O inferno somos nós – por Moacir Pereira Alencar Júnior

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A máxima de Jean Paul Sartre: “O inferno são os outros”, nunca teve tanta significância como agora para tratar da análise de um partido político e toda sua trajetória histórica. Em pouco mais de 35 anos de história, o PT sempre colocava-se como uma vanguarda do seu tempo no campo ético e moral. Ainda no regime militar gostava de se colocar como um partido acima dos demais, irretocável e onipotente. Durante o Regime militar o petismo seria a consagração e o caminho do céu. Findo o regime militar, o partido continuou em sua sanha de se colocar como porta-voz único do povo contra as “amarras imperialistas e ferozes do capitalismo”. Após termos Sarney, Collor, Itamar e FHC como presidentes, esta visão de mundo ainda era a definição de ação e de pensar do petismo…”O inferno são os outros”. Após a chegada de Lula no poder, parecia ter se iniciado o Anno Domini….o “salvador da Pátria” tinha alcançado à presidência da república. Após 8 anos de governo que combatia agora o “inferno oposicionista” tudo eram louros e glória. O “Messias” com popularidade inabalável iria fazer uma “discípula” levar adiante o legado do reino de “Deus na Terra” ;reino este que já aparentava apresentar desvios de conduta no campo ético e moral e também no campo econômico, todavia sabia fazer os “fiéis” sedentos e “vislumbrados” pelo poder do salvador a confiar em sua prédica. Com sua discípula, a prédica permaneceu a mesma, mas a realidade do país passava a ser outra, e cada vez mais esta pregação ganhava sentido de “charlatanismo”. Abalos éticos e morais graves atingiram a Torre de Babel do Império, império de “fiéis parnasianos”, que não enxergavam mais que a máxima de Jean Paul Sartre tinha se alterado em sua essência. O inferno não era os outros, e buscar encontrar no outro seu problema não era mais cabível de exemplo explicativo para a realidade apavorante e decadente na qual o império se prostrava. Agora “o inferno somos nós” passava a reger a vida do “ex salvador da pátria”. Nunca antes na história deste país o inferno era a representação fidedigna do “Messias”… Ora, agora “o inferno somos nós”.

O mundo virtual de Dilma Rousseff – por Elio Gaspari

Elio Gaspari

Elio Gaspari

Se a doutora acreditava no que disse ao tomar posse, o país está frito, se não acreditava, tanto melhor.

Há um ano a doutora Dilma assumiu seu segundo mandato e discursou no Congresso. Já não precisava propagar as lorotas típicas das campanhas eleitorais. Vencera a eleição e, com a escolha de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda, admitira a gravidade da crise econômica em que jogara o país.

Quem relê esse discurso fica com a pior das sensações. Sai do pesadelo de 2015 com a impressão de que entrará em outro, o de 2016. Não só pelo agravamento da situação econômica, política e administrativa do país, mas pela percepção de que a doutora vive em outro mundo ou julga-se com poderes suficientes para oferecer à população uma vida de fantasias.

Ela disse:

“Em todos os anos do meu primeiro mandato, a inflação permaneceu abaixo do teto da meta e assim vai continuar.”

Segundo as últimas projeções do mercado, ela fechará 2015 acima dos 10%, longe do teto de 6,5% e a maior taxa desde 2002. O estouro da meta era pedra cantada.

“A taxa de desemprego está nos menores patamares já vivenciados na história de nosso país.”

Ótimo, para discurso de despedida. O terceiro trimestre de 2015 fechou com a taxa de desemprego em 8,9%, a maior desde 2012, quando o IBGE começou a calculá-la com uma nova metodologia. Outra pedra cantada.

“As mudanças que o país espera para os próximos quatro anos dependem muito da estabilidade e da credibilidade da economia.”

No primeiro ano de seu novo mandato, o Brasil perdeu o grau de investimento. Em janeiro havia o risco. Nos meses seguintes, o governo tornou o rebaixamento inevitável.

Com a faixa no peito, repetiu platitudes:

“Sei o quanto estou disposta a mobilizar todo o povo brasileiro nesse esforço para uma nova arrancada do nosso querido Brasil.”

“Mais que ninguém sei que o Brasil precisa voltar a crescer.”

As duas frases diziam nada, pois um país não cresce ou deixa de crescer por falta de disposição dos governantes. A disposição da doutora levou-a a uma arrancada, em marcha a ré. A economia encolheu em 2015 e encolherá de novo em 2016.

“A luta que vimos empreendendo contra a corrupção e, principalmente, contra a impunidade, ganhará ainda mais força com o pacote de medidas que me comprometi durante a campanha, e me comprometo a submeter à apreciação do Congresso Nacional ainda neste primeiro semestre.”

No segundo semestre, ela baixou a Medida Provisória 703, refrescando a vida das empreiteiras apanhadas na Lava-Jato. Favorecendo a impunidade, ela permite que as empresas voltem a receber contratos do governo sem que seja necessário admitirem “sua participação no ilícito”, como exigia a lei 12.846, assinada em agosto de 2013 por Dilma Rousseff.

Quando a doutora tomou posse, ela sabia que o “nosso querido Brasil” estava patinando, longe de uma arrancada. Não precisava ter dito o que disse.

Em outros momentos do seu discurso, fez gentilezas e promessas que devem tê-la levado ao arrependimento:

“Sei que conto com o apoio do meu querido vice-presidente Michel Temer, parceiro de todas as horas.”

Esqueça-se que “nosso lema será: Brasil, pátria educadora!”

Dilma Rousseff concluiu seu discurso com uma nota poética:

“Esta chave pode ser resumida num verso com sabor de oração: ‘O impossível se faz já; só os milagres ficam para depois’.”

