apoiado pela classe econômica dos rentistas. Ao final, a economia começaria a estagnar e as pessoas se cansariam da austeridade leonina, precipitando assim a ascensão das raposas e dos especuladores e o início de um novo ciclo.

O que vivenciamos com o PT – as raposas neste processo – foi um desastre sem precedentes, acompanhado de um escândalo de corrupção de proporções dantescas. A persistência em adotar uma política acíclica na economia de forma equivocada e irresponsável, devido ao dogmatismo e à falta de sensatez e racionalidade, levou o país à pior crise em 25 anos.

Tal como na Rússia stalinista, em todos os campos, da economia à ideologia, o governo petista estabeleceu “frentes” nas quais deveriam ser travadas numerosas batalhas do bem contra o mal. Não existem mediações nem possibilidades diversas, sendo que os problemas admitem apenas a possibilidade de se responder sim ou não. A argumentação impositiva de Dilma e seus asseclas não admitem outra solução além do consenso ou da condenação. Ao se colocar como um partido de “sucessos” e “triunfos”, e ao ironizar as posições diversas das demais tendências políticas de modo desdenhoso e caricatural, a concepção maniqueísta do governo vai se tornando soberana e, por conseguinte, mais inevitável é a simplificação, a esquematização, a vulgarização. Esse maniqueísmo reforçado por “lutas” e “sucessos” influencia no hábito mental de milhares de militantes petistas.

Ao adotar a negação da realidade como política de Estado e como “plena verdade”, a simplista interpretação petista da realidade histórica nacional faz com que o fatalismo se misture com certo voluntarismo exacerbado. As decisões contingentes são exaltadas como expressões definitivas do “desenvolvimento histórico”, e proclamadas como infalíveis. Decisões pautadas na singularidade são identificadas com as leis gerais do desenvolvimento histórico, de modo que toda dúvida e toda crítica que venha a ser apresentada são a priori vistas como ridículas, exatamente por estarem em contradição com a férrea necessidade da história petista. Por isso, os críticos se tornam por um lado, “ridículos”, e por outro, “criminosos”.

Na essência, é esse o núcleo do mundo mental do petismo. Trata-se da contradição e da conexão entre o que o PT disse e o que fez, entre a palavra e a ação, entre a teoria e a práxis, entre a terminologia e o crime. Falar de mentira, engano, simulação, é algo demasiadamente fácil. O problema é de maior complexidade. O petismo e seus comandantes, caso de figuras como Dilma, Lula e lideranças parlamentares, bolaram dogmas “criadores” para justificar a posteriori a razão de Estado e determinadas decisões.

Em suma, o petismo, em sua maratona de eventos (que tem neste 1º de maio participações de Dilma e Lula ao lado dos “movimentos sociais” de sempre), nada mais faz do que adotar uma medida desesperada, com a finalidade de salvar um regime em agonia, sem condições de mobilizar o povo em nome de uma virada política. É um governo inteiramente desacreditado, com a iminência do afastamento da presidente sendo mais que certa. É o preço que se paga pela empáfia e arrogância de se sentirem os donos do poder e do Brasil.

A traição dos intelectuais -por Moacir Pereira Alencar Junior

Reitores de Universidades Federais em ato de apoio a presidente

Reitores de Universidades Federais em ato de apoio a presidente

Posto aqui meu artigo que foi publicado no dia 25 de março de 2016 na Revista Amálgama (http://www.revistaamalgama.com.br/03/2016/traicao-dos-intelectuais/)

O que é lícito aos políticos não é lícito aos intelectuais. Era isso o que o filósofo francês Julien Benda (1867-1956) buscou mostrar durante sua trajetória de vida, principalmente quando iniciou uma batalha contra a vida social e cultural de seu tempo – período este que precedia a crise da democracia e do aparecimento ameaçador dos estados totalitários, no fim dos anos 1920. Ele anuncia uma “guerra sem trégua” entre o que considera serem os verdadeiros e falsos intelectuais. A cultura desinteressada é a marca dos verdadeiros, sendo a cultura serviçal a marca registrada dos falsos intelectuais. Essa “guerra sem trégua” será anunciada na obra A traição dos intelectuais, de 1927.

Efetivamente, naquela conjuntura se intensificava uma universalização da paixão política, em decorrência de um turbilhão de movimentos políticos, ideológicos e doutrinários em debate marcando a arena da ação. Benda busca destacar que jamais, como naqueles anos, os intelectuais abdicaram tanto da sua missão, adotando as mesmas paixões dos homens de facção, fazendo-se fanáticos entre os fanáticos.

Recorri a Benda para tratar da atual situação de crise institucional, política e social que o Brasil enfrenta. Voltemos no tempo: há 36 anos, quando o Partido dos Trabalhadores nascia em meio ao período de mobilização pela redemocratização que ocorria no país, o mesmo já tinha apoio declarado de grupos vinculados à CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), tal como elementos credenciados da alta hierarquia eclesiástica e de organismos como as CEBs (Comunidades Eclesiais de Base) e a CPT (Comissão Pastoral da Terra), além do apoio de partidos como PCB e PCdoB, e de movimentos metalúrgicos e sindicais do grande ABC. No início da década de 1980, uma das eminências pardas de Lula era Frei Betto, um dos teólogos da libertação – representante da ala “progressista” da Igreja Católica.

A universidade pública, nesta conjuntura, já tinha assistido os movimentos de esquerda conquistarem o monopólio do discurso e do controle doutrinário nas ciências humanas, que automaticamente, em sua maioria, se vincularam ao ideário petista de uma esquerda anti-imperialista, antimonopólio e antilatifúndio. Neste cenário, os cursos de ciências humanas se tornaram o teatro ideal para o maniqueísmo. Todavia, existia uma separação do que seriam os “militantes progressistas em suas cátedras” e os mantenedores do status quo no Estado brasileiro.

