Plínio Corrêa de Oliveira: Pensamento Católico e Ação Política na Era Vargas (1930-1945)

Plínio Corrêa de Oliveira em foto de 1933, quando deputado Constituinte entre 1933/1934.  a Assembleia Constituinte de 1933/1934

Plínio Corrêa de Oliveira em foto de 1933, quando deputado Constituinte por São Paulo, atuando na Assembleia Constituinte de 1933/1934

Hoje disponibilizo minha dissertação de mestrado em Ciência Política, em sua versão final digitalizada (PDF) para todos interessados no estudo do catolicismo e na ação política dos intelectuais católicos na Era Vargas.  O intelectual católico analisado foi  Plínio Corrêa de Oliveira, a quem dediquei mais de três anos de estudos. Comecei a estudá-lo ainda na graduação em ciências sociais, em 2011, com o historiador Marco Antonio Villa. Minha monografia analisou a Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição Família e Propriedade, e o papel da instituição como grupo de pressão na Assembleia Constituinte de 1987/1988.

Já no mestrado,  me dediquei a estudar o intelectual e pensador católico Plínio Corrêa de Oliveira na Era Vargas (1930-1945); sua atuação no pensamento católico e sua ação política neste cenário. Nesta fase de mestrado contei com a orientação inicial de Marco Antonio Villa, e após sua aposentadoria, quem assumiu a batuta e caminhou comigo até o fim foi a cientista política Vera Cepêda.  Agradeço imensamente aos dois pelo auxílio e atenção prestada durante todo este período

Disponibilizo aqui o resumo que determina o foco central da minha dissertação:

A década de 1930 representou uma nova fase na História do Brasil. A Revolução de 1930 pôs fim a Primeira República, que perdurou por exatos 41 anos (1889-1930). Também merece ser ressaltada a conjuntura internacional do período, onde uma grave crise econômica abala os EUA e os países europeus, levantando questionamentos sobre a funcionalidade das instituições democráticas, aumentando o surgimento de estados fortes, pautados em uma postura mais intervencionista, seja na estrutura social como na economia. Dentro desta perspectiva, no Brasil, as novas elites no poder, vinculadas a Getúlio Vargas, governam o país em meio a uma grande quantidade de eventos. Assistiremos a uma época de verdadeira ebulição de ideologias e de ações doutrinárias movimentando a intelectualidade nacional. O país assiste a ascensão de variados movimentos: políticos, católicos, sociais, etc. Neste momento ocorre a ascensão do PCB (Partido Comunista Brasileiro), o surgimento da AIB (Ação Integralista Brasileira), assim como a consolidação da LEC (Liga Eleitoral Católica). O movimento católico, representado por diferentes figuras intelectuais, mantém uma ala eminentemente conservadora e tradicionalista, que passará a visualizar em seu horizonte os primeiros sinais e mobilizações que virão a originar no país – com mais força, a partir da segunda metade da década de 1940 – o catolicismo progressista e modernista, inspirado no humanismo integral. Uma das principais figuras intelectuais deste período, no estado de São Paulo, será Plínio Corrêa de Oliveira. Advogado e católico fervoroso, filho de uma família de formação ultramontana e monarquista, ele representará por meio de seu pensamento e ação política a vertente conservadora católica. A meta desta dissertação é analisar a trajetória de Plínio Corrêa de Oliveira neste período. Pensamento e ação, a partir de sua atuação como líder católico e político, tanto na Liga Eleitoral Católica e depois como Deputado Constituinte, assim como sua atuação no Jornal ‘O Legionário’ e também como Presidente da Junta Arquidiocesana da Ação Católica Paulista. Para isso serão analisados os seus artigos publicados em jornais, além de seus livros, discursos e entrevistas.

clique no link abaixo para fazer o download:

DissMoacirPereiraAlencarJuniorFinal

Os perdedores – por Demétrio Magnoli

Demétrio Magnoli

Demétrio Magnoli

O PT investe na indignidade e na difamação. Por isso, perdendo ou ganhando, já perdeu.

A semente transgênica e o Código Florestal; a hidrelétrica e a licença ambiental; os evangélicos e os jovens libertários; o Estado e as ONGs; os serviços públicos e os tributos; a “nova política” e o Congresso; a política e os partidos; o PSB e a Rede. Na candidatura de Marina Silva, não é difícil traçar círculos de giz em torno de ângulos agudos, superfícies de tensão, contradições represadas. O PT preferiu investir na indignidade, na mentira, na difamação. Por isso, perdendo ou ganhando, já perdeu.

