Do Nazismo ao Neonazismo : ‘a herança da intolerância permanece viva’. – por Moacir Pereira Alencar Junior

Introdução

Em 1815, após o fim das guerras napoleônicas, é organizada a Confederação Germânica, sob a hegemonia da Áustria e da Prússia. As revoluções populares de 1848, marcadas pelo nacionalismo e por aspirações liberais, levaram a formação do primeiro Parlamento Germânico. Em 1862, Otto von Bismarck tornou-se chanceler da Prússia, introduzindo um programa de desenvolvimento industrial e de modernização do Exército.

A Unificação da Alemanha envolveu guerras contra Dinamarca (1864), Áustria (1866) e França (1870). Em 1871, Guilherme I foi proclamado Kaiser (imperador) do II Reich. A partir de 1880, a nação passou por nova expansão econômica.

O sociólogo alemão Max Weber dizia em sua obra “Parlamentarismo e Governo em uma Alemanha Reconstruída”que a política nacional de Bismarck pretendia exclusivamente impedir a consolidação de qualquer partido forte e independente. Seus meios imediatos foram o orçamento militar e a legislação anti-socialista (de 1878-1890) ; além disso, Bismarck manipulou com total deliberação e destreza o choque de interesses econômicos sobre a política tarifária.Também ,segundo Weber, Bismarck se utilizou das disposições de legislação anti-socialista para fazer a polícia destruir os sindicatos, os únicos possíveis portadores de uma representação realista de interesses da classe operária.

Em 1900, Guilherme II,último imperador alemão e rei da Prússia, proferiu um abominável discurso “Huno”, de onde derivou o epíteto comumente aplicado aos soldados alemães nos países anglo-saxões durante a I Guerra Mundial. Ao despachar as tropas que iriam participar da sufocação da Rebelião Boxer, Guilherme II, acompanhado do conde Waldersee como comandante-em-chefe nominal da força expedicionária internacional de tropas russas, japonesas e inglesas, disse: “Não se dará perdão, não se farão prisioneiros. Quem quer que caia em vossas mãos estará à vossa mercê. Assim como os Hunos sob Átila tornaram famoso o nome de sua raça há mil anos,que ainda nos assombra em tradições e lendas, vós imprimireis o nome dos alemães sobre a China por mil anos vindouros, de forma que nenhum chinês jamais ousará levantar novamente o mesmo olhar scheel (vesgo) a um alemão”- um péssimo trocadilho, ele gostava de empregar termos como o do “punho de ferro”que a Alemanha queria aplicar ao mundo. Os discursos penitenciários de Guilherme II já mostrava os rumos que a Alemanha adotaria no Século XX.

A I Guerra Mundial e a República de Weimar

A rivalidade comercial entre Grã-Bretanha e Alemanha, o revanchismo francês à Alemanha devido a Guerra Franco-prussiana, a rivalidade austro-russa relativa a hegemonia na Península Balcânica e o pan-eslavismo sérvio levariam a I Guerra Mundial.

Sob Guilherme II, a Alemanha passou a apoiar o império Austro-Húngaro contra a Rússia, e veio a ser uma das grandes derrotadas. Com a derrota na guerra foi proclamada a República de Weimar.

Na seqüência, o Tratado de Versalhes pôs fim ao conflito, proibindo o rearmamento alemão, impondo perdas de territórios e estabelecendo pesadas reparações financeiras referentes a guerra. A República de Weimar durou 14 anos (1919-1933) e apresentou graves problemas econômicos e sociais; a inflação disparou em decorrência da emissão de moedas para o pagamento das dívidas relacionadas a guerra.

A partir de 1924, Weimar conseguiu reestruturar seu sistema monetário e passou a apresentar um aumento no crescimento industrial ,vivendo relativa prosperidade econômica, até ser atingida pelo crash da Bolsa de valores de Nova York, em 1929. É neste momento, depois do crash de Wall Street, em setembro de 1930, que começaria o triunfo eleitoral dos nazistas ,que passaram a conquistar maior apoio da população camponesa e do proletariado, além de ter o apoio de membros do empresariado alemã. Porém ,seria em 1933 que Adolph Hitler seria nomeado chanceler alemão, pelo presidente Hindenburg. Com a morte de Hindenburg ,em agosto de 1934, Adolph Hitler passou a concentrar em suas mãos o título de chefe de estado e de governo, assumindo assim o papel de Führer ( líder do povo alemão).