Com a consolidação da democracia em 1985, o país seguiu sua caminhada e o PT até 2002 não tinha assumido papel de protagonismo para conduzir a nação. Entre 1985 e 2002, o partido tratou de ser uma oposição contundente e mesmo irresponsável em diferentes conjunturas e realidades do país. Quem não se lembra da posição do PT diante do voto a Tancredo Neves nas eleições indiretas de 1985? Quem votou em Tancredo foi expulso do partido. Quem não se lembra da posição do PT diante da Constituição Cidadã de 1988? O PT votou contra. Quem não se lembra da posição do PT diante da criação do Plano Real em 1994? Se colocou contra o Plano Real e disse que seria uma medida efêmera e eleitoreira. Em 1999, este mesmo partido se colocou contra a adoção de metas de inflação pelo governo federal. No ano 2000, o PT foi contumaz opositor da aprovação da Lei de Responsabilidade Fiscal que visava estabelecer normas de finanças públicas voltadas para a responsabilidade na gestão fiscal da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, abrangendo os três poderes e o Ministério Público. Já em 2001, quando este partido se colocou contra os programas sociais iniciados pelo governo FHC, alegou que os mesmos viriam a ser instrumentos de manipulação eleitoral. Sem contar que pediram o impeachment de todos os presidentes que governaram o país neste período (José Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso).

Em 2003, quando Lula é alçado ao poder e o PT se torna protagonista, ocorreria o que os intelectuais militantes petistas em pontos-chave das instituições de ensino superior públicas consagrariam como a possibilidade de “transformação” da universidade e a tentativa de unir um projeto de doutrinação com o de dominação do poder.

Na última década, vivenciei a universidade pública como aluno e pesquisador em diferentes momentos. Foi notório que o ambiente se tingiu ainda mais de preto e branco de forma nunca antes vista na área de ciências humanas (linguagem polarizada e dicotômica que certos agentes consideram fundamental para a ação política). O trabalho que deveria ser disciplinado pelo espírito foi tomado por uma militância descompromissada com o verdadeiro.

Os acadêmicos petistas, hoje, são incapazes de notar até o que fazem da universidade, por cegueira ou má-fé – ainda creio que a segunda opção seja a mais clara e evidente. Como da universidade desacreditam, já que possuem o monopólio do poder, acabam vendo-a de modo extremamente flexível, prestando-se prazerosamente ao serviço de caluniá-la, misturando-a a seu projeto de poder. Esta intelectualidade petista fez da universidade o berço da intolerância ideológica e da partidarização do ensino. A universidade tornou-se um centro de ideólogos doutrinários fanáticos.

Em que país que se preze intelectuais investidos de responsabilidades usarão a estrutura da universidade pública para defender moções de repúdio à prisão determinada pelo Supremo Tribunal Federal de criminosos envolvidos em escândalos como o Mensalão? O PT levou a universidade pública para essa apoteose da mediocridade.

Em que democracia séria 54 reitores de um total de 58 universidades federais beijam a mão de uma presidente envolta e diretamente beneficiada por um grave escândalo de corrupção, enquanto dizem defender a legalidade e a democracia, passando a tratar mecanismos constitucionais como o impeachment como golpe?

O PT e sua intelectualidade querem subverter a realidade das instituições democráticas republicanas e moldá-las a seu bel prazer. Para isso, vale atacar a liberdade de imprensa, e os poderes independentes do Executivo. Mas Dilma e seu criador, Lula, não terão vida fácil, nem sua intelligentsia. Dilma pode ser enquadrada em pelo menos sete crimes praticados como chefe de Estado – crime de responsabilidade, crime de desobediência, extorsão, crime eleitoral, crime de responsabilidade fiscal, falsidade ideológica e improbidade administrativa – o que abrirá a porta para a consolidação do impeachment, e Lula já está ciente de suas ilicitudes e arbitrariedades.

Tal qual afirma o sociólogo José de Souza Martins, em Do PT das lutas sociais ao PT do poder, a “origem eclesiástica” do partido explica a dificuldade de seus dirigentes e militantes em aceitar a divergência política. É uma lealdade quase religiosa, que não admite limites, não tolera restrições, não sofre co-participações, criando um mundo paralelo.

Portanto, retornando a Julien Benda, devemos nos colocar contra os traidores ideólogos. Contra o falso liberalismo daqueles que, em nome de uma mal-entendida liberdade (que é o amor pelos próprios interesses), toleram os coveiros da liberdade; contra o falso pacifismo dos humanitários que pregam a paz acima de qualquer coisa, ao passo que os valores supremos são a justiça e a liberdade, não a paz; contra o falso universalismo, segundo o qual todos os homens merecem respeito, inclusive os injustos e os violentos; contra o falso racionalismo, que pretende submeter tudo a discussão, inclusive os princípios fundamentais da democracia. Se estes intelectuais militantes soubessem ao menos pregar a religião do justo e do verdadeiro, e não aquela do interesse do próprio grupo, tudo seria bem diferente.

O messianismo político e a mistificação petista – por Moacir Pereira Alencar Júnior

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Este artigo foi originalmente publicado na Revista Amálgama, no dia 11 de março de 2016 (http://www.revistaamalgama.com.br/03/2016/messianismo-politico-mistificacao-petista/)

Quatorze anos. Este é o tempo que o PT está completando em 2016 no Palácio do Planalto. Em seu quarto mandato consecutivo, o partido atravessa sua fase mais crítica e dramática no poder. O lulopetismo está sob pressão, e o cenário atual deixa claro que o segundo mandato de Dilma marcará uma virada de página na funcionalidade de nossas instituições republicanas.