Entre o impossível e o milagre, deixou de fazer o possível.

O GLOBO, 30 de dezembro de 2015
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Jogos Vorazes – por Carlos Melo

Carlos Melo, cientista político e professor do Insper

Carlos Melo, cientista político e professor do Insper

Assisto a um filme com meu filho e penso no Brasil. O cenário não é simples e o maniqueísmo não dá conta dele; a voracidade é o motor de nossa confusão. O artigo procura tatear a complexidade do momento, revelar a voracidade dos atores e os desafios para nos afastarmos do abismo.

Um cenário de crueza e brutalidade: desagregação interna, competição desleal, falseamento da realidade, desfaçatez oportunista e coalizões de circunstância; a inexistência de pontes de diálogo, o extermínio do inimigo. E ainda assim, o marketing delineando os contornos da política; a desfaçatez da iminente derrota. O todos contra todos, de onde restará o indivíduo solitário e culpado por contribuir para a eliminação coletiva. Corrupção, peste, tragédia e desemprego. São os “Jogos Vorazes”, filme que assisto com meu filho, a metáfora do Brasil atual.

Como no cinema, para o fácil entendimento, o enredo é simples, de um reducionismo atroz: o bem contra o mal. Cada um escolhe seu lado, naturalmente, acreditando ser “do bem”. Estaremos mesmo desse lado da cerca? Numa singela polaridade de encomenda, há os “a favor” e “os contra”; “a favor” da presidente ou “a favor” de seu impeachment. Já o diabo é do contra: contra a presidente e/ou contra o impeachment. Não pode ser os dois? Destoar da galera é estar sujeito às garrafadas da arquibancada. O maniqueísmo é a tônica da torcida nacional.

Eduardo Cunha é o vilão e Dilma Rousseff, a princesa — ou Cunha o necessário anjo decaído — déspota instrumental – que enfrenta Dilma, a madrasta megera de ocasião. Depende do gosto. Projeta-se o “golpe” tanto quanto “a revolução bolivariana “em andamento: histeria e intolerância que empesteiam o ar e empastelam o raciocínio. Antes de tudo, o processo é uma grande guerra de comunicação: a estória se impondo à história; a construção de narrativas — que moderno! – no auxílio da mistificação.

Mas, é preciso um pouco de distância para notar a complexidade do todo. Nada é tão singelo e superficial, como nos debates inflamados da rede social. Que Eduardo Cunha não é boa bisca, o mundo sabe e não se desconhece suas intenções. Que Dilma troca pés e mãos, deficitária de governabilidade e credibilidade, é mais que evidente. Que o PT dá show de horror, é gritante. A oposição é indigente e, como se diz, o PMDB é mesmo essa serpente. Há rimas pobres, mas inocentes, aí, não há.

O dado concerto — que a febre da subjetiva indignação não permite tatear — é que o país chegou ao fim de uma linha: um ciclo histórico se esgotou. O pacto que deu luz à transição democrática, manquitola, patina hoje nesse atoleiro. Sim, é de união nacional do que se trata; eis o problema: há carência de quadros e mesmo de moderação para construir o abrigo da transição desses novos tempos; da tempestade perfeita ao seu rescaldo.

***

A fome altera humores; potencializada pela gula, desperta irritação e intolerância: é mãe de erros crassos e revela índoles. A voracidade, ah, a voracidade… Por definição, daí é que não virá a moderação. Sobejam exemplos de uma descomunal e tola avidez:

1) No governo, a sempre esperteza de malandro-otário: reduzir os problemas a Eduardo Cunha e negligenciar erros e escândalos, OK. É discutível, mas é estratégia. Todavia, em paralelo, instigar Michel Temer e, simultaneamente, empinar Leonardo Picciani é erro tão primário que até reabilita Aloízio Mercadante. Pensando em constranger o vice e seu PMDB, a presidente deu-lhe a autonomia e a liberdade de movimentos de que carecia. Uma simples carta pôs fim a “DR” que Dilma fazia em público. Como “o rosto do impeachment”, a face de Eduardo Cunha era tudo o que o governo poderia desejar; trocá-la pela de Temer, bem menos estigmatizado, foi um desatino. Os pífios 199 votos — consignados no painel de votação – foram o anticlímax do processo e, de imediato, detonam a debandada. Hoje, talvez, nem sejam 199. Até para a mestre em tiro-no-pé, Dilma Rousseff, é excepcional; constranger Michel Temer foi roleta russa com o tambor repleto de balas.

2) Era esperado que para se salvar, Eduardo Cunha ateasse fogo ao circo – jamais às vestes. No entanto, a ansiedade com o processo na Comissão de Ética e o fantasma de Delcídio Amaral embaralharam seu cálculo normalmente frio. Precipitou-se no timing, descoordenando sua ação do contexto mais geral — a conjuntura econômica e social que degringolará, de verdade, só um pouco mais adiante. A voracidade provocou batalhas sangrentas pela composição da Comissão do Impeachment, antes desnecessárias. E tudo foi parar na justiça. Só poderia. Os apóstolos de Cunha são miséria à parte; sujeitos cuja a “Força” reside em não ter reputação alguma a zelar. Só um juizado para enquadrá-los.

3) Uma janela de oportunidade se abriu e uma parte do PMDB se lançou a ela como quem salta para a fonte da juventude. Ou, menos: como quem encontra no chão uma senha que lhe permite, oportunisticamente, furar a fila. Não é ilegal, mas não é moral. O poder, é verdade, carece de moral, enfim. Mas, quando revela mais do que oculta, deixa flancos. Como mencionei em artigo anterior, Ulysses Guimarães dizia que “a política adora a traição, mas detesta o traidor”.

