Paz para os cristãos – Por Dom Odilo Scherer

Dom Odilo Scherer - Arcebispo de São Paulo

Dom Odilo Scherer – Arcebispo de São Paulo

No período da Páscoa, os cristãos saúdam com freqüência desejando a paz: “paz a você!” “A paz esteja contigo!” Foi assim que Jesus Cristo saudava os apóstolos nos encontros com eles, depois da sua ressurreição: “a paz esteja com vocês! Não tenham medo!” (cf Lc 24,36; Jo 20,19-26).

Com estas palavras, Jesus Cristo queria serenar o ânimo dos discípulos, muito assustados com o fato de verem o Mestre novamente, depois de ele ter sido crucificado e sepultado há vários dias… Estavam apavorados também com o temor de que algo de pior também pudesse acontecer a eles, pois eram bem conhecidos como o grupo de seguidores do Nazareno. Jesus devolve-lhes a paz e a alegria, dando-lhes a certeza de estar novamente com eles.

Sabemos que essa paz durou pouco para os apóstolos, pois bem depressa desabaram sobre eles e os primeiros cristãos ameaças, prisões, torturas e mortes violentas. Tudo porque anunciavam o Evangelho de Cristo, partindo da sua ressurreição dentre os mortos. E assim continuou ao longo dos dois mil anos de Cristianismo, durante os quais houve poucos momentos de paz e tranquilidade… Em alguma parte do mundo, sempre houve perseguições, repressão e martírio para os cristãos. O próprio Jesus havia advertido que a vida de seus seguidores não seria fácil: “o discípulo não é maior que o mestre: se perseguiram a mim, perseguirão também a vós” (Jo 15,20).

Atualmente, os cristãos são, de longe, o grupo religioso mais perseguido ou reprimido no mundo. Só para lembrar alguns fatos mais recentes: no último dia 2 de abril, alguns guerrilheiros do grupo Al Shabaab, provenientes da Somália, entrou na Universidade de Garissa, no leste do Quênia, e escolheu especificamente os cristãos, deixando os demais irem embora. Foram mortos ao menos 147 pessoas, só porque eram cristãs. Em março de 2015, houve o seqüestro de 150 cristãos no noroeste da Síria; ainda em março, 14 cristãos foram mortos e mais de 70 ficaram feridos em conseqüência de dois atentados suicidas numa igreja católica e noutra, evangélica.

Ainda em março passado, um grupo adentrou um convento e, entre outras violências, estuprou uma freira idosa, de 72 anos de idade no estado de Bengala Ocidental, na Índia. E são constantes as notícias sobre atentados contra igrejas cristãs na Nigéria, com numerosas vítimas; no Iraque, os mártires cristãos são numerosos, por conta do avanço do grupo “Estado Islâmico”. E o mundo assistiu horrorizado o degolamento de um grupo de cristãos na Líbia, também em março. No Egito, Sudão, Congo e Nigéria foram muitas as igrejas cristãs atacadas, com numerosas vítimas. Não é diferente no Paquistão.

No próprio domingo da Páscoa dos cristãos, 5 de abril, duas igrejas foram atacadas e incendiadas na Síria pelo grupo radical que domina boa parte daquele país. Mas refresquemos um pouco a memória, para não esquecer os numerosos mártires da guerra civil espanhola, padres, freiras e leigos, trucidados pelo único motivo de serem cristãos; nem devem ser esquecidos os inumeráveis cristãos, que foram vítimas dos regimes totalitários do século 20, os quais sempre viram na Igreja e nos cristãos fieis a ela um atrapalho para suas pretensões de poder total. E, só para lembrar, vamos retroceder um século na história, para encontrar mais de um milhão e meio de cristãos da Armênia, mártires de repressão político-religiosa, um verdadeiro genocídio, ainda mal reconhecido.

Não ignoro que também há perseguição, repressão e martírio em relação a grupos religiosos, não cristãos. Eles merecem meu respeito e solidariedade. Minha reflexão, no entanto, refere-se à atual repressão sofrida pelos cristãos em várias partes do mundo. No conceito cristão, martírio não é suicídio, nem vida perdida em confronto com adversários; menos ainda, vida sacrificada por motivos ideológicos, em ato de violência contra outras pessoas. Mas é morte sofrida por causa das convicções religiosas.

Os mártires cristãos, para serem assim reconhecidos pela Igreja, não devem manifestar ódio ou desejo de vingança contra quem os martiriza mas, a exemplo de Cristo na cruz, perdoar: “Pai, perdoai-lhes, pois não sabem o que fazem” (Lc 23,34). A Igreja valoriza a fé heróica e a fortaleza dos seus mártires. Existe até certa convicção formada entre os cristãos de que, quando não há mártires durante um período, isso poderia significar que as convicções cristãs ficaram diluídas e perderam vigor, acomodando-se às circunstâncias e ao ambiente: deixaram de ser “sal da terra e fermento na massa” (cf Mt 5,13).

Se assim é, por que motivo, então, preocupar-se com as perseguições e martírios que os seguidores de Cristo sofrem? Os cristãos submetidos a violências, talvez, teriam a possibilidade de fugir, emigrar, mudar de religião, continuar cristãos deixando-se explorar como escravos; ou então, mantendo firme a sua fé, de perder a vida. No entanto, isso não pode ser exigido de ninguém. Atrás dos martírios, há um problema político-ideológico de violação grave dos direitos humanos, diante do qual, em boa parte, a comunidade internacional está se mantendo surda, calada e de braços cruzados. Nem mesmo tenho conhecimento de alguma manifestação de Autoridades brasileiras em relação a esse drama evidente.

A liberdade de consciência e a liberdade para professar a própria fé, ou de não ter fé ou religião alguma, deveria ser garantida a todos. Trata-se de um direito humano fundamental, reconhecido pela ONU. Infelizmente, esta liberdade, talvez, é vista como secundária e, por isso, ou sacrificada diante de interesses estratégicos “maiores”… Cálculos perversos levam a violências sempre maiores. Não haverá paz verdadeira enquanto a liberdade religiosa não for respeitada e assegurada a todas as pessoas.

Artigo publicado em Estadão – 12/04/2015

Plínio Corrêa de Oliveira: Pensamento Católico e Ação Política na Era Vargas (1930-1945)

Plínio Corrêa de Oliveira em foto de 1933, quando deputado Constituinte entre 1933/1934.  a Assembleia Constituinte de 1933/1934

Plínio Corrêa de Oliveira em foto de 1933, quando deputado Constituinte por São Paulo, atuando na Assembleia Constituinte de 1933/1934

Hoje disponibilizo minha dissertação de mestrado em Ciência Política, em sua versão final digitalizada (PDF) para todos interessados no estudo do catolicismo e na ação política dos intelectuais católicos na Era Vargas.  O intelectual católico analisado foi  Plínio Corrêa de Oliveira, a quem dediquei mais de três anos de estudos. Comecei a estudá-lo ainda na graduação em ciências sociais, em 2011, com o historiador Marco Antonio Villa. Minha monografia analisou a Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição Família e Propriedade, e o papel da instituição como grupo de pressão na Assembleia Constituinte de 1987/1988.