As peças incendiárias de marketing, referenciadas no pré-sal e na independência do Banco Central, inscrevem-se na esfera da delinquência eleitoral. A primeira organiza-se em torno de uma mentira (a suposta recusa de explorar o pré-sal), de cujo seio emana um corolário onírico (a “retirada” de centenas de bilhões de reais supostos e futuros da Educação). A segunda converte em escândalo um modelo que pode ser legitimamente combatido, mas está em vigor nos EUA, no Canadá, no Japão, na União Europeia, na Grã-Bretanha e no Chile –e que, no Brasil, surgiu embrionariamente sob Lula, durante a gestão de Henrique Meirelles.

Na TV, o partido do governo acusa a candidata desafiante de conspirar com banqueiros para lançar os pobres no abismo da miséria. O fenômeno vexaminoso não chega a causar comoção, pois tem precedentes. Contra Alckmin (2006) e Serra (2010), o PT difundiu as torpezas de que pretendiam privatizar a Petrobras e cortar os benefícios do Bolsa Família, ambas já reprisadas para atingir Marina. A diferença, significativa apenas no plano eleitoral, está na circunstância de que, agora, a ignomínia entrou no jogo antes do primeiro turno. A semelhança, por outro lado, evidencia que o PT aposta na ignorância, na desinformação, na pobreza intelectual –enfim, no fracasso do país.

Algo se rompeu quando eclodiu o escândalo do mensalão. Naquela hora, os intelectuais do PT depredaram a praça do debate político, ensinando ao partido que a saída era qualificar a imprensa como “mídia golpista” e descer às trincheiras de uma guerra contra a opinião pública. A lição deu frutos envenenados. O STF converteu-se em “tribunal de exceção”, e os políticos corruptos, em “presos políticos”. Os críticos passaram a ser classificados como representantes da “elite branca paulista” (se apontam as incongruências da “nova matriz econômica”), “fascistas” (se nomeiam como ditadura todas as ditaduras, inclusive as “de esquerda”) ou “racistas” (se objetam às leis de preferências raciais).

O projeto de um partido moderno de esquerda dissolveu-se num pote de ácido que corrói a convivência com a opinião dissonante. Do antigo PT, partido da mudança, resta uma sombra esmaecida. As estatísticas desagregadas das sondagens eleitorais revelam o sentido da regressão histórica. A presidente-candidata tem suas fortalezas no Nordeste e no Norte, nas cidades pequenas e entre os menos escolarizados, mas enfrenta forte rejeição no Centro-Sul, nas metrópoles e entre os jovens. Não é um “voto de classe”, como interpretam cientistas políticos embriagados com um economicismo primário que confundem com marxismo. É um voto do país que, ainda muito pobre, depende essencialmente do Estado. A antiga Arena vencia assim, espelhando um atraso social persistente.

Obviamente, a regressão tem causas múltiplas, ligadas à experiência de 12 anos de governos lulopetistas que estimularam o consumo de bens privados, mas não produziram bens públicos adequados a um país de renda média. A linguagem, contudo, ocupa um lugar significativo. O país moderno, cujos contornos atravessam todas as regiões, sabe identificar a empulhação, a mistificação e a truculência.

Na sua fúria destrutiva, a campanha de Dilma explode pontes, queima arquivos. O PT pode até triunfar nas eleições presidenciais, mas já perdeu o futuro.

Artigo publicado em Folha de São Paulo – 20 de setembro de 2014

Presente Passado, passado presente – Uma reflexão de Tony Judt e Timothy Snyder sobre a História

Tony Judt e Timothy Snyder

Tony Judt e Timothy Snyder

Uma reflexão do historiador britânico Tony Judt (1948-2010) em conversa com o historiador americano Timothy Snyder (1969-… ), que se encaixa muito bem em nossa realidade brasileira presente, principalmente em anos eleitorais no Brasil, um país onde o povo é tipicamente sem memória – e onde a intelligentsia pró- Status Quo ou anti- Status Quo reproduzem a “verdade do bem” e a “verdade do mal”. Essa reflexão vale também como uma análise para muitas coisas referentes a construção do conhecimento e do discernimento de um cidadão nas mais variadas searas da vida, em qualquer sociedade democrática atual decente  (Brasil, quem sabe um dia seja uma, ‘não que as outras democracias sejam modelos perfeitos’). Afinal, a História, diferentemente do que muitos pós-modernos dizem (Fukuyama entre eles), não morreu…e ainda é determinante do nosso presente e futuro.

