Análise Estrutural dos Mitos a partir de Lévi-Strauss – por Moacir Pereira Alencar Junior

Introdução

A palavra mito [do grego Mythos, ‘fábula’, pelo latim, mythu ] pode significar uma narrativa dos tempos fabulosos ou heroicos, ou uma narrativa de significação simbólica, geralmente ligada à cosmogonia, e referente a deuses encarnadores das forças da natureza e/ou aspectos da condição humana.

O mito também pode ser classificado como representação de fatos ou personagens reais, exagerada pela imaginação popular, pela tradição. Pessoas ou fatos também podem vir a ser representados e concebidos como mito. Estas representações (ora do passado ou ora do futuro) sempre remetem a um período ideal da humanidade.

A partir destas variadas definições para a palavra mito, a análise estrutural do mesmo pode se dar a partir do momento que ouvimos uma música , que assim como um mito carrega toda uma narrativa que faz referência a fatos e personagens reais ou fantasiosos que vieram a marcar a cultura de um determinado povo durante o curso da história humana.

Sendo o mito determinado ora pela linguagem sensível e pelas versões/relações de caráter discursivo buscarei neste trabalho promover a análise estrutural de 2 músicas ,que assim como um mito são determinadas por sons naturais e por uma harmonia cultural existente em um determinado contexto histórico-cultural. Terei como base para este trabalho a obra “Antropologia Estrutural 2” do antropólogo francês Claude Lévi-Strauss .

As músicas selecionadas foram:

  • O Tempo não para” de Cazuza, do ano de 1988 e;
  • Ciao Amore Ciao” do ano de 1967, do cantor italiano Luigi Tenco.

Conforme escrevia Goethe:

“Todas as formas são semelhantes, e nenhuma é igual às outras,

de tal modo que sua harmonização conduz a uma lei escondida.”

Ou seja, os signos e os símbolos não podem desempenhar seu papel senão na medida em que pertençam a sistemas regidos por leis internas de implicação e de exclusão; e porque a característica de um sistema de signos é ser transformável, ou ainda, traduzível na linguagem de um outro sistema com a ajuda de substituições.

Entre povos separados pela história, pela geografia, pela língua e pela cultura, podemos encontrar correlações entre vários fatos reais e fantasiosos. Isto nos permite comparar mitos e até encontrar respostas similares em certos quesitos para diferentes grupos no tempo-espaço. Estes mitos podem possuir uma existência independente.

Analisamos o mito distinguindo quatro níveis: geográfico, técnico-econômico, sociológico e cosmológico. Os dois primeiros traduzem fielmente a realidade, enquanto o quarto lhe foge inteiramente e o terceiro entrelaça instituições reais e imaginárias. Tudo acontece como se eles fornecessem outros tantos códigos diferentes ,utilizado de acordo com as necessidades do momento e segundo sua capacidade individual, para transmitirem a mesma mensagem.

A música possui um poder extraordinário de agir de forma simultânea sobre o espírito e os sentidos, de mover ao mesmo tempo as ideias e emoções, de fundi-las numa corrente em que elas deixam de existir lado a lado, a não ser como testemunha e como respondentes.

Letras das músicas e análise estrutural

” O tempo não pára”

Disparo contra o sol
Sou forte, sou por acaso
Minha metralhadora cheia de mágoas
Eu sou um cara

Cansado de correr
Na direção contrária
Sem pódio de chegada ou beijo de namorada
Eu sou mais um cara

Mas se você achar
Que eu tô derrotado
Saiba que ainda estão rolando os dados
Porque o tempo, o tempo não pára

Dias sim, dias não
Eu vou sobrevivendo sem um arranhão
Da caridade de quem me detesta

A tua piscina tá cheia de ratos
Tuas ideias não correspondem aos fatos
O tempo não pára

Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não pára
Não pára, não, não pára

Eu não tenho data pra comemorar
Às vezes os meus dias são de par em par
Procurando uma agulha num palheiro

Nas noites de frio é melhor nem nascer
Nas de calor, se escolhe: é matar ou morrer
E assim nos tornamos brasileiros

Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro
Transformam o país inteiro num puteiro
Pois assim se ganha mais dinheiro

A tua piscina tá cheia de ratos
Tuas ideias não correspondem aos fatos
O tempo não pára

Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não pára
Não pára, não, não pára

Dias sim, dias não
Eu vou sobrevivendo sem um arranhão
Da caridade de quem me detesta

A tua piscina tá cheia de ratos
Tuas ideias não correspondem aos fatos
O tempo não pára

Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não pára
Não pára, não, não pára

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“Ciao Amore Ciao”

La solita strada, bianca come il sale
Il grano da crescere, i campi da arare
Guardare ogni giorno
Se piove o c’è il sole,
Per saper se domani
Si vive o si muore
E un bel giorno dire basta e andare via.

Ciao amore,
Ciao amore, ciao amore ciao

Andare via lontano
A cercare un altro mondo
Dire adio al cortile,
Andarsene sognando.

E poi mille strade
Grigie come il fumo
In un mondo di luci
Sentirsi nessuno.

