Alteridades: Para diferentes culturas, há diferentes racionalidades ? – Por Moacir Pereira Alencar Junior

Este artigo busca fazer uma síntese de 4 obras :

  • o livroA conquista da América : a questão do outro”, do linguista búlgaro Tzvetan Todorov,

  • o filme O homem que queria ser rei”, baseado no livro do poeta indo-britânico Rudyard Kipling,

  • o livro “Raça e História”, do antropólogo francês Claude Lévi-Strauss,

  • e do livro Como pensam os nativos : sobre o Capitão Cook, por exemplo”, do antropólogo americano Marshall Sahlins.

Introdução

O homem sempre buscou estudar as diferenças sociais e culturais a partir de fatores históricos e aspectos coletivos. Com o passar dos séculos, o homem foi promovendo aprimorações na forma de avaliar, classificar e definir uma cultura, processo este que veio a originar a Antropologia.

A partir destas obras podemos ter uma breve idéia do desenvolvimento do pensamento do homem civilizado (o europeu) no decorrer dos séculos. Os habitantes do Velho Mundo passaram a enxergar melhor as diferenças extraculturais.

Alteridades – ‘diferenças culturais em questão’

Na obra de Todorov, que retrata os século XV e XVI, assistimos ao encontro de duas civilizações, com estilos de vida plenamente diferentes: os europeus, representado pelos espanhóis, que vivem em meio a uma sociedade desenvolvida que passa por um grande processo de expansão ultramarino e apresenta relativo desenvolvimento econômico e social, e os astecas (civilização até então desconhecida, que estava adaptada a um modelo de vida extremamente diferente no aspecto sociocultural).

Neste período da história, a inexistência de leis morais similares para regulamentar o comportamento destes dois povos fez com que uma barbárie fosse o desfecho desta relação extracultural. O mais forte, no caso os europeus, impuseram sua superioridade por meio de um massacre sem precedentes.

Não se poderia destruir uma raça humana daquela maneira, sem respeito às leis de humanidade.

Com o avanço do colonialismo (durante os séculos XV e XIX ) e do neocolonialismo (que ocorre nos séculos XIX e XX), as relações ente o homem civilizado e o homem primitivo passaram a se dar com maior freqüência, porém os colonizadores impunham suas formas de vida aos colonizados. Em nenhum momento a diversidade cultural dos povos primitivos foi respeitada.

Um exemplo é o filme de Rudyard Kipling, que retrata a tentativa de oficiais do Exército Britânico de conquistar a região do Kafiristão, território que ficou sob tutela inglesa durante o fim do século XIX e início do século XX, que hoje é uma região entre as montanhas de Hindukush no Afeganistão.

Um dos oficiais britânicos (Danny), se aproveita das lacunas existentes na cultura do povo kafiristanês e se passa por Deus, sendo entronizado e classificado pelo povo como uma divindade. Porém a farsa é desvendada e os oficiais britânicos são mortos. Mais um exemplo de relação entre colonizado e colonizador que termina de forma abrupta, a intolerância entre os povos volta a prevalecer.

A partir do séculos XIX e XX, com os primeiros processos de independência na América, na Ásia e na África passamos a assistir um processo de maior tolerância entre povos.

No século XIX, Gobineau, um filósofo francês, fez um estudo sobre a teoria das raças; para ele a miscigenação racial faria com que as raças perdessem suas qualidades próprias e ancestrais. Para ele, a raça prevalecia frente à cultura.

Porém, Segundo Lévi-Strauss, em sua obra ‘Raça e História’, há muito mais culturas humanas que raças humanas, homens pertencentes a mesma raça podem diferir plenamente. Continuando com seus pensamentos, Lévi-Strauss considera que há sociedades contemporâneas, umas próximas, outras afastadas, justapostas no espaço.

Merece ser destacado o Etnocentrismo – um conceito antropológico onde um grupo é considerado como parâmetro (centro) para determinar as relações entre os povos.

A partir desse conceito o ‘outroé considerado anti-natural, estranho e atrasado. Este conceito traz a tona o choque entre culturas, onde o outro passa a ser uma ameaça a identidade do grupo central, e isto faz com que o grupo central busque reforçar ainda mais sua identidade.