Já no mestrado,  me dediquei a estudar o intelectual e pensador católico Plínio Corrêa de Oliveira na Era Vargas (1930-1945); sua atuação no pensamento católico e sua ação política neste cenário. Nesta fase de mestrado contei com a orientação inicial de Marco Antonio Villa, e após sua aposentadoria, quem assumiu a batuta e caminhou comigo até o fim foi a cientista política Vera Cepêda.  Agradeço imensamente aos dois pelo auxílio e atenção prestada durante todo este período

Disponibilizo aqui o resumo que determina o foco central da minha dissertação:

A década de 1930 representou uma nova fase na História do Brasil. A Revolução de 1930 pôs fim a Primeira República, que perdurou por exatos 41 anos (1889-1930). Também merece ser ressaltada a conjuntura internacional do período, onde uma grave crise econômica abala os EUA e os países europeus, levantando questionamentos sobre a funcionalidade das instituições democráticas, aumentando o surgimento de estados fortes, pautados em uma postura mais intervencionista, seja na estrutura social como na economia. Dentro desta perspectiva, no Brasil, as novas elites no poder, vinculadas a Getúlio Vargas, governam o país em meio a uma grande quantidade de eventos. Assistiremos a uma época de verdadeira ebulição de ideologias e de ações doutrinárias movimentando a intelectualidade nacional. O país assiste a ascensão de variados movimentos: políticos, católicos, sociais, etc. Neste momento ocorre a ascensão do PCB (Partido Comunista Brasileiro), o surgimento da AIB (Ação Integralista Brasileira), assim como a consolidação da LEC (Liga Eleitoral Católica). O movimento católico, representado por diferentes figuras intelectuais, mantém uma ala eminentemente conservadora e tradicionalista, que passará a visualizar em seu horizonte os primeiros sinais e mobilizações que virão a originar no país – com mais força, a partir da segunda metade da década de 1940 – o catolicismo progressista e modernista, inspirado no humanismo integral. Uma das principais figuras intelectuais deste período, no estado de São Paulo, será Plínio Corrêa de Oliveira. Advogado e católico fervoroso, filho de uma família de formação ultramontana e monarquista, ele representará por meio de seu pensamento e ação política a vertente conservadora católica. A meta desta dissertação é analisar a trajetória de Plínio Corrêa de Oliveira neste período. Pensamento e ação, a partir de sua atuação como líder católico e político, tanto na Liga Eleitoral Católica e depois como Deputado Constituinte, assim como sua atuação no Jornal ‘O Legionário’ e também como Presidente da Junta Arquidiocesana da Ação Católica Paulista. Para isso serão analisados os seus artigos publicados em jornais, além de seus livros, discursos e entrevistas.

clique no link abaixo para fazer o download:

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Direita e Esquerda – por Alceu Amoroso Lima

Este artigo foi escrito por Alceu Amoroso Lima em Outubro de 1960, nas vésperas das eleições presidenciais brasileiras, que tinham como candidatos: Teixeira Lott , Jânio Quadros e Adhemar de Barros. A análise de Alceu sobre o conceito de ‘direita’ e ‘esquerda’ é muito interessante, mostrando as mutações que estes enquadramentos ideológicos receberam durante os Século XIX e XX no Brasil e no mundo, e as diferentes formas de anacronismo e erros semânticos que foram dados a estas palavras em variados momentos. É vital destacar que estes constantes equívocos permanecem até hoje, em pleno século XXI, sendo difíceis de serem desfeitos. Certamente, conforme destacou Alceu: “pela simples razão de inércia e de rotina”.

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Alceu Amoroso Lima (1893-1983). - Pensador Católico, escritor e jornalista.

Alceu Amoroso Lima (1893-1983). – Pensador Católico, escritor e jornalista.

Durante a campanha eleitoral deste ano, voltou-se muito a falar em esquerda e direita. Para muitos, esquerda é sinônimo de comunismo. Direita, sinônimo de democracia. E, em certos meios católicos, a esquerda é o Anticristo e a direita, a Igreja ou pelo menos a posição político-social em que se encontra a Igreja.

Nada mais falso. Mas também nada mais difícil de esclarecer, já que as palavras sofreram realmente uma alteração semântica no sentido que o povo lhes dá, esse povo anônimo, que faz e desfaz linguagens.

A expressão esquerda-direita vem, como se sabe, do uso parlamentar latino: à direita se colocavam os conservadores; ao centro os liberais, à esquerda os socialistas. Daí, passou a palavra a significar a ideologia representada pela respectiva colocação dos parlamentares em suas bancadas. Houve, além disso,  uma alteração histórica no dispositivo parlamentar em leque, segundo o modelo francês ou americano e não paralelo, segundo o britânico ou canadense. Destacou se da direita a extrema-direita, reacionária, de tipo fascista. Como se destacou da esquerda a extrema-esquerda revolucionária, do tipo comunista. E assim que uma ou outra tomaram o poder de modo violento, cessou naturalmente o dispositivo pluralista e ficou apenas, em reuniões periódicas e sem importância, a unanimidade comunista ou fascista. A esquerda ia assim igualar-se a comunismo. A direita, a fascismo ou conservadorismo. E a opinião pública passou então a ligar uma coisa e outra.

Com os católicos se deu coisa semelhante. O socialismo, à esquerda dos parlamentos, foi a princípio, todo ele, anticatólico e, mais do que isso, anticlerical. O conservadorismo, à direita, se manteve ou se fez católico, por sinceridade ou por política. De modo que o termo socialista ficou sendo sinônimo de esquerdista e anticatólico.  E conservador, sinônimo de direitista e católico.

Mas tudo isso mudou radicalmente, ao longo do século XIX e, sobretudo, no século XX. Introduziram-se os maiores elementos de complexidade real e não apenas imaginária. O comunismo se destacou do socialismo. Este, por sua vez,  se desdobrou em várias correntes, mais próximas ou afastadas do comunismo.  O liberalismo se dividiu, pelo menos, em dois, mais conservador ou mais radical. E os conservadores, por sua vez, se mantiveram conservadores, republicanos ou monarquistas, e se separaram dos reacionários, à extrema-direita tão próximos por vezes da extrema-esquerda, pois os extremos quase sempre se tocam, especialmente em política.

As expressões esquerda, sinônimo de progresso e reforma social, e direita, sinônimo de ordem e tradição social, perderam com isso toda a sua exatidão. Mantiveram-se e continuam a ser empregadas por uma simples razão de inércia e rotina.

O mesmo aconteceu nos meios católicos. Com o interesse crescente da Igreja pela questão social, a partir do fim do século XIX e de Leão XIII, a equivalência entre catolicismo e conservadorismo, hostilidade ao progresso, defesa do status quo social, ordem e autoridade acima de tudo, sem distinção de como e porque , perdeu também toda significação autêntica. Passou a haver cada vez mais católicos não-conservadores em política. Como passou a haver  um número cada vez maior de conservadores não-católicos ou de radicais e socialistas, no sentido puramente político da expressão, de fé católica. Surgiu o termo trabalhismo, neutro.