III Reich e o governo nazista

Com plenos poderes, Hitler cancelou os pagamentos das reparações de guerra e deixou de praticar as regras pré-estabelecidas pelas nações vencedoras da I Guerra Mundial no Tratado de Versalhes. Voltou a reativar a indústria bélica do país e o serviço militar obrigatório; passou a suprimir liberdades políticas e civis, e passou a defender a superioridade da raça ariana e o expansionismo alemão.

Todos os partidos políticos, exceto o nazista, foram proibidos; os sindicatos foram fechados; a imprensa foi censurada e a perseguição a ciganos, homossexuais, oposicionistas, deficientes e judeus foram iniciadas.

Hitler dizia no livro ‘Minha Luta’ que: “Toda propaganda deve ser popular e estabelecer o seu nível espiritual de acordo com a capacidade de compreensão do mais ignorante dentre aqueles a que ela pretende se dirigir. A finalidade da propaganda não é educação científica de cada um, é sim chamar a atenção da massa sobre determinados fatos , necessidades,etc, cuja importância só assim cai no círculo visual da massa”. Por isso, assistimos durante o III Reich a censura à imprensa e a criação de uma grande máquina propagandista pró-nazismo,administrada pelo Ministro de Propaganda Joseph Goebbels, fazendo com que vários setores da população fossem conquistados. Merece ser destacado que Goebbels sustentava em seu “Diário” que: “Qualquer mentira, desde que suficientemente repetida, acaba sendo aceita como verdade.”

Durante os anos de 1934-1938 , a Alemanha apresentou um acelerado desenvolvimento econômico promovido por reformas. Neste período, as principais potências ocidentais permitiram o crescimento do Nazismo para tentar bloquear a influência da URSS e do comunismo na Europa. Não encontrando resistência por parte das grandes potências, a Alemanha, no ano de 1936, ocupou a Renânia e iniciou uma ofensiva diplomática forjando alianças. Neste período passou a auxiliar economicamente a Itália Fascista de Mussolini e a apoiar o governo franquista na Espanha , além de assinar com o Japão um pacto contra os soviéticos.

Em 1938 ocupou a Áustria, considerado país amigo. Depois, com a condição de não invadir a Polônia, recebeu aval da França e da Inglaterra para ocupar a região dos Sudetos, região habitada por alemães. Hitler aproveitou as desconfianças soviéticas em relação as potências capitalistas e assinou um acordo de não agressão com Josef Stálin. Estava aberto o caminho para Hitler tentar dominar as principais potências européias. O desfecho desta política expansionista alemã daria origem ao mais sangrento conflito da história (II Guerra Mundial). Em 1945 os nazistas foram derrotados; e na Conferência de Potsdam sofreram severas punições, vendo seu território ser dividido em quatro zonas de ocupação: soviética, norte- americana, francesa e britânica.

Guerra Fria e a Reunificação Alemã

Em 1949, a divisão da Alemanha em República Federativa da Alemanha(RFA) (capitalista) e República Democrática da Alemanha (RDA) (socialista) concluiu o fechamento da chamada “cortina de ferro”, expressão criada por Winston Churchill (então primeiro-ministro britânico). Somente em 1989, com a queda do Muro de Berlim, deu-se início ao processo de reunificação alemã, que seria oficializado em outubro de 1990. Com a reunificação, as disparidades entre o leste e o oeste alemão se tornaram evidentes, provocando um clima de tensão social e a ocorrência de atentados de grupos neonazistas contra imigrantes.

Imigração e Neonazismo na Alemanha

Desde a reunificação, a Alemanha permanece atraindo milhares de imigrantes, o que alimenta um crescente sentimento xenófobo, de rejeição aos estrangeiros. Porém, a estagnação demográfica torna o país dependente de mão-de-obra externa.

Os neonazistas, seguindo as idéias nazistas, pregam a superioridade do povo alemão frente aos imigrantes e constantemente adotam medidas extremas, como: atentados , assassinatos, agressões e outras ações de caráter xenófobo contra cidadãos de várias nacionalidades, ideologias, raças e religiões, como exemplos podemos citar: turcos, árabes, poloneses, judeus, africanos, latino-americanos ,ciganos, homossexuais, dentre outros. Isto ocorre ,principalmente, na região da antiga Alemanha Oriental. Evitando minimizar estes eventos, o governo alemão aprovou em 2002 uma lei que passou a favorecer a entrada de estrangeiros com boa qualificação, impondo assim, maior rigor contra a imigração ilegal.