Vale ser citada uma corrente ideológica que nega o etnocentrismo, é o chamado relativismo cultural. Esta ideologia defende que o bem e o mal, o certo e o errado, e outras categorias de valores são relativos a cada cultura.

Em determinados momentos, Lévi-Strauss apresenta pensamentos que oscilam entre o etnocentrismo e o relativismo cultural. Quando ele divide a história das culturas em estacionárias e cumulativas, acaba defendendo que uma cultura é cumulativa porque se desenvolve num sentido análogo ao de sua civilização, portanto, ele acaba se julgando uma pessoa superior a de ‘outras’ culturas.

Porém, Lévi-Strauss crê que a chamada história estacionária não é uma história não-cumulativa, na essência toda história é cumulativa, com diferenças de grau, podendo ser mensurada conforme o contexto histórico de cada cultura. Nesta conclusão ele demonstra sua visão relativista.

Graças a esta oscilação entre etnocentrismo e relativismo, Lévi-Strauss considera um absurdo declarar uma cultura superior à outra. Nenhuma cultura está só, ela é sempre dada em coligação com outras culturas, ou seja, para Lévi-Strauss só pode haver exploração no seio da coligação.

Apesar de existir uma maior tolerância entre culturas na atualidade, ao menos no papel, por meio de leis que visam a igualdade para todo indivíduo, nós vivemos em meio a crises de intolerância sociocultural.

A imparcialidade ainda esta longe de ser atingida nestas 4 obras que envolvem a antropologia.

Isto fica claro na obra de Marshall Sahlins : ‘Como pensam os nativos : sobre o Capitão Cook , por exemplo’ , onde o norte-americano trava algumas discussões conceituais com o antropólogo cingalês Obeyesekere.

O relativismo cultural ganha grande importância neste embate ideológico de antropólogos que tem origens distintas. Apesar de cingalês, Obeyesekere leciona nos EUA, na Universidade de Princeton, onde estudou com rigor a cultura de seu país, o Sri Lanka, nação subdesenvolvida asiática que foi protetorado britânico entre 1833 e 1948.

Marshall Sahlins, norte-americano, conclui em seu livro que ele é visto como alguém que compete favoravelmente com James Cook pelo título de principal vilão da obra de Obeyesekere, “A apoteose do Capitão Cook”.

Marshall Sahlins, em 1988, atribui a idéia de que a história é governada pela reprodução impensada de códigos culturais.

Sahlins crê que quando James Cook chegou ao Havaí , foi recepcionado como um ser divino, o Deus Lono. Segundo Sahlins, isto se dá devido a um mito de inspiração ocidental, promovido em grande parte por missionários cristãos e seus principais convertidos após 1820.

As divergências de Sahlins para Obeyesekere surgem nesta busca por respostas sobre o verdadeiro comportamento do povo havaiano frente ao navegador britânico James Cook e sua tripulação. Obeyesekere, segundo Sahlins, crê que os havaianos adotaram uma postura mais racional ao recepcionar Cook, visando a buscar um parceiro, porque não dizer, comercial e militar.

Buscando um equilíbrio nas informações aqui dadas, enviei um e-mail a Obeyesekere, que foi respondido por ele no dia 26 de abril de 2009 , no qual ele me disse:


Eu aconselho você a evitar o binário ou as distinções das oposições. Não há necessariamente uma diferença radical entre universalismo e particularidade ou relativismo e universalismo. Como o poeta William Blake disse: fora de uma essência, nós podemos ter múltiplas diferenças.”

clique abaixo para ver a resposta do e-mail:gananath-obeyesekere

Este antagonismo de pensamentos e conceitos antropológicos entre Sahlins e Obeyesekere levanta uma questão muito interessante:

Há antietnocentrismo e antiantropologia sendo praticada na obra de um desses autores ?

Creio que ao tomarmos partido por um dos escritores, estamos ignorando a existência de uma segunda hipótese, discutível, e que apresenta, de certa forma, uma visão que não pode ser considerada como sendo contra a particularidade cultural de um povo.

Apenas provar que um esta certo e outro esta errado, seria, de certa maneira, um comportamento destrutivo, que não vem a somar conhecimento e informações históricas baseadas em visões diferentes de mundo.

Afinal, em diferentes culturas, há diferentes racionalidades.

Assim como pode haver mesmas racionalidades em diferentes culturas.