Saltare cent’anni
In un giorno solo
Dai carri dei campi
Agli aeri nel cielo
E non capirci niente
E aver voglia di tornare da te.

Ciao amore,
Ciao amore, ciao amore ciao

Non saper fare niente
In un mondo che sa tutto
E non avere un soldo
Memmemo per tornare.
Ciao amore,
Ciao amore, ciao amore ciao
Ciao amore,
Ciao amore, ciao amore ciao

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Ciao Amore Ciao – tradução

A estrada usual branca como o sal,

o grão para crescer, os campos para arar.

Olhar cada dia

se chove ou faz sol,

para saber se amanhã

se vive ou se morre.

E um belo dia para dizer basta e ir embora.

Tchau amor,tchau amor, tchau amor tchau.

Ir embora,

buscar um outro mundo,

dizer adeus ao pátio

se ir embora sonhando.

E após mil estradas

cinzentas como a fumaça,

num mundo de luzes

sentir-se ninguém.

Saltar cem anos

num único dia,

dos carros nos campos

aos aviões no céu.

E não entender nada

e ter vontade de voltar para ti.

Tchau amor,

tchau amor, tchau amor tchau.

Não saber fazer nada

num mundo que sabe tudo,

e não ter um centavo

nem mesmo para retornar.

Tchau amor,

tchau amor, tchau amor tchau.

Tchau amor,

tchau amor, tchau amor tchau.

Tanto na música de Cazuza como no música de Luigi Tenco, encontramos um grande interesse dos autores em fazer alusão ao tempo. Esta alusão fica clara em momentos tais quais:

Mas se você achar
Que eu tô derrotado
Saiba que ainda estão rolando os dados
Porque o tempo, o tempo não pára.” (Cazuza)

“Guardare ogni giorno
Se piove o c’è il sole,
Per saper se domani
Si vive o si muore
E un bel giorno dire basta e andare via.” (Tenco)

Essa perspectiva de ter o tempo como parâmetro para expressão dos sentimentos provoca durante as duas músicas uma constante “luta” de jogos de oposições,onde o homem se vê exposto as dualidades as quais está sendo submetido na vida.

Essa metodologia discursiva, que tem como base o jogo de palavras, por meio de uma série de oposições, tende a não ser resolvida, sendo até certo ponto insuperável. O mundo entrega algo que não é suficiente para preencher o homem.

Estas oposições podem ser encontradas em vários momentos, tais quais:

“Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não pára
Não pára, não, não pára.” (Cazuza)

Non saper fare niente
In un mondo che sa tutto
E non avere un soldo
Memmemo per tornare.” (Tenco)

As oposições que são encontradas em ambas as canções seguem uma certa organização:

  • futuro e passado;
  • eu vejo um museu de grandes novidades;
  • não saber fazer nada em um mundo que sabe tudo (Non saper fare niente in un mondo che sa tutto) ;
  • se vive ou se morre( se vive o si muore);
  • se chove ou faz sol (Se piove o c’è il sole)

A análise nos leva a estabelecer uma distinção entre dois aspectos de construção de mitos: as sequências e os esquemas. As sequências são o conteúdo aparente do mito, os acontecimentos que se sucedem em ordem cronológica. As sequências são organizadas, porém em planos de profundidade variável, em função de esquemas superpostos e simultâneos.

Tanto na música de Cazuza como de Tenco, encontramos um homem em busca de outro mundo, de uma nova perspectiva de vida. O homem da música de Cazuza “está cansado de correr na direção contrária, sem pódio de chegada ou beijo de namorada”.Já o de Tenco passa por mil estradas, sentindo-se ninguém , buscando um mundo com o qual se conecte concretamente. O fusionismo, como tentativa de conciliar os opostos, leva a uma constante tentativa de atingir o inatingível.

No caso, na música de Cazuza,o mito se inicia por uma crítica ao sistema social e necessariamente não possui um fim, uma vez que o futuro repete o passado, e origina um museu de grandes novidades ( não há museus que originam novidades ). Desta forma o passado influi de forma determinante no presente, e já delimita o futuro. Esta crítica a sociedade fica clara em trechos tais quais:

“Nas noites de frio é melhor nem nascer
Nas de calor, se escolhe: é matar ou morrer
E assim nos tornamos brasileiros.”(Cazuza)

“Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro
Transformam o país inteiro num puteiro
Pois assim se ganha mais dinheiro.”(Cazuza)

A partir da análise destas duas estrofes pode se ver que a relação entre o real e o mito é indiscutível. Ela é de natureza dialética e as instituições descritas nos mitos podem ser o inverso das instituições reais. Isto , aliás, acontecerá sempre que o mito procure exprimir uma verdade negativa.

O estudo dos mitos efetivamente coloca um problema metodológico , na medida em que não pode adequar-se ao princípio cartesiano de dividir a dificuldade em tantas partes quantas forem necessárias para resolvê-lo.