4) A oposição conta pouco. Em sua maioria, portou-se como o cão que correu atrás do caminhão que parou; cansada e, paralisada, divide-se em grupos de interesses inconciliáveis. O principal deles sucumbe à ideia fixa e mal dissimulada de fazer o tempo voltar à eleição perdida que passou (e o tempo nunca volta). Na dislexia de seus líderes, resiste em compreender e admitir a realidade: o país precisa de acordo e transição. No mais, o PSDB precisará correr para recuperar o lugar na fila.

5) O PT é hoje um sedento do futuro que já não há; capaz de entregar Delcídio e rifar Dilma, num discurso de moral retardada e extemporânea, voltado mais a salvar a máquina eleitoral do partido, em 2016, e recuperar o apetite e a competitividade, em 2018, do que defender seu governo. Mesmo que seja na oposição – e talvez seja melhor na oposição – seu objetivo é recuar ao gueto e recuperar o perdido fio da história. A legenda (e Lula) ainda está com Dilma? Obviamente, a resposta formal é sim. Mas, no bolor dos interesses, o casamento de PT & Dilma pode ser comparado à transa “fértil e profícua” de Dilma e Temer. Há mais dissimulação do que amor.

6) No mais, o resto: a base governista do colapsado presidencialismo de coalizão, formada por famintos atávicos, que se empapuçam do banquete patrimonialista nacional. Adesistas de todo tipo, mais que vorazes, glutões que agem no faro do cheiro de carne queimada que se desprende das chaminés dos cofres públicos. E as militâncias — de direita ou de esquerda – pintando-se para guerra, contando sua história (narrativa) cheia de som e fúria, ignorantes de Shakespeare, significando neste momento algo mais nocivo do que “o nada”, de Macbeth.

***

Qualquer que seja o desfecho, é pouco provável que ficará bem. O país sai dividido; furúnculo pustulento para aventureiro tirar o carnegão. A vitória da presidente pode ter efeito contrário à ilusão do armistício pretendido para “até 2018”: superada esta fase, insistir com o “fora Dilma” já será realmente costear o alambrado do golpe (de verdade). Todavia, um ponto precede: Dilma não precisará de outra batalha para perceber que não mais reorganiza o sistema; a desinteligência não cessará e o abismo irá sorrir cada vez de mais perto.

Por sua vez, é tolice imaginar que todo impeachment é passeio de criança, papai e mamãe, num dia de domingo. Com Collor, a rua pendia para um lado só: sua queda até uniu. E, ao final, ninguém ouviu seu mimimi de vítima. Já a natureza de Lula, de Dilma e do PT são outros quinhentos: mesmo enfraquecidos, deitam raízes sociais, ideologias, idiossincrasias e, uma vez na oposição, o ressentimento com “o golpe” e a nostalgia do tempo que passou serão irresistíveis e mobilizadoras — a agenda do eventual Temer será delicadíssima. Na história do Brasil – e do mundo –, o bonapartismo surge de momentos assim.

O gosto de sangue na boca não permite que o lobo pare de morder. Mas, é preciso refletir: para questões complexas, raramente há soluções simples: se a virtude está no meio, o país ressente-se de um centro moderado e moderador, capaz de negociar um novo pacto. E, por isso, tudo fica ainda mais complexo. Não há apenas vazio, mas como que um buraco negro de liderança. Lula, enredado, e FHC, fora da linha de comando, pouco/nada farão nessa direção. Também o tempo deles passou. O tempo sempre passa.

Aécio, Serra, Alckmin, Dilma, Wagner, Marina, Ciro… Esses apresentam indicadores antecedentes pouco animadores. Temer, que da coxia tudo ouvia e enxergava, estava fora do jogo; revelará, agora, qualidades até aqui desconhecidas? Difícil afirmar sim ou não. A crise surpreende só às vezes. Se a sorte o levar para onde se movimenta, terá que provar rapidamente talento e sangue frio surpreendentes para quem encerraria a carreira de modo tão discreto. E é sob tiroteio grosso que será posto a prova; a vida testa sem dó, sem pena.

Jogos vorazes, eis a metáfora. Analogia adequada, mas nem tanto: o país carece dos efeitos especiais de uma grande produção; da criatividade de uma direção competente; de recursos, audiência, técnica e verdadeiro interesse do público. Nos identifica o roteiro raso, o enredo de ficção. No mais, esse sentimento de falta do brilho e da beleza da Jennifer Lawrence que não temos.

Estadão, 11 de dezembro de 2015

Diálogos de convertidos – Por Mario Vargas Llosa

O Nobel de literatura, Mario Vargas Llosa

O Nobel de literatura, Mario Vargas Llosa

Esta semana, duas coisas esplêndidas ocorreram na América Latina. A primeira foi o triunfo de Mauricio Macri na Argentina, uma severa derrota para o populismo do casal Kirchner que abre uma promessa de modernização, prosperidade e fortalecimento da democracia no continente; é, também, um duro golpe para o chamado “socialismo do século XXI” e para o Governo da Venezuela, a quem o novo mandatário eleito pelo povo argentino criticou sem complexos por sua violação sistemática dos direitos humanos e seus atropelos à liberdade de expressão. Tomara que essa vitória dê uma alternativa genuinamente democrática e liberal à demagogia populista e inaugure na América Latina uma etapa em que não voltem a conquistar o poder caudilhos tão nefastos para seus países como o equatoriano Correa, o boliviano Morales e o nicaraguense Ortega, que devem neste momento estar profundamente afetados pela derrota de um Governo aliado e cúmplice de seus abusos.