Em suma, o que se define como intolerante para um “povo” , pode ser o que há de mais tolerável para um “outro povo”.

Martin Luther King (1929 – 1968)

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Martin Luther King Jr foi um ativista negro norte-americano, além de pastor da Igreja Batista.

Dedicou sua vida pela luta dos direitos humanos , principalmente pela luta dos negros e mulheres que sofriam injustiças em diversas partes do mundo.

Por meio de uma campanha pacifista , nos mesmos moldes de Mahatma Gandhi, que desencadeou a independência da Índia; Luther King Jr foi promovendo avanços para a comunidade negra norte-americana.

Seu engajamento em lutas sociais fez com que ele se tornasse o homem mais jovem a ganhar o Prêmio Nobel da Paz, no ano de  1964.

Porém , movimentos segregacionistas se ampliaram nos estados do Sul, como a Klu Klux Klan, e muitas famílias negras acabaram não tendo o seu direito de cidadão consolidado.

Durante uma marcha pelos direitos civis  na cidade de Memphis, no Tennessee, no ano de 1968, ele é assassinado por um extremista.

Novamente a intolerância acaba com um grande líder.

assista aqui: discurso proferido por Martin Luther King Jr, em 28 de agosto  de 1963, no Lincoln Memorial em Washington.

Ele tinha um sonho , e você…tem algum??


Leon Trótski ( 1879 – 1940 )

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Lev Davídovitch Bronstein nasce na Ucrânia, numa família de agricultores judeus.

Combate o regime czarista desde os 17 anos .

Preso em 1898, é deportado para a Sibéria.

Foge e exila-se em Londres, onde conhece Lênin.

Colabora no jornal Iskra e participa do POSDR.

Em 1905 retorna à Rússia e torna-se líder do soviete de São Petesburgo.

Deportado de novo para a Sibéria, foge para Viena , onde trabalha como jornalista até 1914.

Em 1917 volta para a Rússia.

Com a vitória bolchevique na revolução, passa a comissário das Relações Exteriores; depois, organiza o Exército Vermelho.

Por influência de Stálin – com quem disputa o poder após a morte de Lênin -, é expulso do partido e deportado em 1929.

Morre assassinado por ordem de Stálin, no México, em 1940.

assista aqui: Trótski e sua importância na consolidação da Revolução Russa – legendado em inglês e francês

Lênin ( 1870 – 1924 )

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Vladímir Ilitch Ulianóv nasce em Sibirsk, atual Ulianovsk.

Forma-se em direito e muda-se para São Petesburgo, onde adota idéias marxistas, dedicando-se à propaganda do comunismo nos bairros proletários.

Em 1895 é preso e deportado para a Sibéria .

Cumprida a pena, parte com a esposa para a Suíça, em 1900, onde lança o jornal Iskra ( A Centelha ), sob o pseudônimo Lênin.

Em 1902 funda no exterior o Partido Operário Social-Democrata Russo ( POSDR ).

Em 1917 , quando o czar Nicolau II abdica, Lênin retorna à Rússia e lidera a oposição ao governo do moderado Aleksandr Kerenski, até a tomada do poder pelos bolcheviques.

Em 1922 forma a União Soviética.

Em 1923 sofre um derrame que o deixa paralítico.

Morre no ano seguinte.

assista aqui: Tributo à Lênin , imagens de sua trajetória , monumentos  em sua homenagem , ao som do Hino Soviético.

Adolf Hitler ( 1889 – 1945 )

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Nascido na Áustria , é o protagonista da II  Guerra Mundial.

Ingressa no Exército em 1913 e ganha condecorações .

Em 1919 filia-se ao Partido Operário Alemão ( DAP ) , organização nacionalista anti-semita e , em 1921 , passa a  chefiá-lo.

É preso em 1923 , após tentativa de golpe de Estado.

Em 1933 torna-se cidadão alemão e é nomeado chanceler.

Com a morte do presidente , instaura uma ditadura e assume o papel de führer

( Líder do povo alemão ).

Começa a expansão militar do país , que dá início a guerra.

Em 1945 , suicida-se ao ver a derrota incondicional de seu império .

O Neonazismo demonstrou estar ativo em muitos países europeus nas últimas décadas.

Como exemplo podemos citar a Áustria e a Alemanha.