Nesse terreno, também, a equiparação de esquerdismo com anticatolicismo e de direitismo com catolicismo se tornou anacrônica e semanticamente errada.

A primeira revelação que tive desse erro foi pela leitura, há trinta anos passados, de um admirável artigo do P. Congar O.P. ,Dieu est-il à Droit?, naquela famosa e tão saudosa revista dominicana francesa La Vie Intellectuelle. Deus não está à direita nem à esquerda. Esta acima. Domina a direita como a esquerda, enquanto estes termos ainda significarem alguma coisa, ao menos pelo uso e hábitos adquiridos. Há trinta anos que busco desfazer o equívoco. Em vão.

Nada mais difícil do que desenraizar tiriricas… Isto é a erva rasteira e vulgar, semelhante às palavras que vamos empregando sem pensar no seu sentido autêntico.

Há semanas atrás, durante a campanha eleitoral, eu tive escrúpulo até em publicar este artigo, pois já sei que iria, porventura, causar confusão, se lido, em algum eleitor apegado às fórmulas convencionais.  Mas agora passado o furação eleitoral, é hora de pensar de novo com calma e dar às palavras o sentido que realmente tem. A Igreja não está à direita. Como o comunismo ateu não está à esquerda. São incompatíveis. Mas estão por toda parte, face a face, lado a lado, lutando por bandeiras opostas, até que a Justiça e a Misericórdia de Deus tudo assuma.

O papa fala bem e não chateia ninguém – por Deonísio da Silva

Escritor e Professor Deonísio da Silva

Escritor e Professor Deonísio da Silva

Os padres letrados José de Anchieta e Manoel da Nóbrega eram jesuítas e aprenderam o Tupi-guarani para falar com os índios. O Papa Francisco, que também é jesuíta, aprendeu Português para falar com os brasileiros.

Entre tantas lições, o Papa mostrou que não é preciso baixar o nível para se aproximar do povo. Basta escolher as palavras adequadas ao contexto. Por exemplo, preferiu o popular botar, em vez de pôr, colocar. Em seu primeiro discurso, disse: “Cristo bota fé nos jovens, e os jovens botam fé em Cristo”.

Na quinta-feira, falando a mais de um milhão de pessoas na praia de Copacabana, recomendou: “Bote fé, bote esperança, bote amor”.

O Sumo Pontífice, que é poliglota, vem usando muitas gírias em suas falas, entrevistas e homilias na Jornada Mundial da Juventude.

Seu bom humor também já era esperado. No mês passado, comentando as semelhanças entre o Português e o Espanhol, disse de brincadeira: “o Português é um Espanhol mal falado”.

Suas falas no Brasil foram marcadas por expressões populares. Quando visitava a Favela da Varginha, em Manguinhos, nos arredores do Rio, disse: “Vocês sempre dão um jeito de compartilhar a comida. Como diz o ditado, sempre se pode ‘colocar mais água no feijão’”. E perguntou ao povo: “Se pode colocar mais água no feijão?”. Aplaudido, completou: “Sempre! E vocês fazem isto com amor, mostrando que a verdadeira riqueza não está nas coisas, mas no coração”.

Papa Francisco conversa com religioso durante visita  a favela da varginha no complexo de Manguinhos - zona norte do Rio, neste dia 25/quinta

Papa Francisco conversa com religioso durante visita a Favela da Varginha no complexo de Manguinhos – zona norte do Rio, neste dia 25/quinta

Disse também: “Queria bater em cada porta, dizer bom dia, beber um copo de água fresca, beber um cafezinho. Mas não um copo de cachaça!”. O Papa escolheu por metáfora “um copo de cachaça”, a bebida mais popular do Brasil.

Todavia não foi apenas pelas palavras e expressões que ele cativou o povo brasileiro. Sem conteúdo, as gírias e expressões seriam apenas enfeites de suas falas, que entretanto comoveram a muitos pela sinceridade do olhar, como quando disse: “Aprendi que para ter acesso ao povo brasileiro é preciso ingressar pelo portal do seu imenso coração; por isso, permitam-me que nesta hora eu possa bater delicadamente a esta porta. Peço licença para entrar e transcorrer esta semana com vocês”.

Outro momento em que mexeu muito com as pessoas foi quando declarou: “Não tenho ouro, nem prata, mas trago o que de mais precioso me foi dado: Jesus Cristo!”.

No mesmo instante, aqueles que aguardavam a visita do Papa apenas para fazer negócios, como Eike Batista, cuja fortuna passou de 46 bilhões para “apenas” 300 milhões em poucos dias, deixaram o recinto, segundo o tradicional humor dos cariocas, que também inventaram súbitos milagres do Papa: não foi assaltado na Linha Vermelha, mesmo com a janela do carro aberta; fez o povo aplaudir um argentino; mesmo engarrafado no Rio, ninguém tentou vender-lhe nada; andou de saia em Copacabana à noite e não levou nenhuma cantada.

Esse Papa é uma boa pessoa. E o convívio com uma boa pessoa sempre nos faz bem!

Papa Francisco em Cerimônia na Praia Copacabana hoje (28 de julho de 2013)

Papa Francisco em Cerimônia na Praia de Copacabana hoje (28 de julho de 2013)

Que falem os fatos – por Rubens Ricupero

Rubens Ricupero

Rubens Ricupero

É pela revolução silenciosa dos atos e gestos de cada dia que o papa Francisco vem mudando a Igreja Católica de modo radical e profundo. Não houve relatório bombástico como o de Khruschov no 20º Congresso do Partido Comunista soviético. Tampouco se anunciou novo concílio ecumênico, como fez o papa João 23. Até agora, ninguém ouviu do papa um discurso programático de reforma.

Nesse particular, seu comportamento parece inspirado, mais que em são Francisco, num dos primeiros franciscanos, santo Antônio. Num sermão, dizia este: “A palavra é viva quando são as obras que falam. Cessem, portanto, os discursos e falem as obras. Estamos saturados de palavras, mas vazios de obras”.

Palavras e gestos são simples. Numa manhã, o papa diz na missa, na presença dos funcionários do banco do Vaticano, que São Pedro nunca teve conta bancária… no dia seguinte, desculpa-se por não ir ao concerto onde deveria sentar-se em poltrona majestática isolada dos demais e explica: “Não sou um príncipe da Renascença!”. Nas palavras dirigidas aos bispos italianos, censura o “mundanismo”, o “carreirismo eclesiástico”, lamenta os bispos que se portam como “funcionários preguiçosos”. Depois, abraça um a um…

Os tradicionalistas denunciam que ele “fa il parocco, non fa il papa”, isto é, que age como pároco de aldeia, que ameaça dessacralizar a função papal ao recusar habitar os apartamentos pontifícios e passar férias em Castel Gandolfo, ao preferir singeleza na liturgia, pondo de lado paramentos e ritos elaborados, ao morar em hotel, tomar refeições junto a outras pessoas e não no esplêndido isolamento onde se tramam as conspirações de mordomos e cortesãos.