A outra excelente notícia é o lançamento no Chile do livro Diálogo de Conversos (Editorial Sudamericana, inédito no Brasil), escrito por Roberto Ampuero e Mauricio Rojas, que é, também no plano intelectual, um xeque-mate às utopias estatistas, coletivistas e autoritárias do presidente venezuelano Maduro e companhia e dos que ainda acreditam que a justiça social possa chegar à América Latina através do terrorismo e das guerras revolucionárias.

Roberto Ampuero e Mauricio Rojas acreditaram nessa utopia na juventude e militaram – o primeiro na Juventude Comunista e o segundo no Movimento de Esquerda Revolucionária (MIR). Contribuíram assim para criar o clima de crepitação social e caos econômico e político que foi o Governo de Salvador Allende e a Unidade Popular. Com o golpe militar de Pinochet e o início de uma era de repressão, tortura e terror no Chile, ambos tiveram que fugir e se refugiaram na Europa. Ampuero foi à Alemanha Oriental e de lá a Cuba. Rojas rumou para a Suécia. No exílio, continuaram militando na esquerda mais radical contra a ditadura. Mas a distância, o contato com outras realidades políticas e ideológicas e, no caso de Ampuero, conhecer e padecer em carne própria o “socialismo real” (de pobreza, burocratização, censura e asfixia política) os levaram àquela “conversão” à democracia primeiro e ao liberalismo depois. Sobre isso dialogam no livro, que, embora seja um ensaio político e de filosofia social, é lido com o interesse e a curiosidade com que se leem os bons romances.

Ambos falam com extraordinária franqueza e fundamentam tudo o que dizem e acreditam com experiências pessoais, o que dá a seu diálogo uma autenticidade e um realismo de coisa vivida, de reflexões e convicções calcadas na história real e que estão, por isso, a anos-luz do ideologismo tão frequente nos ensaios políticos, sobretudo da esquerda, ainda que também da direita, que se move num plano abstrato, de confusa e presunçosa retórica, e que parece totalmente divorciado do aqui e agora.

A “conversão” de Ampuero e Rojas não significa sua transferência com armas e bagagem ao inimigo de outrora: nenhum dos dois se tornou conservador nem reacionário. Ao contrário. Ambos são muito conscientes do egoísmo, da incultura e do quanto é relativa a defesa da democracia feita por uma certa direita que no passado apoiou as ditaduras militares mais corruptas, que confundia liberalismo com mercantilismo e que só entendia a liberdade como o direito de se enriquecer por qualquer meio. E ambos, também, embora sejam muito categóricos ao condenar o estatismo e o coletivismo, que empobrecem os povos e cerceiam a liberdade, reconhecem a generosidade e os ideais de justiça que animam muitas vezes esses jovens equivocados a acreditar, como Che Guevara e Mao, que só alcançamos o verdadeiro poder empunhando um fuzil.

Seria bom que alguns liberais recalcitrantes, que veem no livre mercado a panaceia milagrosa, lessem neste Diálogo de Conversos os argumentos com que Mauricio Rojas, que aproveitou tão bem a experiência sueca – onde chegou a ser por um tempo deputado do Partido Liberal – defende a necessidade de que uma sociedade democrática assegure a igualdade de oportunidades para todos através da educação e da regulação fiscal. O objetivo é que o conjunto da população tenha oportunidade de poder realizar seus ideais e desapareçam esses privilégios que no subdesenvolvimento (e, às vezes, no países avançados) estabelecem uma desigualdade de origem que anula ou dificulta extraordinariamente que alguém nascido em setores desfavorecidos possa competir realmente e ter sucesso no campo econômico e social. Para Mauricio, que defende ideias muito sutis para o que chama de “moralizar o mercado”, o liberalismo é mais a “doutrina dos meios que dos fins”, pois, como pensava Albert Camus, não são estes últimos os que justificam os meios, mas o contrário: os meios indignos e criminosos corrompem e envilecem sempre os fins.

Roberto Ampuero conta, numa das mais emotivas páginas do livro, o que significou para ele, após viver na quarentena intelectual de Cuba e da Alemanha Oriental, chegar aos países livres do Ocidente e ter acesso aos livros censurados e proibidos. Mauricio Rojas confirma a experiência recordando como foi, nas salas e bibliotecas da Universidade de Lund, viver a transformação ideológica que o fez passar de Marx a Adam Smith e Karl Popper.

Ambos se referem extensamente à situação do Chile, a esse curioso fenômeno que levou o país que mais progrediu na América Latina – fazendo retroceder a pobreza e com o surgimento de uma nova e robusta classe média graças a políticas democráticas e liberais – a um questionamento intenso desse modelo econômico e político. E os dois concluem, com razão, que o desenvolvimento econômico e material aproxima um país da justiça e de uma vida mais livre, mas não da felicidade, e que inclusive pode distanciá-lo ainda mais dela se o egoísmo e a ganância se transformarem no norte exclusivo e excludente da vida. A solução não está em voltar aos velhos esquemas e enteléquias que empobreceram e violentaram os países latino-americanos, e sim em reformar e aperfeiçoar sem trégua a cultura da liberdade, enriquecendo as conquistas materiais com uma intensa vida cultural e espiritual, que humanize cada vez mais as relações entre as pessoas, estimule a solidariedade e a vontade de serviço entre os jovens e amplie sem trégua essa tolerância para a diversidade, permitindo que os cidadãos cada vez mais escolham seu destino e pratiquem costumes e crenças sem outra limitação que não causar danos aos demais.

Faz tempo que não aparecia em nossa língua um ensaio político tão oportuno e estimulante. Tomara que Diálogos de Conversos tenha os muitos leitores que merece.