Amparado por um discurso e uma propaganda eloquente, que construiu uma ideia de que o Brasil nasceu apenas em 2003, com a chegada de Lula ao poder, o PT criou em torno de sua órbita a imagem falaciosa de que apenas seus dirigentes são os legítimos representantes e a encarnação do povo brasileiro.

Ao promover a mistificação e criar um país de ficção nas propagandas político-partidárias, e ao mesmo tempo deslegitimar o processo democrático e a alternância de poder, o PT esqueceu há muito o projeto de Brasil e apenas se preocupou com o projeto de perpetuação sobre o controle da máquina pública, utilizando-se de mecanismos nefastos e hoje elucidados e conhecidos de todos: a corrupção institucionalizada, consagrando o presidencialismo de transação, exemplificados no Mensalão e no Petrolão.

Desde o início da Operação Lava Jato, no início de 2014, considerando dados atualizados até 8 de março de 2016 pelo Ministério Público Federal, já ocorreram mais de 627 manifestações, 118 buscas e apreensões, 108 quebras de sigilo fiscal, 128 quebras de sigilo bancário, 101 quebras de sigilo telefônico, 2 quebras de sigilo telemático, 1 quebra de sigilo de dados, 12 sequestros de bens, 4 sequestros de valores, 42 instaurações de inquéritos, 7 denúncias, 21 denunciados, 94 investigados, 4 prisões preventivas e R$78 milhões repatriados.

A reeleição de Dilma veio acompanhada de uma realidade diferente da ficção petista nas eleições: cortes orçamentários, repasses e recursos da União e Estados postergados, inflação fora do teto da meta, aumento de impostos, retração do crescimento da economia por tempo indeterminado e o aumento do desemprego, sem contar a cúpula do governo petista mergulhada no olho do furação das investigações por corrupção, caso do ex-presidente Lula e ministros do governo.

As oposições passaram a ser vistas pelos porta-vozes do petismo – que se encontram incrustados nas mais variadas esferas do Estado brasileiro – como algo incômodo, perturbador, capaz de ameaçar o “curso pacífico das transformações sociais”. E as investigações que atingem diretamente o Palácio do Planalto são categoricamente ridicularizadas e desqualificadas pelo PT e pela própria presidente, que abandona o cargo para ir acariciar a cabeça do investigado Lula em São Bernardo do Campo, em um gesto de subserviência ao criador e de profunda irresponsabilidade para com o povo brasileiro.

Em 4 de março, após a condução coercitiva de Lula para depor diante da Polícia Federal, o petismo mostrou que é capaz de tudo para defender seu líder messiânico; e Lula, sabendo de seu messianismo diante da militância, irresponsavelmente conclamou o séquito para a “guerra santa”. Tentar tripudiar e triturar todas as instituições que buscam “dessacralizá-lo” e mostrá-lo como um dos maiores responsáveis por este esquema de corrupção será sua “tônica de batalha”. Para isso vale tudo, até mesmo rasgar a Constituição e buscar foro privilegiado como ministro no Titanic comandado pela pior presidente da história da República.

Conforme destaca o historiador búlgaro Tzvetan Todorov, em Os inimigos íntimos da democracia, embora invoque o ideal de igualdade e liberdade, o messianismo político tem um objetivo final que lhe é próprio (estabelecer o equivalente do Paraíso na Terra), assim como meios específicos para alcançá-lo (Revolução e Terror). Em sua busca por uma salvação temporal, essa doutrina não reserva nenhum lugar a Deus, mas preserva outros traços da antiga religião, tais como a fé cega nos novos dogmas, o fervor nos atos que lhe são úteis, o proselitismo dos fiéis, ou a transformação de partidários caídos em combate em mártires, figuras a adorar como se fossem santos. As tentativas de impor um culto ao Ser supremo e de instituir uma festa para celebrá-lo resultam da mesma tendência.

Hoje, o que é paraíso para o PT, é inferno para a população brasileira. Não precisamos de líderes messiânicos, ainda mais corruptos. Não precisamos de falsos mártires, que se autodenominam jararacas e são tratados como “guerreiros do povo brasileiro” por um séquito doentio e tresloucado. O país não é o PT, e incompetência e irresponsabilidade têm limite.

O Brasil em vacância e refém do PT – por Moacir Pereira Alencar Júnior

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Este artigo foi originalmente publicado no site da Revista Amálgama –

(http://www.revistaamalgama.com.br/03/2016/o-brasil-em-vacancia-e-refem-do-pt/), em domingo, 6 de março de 2016, e republico em meu blog.

Os 30 anos que nos separam do início da redemocratização fizeram com que nossa jovem e incipiente democracia passasse por diferentes testes de resiliência. E, com constância, parece ter suportado os testes aos quais foi submetida. Isso, entretanto, não determina que nossa democracia de fato esteja em seu pleno vigor, ou esbanjando saúde. Após o impeachment de Collor em 1992, das eleições de 1994 em diante, vistas em conjunto, as eleições presidenciais revelaram uma clara estruturação: PT e PSDB foram os únicos partidos a concorrer em todas elas, tendo chegado à frente em seis ocasiões.

Nos dois mandatos do PSDB (1995-2002), com Fernando Henrique Cardoso, ficou notório que entre os tucanos existia um apreço aos valores da democracia liberal, seja pela linha que originou a visão social-democrata do partido, avessa a ideia de superação efetiva do sistema capitalista, e principalmente pelas razões conjunturais da época nas quais estavam no poder, onde o pragmatismo e a rational choice do momento aproximaram o partido de tomar ações próximas ao liberalismo econômico, sem por isso romper com as premissas social-democratas de justiça social. A Terceira Via foi uma representação muito próxima do PSDB dos anos 1990 – em meio ao processo de globalização econômica mundial – sendo similar nesta conjuntura ao governo do Labour Party de Tony Blair (1997-2007), e ao governo democrata de Clinton nos EUA (1993-2000), em meio ao pleno funcionamento do Consenso de Washington.

