“Liceu Coração de Jesus : Um coração na educação , vítima da degradação.” – por Moacir Pereira Alencar Junior

Torre do Liceu Coração de Jesus

Fundado em 1885, por São João Dom Bosco,  com auxílio da Princesa Isabel, o Liceu Coração de Jesus, onde estudaram personagens como Monteiro Lobato, Grande Otelo, Toquinho, Zeferino Vaz, Carvalho Pinto, Vicente Feola e Noite Ilustrada definha em meio à cracolândia, área degradada do centro de São Paulo, que abriga centenas de usuários de crack.

A presença constante dos “viciados em crack” no entorno do Liceu espanta alunos novos e, há pelo menos oito anos, tem motivado transferência de estudantes. O problema é tão grave que o colégio que ocupa uma área de 17 mil metros quadrados, tem hoje só 288 alunos – há trinta anos eram 3000.

vista aérea do Liceu

O Liceu, tombado pelo patrimônio histórico, acompanhou as mudanças da cidade. No início chamava-se Liceu de Artes, Ofícios e Comércio e atendia aos filhos de imigrantes italianos e dos negros libertos, que estudavam gratuitamente nas oficinas de sapataria e alfaiataria. Mais tarde , serviu como internato para filhos de fazendeiros de café. Depois teve cursos universitários e técnicos.

Hoje, mesmo com todos os problemas, o Padre Benedito Spinoza (diretor) diz que o Liceu não vai fechar. “Não vamos desistir. Educar é  vida dos salesianos e já investimos muito dinheiro aqui. Tenho esperança no ensino integral, que tem aumentado a procura, pois os pais entram de carro no pátio do colégio e deixam as crianças aqui, diferentemente dos jovens do Ensino Médio, que costumam vir sozinhos e, por isso , acabam  sendo vítimas desta situação de não cidadania, que penetra em seu coração e planta a semente do medo e da indiferença.”

Com uma infra-estrutura impecável, com conservatório de música e um teatro com mais de 750 lugares, onde todo ano ocorria as Maratonas Culturais, as quais permitiam aos alunos mostrar seus conhecimentos, tanto artísticos como os conquistados na sala de aula, o Liceu, assiste a um processo nunca esperado por um colégio de seu porte.

Quem não se lembra das famosas Olimpíadas do Liceu ( que ocorreram por diversos anos no estádio do Ibirapuera ), que promoviam o espírito de luta e superação por meio do esporte  entre as turmas de todas as séries. Era um evento único entre  os colégios do Estado de São Paulo.

Um dos estopins que levaram a degradação desta região foi a saída da sede do governo do Estado de São Paulo do Palácio dos Campos Elíseos para o Palácio dos Bandeirantes, no ano de 1965. O Glamour da região central da cidade de São Paulo,tendo a sede do governo na Avenida Rio Branco, era um fator de prestígio a região.

Durante anos a região ficou sem investimentos de revitalização, e belos locais como o Parque da Luz, a Estação Júlio Prestes e o Liceu tornaram-se alvos deste crescimento desenfreado da falta de atencão do governo nas questões de segurança e de defesa do patrimônio público e privado.

palácio dos campos elíseos , no fundo à direita, torre do colégio Liceu Coração de Jesus

Região passa por tentativa de revitalização

A perseverança dos Salesianos em manter  aberto o Liceu Coração de Jesus é por conta das intenções dos órgãos públicos de revitalizar a região. Em frente ao colégio, na alameda Dino Bueno, está sendo construído um Sesc. A prefeitura também pretende transformar um quarteirão na Sede do Centro Paula Souza. E há um projeto de um complexo cultural de dança.

Apesar do otimismo, pouco foi feito desde 2005, quando foi anunciado o projeto de revitalização.  A previsão de início das obras era para 2011, mas deve atrasar, já que a licitação para o projeto urbanístico está parada no TCM ( Tribunal de Contas do Município ).

Fui estudante do Liceu (1988 – 1998 )

Certificado Ensino Fundamental - 1998 - Liceu

Como estudante do Liceu entre os anos de 1988 e 1998,vejo com tristeza este episódio de descaso do governo para com a região dos Campos Elíseos, Bom Retiro e Luz.

Assim como a Folha de São Paulo, que dedica uma reportagem especial sobre o Liceu no Caderno Folha Cotidiano do dia de hoje (28/10/2009) , dedico este artigo ao colégio que acolheu a mim, e fez parte de momentos importantes de minha vida. Espero poder estar contribuindo para que esta história, que já dura 124 anos, não termine assim. Afinal um coração na educação, caso do Liceu, não pode ter um fim por ser vítima da degradação.

