PSDB : Renovação ou Morte – por Moacir Pereira Alencar Júnior

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Uma semana para as eleições presidenciais e o PSDB novamente se perde em meio as suas contradições e vaidades. Há 16 anos se acostumou em ser oposição sem realmente ser. Considerava que o próprio mecanismo de equilíbrio de forças manteria o partido sempre na posição antagônica ao PT por inércia e acomodação, como se nossa democracia fosse bipartidária. Perdeu quatro eleições presidenciais para o PT, mas no fundo assistia e aplaudia governos petistas, uma vez que a sua origem socialdemocrata tinha origem nos valores da centro-esquerda. Única diferença era ser pragmático no campo econômico, e saber adotar quando necessário medidas liberalizantes na economia; coisa que o PT jamais soube fazer, colocando a ideologia a frente dos problemas do país (vide caso do Joaquim Levy no governo Dilma).

Quando pesquisadores e cientistas políticos renomados do exterior – como Frances Hagopian, de Harvard; dizia que o PSDB deveria se reafirmar como de centro-direita, uma vez que o PT já tinha monopolizado fortemente todas as bandeiras de esquerda após mais de uma década no poder; FHC corria para negar essa possibilidade, e se mostrava ferrenhamente contra. Dizia Hagopian: “Acredito que eles (os tucanos) podem se destacar nesse espaço de centro-direita, se tiverem coragem para fazer isso”, afirmava a professora da Universidade Harvard. “Precisam mostrar o que fizeram, ser fiéis a si mesmos”, completa ela, referindo-se às transformações capitaneadas pela PSDB na gestão FHC (1995-2002) ”¹.

Mas o PSDB não fez a tarefa de casa…se calava, titubeava e hoje o resultado é este…a redução esmagadora de intenções de votos nas pesquisas a presidência da república e a grande chance de perder o principal estado do país, onde por comodismo próprio e inércia de adversários, governou por 24 anos. Quem sabe sofrendo um abalo deste peso o partido busque se renovar e tirar o centro das decisões da cúpula paulista, buscando uma renovação de pensamento e quem sabe de revitalização de quadros. Afinal essa cúpula parece ter se perdido no tempo e não acompanhado as mudanças da sociedade brasileira…tanto não deu atenção como se acomodou e hoje amarga a quarta colocação na corrida presidencial.

Conversas de bastidores dizem que o presidente de honra do partido – Fernando Henrique Cardoso – deve declarar apoio a Haddad no segundo turno², contrariando posição de outros políticos do partido; confirmando quão frágil era e sempre foi de fato esse dito antagonismo, haja vista que nem o primeiro turno ocorreu e Alckmin ainda está na disputa (ao menos protocolar). Ao afirmar possível apoio ao PT e não adotar uma posição de liberação de votos de seus filiados e possíveis eleitores simpatizantes, o partido se apequena e fica totalmente sem bases claras junto ao eleitorado…uma hora a inanição daria nisso…e esta hora chegou.

1 Em 2011, publiquei esta entrevista de Hagopian dada ao Jornal Estadão em meu blog. Aqui coloco o link para os interessados na entrevista dada na época: https://moaciralencarjunior.wordpress.com/2011/10/02/%E2%80%98psdb-precisa-assumir-se-como-partido-de-centro-direita%E2%80%99-diz-pesquisadora-de-harvard/

2 https://www.oantagonista.com/brasil/a-implosao-do-psdb/

 

O mundo virtual de Dilma Rousseff – por Elio Gaspari

Elio Gaspari

Elio Gaspari

Se a doutora acreditava no que disse ao tomar posse, o país está frito, se não acreditava, tanto melhor.

Há um ano a doutora Dilma assumiu seu segundo mandato e discursou no Congresso. Já não precisava propagar as lorotas típicas das campanhas eleitorais. Vencera a eleição e, com a escolha de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda, admitira a gravidade da crise econômica em que jogara o país.

Quem relê esse discurso fica com a pior das sensações. Sai do pesadelo de 2015 com a impressão de que entrará em outro, o de 2016. Não só pelo agravamento da situação econômica, política e administrativa do país, mas pela percepção de que a doutora vive em outro mundo ou julga-se com poderes suficientes para oferecer à população uma vida de fantasias.

Ela disse:

“Em todos os anos do meu primeiro mandato, a inflação permaneceu abaixo do teto da meta e assim vai continuar.”

Segundo as últimas projeções do mercado, ela fechará 2015 acima dos 10%, longe do teto de 6,5% e a maior taxa desde 2002. O estouro da meta era pedra cantada.

“A taxa de desemprego está nos menores patamares já vivenciados na história de nosso país.”

Ótimo, para discurso de despedida. O terceiro trimestre de 2015 fechou com a taxa de desemprego em 8,9%, a maior desde 2012, quando o IBGE começou a calculá-la com uma nova metodologia. Outra pedra cantada.

“As mudanças que o país espera para os próximos quatro anos dependem muito da estabilidade e da credibilidade da economia.”

No primeiro ano de seu novo mandato, o Brasil perdeu o grau de investimento. Em janeiro havia o risco. Nos meses seguintes, o governo tornou o rebaixamento inevitável.

Com a faixa no peito, repetiu platitudes:

“Sei o quanto estou disposta a mobilizar todo o povo brasileiro nesse esforço para uma nova arrancada do nosso querido Brasil.”

“Mais que ninguém sei que o Brasil precisa voltar a crescer.”

As duas frases diziam nada, pois um país não cresce ou deixa de crescer por falta de disposição dos governantes. A disposição da doutora levou-a a uma arrancada, em marcha a ré. A economia encolheu em 2015 e encolherá de novo em 2016.

“A luta que vimos empreendendo contra a corrupção e, principalmente, contra a impunidade, ganhará ainda mais força com o pacote de medidas que me comprometi durante a campanha, e me comprometo a submeter à apreciação do Congresso Nacional ainda neste primeiro semestre.”

No segundo semestre, ela baixou a Medida Provisória 703, refrescando a vida das empreiteiras apanhadas na Lava-Jato. Favorecendo a impunidade, ela permite que as empresas voltem a receber contratos do governo sem que seja necessário admitirem “sua participação no ilícito”, como exigia a lei 12.846, assinada em agosto de 2013 por Dilma Rousseff.

Quando a doutora tomou posse, ela sabia que o “nosso querido Brasil” estava patinando, longe de uma arrancada. Não precisava ter dito o que disse.

Em outros momentos do seu discurso, fez gentilezas e promessas que devem tê-la levado ao arrependimento:

“Sei que conto com o apoio do meu querido vice-presidente Michel Temer, parceiro de todas as horas.”

Esqueça-se que “nosso lema será: Brasil, pátria educadora!”

Dilma Rousseff concluiu seu discurso com uma nota poética:

“Esta chave pode ser resumida num verso com sabor de oração: ‘O impossível se faz já; só os milagres ficam para depois’.”

Entre o impossível e o milagre, deixou de fazer o possível.

O GLOBO, 30 de dezembro de 2015
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