Em uma das transições democráticas mais sólidas e estáveis da história republicana, em 2003, o PT, com Lula, assumiria a presidência do Brasil. Conforme destaca Matias Spektor, em 18 dias, Lula poderia ser o grande vencedor de 2002, mas ele governaria um país transformado por FHC. A inflação estava domada, o comércio externo, liberalizado; as credenciais internacionais, em seu devido lugar; e o programa de reforma do estado, enraizado na sociedade, de modo que nenhum petista de alto escalão vislumbrava uma ruptura. Lula herdaria um modelo de coalizão partidária, e pactuaria seu governo com as elites tradicionais.

As origens do PT destoavam a priori daquele PT que ascendia ao poder. O socialismo marxista era a marca registrada do partido, que tinha o “fim último” da abolição da forma mercatória dos produtos do trabalho e do trabalhador, e que ainda em 1994 e 1998 dizia buscar “tensionar e esgarçar os limites da ordem existente” – de modo que a plataforma política das eleições que antecederam a vitória de 2002 sempre se pautava pela agenda antimonopólio, antilatifúndio e anti-imperialista. Já no poder, agora apresentando um socialismo reformista, passava a avaliar o contexto institucional do Estado liberal-democrático como o melhor terreno para a afirmação dos objetivos das classes trabalhadoras.

No poder, o PT atingiu índices de popularidade nunca antes vistos, em razão da figura de Lula e da ótima fase de bonança internacional que fez com que a economia de países em desenvolvimento e dependentes de commodities atingisse grandes indicadores de crescimento econômico e avanço social. A mudança de agenda econômica adotada pelo PT em meados de 2008 durante a crise financeira internacional assumiu uma meta nacional-desenvolvimentista. Enquanto algumas nações seguiam austeridade fiscal para colocar as contas públicas em dia e honrar seus compromissos, o governo petista defendia outro caminho: menos restrições como forma de estimular a atividade e combater o desemprego (a chamada “política fiscal anticíclica”).

O PT no poder se dividiu entre o socialismo “marxista” e o “reformista”. No socialismo marxista, mostrou seu ódio à democracia liberal e seu ranço autoritário, trabalhando com a ideia de hegemonia e recorrendo a mecanismos espúrios que apenas no governo Dilma viriam a ser julgados e ganhariam destaque, com a Ação Penal 470, de 2013, que terminou com a condenação de figuras de escol da história petista e do governo Lula (José Dirceu, José Genoino, Delúbio Soares), envolvidos em compra de bancadas partidárias no Congresso Nacional para apoio político. A reação do PT diante destas primeiras condenações mostrou que o mesmo tinha dificuldade profunda de convívio democrático, já que adotou postura de desqualificação de instituições como o Poder Judiciário e instituições vinculadas ao mesmo, caso do Ministério Público Federal (MPF) e da Polícia Federal (PF). Muitos petistas bradavam que um “tribunal de exceção” se instaurava no país com “presos políticos” sendo encarcerados como nas ditaduras.

Em 2014, quando os equívocos econômicos se mostravam clamorosos e evidentes, anunciando a fase de recessão que se formava, também emergia a Operação Lava Jato (investigando uma rede de doleiros que atuava em vários estados, e descobrindo a existência de um vasto esquema de corrupção na Petrobras, envolvendo políticos de vários partidos e as maiores empreiteiras do país). O ano eleitoral acabou com a vitória e reeleição de Dilma Rousseff, por meio de uma campanha política obscura, usando os famosos e já desgastados motes “elite vs. povo” / “nós contra eles”, que ocultou a realidade do país e vendeu um mundo de sonhos encontrado unicamente na ficção Hollywoodiana, que no caso brasileiro tinha a marca do marqueteiro João Santana (preso preventivamente nesta semana que se findou em decorrência de desdobramentos da Operação Lava Jato).  A busca pela perpetuação no poder era clara e era buscada pelos mecanismos mais espúrios da calúnia e do estelionato eleitoral.

Os anos de 2015 e 2016 são os piores dos últimos 25 anos no campo econômico, e enfrentamos uma das piores fases da história republicana no que diz respeito à funcionalidade do presidencialismo de coalizão e nosso multipartidarismo. A Operação Lava Jato desvendou que membros da cúpula do PT e de outros partidos da base aliada (Renan Calheiros, Eduardo Cunha, entre outros, incluso o ex-presidente Lula) possam estar diretamente envolvidos nos escândalos de corrupção — e, no caso do ex-presidente, recaem os possíveis crimes de tráfico de influência, corrupção passiva, organização de quadrilha e ocultação de patrimônio. A confirmação de tais delitos praticados pela figura máxima do PT poderá levantar labaredas de inconformismo na militância petista — que sempre defendeu a “corrupção altruísta” como modus operandi para o partido se manter no poder e vê em Lula um líder populista de caráter messiânico — e ser o estopim para levar o país ao caos nas ruas e a um ataque grave às instituições democráticas. Um “acordo de cavalheiros” e o silêncio sobre todos os escândalos deixará outra grande parcela da população em fúria.

A fraqueza da autoridade da presidente Dilma, que é criatura do acusado Lula, soma-se à inércia do Congresso Nacional, imobilizado e caminhando para a desagregação. E em meio a este turbilhão de eventos está a oposição, que se demonstra apática e sem reações diante da fragilidade institucional recorrente, sendo uma espectadora dos próximos capítulos das ações do MPF e da PF (seria cumplicidade com o petismo decadente e o medo de ser o próximo a ser investigado na Lava Jato?). Até onde irá esta paralisia? Será a justiça que dará fim a esta situação? Ou continuaremos na agonia de uma decisão da classe política?