Eu na Maratona Cultural - ano de 1991

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O OBJETIVISMO ABSTRATO POR SAUSSURE: “ALGUNS APONTAMENTOS PELA PERSPECTIVA BAKHTINIANA”.

Escrito por Ana Lígia Criado Suman

e-mail: ligiaspanic@yahoo.com.br

bakhtin

Como recorrente à obra Marxismo e Filosofia da Linguagem de Bakhtin, coloca-se como questionamento norteador do capítulo quatro — Das Orientações do Pensamento Filosófico-Línguístico — a inquietação quanto à possibilidade de precisar e ou/situar, em aspectos de natureza teórico-metodológica, o objeto a ser tomado pelo estudo pela filosofia da linguagem, em diálogo com o campo de atuação da linguística geral quanto aos possíveis caminhos e soluções para a problemática apresentada. Como já referido pelo próprio nome do capítulo, são colocadas em relação de oposição duas orientações de pensamento que direcionarão por sua vez as indagações acerca dos estudos sobre linguagem no âmbito filosófico-linguístico, a saber, o Subjetivismo Idealista e o Objetivismo Abstrato.

De modo específico, as considerações aqui realizadas se focalizarão na segunda orientação a partir de uma leitura feita por Bakhtin no que diz respeito à sua configuração e principais características abordadas na época contemporânea, início do século XX, tendo como principal representante e difundidor desse ideário o linguista Ferdinand de Saussure.

A vertente do Objetivismo Abstrato vem a se consubstanciar num projeto de centralidade que objetiva compreender numa totalidade singular os fatos da Língua, partindo de uma ciência que se define por uma base sistêmica pautada pela exatidão e imobilidade de seus elementos lingüísticos, a prova de qualquer natureza transformadora. O sistema linguístico em questão vem a se constituir pelos pilares das formas fonéticas, gramaticais e lexicais da língua funcionando pelo ditame normativo que as identificarão em suas especificidades categóricas num determinado ponto no tempo, se distanciando de modo independente de uma criação individual propiciada pelo próprio sujeito falante.

Exclui-se assim a perspectiva sócio-histórica da língua ao ser apresentada para o indivíduo como norma indestrutível, decisiva, imutável pela condição de produto acabado, em que suas leis lingüísticas se distanciam de uma explicação ideológica, — destoam palavra e sentido sob uma condição de produção social — para se constituir de maneira fechada, independente, autônoma e arbitrária, considerada num posicionamento sincrônico que a unifica e enrijece (imobilidade), ao contrário de tomá-la em movimento diacrônico em suas mudanças históricas (transformação, inconstância).

A língua por sua vez, em seu modo de significância no sentido saussuriano, se focará em termos semióticos como sistema lingüístico em que seus elementos se definem por suas relações com os outros elementos do sistema (próprio do signo lingüístico), numa sucessão de unidades em que as mesmas se reconhecem e se completam mutuamente enquanto tais pela subordinação própria do sistema, instaurando-se assim um campo da pura distintividade e identificação em seu diferencial com o outro, perfeitamente explicável segundo Saussure como ciência pelo viés exclusivo da descrição sincrônica mencionada anteriormente.

O diálogo feito com a corrente racionalista dos séculos XVII e XVIII — e posteriormente no século XX a corrente estruturalista com o Curso de Linguística Geral em 1916 — quantos aos princípios lógicos que conduzem o funcionamento da língua na orientação do pensamento filosófico-linguístico em questão é, pois, abordado numa correlação importante para o entendimento do mesmo em correspondência íntima entre código lingüístico e código matemático. Pode-se compreender tal relação ao considerar-se que

(…) o que interessa não é a relação do signo com a realidade por ele refletida ou com o indivíduo que o engendra, mas a relação do signo para signo no interior de um sistema fechado, […] só lhes interessa a lógica interna do próprio sistema de signos; esse é considerado, assim como na lógica, independentemente por completo das significações ideológicas a que se ligam. (BAKHTIN, 1999, p. 83, grifos do autor).

Saussure por sua vez estabelece uma tríplice distinção no campo da linguagem entre língua (sob a sistemática apresentada) e fala — esta última reconhecendo-a, porém não a considerando instância relevante diante da perspectiva descritiva estrutural da língua em que já se explica o modo como seus componentes (formas) se encaixam, alcançando assim uma posição de auto-suficiência na relação língua = forma ≠ substância (conteúdo) —.