Mas que ninguém se engane. Por trás dessa aparente improvisação, existe método e coerência. Tudo -atos, decisões, opiniões- aponta na mesma direção: pobreza evangélica, serviço dos outros, sobretudo dos mais pobres, dos que habitam as periferias do mundo e da vida, exigência de conversão radical, de esforço para aliviar a dor e o sofrimento.

Num de seus livros, sugere como se deu sua própria conversão: “Os padres das periferias e das favelas impuseram uma transformação nas mentalidades e no comportamento das autoridades eclesiásticas”.

O diretor do jornal do Vaticano captou assim os quatro eixos da mensagem de Francisco: “Falar de Deus em termos de misericórdia e ternura; exigir o engajamento cristão concreto; trabalhar na simplificação de si mesmo e da igreja; voltar-se às pessoas que estão na periferia do cristianismo”.

Não há nada de melífluo ou piegas nesse programa. Muito mais árduo do que o discurso do moralismo sem compaixão é colocar a vida a serviço dos outros. É o programa de Teresa de Calcutá e Francisco de Assis. Quantos, crentes ou não, são capazes de segui-lo?

A visita ao Brasil e o encontro com a juventude oferecem ao papa a primeira oportunidade de sair da praça de São Pedro e enfrentar os desafios contemporâneos. No momento em que se extingue Mandela, o último herói de um mundo desesperançado, o que dirá Francisco aos jovens vindos de toda a parte e em especial aos jovens brasileiros que nas manifestações deram voz à esperança?

Irmão de Leonardo Boff – “Clodovis Boff ” – defende Bento XVI e critica Teologia da Libertação – Entrevista Folha de São Paulo

Um dos principais pensadores da Teologia da Libertação, junto com Leonardo Boff, Frei Betto, Hugo Assman, Dom Tomás Balduíno, Dom Hélder Câmara e Dom Pedro Casaldáliga – Clodovis Boff reavalia a Teologia da Libertação e constata que a modernidade não tem mais nada a dizer ao homem pós-moderno. Segundo ele, certos setores da igreja se deixaram colonizar pelo espírito da modernidade hegemônica que não admitia mais a centralidade de Deus na vida. Erigiam a opinião pessoal como critério último de verdade e gostariam de decidir os artigos da fé na base do plebiscito. Este secularismo moderno seria a negação a verdadeira fé da Igreja Católica.

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Clodovis Boff

Clodovis Boff

Em maio de 1986, os irmãos Clodovis e Leonardo Boff publicaram uma carta aberta ao cardeal Joseph Ratzinger. O artigo analisava a instrução “Libertatis Conscientia”, em que o futuro papa Bento XVI visava corrigir os supostos desvios da Teologia da Libertação na América Latina. Os religiosos brasileiros desaprovavam, com uma ponta de ironia e uma boa dose de audácia, a “linguagem com 30 anos de atraso” no texto.

Em 2007, o irmão mais novo de Leonardo Boff voltou à carga. Mas, dessa vez, o alvo foi a própria Teologia da Libertação –movimento do qual ele foi um dos principais teóricos e que defende a justiça social como compromisso cristão. Ele censurou a instrumentalização da fé pela política e enfureceu velhos colegas ao sugerir que teria sido melhor levar a sério a crítica de Ratzinger.

Em entrevista à Folha por telefone, frei Clodovis diz que Bento XVI defendeu o “projeto essencial” da Teologia da Libertação, mas o critica por superdimensionar a força do secularismo no mundo.

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Folha – Bento XVI foi o grande inimigo da Teologia da Libertação?

Clodovis Boff – Isso é uma caricatura. Nos dois documentos que publicou, Ratzinger defendeu o projeto essencial da Teologia da Libertação: compromisso com os pobres como consequência da fé. Ao mesmo tempo, critica a influência marxista. Aliás, é uma das coisas que eu também critico.

No documento de 1986, ele aponta a primazia da libertação espiritual, perene, sobre a libertação social, que é histórica. As correntes hegemônicas da Teologia da Libertação preferiram não entender essa distinção. Isso fez com que, muitas vezes, a teologia degenerasse em ideologia.

E os processos inquisitoriais contra alguns teólogos?

Ele exprimia a essência da igreja, que não pode entrar em negociações quando se trata do núcleo da fé. A igreja não é como a sociedade civil, onde as pessoas podem falar o que bem entendem. Nós estamos vinculados a uma fé. Se alguém professa algo diferente dessa fé, está se autoexcluindo da igreja.

Na prática, a igreja não expulsa ninguém. Só declara que alguém se excluiu do corpo dos fiéis porque começou a professar uma fé diferente.

Não há margem para a caridade cristã?
O amor é lúcido, corrige quando julga necessário. [O jesuíta espanhol] Jon Sobrino diz: “A teologia nasce do pobre”. Roma simplesmente responde: “Não, a fé nasce em Cristo e não pode nascer de outro jeito”. Assino embaixo.

Quando o sr. se tornou crítico à Teologia da Libertação?

Desde o início, sempre fui claro sobre a importância de colocar Cristo como o fundamento de toda a teologia. No discurso hegemônico da Teologia da Libertação, no entanto, eu notava que essa fé em Cristo só aparecia em segundo plano. Mas eu reagia de forma condescendente: “Com o tempo, isso vai se acertar”. Não se acertou.

“Não é a fé que confere um sentido sobrenatural ou divino à luta. É o inverso que ocorre: esse sentido objetivo e intrínseco confere à fé sua força.” Ainda acredita nisso?

Eu abjuro essa frase boba. Foi minha fase rahneriana. [O teólogo alemão] Karl Rahner estava fascinado pelos avanços e valores do mundo moderno e, ao mesmo tempo, via que a modernidade se secularizava cada vez mais.

Rahner não podia aceitar a condenação de um mundo que amava e concebeu a teoria do “cristianismo anônimo”: qualquer pessoa que lute pela justiça já é um cristão, mesmo sem acreditar explicitamente em Cristo. Os teólogos da libertação costumam cultivar a mesma admiração ingênua pela modernidade.

O “cristianismo anônimo” constituía uma ótima desculpa para, deixando de lado Cristo, a oração, os sacramentos e a missão, se dedicar à transformação das estruturas sociais. Com o tempo, vi que ele é insustentável por não ter bases suficientes no Evangelho, na grande tradição e no magistério da igreja.

Quando o sr. rompeu com o pensamento de Rahner?

Nos anos 70, o cardeal d. Eugênio Sales retirou minha licença para lecionar teologia na PUC do Rio. O teólogo que assessorava o cardeal, d. Karl Joseph Romer, veio conversar comigo: “Clodovis, acho que nisso você está equivocado. Não basta fazer o bem para ser cristão. A confissão da fé é essencial”. Ele estava certo.