“A bem da verdade”: a verdadeira ou a ficcional sobressairá?

Estará nossa democracia preparada para mais este teste de resiliência?

O inferno somos nós – por Moacir Pereira Alencar Júnior

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A máxima de Jean Paul Sartre: “O inferno são os outros”, nunca teve tanta significância como agora para tratar da análise de um partido político e toda sua trajetória histórica. Em pouco mais de 35 anos de história, o PT sempre colocava-se como uma vanguarda do seu tempo no campo ético e moral. Ainda no regime militar gostava de se colocar como um partido acima dos demais, irretocável e onipotente. Durante o Regime militar o petismo seria a consagração e o caminho do céu. Findo o regime militar, o partido continuou em sua sanha de se colocar como porta-voz único do povo contra as “amarras imperialistas e ferozes do capitalismo”. Após termos Sarney, Collor, Itamar e FHC como presidentes, esta visão de mundo ainda era a definição de ação e de pensar do petismo…”O inferno são os outros”. Após a chegada de Lula no poder, parecia ter se iniciado o Anno Domini….o “salvador da Pátria” tinha alcançado à presidência da república. Após 8 anos de governo que combatia agora o “inferno oposicionista” tudo eram louros e glória. O “Messias” com popularidade inabalável iria fazer uma “discípula” levar adiante o legado do reino de “Deus na Terra” ;reino este que já aparentava apresentar desvios de conduta no campo ético e moral e também no campo econômico, todavia sabia fazer os “fiéis” sedentos e “vislumbrados” pelo poder do salvador a confiar em sua prédica. Com sua discípula, a prédica permaneceu a mesma, mas a realidade do país passava a ser outra, e cada vez mais esta pregação ganhava sentido de “charlatanismo”. Abalos éticos e morais graves atingiram a Torre de Babel do Império, império de “fiéis parnasianos”, que não enxergavam mais que a máxima de Jean Paul Sartre tinha se alterado em sua essência. O inferno não era os outros, e buscar encontrar no outro seu problema não era mais cabível de exemplo explicativo para a realidade apavorante e decadente na qual o império se prostrava. Agora “o inferno somos nós” passava a reger a vida do “ex salvador da pátria”. Nunca antes na história deste país o inferno era a representação fidedigna do “Messias”… Ora, agora “o inferno somos nós”.

O mundo virtual de Dilma Rousseff – por Elio Gaspari

Elio Gaspari

Elio Gaspari

Se a doutora acreditava no que disse ao tomar posse, o país está frito, se não acreditava, tanto melhor.

Há um ano a doutora Dilma assumiu seu segundo mandato e discursou no Congresso. Já não precisava propagar as lorotas típicas das campanhas eleitorais. Vencera a eleição e, com a escolha de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda, admitira a gravidade da crise econômica em que jogara o país.

Quem relê esse discurso fica com a pior das sensações. Sai do pesadelo de 2015 com a impressão de que entrará em outro, o de 2016. Não só pelo agravamento da situação econômica, política e administrativa do país, mas pela percepção de que a doutora vive em outro mundo ou julga-se com poderes suficientes para oferecer à população uma vida de fantasias.

Ela disse:

“Em todos os anos do meu primeiro mandato, a inflação permaneceu abaixo do teto da meta e assim vai continuar.”

Segundo as últimas projeções do mercado, ela fechará 2015 acima dos 10%, longe do teto de 6,5% e a maior taxa desde 2002. O estouro da meta era pedra cantada.

“A taxa de desemprego está nos menores patamares já vivenciados na história de nosso país.”

Ótimo, para discurso de despedida. O terceiro trimestre de 2015 fechou com a taxa de desemprego em 8,9%, a maior desde 2012, quando o IBGE começou a calculá-la com uma nova metodologia. Outra pedra cantada.

“As mudanças que o país espera para os próximos quatro anos dependem muito da estabilidade e da credibilidade da economia.”

No primeiro ano de seu novo mandato, o Brasil perdeu o grau de investimento. Em janeiro havia o risco. Nos meses seguintes, o governo tornou o rebaixamento inevitável.

Com a faixa no peito, repetiu platitudes:

“Sei o quanto estou disposta a mobilizar todo o povo brasileiro nesse esforço para uma nova arrancada do nosso querido Brasil.”

“Mais que ninguém sei que o Brasil precisa voltar a crescer.”

As duas frases diziam nada, pois um país não cresce ou deixa de crescer por falta de disposição dos governantes. A disposição da doutora levou-a a uma arrancada, em marcha a ré. A economia encolheu em 2015 e encolherá de novo em 2016.

“A luta que vimos empreendendo contra a corrupção e, principalmente, contra a impunidade, ganhará ainda mais força com o pacote de medidas que me comprometi durante a campanha, e me comprometo a submeter à apreciação do Congresso Nacional ainda neste primeiro semestre.”

No segundo semestre, ela baixou a Medida Provisória 703, refrescando a vida das empreiteiras apanhadas na Lava-Jato. Favorecendo a impunidade, ela permite que as empresas voltem a receber contratos do governo sem que seja necessário admitirem “sua participação no ilícito”, como exigia a lei 12.846, assinada em agosto de 2013 por Dilma Rousseff.

Quando a doutora tomou posse, ela sabia que o “nosso querido Brasil” estava patinando, longe de uma arrancada. Não precisava ter dito o que disse.

Em outros momentos do seu discurso, fez gentilezas e promessas que devem tê-la levado ao arrependimento:

“Sei que conto com o apoio do meu querido vice-presidente Michel Temer, parceiro de todas as horas.”

Esqueça-se que “nosso lema será: Brasil, pátria educadora!”