É isto o que posto em meu blog hoje:

“Na verdade, não acho que negligenciar o passado é o nosso maior risco; o erro característico do presente é citá-lo na ignorância. […]Como estamos fadados a explorar o passado para justificar o comportamento público presente, o argumento em favor de realmente conhecer a história é irresponsável. Um cidadão bem informado tem menos probabilidade de ser enganado em explorações abusivas do passado para erros presentes.

[…] Fraudar o passado é a mais antiga forma de controle do conhecimento: se você tem poder sobre a interpretação do que aconteceu antes (ou pode simplesmente mentir sobre isso) , o presente e o futuro estão à sua disposição. Portanto, é simples prudência democrática assegurar que os cidadãos sejam historicamente informados.

Aqui, me preocupo com o ensino de história “progressista”. Em nossa infância, com certeza na minha e imagino que na sua, a história era um monte de informações. Você a aprendia de uma maneira organizada, em série – muitas vezes em uma linha cronológica do tempo.  O objetivo deste exercício era fornecer  às crianças um mapa mental – estendido para trás ao longo do tempo – do mundo em que habitavam.  Aqueles que insistiam em que essa abordagem era acrítica não estavam errados. Mas se revelou um grave erro substituir a história carregada de dados  pela intuição de que o passado foi um conjunto  de mentiras e preconceitos que precisam ser corrigidos: preconceitos em favor de povos e homens brancos, mentiras sobre o capitalismo ou o colonialismo, ou o que quer que seja.

Você não pode ensinar às crianças a história americana dizendo: acredita-se amplamente que a Guerra Civil ocorreu por causa da abolição da escravidão, mas ha! – posso lhes garantir que ela ocorreu de fato  por conta de algo completamente diferente. Pois as coitadinhas na fileira da frente vão virar umas para as outras e perguntar: “Espere um pouco, o que ela  está falando? O que é Guerra Civil? Quando ela aconteceu? Quem ganhou?”

Essas abordagens supostamente críticas, que pretendem – sejamos generosos – ajudar crianças e estudantes a formar seus próprios julgamentos, são contraproducentes. Semeiam confusão em vez de discernimento, e a confusão é inimiga do conhecimento. Antes que alguém – seja criança ou estudante universitário – possa se envolver com o passado, tem de saber o que aconteceu, em que ordem e com que resultado. Em vez disso, criamos duas gerações de cidadãos completamente desprovidos de referências comuns. Em consequência, eles podem contribuir pouco para a governança da sociedade. A tarefa do historiador, se quiser pensar desta forma, é fornecer a dimensão do conhecimento e da narrativa sem a qual não podemos ser um todo cívico. Se temos uma responsabilidade cívica como historiadores, é essa.

[…] Os alunos não podem questionar o que não conhecem.

[…] A condição necessária de uma sociedade verdadeiramente democrática ou civil – o que Popper chamou de “sociedade aberta” – é uma consciência coletiva sustentada das maneiras como as coisas estão sempre mudando, e no entanto a mudança total é sempre ilusória. Quanto a Fukuyama, ele não fez nada mais que adaptar a história comunista a seus próprios fins. Em vez de o próprio comunismo fornecer o fim e objetivo na direção do qual a história se move, esse papel foi atribuído a queda do comunismo. O trabalho do historiador é pegar esse disparate arrumadinho e bagunçá-lo.

Assim, cada vez que algum imbecil declara que um Saddam Hussein é Hitler reencarnado, nosso trabalho é entrar na briga e complicar essa asneira simplória.  Uma bagunça precisa é muito mais verdadeira para a vida do que inverdades elegantes. Mas, ao desacreditar declarações políticas enganosas, continuamos obrigados a pôr algo em seu lugar: uma linha narrativa, uma explicação coerente, uma história compreensível. Afinal, se não tivermos claro em nossa própria cabeça exatamente o que foi e não foi o caso no passado, como podemos nos oferecer ao mundo como uma fonte confiável de autoridade imparcial?

Portanto, há um equilíbrio,  e não vou dizer que ele é fácil de alcançar. Se você só quer fazer bagunça – se vê a tarefa do historiador como borrar todas as linhas – , torna-se irrelevante. Se tornarmos a história caótica para nossos alunos ou leitores, perderemos qualquer reivindicação sobre a conversa cívica.

Reflexão feita a partir de trechos do livro “Pensando o Século XX” – páginas 283-289. Editora Objetiva, 2012.