Mas o fato de a música ser uma linguagem – por meio da qual são elaboradas mensagens das quais pelo menos algumas são compreendidas pela imensa maioria , ao passo que apenas uma ínfima minoria é capaz de emiti-las , e de , entre todas as linguagens, ser esta a única que reúne características contraditórias de ser ao mesmo tempo inteligível e intraduzível – faz do criador da música um ser igual aos deuses, e da própria música , o supremo mistério das ciências do homem , contra o qual elas esbarram, e que guarda a chave de seu progresso.

Na música de Cazuza as estrofes a serem repetidas remetem com maior frequência ao tempo e as falhas dos homens que não permitem com que passemos a um estágio de verdadeiras novidades.

As estrofes são as seguintes:

“Dias sim, dias não
Eu vou sobrevivendo sem um arranhão
Da caridade de quem me detesta.”

“A tua piscina tá cheia de ratos
Tuas ideias não correspondem aos fatos
O tempo não pára.”

Na música de Luigi Tenco, encontramos uma crítica ao mundo, que necessariamente não se limita ao sistema social, mas também destaca o papel da mulher na desilusão do homem. Assim como Cazuza, Tenco explora as oposições, conforme foi visto anteriormente. Porém o papel da mulher é latente comparada a crítica feita ao mundo a seu redor.

Tenco utiliza-se constantemente da estrofe:

Ciao amore,
Ciao amore, ciao amore ciao
Ciao amore,
Ciao amore, ciao amore ciao.”

Ela é repetida com uma certa frequência, e demonstra a infelicidade proporcionada pela despedida de sua amada, que de certa forma faz com que o homem se aliene do meio social, não sabendo fazer nada em um mundo que tudo sabe /que sabe tudo.

A desilusão, mais do que a crítica social, não é uma condição tolerável pelo homem. Deve-se concluir que , portanto, para o homem da música de Tenco, a única maneira positiva do ser consiste numa negação do não-ser. O homem diz viver em um mundo de luzes, que de certa forma poderia fazê-lo se afirmar no meio social, mas não consegue atingir este patamar. De modo que fica claro na estrofe que ele sente-se ninguém no meio social:

“E poi mille strade
Grigie come il fumo
In un mondo di luci
Sentirsi nessuno.

Haja vista, pode-se perceber em Cazuza e Tenco um descontentamento do mundo. Estas perspectivas encontradas em Cazuza e Tenco foram transfiguradas pelo tempo. Merecendo ser reiterado que os mitos morrem, mas não no tempo, e sim no espaço.

Estas transfigurações que se operam de uma variante à outra de um mesmo mito , de um mito a um outro mito , de uma sociedade a uma outra sociedade com referência aos mesmos mitos ou a mitos diferentes, afetam ora a armadura, ora o código, ora a mensagem do mito, mas sem que este deixe de existir como tal; elas respeitam assim uma espécie de princípio de conservação da matéria mítica , em função do qual qualquer mito sempre poderá sair de um outro mito.

Entretanto acontecerá com frequência uma alteração na integridade da fórmula primitiva. Esta fórmula pode se degenerar ou progredir, para além ou aquém do estágio em que os caracteres distintivos do mito permaneçam ainda reconhecíveis, onde este conserva o que na linguagem dos músicos é chamado de compleição.

Ambas as músicas foram escritas em períodos distintos e em culturas distintas.

Luigi Tenco vivia em uma Itália da década de 1960, um período no qual o país vinha de um crescimento econômico e participava da fundação da Comunidade Econômica Europeia (CEE), atual União Europeia. Naquele contexto, a decisão da Democracia Cristã (DC) de manter-se no poder e excluir os comunistas – que formavam o segundo partido político italiano – provocou uma instabilidade permanente, de modo que provocou um período de recessão e crise financeira que minou o Estado.

O Brasil da década de 1980, o de Cazuza, passava pelo processo de redemocratização, com a promulgação da sétima Constituição, que colocava fim a mais de 20 anos de regime militar.

Merece destacar que na década de 1960 e 1970 as músicas italiana e francesa tinham grande destaque no cenário brasileiro, tornando-se comum suas reproduções nos meios de comunicação, promovendo uma conexão de diferentes realidades sócio-culturais.

Isto confirma a ideia de que as realidades de diferentes povos em diferentes contextos possam ser compartilhadas, ganhando, logicamente, características específicas.

Assim, um mito que se transforma passando de sociedade em sociedade, de país em país, de continente em continente, finalmente se enfraquece, sem por isso desaparecer. Duas vias lhe permanecem abertas: a da elaboração romanesca e a da reutilização para fins da legitimação histórica. Por sua vez esta história pode ser de dois tipos :

  • Retrospectiva – para fundar uma ordem tradicional sobre um passado longínquo , ou
  • Prospectiva – para fazer deste passado o início de um futuro que começa a desenhar-se.

Portanto, ambas as histórias podem ser vistas nas canções selecionadas para esta análise.

A história prospectiva e retrospectiva caminham juntas em certos momentos mostrando que o mito fundado no passado promove influências no presente e desenham o futuro da humanidade, seja em uma tribo indígena nos confins amazônicos, como em megalópoles como Nova York.

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