Dilma Rousseff concluiu seu discurso com uma nota poética:

“Esta chave pode ser resumida num verso com sabor de oração: ‘O impossível se faz já; só os milagres ficam para depois’.”

Entre o impossível e o milagre, deixou de fazer o possível.

O GLOBO, 30 de dezembro de 2015
Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/opiniao/o-mundo-virtual-de-dilma-rousseff-18382200#ixzz3vqR00Rhe
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Jogos Vorazes – por Carlos Melo

Carlos Melo, cientista político e professor do Insper

Carlos Melo, cientista político e professor do Insper

Assisto a um filme com meu filho e penso no Brasil. O cenário não é simples e o maniqueísmo não dá conta dele; a voracidade é o motor de nossa confusão. O artigo procura tatear a complexidade do momento, revelar a voracidade dos atores e os desafios para nos afastarmos do abismo.

Um cenário de crueza e brutalidade: desagregação interna, competição desleal, falseamento da realidade, desfaçatez oportunista e coalizões de circunstância; a inexistência de pontes de diálogo, o extermínio do inimigo. E ainda assim, o marketing delineando os contornos da política; a desfaçatez da iminente derrota. O todos contra todos, de onde restará o indivíduo solitário e culpado por contribuir para a eliminação coletiva. Corrupção, peste, tragédia e desemprego. São os “Jogos Vorazes”, filme que assisto com meu filho, a metáfora do Brasil atual.

Como no cinema, para o fácil entendimento, o enredo é simples, de um reducionismo atroz: o bem contra o mal. Cada um escolhe seu lado, naturalmente, acreditando ser “do bem”. Estaremos mesmo desse lado da cerca? Numa singela polaridade de encomenda, há os “a favor” e “os contra”; “a favor” da presidente ou “a favor” de seu impeachment. Já o diabo é do contra: contra a presidente e/ou contra o impeachment. Não pode ser os dois? Destoar da galera é estar sujeito às garrafadas da arquibancada. O maniqueísmo é a tônica da torcida nacional.

Eduardo Cunha é o vilão e Dilma Rousseff, a princesa — ou Cunha o necessário anjo decaído — déspota instrumental – que enfrenta Dilma, a madrasta megera de ocasião. Depende do gosto. Projeta-se o “golpe” tanto quanto “a revolução bolivariana “em andamento: histeria e intolerância que empesteiam o ar e empastelam o raciocínio. Antes de tudo, o processo é uma grande guerra de comunicação: a estória se impondo à história; a construção de narrativas — que moderno! – no auxílio da mistificação.

Mas, é preciso um pouco de distância para notar a complexidade do todo. Nada é tão singelo e superficial, como nos debates inflamados da rede social. Que Eduardo Cunha não é boa bisca, o mundo sabe e não se desconhece suas intenções. Que Dilma troca pés e mãos, deficitária de governabilidade e credibilidade, é mais que evidente. Que o PT dá show de horror, é gritante. A oposição é indigente e, como se diz, o PMDB é mesmo essa serpente. Há rimas pobres, mas inocentes, aí, não há.

O dado concerto — que a febre da subjetiva indignação não permite tatear — é que o país chegou ao fim de uma linha: um ciclo histórico se esgotou. O pacto que deu luz à transição democrática, manquitola, patina hoje nesse atoleiro. Sim, é de união nacional do que se trata; eis o problema: há carência de quadros e mesmo de moderação para construir o abrigo da transição desses novos tempos; da tempestade perfeita ao seu rescaldo.

***

A fome altera humores; potencializada pela gula, desperta irritação e intolerância: é mãe de erros crassos e revela índoles. A voracidade, ah, a voracidade… Por definição, daí é que não virá a moderação. Sobejam exemplos de uma descomunal e tola avidez:

1) No governo, a sempre esperteza de malandro-otário: reduzir os problemas a Eduardo Cunha e negligenciar erros e escândalos, OK. É discutível, mas é estratégia. Todavia, em paralelo, instigar Michel Temer e, simultaneamente, empinar Leonardo Picciani é erro tão primário que até reabilita Aloízio Mercadante. Pensando em constranger o vice e seu PMDB, a presidente deu-lhe a autonomia e a liberdade de movimentos de que carecia. Uma simples carta pôs fim a “DR” que Dilma fazia em público. Como “o rosto do impeachment”, a face de Eduardo Cunha era tudo o que o governo poderia desejar; trocá-la pela de Temer, bem menos estigmatizado, foi um desatino. Os pífios 199 votos — consignados no painel de votação – foram o anticlímax do processo e, de imediato, detonam a debandada. Hoje, talvez, nem sejam 199. Até para a mestre em tiro-no-pé, Dilma Rousseff, é excepcional; constranger Michel Temer foi roleta russa com o tambor repleto de balas.

2) Era esperado que para se salvar, Eduardo Cunha ateasse fogo ao circo – jamais às vestes. No entanto, a ansiedade com o processo na Comissão de Ética e o fantasma de Delcídio Amaral embaralharam seu cálculo normalmente frio. Precipitou-se no timing, descoordenando sua ação do contexto mais geral — a conjuntura econômica e social que degringolará, de verdade, só um pouco mais adiante. A voracidade provocou batalhas sangrentas pela composição da Comissão do Impeachment, antes desnecessárias. E tudo foi parar na justiça. Só poderia. Os apóstolos de Cunha são miséria à parte; sujeitos cuja a “Força” reside em não ter reputação alguma a zelar. Só um juizado para enquadrá-los.

3) Uma janela de oportunidade se abriu e uma parte do PMDB se lançou a ela como quem salta para a fonte da juventude. Ou, menos: como quem encontra no chão uma senha que lhe permite, oportunisticamente, furar a fila. Não é ilegal, mas não é moral. O poder, é verdade, carece de moral, enfim. Mas, quando revela mais do que oculta, deixa flancos. Como mencionei em artigo anterior, Ulysses Guimarães dizia que “a política adora a traição, mas detesta o traidor”.