Estadão, 29 de novembro de 2015

Leia Mais:http://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,dialogos-de-convertidos,10000003236

Populismo deixa rastro de ruínas no continente – Opinião O Globo

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Na alternância cíclica entre autoritarismo e abertura política, o nacional-populismo aparece como atalho perigoso, que impede a reconstrução democrática

A América Latina, como mostra a História, é marcada por ciclos alternados de autoritarismo e abertura política. Infelizmente, não é raro que, ao sair de um regime ditatorial, o caminho à democracia plena se veja desviado perversamente por atalhos populistas, também autoritários, interrompendo o processo de reconstrução das instituições fundamentais da república. Em nome de uma ideia difusa de “libertação” ou da “defesa nacional” contra um inimigo externo, adultera-se a democracia, intervém-se na economia, personaliza-se o que é público, apadrinham-se segmentos da sociedade e corrompem-se agentes do Estado e atores da sociedade, com alto custo para o desenvolvimento político, econômico e social.

Argentina e Venezuela são hoje exemplos bastante típicos desse processo. Bolívia e Equador também, mas sem ainda enfrentar tantas dificuldades econômicas.

Com os bons ventos da economia internacional, expressos sobretudo na valorização dos preços das commodities, Buenos Aires e Caracas falaram grosso em nome do bolivarismo, categoria política incensada por Hugo Chávez, supostamente a favor do povo e contra o capital e o mercado. O kirchnerismo é da mesma família do bolivarianismo. Os dois países recorreram à retórica nacionalista dos regimes militares para intervir na economia: a Venezuela desapropriou e estatizou empresas; ambos controlaram preços e o câmbio; destruíram institutos de estatística econômica; se isolaram da economia global com políticas protecionistas; cortaram juros a canetadas; subsidiaram setores específicos; e aumentaram salários acima da produtividade real da economia.Quando estourou a crise internacional em 2008 e os desequilíbrios de suas políticas econômicas bateram firme no bolso da sociedade, o lado autoritário desse nacional-populismo tomou a forma visível da repressão, para conter revoltas e coibir a decepção generalizada. No caso venezuelano, vê-se um país à beira de uma ditadura formal, com a prisão de líderes da oposição, repressão violenta contra manifestantes, cerceamento da imprensa, desequilíbrio entre os poderes, e todo tipo de coerção contra candidatos às eleições parlamentares, cujo realização é incerta. Na Argentina, assiste-se ao ataque contra a imprensa profissional e até mesmo à morte mais que suspeita do procurador que investigava a presidente Cristina Kirchner.

No Brasil, as instituições republicanas mostraram até agora boa resistência às tentativas de hegemonização política do lulopetismo, representante deste nacional-populismo. Mas, no campo da economia, a adoção da “nova matriz macreconômica” empurrou o país para o mesmo caminho de infortúnio dos vizinhos bolivarianos.

O resultado, uma grave crise sem perspectiva de solução a curto prazo, cobra seu preço sobretudo da população mais pobre, inclusive aquele segmento que deixara estatisticamente a pobreza absoluta e corre agora o risco de retroceder. Por ironia, em nome de quem opera o populismo.

O GLOBO , 18 de outubro de 2015

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Aventuras do pensamento mágico – Por Demétrio Magnoli

Demétrio Magnoli

Demétrio Magnoli

Eles acreditam em bruxas –ou fingem que acreditam. O novo manifesto econômico do PT e as entrevistas de intelectuais que o sustentam formam uma fraude analítica similar, na sua desfaçatez, ao assalto promovido pelos heróis políticos petistas contra a Petrobras. Eles dizem, essencialmente, que Dilma Rousseff mudou a política econômica para combater uma crise inexistente, curvando-se voluntariamente aos desejos malvados da “elite econômica nacional e internacional”.

Segundo Márcio Pochmann e Eduardo Fagnani, “a crise, até 2014, tão difundida como uma crise terminal da economia brasileira, não encontra respaldo nos dados econômicos”. Empregando a fórmula clássica do governo chavista da Venezuela, os coordenadores do manifesto petista asseguram que o Brasil foi vítima de “uma crise totalmente fabricada pelo terrorismo econômico do mercado”. No texto que produziram, a narrativa condensa-se pela seguinte frase: “A criação de um clima de crise fiscal e econômica ganhou a batalha, contribuindo para que o governo alterasse sua rota e produzisse a própria crise que os mercados alegavam existir”.

O mercado, por definição, forma-se pelas ações unilaterais de incontáveis agentes, que operam em busca de maximizar seus lucros. A figuração do mercado como entidade monolítica, um “Partido da Burguesia”, revela a miséria de intelectuais de esquerda na era do declínio do pensamento marxista. Mas, sublimando-se isso, surge um problema insolúvel de continuidade narrativa. De repente, raio no céu claro, irrompe a Conspiração, interrompendo a marcha gloriosa das Forças do Bem.

Barack Obama disse que “Lula é o cara”. As agências de risco ofertaram-nos o grau de investimento. Numa capa célebre, a revista “The Economist” anunciou que “O Brasil decola”, convertendo o Cristo Redentor num foguete em propulsão. No Brasil, banqueiros declararam-se eleitores de Lula e Dilma, enquanto as empreiteiras associavam-se à Petrobras em negócios da China abertos e velados. Eike Batista brindou ao futuro radioso com o chefão lulopetista e sua delfina. O empresariado seduziu-se pelos encantos materialistas do BNDES, “melhor banco de investimento do mundo”. Os intelectuais petistas nem tentam explicar os motivos da súbita “revolta da elite” contra o lulopetismo.