Assumi postura mais crítica e vi que, com o rahnerismo, a igreja se tornava absolutamente irrelevante. E não só ela: o próprio Cristo. Deus não precisaria se revelar em Jesus se quisesse simplesmente salvar o homem pela ética e pelo compromisso social.

Bento XVI sepultou os avanços do Concílio Vaticano 2º?

Quem afirma isso acredita que o Concílio Vaticano 2º criou uma nova igreja e rompeu com 2.000 anos de cristianismo. É um equívoco. O papa João XXIII foi bem claro ao afirmar que o objetivo era, preservando a substância da fé, reapresentá-la sob roupagens mais oportunas para o homem contemporâneo.

Bento XVI garantiu a fidelidade ao concílio. Ao mesmo tempo, combateu tentativas de secularizar a igreja, porque uma igreja secularizada é irrelevante para a história e para os homens. Torna-se mais um partido, uma ONG.

Mas e a reabilitação da missa em latim? E a tentativa de reabilitação dos tradicionalistas que rejeitaram o Vaticano 2º?

Não podemos esquecer que a condição imposta aos tradicionalistas era exatamente que aceitassem o Vaticano 2º. O catolicismo é, por natureza, inclusivo. Há espaço para quem gosta de latim, para quem não gosta, para todas as tendências políticas e sociais, desde que não se contraponham à fé da igreja.

Quem se opõe a essa abertura manifesta um espírito anticatólico. Vários grupos considerados progressistas caíram nesse sectarismo.

Esses grupos não foram exceção. Bento XVI sofreu dura oposição em todo o pontificado.

A maioria das críticas internas a ele partiu de setores da igreja que se deixaram colonizar pelo espírito da modernidade hegemônica e que não admitem mais a centralidade de Deus na vida. Erigem a opinião pessoal como critério último de verdade e gostariam de decidir os artigos da fé na base do plebiscito.

Tais críticas só expressam a penetração do secularismo moderno nos espaços institucionais da igreja.

Como descreveria a relação de Bento XVI com a modernidade?

É possível identificar um certo pessimismo na sua reflexão. Ele não está só. Há um rio de literatura sobre a crise da modernidade, que remete até mesmo a autores como Nietzsche e Freud. O que ele tem de diferente? Propõe uma saída: a abertura ao transcendente.

Ainda assim, há pessimismo.

Há algo que ele precisaria corrigir: Bento XVI leva a sério demais o secularismo moderno. É uma tendência dos cristãos europeus. Eles esquecem que o secularismo é uma cultura de minorias. São poderosas, hegemônicas, mas ainda assim minorias.

A religião é a opção de 85% da humanidade. Os ateus não passam de 2,5%. Com os agnósticos, não chegam a 15%. Minoria culturalmente importante, sem dúvida: domina o microfone e a caneta, a mídia e a academia. Mas está perdendo o gás. Há um reavivamento do interesse pela espiritualidade entre os jovens.

Que outras críticas o sr. faria a Bento 16?

Ele preferiria resolver problemas teológicos a se debruçar sobre questões administrativas na Cúria. E isso gerou diversos constrangimentos no seu pontificado. Ele também não tem o carisma de um João Paulo 2º. De certa forma, era o esperado em um intelectual como ele.

Não está na hora de a igreja ficar mais próxima da realidade dos fiéis?

Bento XVI não resolveu um problema que se arrasta desde o Concílio Vaticano 2º: a necessidade de se criarem canais para a cúpula escutar e dialogar com as bases.

Os padres nas paróquias muitas vezes ficam prensados entre a letra fria que vem da cúpula e o cotidiano sofrido dos fiéis, que pode envolver dramas como aborto ou divórcio. Note que não sugiro mudanças no ensinamento da igreja. Mas acho que seria mais fácil para as pessoas viverem a doutrina católica se houvesse processos que facilitassem esse diálogo.

Como vê o futuro da igreja?

A modernidade não tem mais nada a dizer ao homem pós-moderno. Quais as ideologias que movem o mundo? Marxismo? Socialismo? Liberalismo? Neoliberalismo? Todas perderam credibilidade. Quem tem algo a dizer? As religiões e, sobretudo no Ocidente, a Igreja Católica.

Os jovens estão chegando! – por Dom Odilo Scherer

Dom Odilo Scherer - Cardeal Arcebispo de São Paulo

Dom Odilo Scherer – Cardeal Arcebispo de São Paulo

Este artigo foi publicado no Jornal ‘O Estado de São Paulo’ neste sábado, 9 de fevereiro de 2012, tratando da Jornada Mundial da Juventude 2013, que ocorrerá no Rio de Janeiro em julho.

Porém hoje, 11 de fevereiro, o Papa Bento XVI anunciou a renuncia de seu pontificado, que ocorrerá oficialmente neste dia 28 de fevereiro. Nas palavras do Papa :”Estou bem consciente da seriedade desse ato, com total liberdade declaro que renuncio ao ministério como Bispo de Roma, sucessor de São Pedro”, disse Joseph Ratzinger, segundo comunicado do Vaticano.

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Faltam poucos meses para a Jornada Mundial da Juventude (JMJ) no Rio de Janeiro, que ocorrerá de 23 a 28 de julho. Ainda que não esteja sendo matéria especial de notícia, já existe uma grande movimentação para preparar a Jornada carioca: com certeza, ela movimentará no Brasil todo, especialmente no Rio de Janeiro, uma multidão bem maior de visitantes do que os grandes eventos esportivos programados para 2014 e 2016.

As Jornadas Mundiais da Juventude foram iniciadas no pontificado do papa João Paulo II, de maneira despretensiosa, no Ano da Juventude de 1985. Na celebração final, em Roma, com a participação de dezenas de milhares de jovens, o papa entregou-lhes uma cruz de madeira, simples e despojada, recomendando que a levassem ao encontro de outros jovens em todo o mundo, falando-lhes de Jesus Cristo. O êxito daquele gesto foi surpreendente e suscitou as Jornadas, que passaram a ser realizadas, em média, a cada três anos, sempre em países diferentes.

Buenos Aires, Santiago de Compostela, Czestochowa, Denver, Manila, Paris, Roma, Toronto, Colônia, Sydney e Madri já sediaram esses encontros. Todas as Jornadas Mundiais da Juventude contaram com a participação do papa. É ele que convoca os jovens para esses eventos, concebidos como peregrinações. Multidões de jovens têm correspondido ao convite. Em Madri, superando todas a previsões, foram cerca de 2 milhões; em Manila, mais de 5 milhões!

Nas Jornadas há atividades religiosas, culturais e sociais, marcadas por alegria e entusiasmo juvenis. Mais que tudo, porém, as JMJs propiciam às novas gerações uma peregrinação interior, atrás de respostas para as suas interrogações existenciais, e que a Igreja lhes oferece a partir do Evangelho de Cristo e de sua experiência bimilenar. Os jovens têm a oportunidade de interagir e se confrontar com os seus coetâneos, originários das mais diversas culturas e que trazem no coração os mesmos sentimentos. Em julho de 2011, em Madri, havia participantes de quase 200 países. A JMJ tornou-se uma impressionante manifestação global da família humana!