4) A oposição conta pouco. Em sua maioria, portou-se como o cão que correu atrás do caminhão que parou; cansada e, paralisada, divide-se em grupos de interesses inconciliáveis. O principal deles sucumbe à ideia fixa e mal dissimulada de fazer o tempo voltar à eleição perdida que passou (e o tempo nunca volta). Na dislexia de seus líderes, resiste em compreender e admitir a realidade: o país precisa de acordo e transição. No mais, o PSDB precisará correr para recuperar o lugar na fila.

5) O PT é hoje um sedento do futuro que já não há; capaz de entregar Delcídio e rifar Dilma, num discurso de moral retardada e extemporânea, voltado mais a salvar a máquina eleitoral do partido, em 2016, e recuperar o apetite e a competitividade, em 2018, do que defender seu governo. Mesmo que seja na oposição – e talvez seja melhor na oposição – seu objetivo é recuar ao gueto e recuperar o perdido fio da história. A legenda (e Lula) ainda está com Dilma? Obviamente, a resposta formal é sim. Mas, no bolor dos interesses, o casamento de PT & Dilma pode ser comparado à transa “fértil e profícua” de Dilma e Temer. Há mais dissimulação do que amor.

6) No mais, o resto: a base governista do colapsado presidencialismo de coalizão, formada por famintos atávicos, que se empapuçam do banquete patrimonialista nacional. Adesistas de todo tipo, mais que vorazes, glutões que agem no faro do cheiro de carne queimada que se desprende das chaminés dos cofres públicos. E as militâncias — de direita ou de esquerda – pintando-se para guerra, contando sua história (narrativa) cheia de som e fúria, ignorantes de Shakespeare, significando neste momento algo mais nocivo do que “o nada”, de Macbeth.

***

Qualquer que seja o desfecho, é pouco provável que ficará bem. O país sai dividido; furúnculo pustulento para aventureiro tirar o carnegão. A vitória da presidente pode ter efeito contrário à ilusão do armistício pretendido para “até 2018”: superada esta fase, insistir com o “fora Dilma” já será realmente costear o alambrado do golpe (de verdade). Todavia, um ponto precede: Dilma não precisará de outra batalha para perceber que não mais reorganiza o sistema; a desinteligência não cessará e o abismo irá sorrir cada vez de mais perto.

Por sua vez, é tolice imaginar que todo impeachment é passeio de criança, papai e mamãe, num dia de domingo. Com Collor, a rua pendia para um lado só: sua queda até uniu. E, ao final, ninguém ouviu seu mimimi de vítima. Já a natureza de Lula, de Dilma e do PT são outros quinhentos: mesmo enfraquecidos, deitam raízes sociais, ideologias, idiossincrasias e, uma vez na oposição, o ressentimento com “o golpe” e a nostalgia do tempo que passou serão irresistíveis e mobilizadoras — a agenda do eventual Temer será delicadíssima. Na história do Brasil – e do mundo –, o bonapartismo surge de momentos assim.

O gosto de sangue na boca não permite que o lobo pare de morder. Mas, é preciso refletir: para questões complexas, raramente há soluções simples: se a virtude está no meio, o país ressente-se de um centro moderado e moderador, capaz de negociar um novo pacto. E, por isso, tudo fica ainda mais complexo. Não há apenas vazio, mas como que um buraco negro de liderança. Lula, enredado, e FHC, fora da linha de comando, pouco/nada farão nessa direção. Também o tempo deles passou. O tempo sempre passa.

Aécio, Serra, Alckmin, Dilma, Wagner, Marina, Ciro… Esses apresentam indicadores antecedentes pouco animadores. Temer, que da coxia tudo ouvia e enxergava, estava fora do jogo; revelará, agora, qualidades até aqui desconhecidas? Difícil afirmar sim ou não. A crise surpreende só às vezes. Se a sorte o levar para onde se movimenta, terá que provar rapidamente talento e sangue frio surpreendentes para quem encerraria a carreira de modo tão discreto. E é sob tiroteio grosso que será posto a prova; a vida testa sem dó, sem pena.

Jogos vorazes, eis a metáfora. Analogia adequada, mas nem tanto: o país carece dos efeitos especiais de uma grande produção; da criatividade de uma direção competente; de recursos, audiência, técnica e verdadeiro interesse do público. Nos identifica o roteiro raso, o enredo de ficção. No mais, esse sentimento de falta do brilho e da beleza da Jennifer Lawrence que não temos.

Estadão, 11 de dezembro de 2015

Diálogos de convertidos – Por Mario Vargas Llosa

O Nobel de literatura, Mario Vargas Llosa

O Nobel de literatura, Mario Vargas Llosa

Esta semana, duas coisas esplêndidas ocorreram na América Latina. A primeira foi o triunfo de Mauricio Macri na Argentina, uma severa derrota para o populismo do casal Kirchner que abre uma promessa de modernização, prosperidade e fortalecimento da democracia no continente; é, também, um duro golpe para o chamado “socialismo do século XXI” e para o Governo da Venezuela, a quem o novo mandatário eleito pelo povo argentino criticou sem complexos por sua violação sistemática dos direitos humanos e seus atropelos à liberdade de expressão. Tomara que essa vitória dê uma alternativa genuinamente democrática e liberal à demagogia populista e inaugure na América Latina uma etapa em que não voltem a conquistar o poder caudilhos tão nefastos para seus países como o equatoriano Correa, o boliviano Morales e o nicaraguense Ortega, que devem neste momento estar profundamente afetados pela derrota de um Governo aliado e cúmplice de seus abusos.