A Conspiração, porém, não triunfaria sem um intempestivo ato de autossabotagem. Na versão servida pelo sociólogo André Singer, ex-porta-voz de Lula, “ao chamar o ministro Joaquim Levy para a pasta da Fazenda”, Dilma “entregou todos os pontos para aqueles que ela procurou confrontar no primeiro mandato”. Temos, então, que a presidente, ex-guerrilheira não dobrada pela tortura, convicta nacionalista, venceu as eleições acusando seus adversários de agentes dos banqueiros apenas para, no dia seguinte, diante de uma crise artificial, meramente “fabricada pelo terrorismo do mercado”, capitular à Elite, traindo o Povo. A Rainha foi enfeitiçada!, conta-nos o sábio marxista, um cultor da Razão Dialética.

A fraude intelectual ampara uma farsa política. No manifesto petista, “a lógica que a presidente usa na condução do ajuste é a defesa dos interesses dos grandes bancos e fundos de investimento”, que “querem capturar o Estado, privatizar bens públicos, apropriar-se da receita pública, baratear o custo da força de trabalho e fazer regredir o sistema de proteção social”. Segundo o PT, Dilma tornou-se a quinta-coluna da “elite econômica nacional e internacional”. Mas, surpresa!, o manifesto e seus arautos jamais sugerem que o PT rompa com o governo, aliando-se ao PSOL numa oposição de esquerda. Os intelectuais que simulam acreditar em bruxas almejam ser, ao mesmo tempo, governo e oposição.

Os intelectuais de esquerda não acreditam em bruxas. Pretendem, isso sim, para corromper o debate público, que todos os demais acreditem nelas.

Folha de São Paulo – 3 de outubro de 2015

Cheer leader – por Ruy Castro

Escritor Ruy Castro

Escritor Ruy Castro

Cheer leader é uma expressão em inglês que, para gáudio do nosso complexo de vira-lata, já se incorporou de tal forma à língua portuguesa que passou a dispensar aspas ou itálico. É como se todos soubessem o que significa –e, de fato, chamado a defini-la, qualquer um saberá descrever a lourinha de maria-chiquinha, suéter, saiote e meias 3/4, agitando pompons para a arquibancada a fim de empolgar a torcida. Bem brasileira.

A cheer leader não quer saber se seus craques estão jogando mal, se a tática adotada pelo treinador está errada ou se seu time está perdendo de dez a zero aos dez do segundo tempo. Ela não discute –torce. Pena que isso não altere o rumo do jogo. Pior ainda é quando não consegue alterar nem o ânimo da torcida.

A única vantagem de ser cheer leader é que, ao ver a catástrofe se abatendo sobre o seu time, a torcida não a xinga de burra, nem pede a sua demissão. O protesto é dirigido ao treinador, a alguns jogadores ou ao time inteiro, chamando-os de burros, sem raça ou sem vergonha. O que é mais um motivo para a cheer leader agitar os pompons e não se deixar abater –como se não fosse com ela.

A presidente Dilma está longe do visual, mas tem uma deliciosa alma de cheer leader. Seu time não consegue segurar a bola, toma um gol atrás do outro e, com tudo isso, ela sustenta um obtuso otimismo e repete platitudes recebidas com tédio e cansaço até pelos que lhe são simpáticos –estes, a cada vez, em número alarmantemente menor. Dilma não admite ser a mãe da crise. Põe a culpa no gramado, na bola ou na torcida adversária.

Infelizmente, uma presidente da República não pode ser apenas uma cheer leader. É também a treinadora, goleira e camisa 10 da equipe, e tudo ao mesmo tempo. E, como tal, está sujeita aos urros da arquibancada quando esta se convence de que ela está enterrando o time.

Folha de São Paulo – 18 de setembro de 2015

Última chance – Editorial Folha de São Paulo

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Às voltas com uma gravíssima crise político-econômica, que ajudou a criar e a que tem respondido de forma errática e descoordenada; vivendo a corrosão vertiginosa de seu apoio popular e parlamentar, a que se soma o desmantelamento ético do PT e dos partidos que lhe prestaram apoio, a administração Dilma Rousseff está por um fio.

A presidente abusou do direito de errar. Em menos de dez meses de segundo mandato, perdeu a credibilidade e esgotou as reservas de paciência que a sociedade lhe tinha a conferir. Precisa, agora, demonstrar que ainda tem capacidade política de apresentar rumos para o país no tempo que lhe resta de governo.

Trata-se de reconhecer as alarmantes dimensões da atual crise e, sem hesitação, responder às emergências produzidas acima de tudo pela irresponsabilidade generalizada que se verificou nos últimos anos.

Medidas extremas precisam ser tomadas. Impõe-se que a presidente as leve quanto antes ao Congresso –e a este, que abandone a provocação e a chantagem em prol da estabilidade econômica e social

Também dos parlamentares depende o fim desta aflição; deputados e senadores não podem se eximir de suas responsabilidades, muito menos imaginar que serão preservados caso o país sucumba.

É imprescindível conter o aumento da dívida pública e a degradação econômica. Cortes nos gastos terão de ser feitos com radicalidade sem precedentes, sob pena de que se tornem realidade pesadelos ainda piores, como o fantasma da inflação descontrolada.

A contenção de despesas deve se concentrar em benefícios perdulários da Previdência, cujas regras estão em descompasso não só com a conjuntura mas também com a evolução demográfica nacional. Deve mirar ainda subsídios a setores específicos da economia e desembolsos para parte dos programas sociais.

As circunstâncias dramáticas também demandam uma desobrigação parcial e temporária de gastos compulsórios em saúde e educação, que se acompanharia de criteriosa revisão desses dispêndios no futuro.