Nesse convívio, os jovens expressam de muitas maneiras a sua fé comum nas celebrações religiosas, em iniciativas culturais e artísticas e em reflexões de partilha sobre os valores comuns que os orientam nos mais diversos contextos em que vivem. Num tempo de grande pobreza espiritual, como o nosso, comparado pelo papa Bento XVI a um “deserto espiritual”, os jovens continuam querendo saciar sua sede de verdade, valores e beleza; com frequência são conduzidos a fontes secas e frustrantes, quando não envenenadas, que não lhes dão esperança nem motivos para viver e apostar suas energias de maneira construtiva. As Jornadas da Juventude são um convite para se aproximarem de Jesus Cristo, que a fé da Igreja Católica reconhece como “o caminho, a verdade e a vida” e que proclamou: “Aquele que vem a mim nunca mais terá sede!”.

Ao encerrar a Jornada da Espanha, o papa Bento XVI entregou a uma delegação de jovens brasileiros aquela mesma cruz de madeira, simples e despojada, que já percorreu vários países do mundo, recomendando que a levassem ao encontro da juventude no Brasil. Desde 18 de setembro de 2011, quando ela foi acolhida em São Paulo, a cruz está peregrinando por centenas de cidades, sendo acolhida com emoção pelos jovens, enquanto se preparam para a próxima JMJ. Também havia sido acolhida por uma multidão de jovens na cidade de Santa Maria (RS), poucas semanas antes do trágico incêndio numa casa noturna em que perderam a vida mais de 230 pessoas, sobretudo jovens.

O Rio está se preparando para sediar o grande evento da juventude em julho próximo. O Cristo Redentor já espera todos de braços bem abertos e a Cidade Maravilhosa se dispõe a expandir ao máximo sua simpatia e sua cordialidade. Entre os peregrinos estará também o papa Bento XVI, que manifestou mais de uma vez o seu desejo de estar com os jovens no Brasil.

Antes de se dirigirem ao Rio de Janeiro, porém, muitos jovens estrangeiros participarão das “pré-jornadas”, promovidas em numerosas cidades do Brasil de 16 a 20 de julho. Serão acolhidos por paróquias, colégios e várias outras organizações da Igreja; famílias também abrirão suas casas, num gesto de hospitalidade que se vai tornando sempre mais raro. Todos virão com recomendação e inscrição feita, acompanhados de religiosos, padres e bispos de seus lugares de origem.

Os jovens de longe poderão conhecer algo da nossa riqueza cultural e religiosa e realizar uma interessante troca de experiências com os jovens daqui. Temos muito a oferecer, mas também muito a aprender.

O enorme fluxo de viajantes, que passarão pelos nossos aeroportos e rodovias, ainda parece um fato hipotético, ignorado ou menosprezado. No entanto, será bem superior ao que se espera para a Copa do Mundo e a Olimpíada. Muitos desejam vir dos mais distantes recantos da Terra: além da motivação própria da JMJ, o fascínio da Cidade Maravilhosa é bem conhecido e atrai. Mas serão, sobretudo, os jovens brasileiros que afluirão aos pés do Cristo Redentor para essa experiência humana, religiosa e cultural, que tem surpreendido cada vez, até mesmo os mais críticos e céticos.

No dia 13 de fevereiro, Quarta-Feira de Cinzas, a Igreja Católica no Brasil vai abrir mais uma Campanha da Fraternidade. O tema não podia ser outro: Fraternidade e Juventude. Os jovens trazem no coração um anseio de fraternidade, que tem que ver com solidariedade, amor, justiça, dignidade e paz. Enfim, desejo de um mundo bom para todos. Com os jovens, e por amor a eles, vale a pena investir em laços de profunda fraternidade entre todos os membros da grande família humana, que mostrará mais uma vez seu rosto jovem na Jornada do Rio de Janeiro.

”João Alfredo Corrêa de Oliveira” – por Plínio Corrêa de Oliveira

João Alfredo Corrêa de Oliveira

João Alfredo foi Presidente do Gabinete do Conselho de Ministros do Segundo Reinado ( março de 1888 – junho de 1889 ), foi durante sua presidência que ocorreu a abolição da escravatura, em maio de 1888.  Ele era do Partido Conservador, abolicionista e defensor da Monarquia. Neste artigo, seu sobrinho, Plínio, faz uma breve descrição de João Alfredo.

Este artigo foi publicado no dia 21 de dezembro de 1936, no Jornal Diário de São Paulo.

Ignoramos as razões por que o riquíssimo arquivo deixado pelo conselheiro João Alfredo ainda não tentou o talento e a curiosidade de algum biógrafo. Nesse arquivo, ao par de documentos históricos de primeiro valor figuram trabalhos do conselheiro ainda inéditos, entre os quais uma história da Revolução de 1817 em que é cabalmente demonstrada a tese de que a maior parte de seus cabecilhas não desejava a proclamação da República.

O certo é que uma biografia de João Alfredo constituiria um estudo psicológico de interesse palpitante, pois que a sua evolução intelectual dos princípios dissolventes e igualitários de 1789 a um Catolicismo sincero e praticante, oferece uma complexidade de aspectos em nada inferior à conversão de Nabuco (1) ou Calógeras (2).

Eleito deputado aos vinte anos sua longa atividade política só sofreu uma interrupção de cinco anos quando se extinguiu a primeira legislatura de que fez parte. Em toda a sua longa carreira, João Alfredo mostrou-se profundamente embebido dos preconceitos dissolventes da Revolução Francesa e os defendeu sempre com ardor. Particularmente na famosa questão religiosa, sua atuação revelou o cunho fortemente anti-clerical e regalista da mentalidade dos estadistas de então. Com vigor que ele imprimia a todas as suas atividades, João Alfredo não hesitou em tomar a defesa da Maçonaria liberal, contra a Igreja, e na violência da luta, não lhe detiveram os passos nem sequer os laços do parentesco e amizade que o prendiam ao jovem Bispo D. Vital G. de Oliveira.

Depois de golpear a fundo o Altar, João Alfredo viu com tristeza que chegava a vez do Trono, de que ele era extremo defensor. No entanto, ainda aí, com uma coerência surpreendente em um liberal, não desmentiu seus princípios. Quando ele era Ministro do Império interpelou-o alguém sobre as providências tomadas contra a propaganda republicana, que grassava em todo o país. João Alfredo respondeu que não tinha providências a tomar, pois que, se algum dia os brasileiros optassem pela mudança do regime, ele saberia obedecer às injunções da maioria soberana.

Tibieza de opiniões? Indiferença para com a forma de governo? Não. Quando se proclamou a República, João Alfredo profundamente desgostoso, afastou-se definitivamente da política. Se cruzou os braços ante a propaganda republicana, fê-lo portanto por mera obediência às suas convicções liberais.

