Ceticismo – por Moacir Pereira Alencar Júnior

 

ceticismo

Vote em Bolsonaro: “Fascista” / Não vote em nenhum deles: “Colaboracionista do fascismo” / Vote em Haddad: “Baluarte da democracia”.

Muitos perguntam porque centrei meus ataques ao PT neste segundo turno, e “completamente nada falo” de Bolsonaro. Antes de mais nada já expus de vários modos minhas críticas a estas duas agendas de Brasil que hoje disputam o poder. Acredito que a democracia pode ter os mais variados espectros na seara política – dos extremistas de direita aos extremistas de esquerda. E é exatamente este contrabalanceamento que permite termos a construção da democracia – aos trancos e barrancos – e seu melhor aprimoramento.

Nossa redemocratização nasceu torta…se por um lado ela tem 30 anos, por outro ela nunca teve de forma clara um partido com propostas eminentemente conservadoras. Um caso similar é o chileno, que somente 20 anos depois do fim da ditadura de Pinochet, em 2010, elegeu um governo conservador com Sebastian Piñera (centro-direita apoiada por uma direita radical ainda saudosa de Pinochet). No caso chileno, o poder se revezava entre DC (Democrata Cristão) e PS (Partido Socialista) durante 20 anos, até o partido da Renovação Nacional eleger Piñera.

PT-PSDB, no Brasil, sempre foram “oposições” neste período, mas jamais um dos partidos era de fato antagônico em seus ‘projetos maiores’. Tal como o DC e o PS chileno, havia muito mais similaridades do que distinções entre as origens destas duas legendas. Mas no caso brasileiro, a narrativa de poder petista levou o PSDB a um campo da qual nunca soube se adaptar e mesmo se apresentar (centro-direita). Já tive a oportunidade de perguntar pessoalmente isso a Fernando Henrique Cardoso, em 2012.

Podemos falar da existência de grupos difusos em vários partidos brasileiros com defesa de agendas conservadoras, mas jamais poderíamos falar de partidos políticos. Natural que em um momento uma direita se organizaria no Brasil – seja ela moderada como radicalizada – e o PSL abraçou essa causa e agora representa tal agenda. E se a mesma ascendeu é porque os outros grupos não souberam enxergá-la da maneira devida. A direita pós-redemocratização foi sempre caricaturizada (Digo isso porque em meu mestrado estudei pensamento conservador, e sei como as análises sobre o mesmo são  tão reducionistas no mundo acadêmico, marginalizadas).  E aqui vale ser ressaltado que qualquer grupo ‘não petista’ foi estigmatizado nesta última década (sem diferenciação – PT sempre colocou todos no mesmo balaio – “todos são “fascistas”, “reacionários”, “golpistas”, etc”).

Hoje a “caricatura radicalizada” ganhou porte e asas, e assumirá o poder, pelas urnas. Porque não vejo nenhum intelectual dos outros grupos que estão sendo derrotados a fazer uma análise crítica deste por que? Sabemos que por 50 anos a ditadura militar fez de nossas universidades um polo de resistência ao autoritarismo. Mas um polo que apresentou muitas contradições, e ficou refém de uma única visão de mundo, também radicalizada. A ditadura militar jamais tentou incutir na mente dos brasileiros um monopólio de pensamento e formação ideologizada. Seu autoritarismo e repressão seguiram outros caminhos. Já após o fim da ditadura, a universidade se tornou um polo de formação majoritária de uma única visão ideológica. Permaneceu a mesma militante de via única, pouquíssimo aberta ao plural e ao diálogo nas ciências humanas.

Sabemos que o que molda uma população mais do que autoritarismo e repressão é ter o controle hegemônico do pensamento, por décadas e por gerações nas instituições de ensino secundário e no ensino superior. E quando você tenta naturalizar essa visão a vida da sociedade, corre o risco de criar uma reação como a que vemos hoje representada em Bolsonaro. Negar isso é impossível.  A Universidade Pública foi literalmente cooptada pelo petismo muito antes dos mesmos estarem no poder, e após estes 14 anos se tornaram indissociáveis. Se este governo Bolsonaro cair em erro, ou mesmo trocar os pés pelas mãos – para estas afirmações ainda cabe o benefício da dúvida – lembremos que uma comoção intestina não começa de um dia para noite. Por isso sou cético com estes dois grupos.

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