Parte do que ocorre na região oriental da Alemanha pode ser explicado pelo “choque do capitalismo pós-reunificação”. A entrada incontrolável de produtos manufaturados do oeste para o leste alemão fez com que as defasadas indústrias da era comunista viessem a ser fechadas, desencadeando uma alta excessiva de desempregos. Em contrapartida, as grandes companhias do oeste alemão não demonstraram interesse em promover investimentos na região oriental do país. Isto fez com que o leste alemão passasse a ter, em sua maioria, empresas de pequeno porte, sem poder competitivo.

Visando apaziguar estas disparidades, o governo criou o Pacto da Solidariedade, que vale até 2019. Este Pacto prevê uma ajuda financeira ao leste, por parte dos trabalhadores do oeste, que destinam 5,5% do salário ao programa. Porém, a disparidade tende a permanecer. Possivelmente haverá somente uma breve diminuição destas disparidades econômico-sociais.

Um estudo feito pelo Instituto de Pesquisas Alemão TNS-Emnid ,divulgou em 2007 uma pesquisa que tinha como objetivo avaliar a insatisfação dos cidadãos alemães quanto as disparidades econômicas entre leste e oeste. Os resultados mostraram que um em cada cinco alemães é favorável a reconstrução do Muro de Berlim ; e 74% dos moradores do leste sentem serem cidadãos de segunda categoria.

A população estimada da Alemanha é de 82,5 milhões de habitantes, dos quais, aproximadamente 7 milhões são estrangeiros, sendo que 25,4% são turcos (cerca de 1,7 milhões de habitantes), o maior grupo de estrangeiros da República Federal da Alemanha, que sofrem constantemente com as ações xenófobas dos neonazistas.

Neonazismo não existe apenas na Alemanha

Os movimentos de caráter neonazista existem em diversas partes do mundo ,cada um apresentando sua particularidade.

No Brasil, podemos destacar a White Power, que originou-se em São Paulo ; os membros deste grupo pregam o orgulho de serem brancos e descendentes de europeus. Eles são contra a migração de nordestinos para o Sudeste do país.

Nos EUA, temos a Ku Klux Klan, organização racista fundada em 1865 por cavaleiros encapuzados que assassinavam negros. Eles pregam a supremacia branca e o protestantismo em detrimento a outras religiões. Incrivelmente, esta organização permanece ativa, atuando esporadicamente.

Estes são meros exemplos, há milhares de grupos racistas espalhados em todos os continentes, cada um pregando uma nova teoria racista contra os mais diversos grupos étnico-culturais existentes.

Conclusões

Uma escola de pensamento antropológico, o Difusionismo , que predominou nas primeiras décadas do século XX defendia a idéia de que havia um número limitado de localidades, possivelmente apenas uma, da qual os mais importantes traços culturais difundiram-se para o resto do mundo. Hoje, no Século XXI, não há dúvidas de que os traços culturais são transmitidos de uma sociedade para outra. Traços culturais distintos são transferidos de uma cultura para outra das mais diferentes maneiras: por guerras, por comércio, por migração, etc.

Como dizia um outdoor em Frankfurt, na Alemanha, logo após a reunificação, em outubro de 1990: “Teu Cristo é judeu , teu carro japonês, tua pizza italiana, tua democracia grega, teu café brasileiro, tuas férias são turcas , teus números árabes, teu alfabeto é latino. E teu vizinho é tão somente estrangeiro?”

Em suma, o mundo em que vivemos é a soma de conhecimentos, crenças, artes, morais, leis e costumes das mais diversas culturas existentes. Considerar-se superior ao próximo é algo impensado e impossível de ser posto em prática. Apenas seres irreais podem crer em uma raça suprema, perfeita e visionária.

Published in: on 08/06/2009 at 17:32  Deixe um comentário  
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Max Weber ( 1864 – 1920 )

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Max Weber nasce em Erfurt, Turíngia, a 21 de abril de 1864.

Em 1869 muda-se para Berlim com a família.

No ano de 1882 conclui seus estudos pré-universitários e matricula-se na Faculdade de Direito de Heidelberg.No ano seguinte transfere-se para Estrasburgo , onde presta um ano de serviço militar. Em 1884 reinicia os estudos universitários.

Em 1888 conclui seus estudos e começa a trabalhar nos tribunais de Berlim.No ano seguinte escreve sua tese de doutoramento sobre a história das companhias de comércio da  Idade Média.