No entanto, esse liberal de grande estilo era, no cenário de nossa política, um autêntico Bismarck taciturno, de poucas palavras. Sua tática parlamentar se destacava pela perícia das manobras efetuadas com virulência disciplinadora de um chefe e a habilidade aveludada de um maneiroso diplomata. Muito cedo, pela manhã já era visto a percorrer as residências dos deputados, confabulando com uns e com outros, animando, coordenando, estimulando, ameaçando. Nos debates parlamentares era antes de tudo um general que dirigia de cima e de longe, sem se envolver pessoalmente na peleja oratória. Mas, quando o fazia, entrava no mais renhido do fogo, com a ferocidade fogosa de um nordestino combativo, a atacar, defender, argumentar, vencer. João Alfredo era grande orador, e disso deu provas sobejas, que hoje já ninguém discute. No entanto, seu invariável silêncio no Parlamento chegou a lhe valer a injusta fama de mau orador. Arcou com essa fama, em holocausto às suas idéias. O sacrifício foi duro, mas premiado de êxito, e quando João Alfredo encerrou sua carreira vitoriosa, a unanimidade dos brasileiros o aclamava como um dos maiores estadistas do Império.

Esse Bismarck taciturno e autoritário destoava singularmente do ambiente de retórica brilhante e talvez excessiva do Parlamento Imperial. Agia-se muito, falava-se mais ainda do que se agia. E assim parecia um prodígio a reserva inflexível do ilustre tribuno pernambucano, seu espírito autoritário e sua catadura de ditador.

Realmente havia em João Alfredo uma contradição íntima, que era um “superavit” de sua grande inteligência, em relação às idéias do século. Mal prevenido contra elas, por uma educação talvez deficiente do ponto de vista da segurança doutrinária, João Alfredo as abraçou por muito tempo. Mas sua inteligência lúcida e seu temperamento forte fizeram dele um liberal autoritário, amigo da ordem tanto quanto da liberdade. No estudante, no tribuno, o amor à liberdade excedia ao amor à ordem. No ministro, que viu do alto as verdadeiras necessidades do país, o amor à ordem acabou por vencer o amor à liberdade. E, com isso, João Alfredo foi evoluindo lentamente, até chegar ao polo oposto do liberalismo, que é o catolicismo.

O antigo perseguidor de bispos, morreu católico fervoroso. No-lo atestam seu testamento, e suas “últimas palavras”, em que pede a Misericórdia de Deus para a sua grande alma, que deposita no regaço da Igreja Católica. Bem antes de morrer, fizera-se membro da Ordem Terceira do Carmo, em que tomou o nome de Irmão João da Cruz, e foi com o hábito austero dos penitentes do Monte Carmelo que quis ir à última morada, para aguardar lá a ressurreição.

Seu fim piedoso e sereno seguindo-se a uma vida de liberal combativo faz lembrar involuntariamente a famosa sentença. “L’Eglise est une enclume qui a usé bien de marteaux” [A Igreja é uma bigorna que gastou muitos martelos].

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Obs:  por estarmos em 2012, eu resolvi fazer uma breve descrição de quem foi Joaquim Nabuco e João Calógeras para uma melhor análise do artigo:

(1) Nabuco foi o maior tribuno do Abolicionismo – Filho de Nabuco de Araújo – foi uma das principais lideranças do Partido Liberal, sendo o principal representante do movimento abolicionista. Excelente orador e polemista, escreveu vários libelos anti-escravistas e buscou apoio na Europa para o movimento. Ele era alvo predileto do ódio dos escravocratas.

(2) Calógeras foi um dos mais cultos e competentes funcionários públicos do Império. Entrou para o serviço público em 1859 como primeiro oficial do Ministério dos Negócios Estrangeiros e terminou a carreira como chefe de seção do Ministério do Império, 15 anos depois. Em suas cartas que tratam do período do Império, ele destacou as intrincadas manipulações que se faziam para conseguirem nomeações, promoções e licenças, envolvendo superiores hierárquicos, políticos, amigos e até mesmo o Imperador. A trajetória de Calógeras sempre se deu pelos seus méritos pessoais.

Ao mestre, sem retoques – Jornal Estado de São Paulo

Vinte anos após deixar o sacerdócio, Leonardo Boff, teólogo censurado por Ratzinger, analisa o papa em excursão latina

BOFF / RATZINGER

Até o âncora da CNN saiu do sério no último domingo quando, quase incrédulo, abriu os braços para mostrar o tamanho do sombrero que Bento XVI afundou na cabeça ao ouvir um conjunto de mariachis na cidade mexicana de León. Era o início da primeira viagem do bávaro Joseph Ratzinger à América de língua espanhola desde que virou papa, em 2005. Observadores mais entusiasmados, ou mais fervorosos, podem ter vislumbrado ali uma latinidade que sairia do armário, com desdobramentos inesperados em Cuba, terra não dos sombreros, mas das guayaberas. Falso foguetório. Bento XVI, 85 anos incompletos, rapidamente se reconduziu à sobriedade germânica que o caracteriza. Do México saltou para a ilha caribenha, encontrou-se com os irmãos Castro, repetiu a palavra “liberdade” em diferentes momentos e arrumou outras tantas para condenar o bloqueio econômico americano. Daí pegou seu aeropapa e voltou para casa.

E a empatia esperada? E aquela sedução diante das massas que fez de seu antecessor, o polonês Karol Wojtyla, o João de Deus neste lado do mundo? Enfim, o que fica do primeiro ensaio de Bento XVI no terreiro da latino-americanidade? Quem reflete sobre essas e outras questões é o catarinense Leonardo Boff, 73 anos, que o papa conhece de longa data e a quem ainda se refere como “der frommer theologe”, o teólogo piedoso. “Esse tratamento tem a ver com o que ele me dizia no passado, ao aprovar meu jeito de aproximar teologia e espiritualidade. Ele leu o que escrevi, e gostava. Em compensação me condenou em outros campos”, relembra Boff, ex-aluno dileto de Joseph Ratzinger, depois confrontado irremediavelmente com o mestre quando este se tornou prefeito da poderosa Congregação para a Doutrina da Fé, ex-Santo Ofício, no pontificado de João Paulo II.

Sentar-se no banco de Galileu diante dos inquisidores da Igreja, tendo à frente o mestre que o formou e pressionado a renegar teses da Teologia da Libertação, da qual era um dos formuladores, não é experiência de vida que o tempo apague. Em 1985, o franciscano indexado como rebelde recebeu uma condenação ao silêncio obsequioso. Depois seguiu-se um leve relaxamento das sanções. Mas, em 1992, portanto há exatos 20 anos, veio o enquadramento mais forte de Roma: silêncio total, sem direito a escrever, recolhido a um convento nas Filipinas ou na Coreia. Boff então se despediu da Ordem dos Frades Menores, abandonou os votos sacerdotais e se declarou leigo.

Mas a Igreja, especialmente a dos pobres, segue dentro dele. A teologia, também. Recentemente acrescentou um título à lista de mais de 60 livros com o lançamento de Cristianismo: Mínimo do Mínimo (ed. Vozes), em que discute como as igrejas criam respostas complicadas para o mistério da fé, “que é feito de simplicidade”. Vê-se que o aluno continua na trilha oposta à do seu mestre na Universidade de Munique. Boff quer simplificar. Ratzinger, feito papa, quer recuperar a simbologia católica mais tradicional e austera. São antípodas que se referenciam mutuamente.