A linguagem assim, em sua privação de unidade e regularidade por um eixo centralizador não foi para Saussure capacitada ao estado de objeto da lingüística, prevalecendo, como o esperado em tal posição, o próprio sistema lingüístico, focalizado nele mesmo e por ele mesmo em condição de abstração das possíveis forças históricas que lhe deram origem, a matriz social em que funciona e o processo psicológico que adquire e disponibiliza a sua utilização no comportamento lingüístico (princípio de autonomia da lingüística).

Por meio de um posicionamento crítico, construindo uma frente de embate quanto aos princípios do objetivismo abstrato em sua dissonante conformação com a realidade que envolve a língua, tomando-a por sua vez em condição de normatividade das formas, Bakhtin apresenta no capítulo cinco — Língua, Fala e Enunciação — o que é de fato separado/recusado pelo sistema lingüístico, ou seja, o conteúdo ideológico das mais diversas possibilidades de enunciação, vindo assim a refletir, como forma de oposição, sobre a existência do diálogo constante com uma contextualização (norma social) que permite o uso da língua na compreensão de suas formas em suas particularidades passíveis de variações e flexibilidades (conteúdo) nas interações verbais (atos de fala).

Partindo de questionamentos que atuam no sentido de desestabilizar os pressupostos sustentados pelo objetivismo abstrato, estando os mesmos sob condições consideradas indiscutíveis e profícuas quanto ao que se toma como propósitos necessários e reais à língua, Bakhtin ao contestar o sistema perpassa pelo campo dos estudos filológicos e às exigências desse último como fruto do surgimento da linguística, referindo-se, a partir dessa relação, ao estatuto de língua morta como sendo objeto comum de estudo a ambos (filologia e linguística) pela óptica sincrônica, assim como o papel análogo da abordagem filológica em se desligar da esfera do real-social e ausentar-se da compreensão ideológica em suas análises, entendendo a palavra como um todo isolado, detentora de um sentido uno anexado em sua forma correspondente.

Por fim, após um percurso realizado por uma perspectiva pedagógica na qual a reflexão lingüística se insere por meio da problemática do ensino de língua pautado pela rigidez do sistema que impõe suas formas, Bakhtin destaca, ao considerar a língua como um fenômeno genuinamente histórico — portanto se constituindo ininterruptamente pelo múltiplo da esfera social —, ao mesmo tempo em que desconstrói — no sentido da condição absoluta e única reservada à língua pelos preceitos normativos — o caráter essencialmente contraditório do objetivismo abstrato pelo foco racionalista-mecanicista-estrutural proporcionado à língua, em detrimento a sua produção de significação pelas interações verbais como também por suas transformações no âmbito sócio-histórico.

Referências:

BAKHTIN, Mikhail. Das orientações do Pensamento Filosófico-Científico. In: Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico da linguagem. 9 ed. São Paulo: Hucitec, 1999.

__________. Língua, Fala e Enunciação. In: Marxismo e Filosofia da Linguagem: problemas fundamentais do método sociológico da linguagem. 9 ed. São Paulo: Hucitec, 1999.

“ESTRUTURALISMO”

Saussure

Corrente de pensamento que adota a estrutura – um conjunto de elementos relacionados entre si e com o todo – como conceito metodológico essencial.

O estruturalismo começa no início do século XX , com o trabalho do linguista suíço Ferdinand de Sausurre ( 1857-1913 ) , tornando-se mais tarde uma das principais correntes das ciências humanas. Na filosofia, não chega a ser uma escola com contornos definidos , mas teve grande difusão por levar à compreensão mais abrangente do conjunto dos fatos.

“CARTESIANISMO”

Descartes

Movimento filosófico cuja origem é o pensamento do francês René Descartes (1596-1650) , considerado o fundador da filosofia moderna .

Para Descartes, nem os sentidos, que podem enganar-nos , nem as idéias , que seriam confusas , são capazes de nos conduzir ao entendimento da realidade. Assim , desenvolve um sistema de raciocínio que se baseia no método da dúvida e da evidência , sem pressupor certezas nem verdades , como era tradição entre os pensadores que o antecederam.

O método cartesiano transforma o mundo em algo que pode ser quantificado , revolucionando todos os campos do pensamento à época e permitindo o desenvolvimento da ciência moderna.