Assista aqui: discurso de Hitler , II Guerra Mundial – legendado

Josef Stálin (1879 – 1953 )

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Joseph Vissariónovitch Diugachvili torna-se militante do Partido Operário Social – Democrata Russo (POSDR) em  1902.

É preso e deportado para a Sibéria em 1913, adotando o nome Stálin (homem de aço).

Em 1917 entra para o comitê central do POSDR e participa da Revolução Russa.

Sucede a Lênin após sua morte, em 1924, derrotando Leon Trótski .

Controla o estado com poderes ditatoriais.

Milhões de pessoas são presas, executadas ou enviadas a campos de trabalho forçado.

Durante a II Guerra Mundial, é um dos chefes da coalizão anti-nazista.

Nos últimos anos sua popularidade é cada vez maior entre a população russa.

assista aqui : Stalin still  a hero – em inglês

Mao Tsé -Tung (1893 – 1976 )

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Líder comunista chinês , nasce em Shaoshan , filho de fazendeiro.

Torna-se professor de universidade de Pequim , onde toma contato com o marxismo.

Participa em 1921 , da fundação do Partido Comunista Chinês (PCCh) e cria seu braço armado , o Exército Popular de Libertação.

Em 1935 , com a derrota de seu exército para o Partido Nacionalista ( Kuomintang )  , lidera a Longa Marcha – 90 mil comunistas refugiam-se na região norte do país , percorrendo 9,6 mil quilômetros numa marcha de protesto contra o governo.

Em 1937 , nacionalistas e comunistas unem-se contra a invasão  japonesa na Manchúria.

Mas , depois da derrota do Japão na II Guerra Mundial , a disputa interna na China se reaviva.

Em outubro de 1949 , após intensa luta nas cidades , Mao proclama a República Popular da China.

Em 1958 , adota o Grande Salto para Frente , plano de desenvolvimento cujo  fracasso o faz ser afastado da liderança do Partido Comunista.

Em 1966 , recupera o poder ao lançar a Revolução Cultural.

Reata relações diplomáticas com os EUA e promove o ingresso da China na ONU em 1971.

Morre em 1976, em Pequim.

assista aqui: parte final de documentário sobre o poder político e a influência de Mao sobre a população chinesa – em espanhol

Fidel Castro (1927 – …. )

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Líder Comunista cubano, Fidel forma-se em direito.

Em 1953, após tentativa de golpe contra o ditador Fulgencio Batista, é condenado a 15 anos de prisão.

Anistiado em 1955, vai para o México, onde planeja retomar a guerrilha em Cuba.

Assume o poder em 1959, instalando um regime que, em 1961, se alinha ao bloco soviético.

Castro converte-se em um ditador, chefiando um regime que não permite a liberdade de expressão  nem a existência de outros partidos políticos além do Partido Comunista Cubano.

Com o colapso da União Soviética, em 1991, permite a entrada de empresas de capital estrangeiro para arejar a economia .

Com a ascensão de Hugo Chávez, na Venezuela, em 1998, ganha novo aliado.

Em 2006, transfere o poder pela primeira vez a seu irmão Raúl Castro por causa de problemas de saúde.

Em 2008, afasta-se de vez, mas segue influente.

assista aqui : o então deputado Jânio Quadros visita Cuba e encontra-se com Fidel (ano de 1959)


Ernesto Che Guevara (1928 – 1967)

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Guerrilheiro argentino, Ernesto Guevara de la Serna se forma em medicina em Buenos Aires .

Ainda estudante , em 1952 , faz uma viagem pela América do Sul.

Sensibilizado com a pobreza dos camponeses , inicia militância de esquerda.

Depois de formado , viaja por países da América Central , como a Guatemala , onde se casa e tem a primeira filha.

Instala-se no México e vive como professor e médico.

Lá , conhece Raúl Castro e depois Fidel Castro , aderindo ao grupo de revoluciónarios cubanos.

Chega em Cuba em 1956 e vira um dos líderes da revolução.

Afasta-se do poder para organizar ações de guerrilha pelo mundo.

Luta na África e, em 1967, na Bolívia , é morto por soldados.

Seu corpo desaparece por 30 anos.

Em 1997 é enterrado com honras em Cuba.

assista aqui: discurso de Che referente aos progressos sociais de Cuba , mesmo com o bloqueio econômico americano vigorando.