Além de adotar iniciativas de fácil legibilidade, como a simbólica redução de ministérios e dos cargos comissionados, devem-se providenciar mecanismos legais que resultem em efetivo controle das despesas –incluindo salários para o funcionalismo–, condicionando sua expansão ao crescimento do PIB.

Embora drásticas, tais medidas serão insuficientes para tapar o rombo orçamentário cavado pela inépcia presidencial. Uma vez implementadas, porém, darão ao governo crédito para demandar outro sacríficio –a saber, alguma elevação da já obscena carga tributária, um fardo a ser repartido do modo mais justo possível entre as diversas camadas da população.

Não há, infelizmente, como fugir de um aumento de impostos, recorrendo-se a novas alíquotas sobre a renda dos mais privilegiados e à ampliação emergencial de taxas sobre combustíveis, por exemplo.

Serão imensas, escusado dizer, as resistências da sociedade a iniciativas desse tipo. O país, contudo, não tem escolha. A presidente Dilma Rousseff tampouco: não lhe restará, caso se dobre sob o peso da crise, senão abandonar suas responsabilidades presidenciais e, eventualmente, o cargo que ocupa.

Folha de São Paulo – 13 de setembro de 2015

O velho e o novo – por Marco Antonio Villa

Marco Antonio Villa

Por que as crises política e econômica se estendem? Porque não foi encontrada uma saída segura para a classe dirigente

No Brasil, a construção da democracia e de suas instituições é um longo processo. Isto porque o passado patrimonialista ainda nos aprisiona. Qualquer avanço é fruto de muita luta e de pequenas vitórias. Como não temos tradição de rupturas, a tendência é sempre incorporar o derrotado na nova ordem. Que, obviamente, deixa de ser plenamente nova; pois, ora mais, ora menos, rearranja o poder político mantendo frações do passado no presente. Esta permanência não só dificulta a plena constituição do Estado Democrático de Direito, como impede até que o pensamento crítico se incorpore à vida política nacional.

A tendência histórica à conciliação transformou o aparelho de Estado numa esfera onde os antigos vícios da gestão da coisa pública permaneceram petrificados. O entorno era modificado mas a essência mantinha-se a mesma. Como se a História não se movimentasse. Pior, como até se o processo eleitoral de nada adiantasse, restringindo-se à mera substituição dos gestores, sem alterar seus fundamentos.

Virou lugar-comum afirmar que as instituições de Estado brasileiro estão em pleno funcionamento. As ações de combate à corrupção são demonstrações que reforçam a afirmativa. Contudo, cabe perguntar se a permanência da corrupção em todos os níveis e em todos os poderes da República não representa justamente o contrário. Ou seja, que as instituições funcionam mal, muito mal. Se há tanta corrupção, é porque é fácil instalar uma organização criminosa, político-partidária ou não, no interior dos órgãos estatais. E com a garantia da impunidade ou, no máximo, de suaves punições que estimulam, em um segundo momento, novos atos contrários ao interesse público, como no binômio mensalão-petrolão, onde o núcleo duro é o mesmo, mas em uma magnitude — em termos financeiros e temporais — muito maior.

Identificar a permanência e apontar a necessidade urgente de enfrentá-la não é bem visto no país das Polianas. E haja Poliana. Se a análise se concentrar em Brasília, como símbolo do poder, é possível detectar que, apesar de vivermos uma das mais graves crises da história republicana, não há nenhuma possibilidade de mudança, mudança efetiva. A atual paralisia política é resultado da dificuldade de construir uma saída mantendo os velhos interesses no aparelho de Estado. O resto é pura fraseologia vazia. Como diria o titio Joel Santana: cock-and-bull story.

O petismo, no auge, contou com apoio entusiástico da elite brasileira. Mesmo após as denúncias do mensalão, publicizadas na CPMI dos Correios. Para as classes dirigentes, o projeto criminoso de poder foi visto, apenas, como uma forma de governança, nada mais que isso. Quando Dilma Rousseff iniciou seu primeiro mandato, foi muito elogiada pela forma como administrava o governo e pelo combate — ah, Polianas — aos malfeitos, forma singela como definia a corrupção, marca indelével do seu período presidencial. Quem apontava as mazelas era visto como rancoroso, um pessimista contumaz.

No momento que Fernando Collor renunciou à Presidência da República, já tinha ocorrido uma recomposição de forças, desde o mês anterior à autorização para a abertura do processo de impeachment pela Câmara dos Deputados, a 29 de setembro de 1992. Ou seja, a movimentação em torno de Itamar Franco, vice-presidente, permitiu que o bloco político-empresarial estabelecesse e garantisse as condições de governabilidade, que tinham sido afetadas desde o início do mandato, um ponto fora da curva entre os períodos presidenciais desde 1945. A queda de Collor — sem nenhuma sustentação social ou no Congresso Nacional — pode ser compreendida, então, mais como um rearranjo do bloco político-empresarial, redefinindo interesses no interior do aparelho de Estado, do que uma vitória das ruas, dos caras-pintadas. As ruas — mesmo sem o querer — acabaram permitindo uma saída confiável no interior de uma ordem política intrinsecamente antirrepublicana.

As acusações que pesam contra Dilma Rousseff são incomparavelmente mais graves do que aquelas imputadas a Fernando Collor. Os atos de corrupção, a desastrosa gestão econômica e o controle da máquina estatal por uma organização criminosa com tentáculos nos Três Poderes não têm paralelo na nossa História. Mas por que a crise política se estende? Por que a crise econômica parece não ter fim? Porque não foi encontrada uma saída segura para a classe dirigente, porque Michel Temer não é Itamar Franco, porque Dilma Rousseff não é Fernando Collor, porque o Partido dos Trabalhadores não é o Partido da Reconstrução Nacional e porque as crises político-econômica de 2015 é mais complexa que a de 1992.