A outra excelente notícia é o lançamento no Chile do livro Diálogo de Conversos (Editorial Sudamericana, inédito no Brasil), escrito por Roberto Ampuero e Mauricio Rojas, que é, também no plano intelectual, um xeque-mate às utopias estatistas, coletivistas e autoritárias do presidente venezuelano Maduro e companhia e dos que ainda acreditam que a justiça social possa chegar à América Latina através do terrorismo e das guerras revolucionárias.

Roberto Ampuero e Mauricio Rojas acreditaram nessa utopia na juventude e militaram – o primeiro na Juventude Comunista e o segundo no Movimento de Esquerda Revolucionária (MIR). Contribuíram assim para criar o clima de crepitação social e caos econômico e político que foi o Governo de Salvador Allende e a Unidade Popular. Com o golpe militar de Pinochet e o início de uma era de repressão, tortura e terror no Chile, ambos tiveram que fugir e se refugiaram na Europa. Ampuero foi à Alemanha Oriental e de lá a Cuba. Rojas rumou para a Suécia. No exílio, continuaram militando na esquerda mais radical contra a ditadura. Mas a distância, o contato com outras realidades políticas e ideológicas e, no caso de Ampuero, conhecer e padecer em carne própria o “socialismo real” (de pobreza, burocratização, censura e asfixia política) os levaram àquela “conversão” à democracia primeiro e ao liberalismo depois. Sobre isso dialogam no livro, que, embora seja um ensaio político e de filosofia social, é lido com o interesse e a curiosidade com que se leem os bons romances.

Ambos falam com extraordinária franqueza e fundamentam tudo o que dizem e acreditam com experiências pessoais, o que dá a seu diálogo uma autenticidade e um realismo de coisa vivida, de reflexões e convicções calcadas na história real e que estão, por isso, a anos-luz do ideologismo tão frequente nos ensaios políticos, sobretudo da esquerda, ainda que também da direita, que se move num plano abstrato, de confusa e presunçosa retórica, e que parece totalmente divorciado do aqui e agora.

A “conversão” de Ampuero e Rojas não significa sua transferência com armas e bagagem ao inimigo de outrora: nenhum dos dois se tornou conservador nem reacionário. Ao contrário. Ambos são muito conscientes do egoísmo, da incultura e do quanto é relativa a defesa da democracia feita por uma certa direita que no passado apoiou as ditaduras militares mais corruptas, que confundia liberalismo com mercantilismo e que só entendia a liberdade como o direito de se enriquecer por qualquer meio. E ambos, também, embora sejam muito categóricos ao condenar o estatismo e o coletivismo, que empobrecem os povos e cerceiam a liberdade, reconhecem a generosidade e os ideais de justiça que animam muitas vezes esses jovens equivocados a acreditar, como Che Guevara e Mao, que só alcançamos o verdadeiro poder empunhando um fuzil.

Seria bom que alguns liberais recalcitrantes, que veem no livre mercado a panaceia milagrosa, lessem neste Diálogo de Conversos os argumentos com que Mauricio Rojas, que aproveitou tão bem a experiência sueca – onde chegou a ser por um tempo deputado do Partido Liberal – defende a necessidade de que uma sociedade democrática assegure a igualdade de oportunidades para todos através da educação e da regulação fiscal. O objetivo é que o conjunto da população tenha oportunidade de poder realizar seus ideais e desapareçam esses privilégios que no subdesenvolvimento (e, às vezes, no países avançados) estabelecem uma desigualdade de origem que anula ou dificulta extraordinariamente que alguém nascido em setores desfavorecidos possa competir realmente e ter sucesso no campo econômico e social. Para Mauricio, que defende ideias muito sutis para o que chama de “moralizar o mercado”, o liberalismo é mais a “doutrina dos meios que dos fins”, pois, como pensava Albert Camus, não são estes últimos os que justificam os meios, mas o contrário: os meios indignos e criminosos corrompem e envilecem sempre os fins.

Roberto Ampuero conta, numa das mais emotivas páginas do livro, o que significou para ele, após viver na quarentena intelectual de Cuba e da Alemanha Oriental, chegar aos países livres do Ocidente e ter acesso aos livros censurados e proibidos. Mauricio Rojas confirma a experiência recordando como foi, nas salas e bibliotecas da Universidade de Lund, viver a transformação ideológica que o fez passar de Marx a Adam Smith e Karl Popper.

Ambos se referem extensamente à situação do Chile, a esse curioso fenômeno que levou o país que mais progrediu na América Latina – fazendo retroceder a pobreza e com o surgimento de uma nova e robusta classe média graças a políticas democráticas e liberais – a um questionamento intenso desse modelo econômico e político. E os dois concluem, com razão, que o desenvolvimento econômico e material aproxima um país da justiça e de uma vida mais livre, mas não da felicidade, e que inclusive pode distanciá-lo ainda mais dela se o egoísmo e a ganância se transformarem no norte exclusivo e excludente da vida. A solução não está em voltar aos velhos esquemas e enteléquias que empobreceram e violentaram os países latino-americanos, e sim em reformar e aperfeiçoar sem trégua a cultura da liberdade, enriquecendo as conquistas materiais com uma intensa vida cultural e espiritual, que humanize cada vez mais as relações entre as pessoas, estimule a solidariedade e a vontade de serviço entre os jovens e amplie sem trégua essa tolerância para a diversidade, permitindo que os cidadãos cada vez mais escolham seu destino e pratiquem costumes e crenças sem outra limitação que não causar danos aos demais.

Faz tempo que não aparecia em nossa língua um ensaio político tão oportuno e estimulante. Tomara que Diálogos de Conversos tenha os muitos leitores que merece.

Estadão, 29 de novembro de 2015

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