Em 1891 escreve uma tese : História das Instituições Agrárias. Dois anos depois casa-se com Marianne Schnitger.

Em 1894 exerce a cátedra de economia na Universidade de Freiburg. Dois anos depois aceita uma cátedra em Heidelberg.

Em 1898 consegue uma licença remunerada na universidade , por motivo de saúde. No ano seguinte é internado em uma casa de saúde para doentes mentais , onde permanece algumas semanas.

Em 1903 participa, junto com Sombart , da direção de uma das mais destacadas publicações de ciências sociais da Alemanha. No ano seguinte publica ensaios sobre os problemas econômicos das propriedades dos Junker , sobre a objetividade nas ciências sociais e a primeira parte de “A ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”.

Em 1905 parte para os EUA , onde pronuncia conferências e recolhe material para continuação de “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”. No ano seguinte redige dois ensaios sobre a Rússia: “A situação da Democracia Burguesa na Rússia” e “A transição da Rússia para o Constitucionalismo de Fachada”.

Em 1914 inicia-se a Primeira Guerra Mundial, e Weber , no posto de capitão, é encarregado de organizar e administrar nove hospitais em Heidelberg.

Em 1918 transfere-se para Viena, onde dá um curso sob o título de “Uma Crítica Positiva da Concepção Materialista da História”. No ano seguinte , pronuncia conferências em Munique , que serão publicadas sob o título de “História Econômica Geral”.

Em 1920  falece em consequência de uma pneumonia aguda.

Alexis de Tocqueville (1805 – 1859) e “A democracia na América”. – por Moacir Pereira Alencar Junior

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Tocqueville nasceu em 1805, em uma família aristocrática, na região da Normandia, na França. Sensibilizado com a alteração da realidade política e social na França pós revolução, ele avaliava com tristeza o que ocorreu com seus familiares, que vieram a ser presos , executados e assistiram a redução do poder aristocrático após o Período do Terror, do governo de Robespierre. Isto fez com que Tocqueville passasse a ter raiva da Revolução e dos populares, os quais ele considerava serem personagens farsescos.

Em sua obra sobre a democracia na América ele explicava que os EUA eram um país único entre as nações ocidentais, pois teriam formado uma democracia pura , sem as nódoas do Feudalismo. Sem ter herdado posições sociais, todo americano era cidadão, igual a todos os outros perante a lei. A cidadania estava entronizada na Constituição Federal e era sustentada economicamente pela revisão do sistema legal inglês de primogenitura, que determinava a divisão patrimonial entre todos os filhos de forma igualitária. Isto veio a diluir o poder da riqueza herdada baseada na terra e aumentou o poder do dinheiro, uma base mais apurada de distinção social.

O direito universal masculino, imposto desde os primórdios da república, segundo Tocqueville, fazia do governo o resultado cumulativo da democracia participativa.

Um sistema político de “baixo para cima” surgiu em associações locais, como nas cidades da Nova Inglaterra e na sequência os condados, estados e o governo federal evoluíram sobre esta  base popular. As administrações estaduais tinham seus próprios setores de governo e sua própria constituição, além de existir grupos de cidadãos, que em conjunto buscavam contrabalancear o poder do governo federal. Todo cidadão tinha na Constituição a garantia de certos “direitos inalienáveis”.

Para Tocqueville, um dos problemas mais graves da democracia na América era a “tirania da maioria”. Criavam-se fortes pressões sociais para se internalizar o controle social. Os cidadãos eram leais ao “aplauso a si mesmo”. Para Tocqueville, a liberdade de opinião não existia na América. Quanto aos negros e indígenas, Tocqueville dizia que eles estavam ligados à democracia, mas não faziam parte dela, eles viviam em sociedades paralelas.

Mesmo que ocorresse a aboliçã0 da escravatura, Tocqueville dizia que os negros viveriam uma falsa liberdade. Já os indígenas, apenas ocupariam menos terras e não as possuiriam. Para Tocqueville, a extinção destas raças seria inevitável.

Tocqueville também dizia que o individualismo era um traço característico notório dos americanos. Eles viviam a satisfação dos desejos imediatos. Eles tenderiam a se isolar em grupos e deixariam o resto da sociedade cuidar de si mesma.

Em suma, os EUA de Tocqueville era um estado descentralizado e baseado em direitos, e legitimado pela vontade da população. Tocqueville acreditava que a liberdade prevalecia sobre a igualdade. Ele também era contra o Socialismo, considerando-o uma demagogia.