A principal dificuldade para ser encontrada uma saída política nos moldes da (triste) tradição brasileira deve-se principalmente à sociedade civil. Hoje, com todas as limitações, ela vem se organizando e se mobilizando de forma independente do Estado e de seus braços, como os partidos políticos. As três grandes manifestações — de 15 de março, 12 de abril e 16 de agosto — não têm paralelo na História do Brasil. Um acordo pelo alto, costurado pelos velhos interesses, é muito difícil — e pode ter vida curta. É necessário ir mais fundo. Não basta a simples troca de presidente. O receio maior de Brasília é ter de enfrentar o Brasil real. Aquele que não quer mais ver a corrupção impregnando as ações de Estado, tenebroso método de gestão e de desqualificar a política, “fazendo-a descer ao plano subalterno da delinquência institucional”, como bem escreveu o ministro Celso de Mello.

Marco Antonio Villa é historiador – artigo de O Globo – 01/09/2015

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/opiniao/o-velho-o-novo-17364065#ixzz3kXVvjpfE
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No palanque contra a crise – Opinião Estadão

Dilma na Marcha das Margaridas - 12 de agosto, Brasília.

Dilma na Marcha das Margaridas – 12 de agosto, Brasília.

Dilma repudia energicamente o “vale-tudo” na política e seu novo herói para combater a crise econômica braba que o País enfrenta é Renan Calheiros, porque ela não concorda “com nenhuma medida aprovada que leve à instabilidade, tanto econômica quanto política do País”. Vamos por partes.

Finalmente convencida por Lula de que crise é coisa que se resolve no palanque, Dilma deitou falação em mais um evento da “agenda positiva”, agora no Maranhão do aliado governador Flávio Dino (PC do B), em solenidade promovida para entregar unidades do programa Minha Casa, Minha Vida. Como se a situação geral já não estivesse suficientemente ruim, a presidente acusou a oposição de estar apostando no “quanto pior melhor” e proclamou: “Vamos repudiar, sistematicamente, o vale-tudo para atingir qualquer governo. No vale-tudo, quem acaba sendo atingido pela torcida do quanto pior melhor é a população do País, do Estado e do município”. E explicou melhor, o que nunca é demais quando se trata de seus discursos: “Quanto pior melhor? Melhor para quem? É essa a pergunta. É pior para a população, é pior para o povo. É pior para todos nós”.

Dilma certamente sabe do que está falando quando se trata de vale-tudo. Pois este foi o método político do lulopetismo, aplicado nos tempos de oposição e de governo. Estão aí o mensalão, o petrolão e outros exemplos de menor impacto policial a demonstrar que para a elite do PT vale meter a mão no dinheiro do povo para financiar seu projeto de poder e, de quebra, enriquecer antigos guerreiros desse mesmo povo brasileiro. Por mais que Dilma jure que não tem nada a ver com essa parte do vale-tudo, não tem como negar que foi protagonista do estelionato eleitoral de 2014. A candidata à reeleição foi à TV para mentir sem o menor escrúpulo, ao acusar seus adversários de estarem “tirando a comida da mesa dos pobres” e prometer o paraíso na terra, só para, depois de eleita, começar a colar remendos na economia nacional, que ela quebrou em quatro anos. Fez o diabo e valeu tudo.

Na busca desesperada de soluções que salvem seu mandato, Dilma tem agora um novo herói. Mas terá ela dado uma olhada na folha corrida de Renan Calheiros, com quem está encantada porque ele acaba de descobrir a fórmula infalível para reerguer a economia? O pacote de propostas apresentado pelo presidente do Senado – que parece ter sido cozido com a ajuda do ministro da Fazenda – pode até vir a ser de alguma valia. Mas não é disso que se trata. Dilma discursou em São Luís que “o Brasil precisa, mais do que nunca, que as pessoas pensem primeiro nele, Brasil (…) e só depois pensem em seus partidos e em seus projetos pessoais”. Não é difícil de imaginar, com base no retrospecto de sua carreira política, no que Renan Calheiros, com o rabo preso na Lava Jato, está pensando primeiro.

Finalmente, Dilma diz-se indignada com medidas que levem “à instabilidade, tanto econômica quanto política do País”. Ela se referia à “pauta-bomba” urdida por Eduardo Cunha na Câmara para comprometer o plano de ajuste fiscal e desmoralizar o governo. Justa indignação, portanto. Mas hoje ninguém leva o País “à instabilidade, tanto econômica quanto política”, porque Dilma, Lula, o PT e seus vorazes aliados já se encarregaram disso com notáveis pertinácia e eficiência. A tal indignação vem tarde e cai no vazio, portanto.

A presidente da República deveria parar um instante para refletir sobre a relação entre a sua enorme impopularidade e falta de credibilidade junto aos brasileiros e a soma de seus muitos erros com a desfaçatez com que abusa da boa-fé e do discernimento das pessoas. Subir no palanque para repetir o mesmo discurso que a levou ao descrédito só pode piorar as coisas. Principalmente quando fica óbvio que toda essa encenação é cuidadosamente planejada no que se refere à “participação popular”. Para o evento em São Luís o governo maranhense providenciou a convocação de uma claque: 2 mil beneficiários do Minha Casa, Minha Vida, além de filiados a entidades e organizações sociais comprometidas com o petismo e suas linhas auxiliares, receberam transporte e, em muitos casos, lanche para aplaudir Dilma. Tudo no melhor estilo da fábrica de ilusões do PT.

Jornal O Estado de São Paulo – 12 de agosto de 2015

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