Nesta conversa em torno de Bento XVI, Boff traz à tona momentos em que ambos atuaram juntos, ou bem próximos, desde os anos que se seguiram ao Concílio Vaticano II (1961-62) até o derradeiro momento da ruptura. Professor emérito da Uerj, honoris causa das universidades de Turim (Itália) e Lund (Suécia) e detentor em 2001 do Right Livelihood Award, Nobel alternativo concedido em Estocolmo, hoje mora em Araras (RJ) com a mulher, a também teóloga Márcia Miranda, cercado da prole que adotou como sua. Além de falar aos movimentos sociais, mantém agenda extensa de palestras dentro e fora do País. “Vivo neste ciganismo intelectual”, brinca.

No sétimo ano do pontificado e na sua 23ª viagem internacional, esta é a primeira vez que Bento XVI empreende uma visita à América de língua espanhola. Sendo o continente um reduto do catolicismo, terá demorado a vir para esses lados?

A preocupação central do atual papa é recuperar visibilidade para a Igreja no continente europeu. É isso. Ele considera que o processo de secularização fez com que a Igreja perdesse importância social, tornando-se mais e mais invisível. Diante de um cristianismo agônico, como se vê em muitas partes da Europa, ele traça uma estratégia de reconquista, que não se aplica à América Latina, considerada já conquistada. Aqui ele procura reforçar o existente. Considero uma estratégia equivocada, pois implica optar pelos ricos e não pelas maiorias empobrecidas do mundo. Mas é justamente dessa estratégia que vem toda uma valorização do catolicismo tradicional, uma parafernália de símbolos religiosos recuperados, algo que a mim soa como coisa meio vaidosa. Acredito que a renovação não virá do centro, mas da periferia onde vivem 52% dos católicos. O cristianismo tornou-se uma religião do Terceiro Mundo que um dia teve origem no Primeiro Mundo. Mas isso é de difícil compreensão para o papa.

O senhor reconhece no Bento XVI de hoje o Ratzinger dos anos 80, que o condenou ao silêncio obsequioso e o levou, por fim, a abandonar a Ordem e o sacerdócio?

Há um Ratzinger anterior, com quem estudei e trabalhei nos anos 60, 70. Era um professor adorado pelos alunos, teólogo de posições avançadas, tínhamos estreita ligação. A partir de 1965, com a criação da revista Concilium, formou-se o grupo dos 25 teólogos mais influentes no mundo, grupo que se reunia uma vez ao ano em alguma cidade europeia, sempre na semana de Pentecostes, para discutir os rumos da igreja pós-Vaticano II. Ratzinger estava lá, conosco. Ficou tão entusiasmado com a minha tese de doutorado na Universidade de Munique, sobre a Igreja como sinal no mundo secularizado, que tratou de arrumar editora e financiamento de 14 mil marcos para a publicação. O que o teria feito mudar? Acho que ele chegou à Congregação para a Doutrina da Fé muito rapidamente. De simples teólogo em Munique foi a cardeal em pouco tempo e logo promovido a um posto importantíssimo no Vaticano, graças à amizade com Karol Wojtyla. Quando este virou papa, logo o chamou para a congregação. E é como eu sempre digo: Roma tem uma enzima que transforma todo mundo.

Roma mudou Ratzinger?

O papa, no meu modo de ver, vive um processo de regressão em sua capacidade de formular uma visão coerente do mundo, seja do ponto de vista da análise, seja do ponto de vista da teologia. Ele é cada vez mais conservador. É risível teologicamente ressuscitar a idéia medieval de que fora da Igreja Católica não há salvação e de que a romana é a única igreja verdadeira. Comete-se um erro teológico. Seria o mesmo que dizer: Evangelho é somente o de Marcos, o mais antigo. Os demais, de Mateus, Lucas e João, que vieram depois, têm apenas elementos evangélicos, mas não são o Evangelho. Ora, ele próprio me ensinou que, assim como os quatro Evangelhos se aceitam mutuamente, assim deveria acontecer com as igrejas. Juntas elas formam o legado de Jesus. Ele aceitou essa tese como teólogo, mas a renegou no Vaticano. E por quê? Eis uma coisa tão alemã… Ao ir para a congregação, Ratzinger o fez como um típico burocrata alemão, assumindo como algo pessoal o que era oficial. Lembro de uma passagem: logo depois de sua nomeação, escrevi uma carta para ele felicitando-o e dizendo que, enfim, a teologia iria florescer no mundo. Quinze dias depois recebi carta dele avisando que havia processos abertos contra mim na congregação e que daria andamento a eles. Pensei, puxa, vida, em 15 dias ele já terá mudado tanto?

A visita ao México e a Cuba servirá para diluir a imagem de Ratzinger como desagregador da Teologia da Libertação?

O papa carrega um fardo negativo na história da teologia cristã. Não apenas perseguiu teólogos levando-os a julgamento em Roma, como fez comigo e Gustavo Gutiérrez (teólogo e frade dominicano nascido no Peru), como proibiu que publicássemos a primeira Suma Teológica (obra doutrinária e filosófica de São Tomás de Aquino, do século 13) na perspectiva da libertação.

Como assim?

Eu coordenava um grupo de cem teólogos da América Latina envolvidos na publicação da obra, em 53 volumes. Quando lhe expus o projeto, o então cardeal Ratzinger perguntou “e quem paga?”.Depois me disse que deveríamos publicar apenas um volume por ano, mas argumentei: “Eminência, não viveremos para ver o final do trabalho”. Por fim condicionou a autorização da publicação, o imprimatur, a uma licença especial que deveria vir de bispos espanhóis muito conservadores. Abandonamos o projeto. Tudo isso causou grande dano às comunidades que ter-se-iam enriquecido na sua compreensão da fé e também de seu compromisso político a partir da fé.

O giro latino-americano dos últimos dias também não poderá distrair a opinião mundial dos escândalos sexuais na Igreja?

Tanta perspicácia política não possuem os estrategistas do Vaticano. A concepção deles é centrada sobre a Igreja em si mesma, bastião de defesa contra o secularismo, ateísmo e materialismo do mundo moderno. Roma apoia o cristianismo da América Latina desde que mantenha sua lógica colonial, dependente do centro, e não pretenda fazer aqui um ensaio original com outras culturas, de onde saia um rosto índio-negro-latinoamericano de cristianismo. Ou seja, cristianismo, sim, desde que romano. Agora, a pedofilia atacou de fato o coração da Igreja Católica, aquele capital simbólico e espiritual do qual vivia sua legitimidade e força moral. Isso tudo deve causar uma tremenda perplexidade ao papa.

Por quê?

A concepção que eu ouvia em suas aulas era de que a Igreja deve ser o pequeno rebanho, um pedaço do mundo reconciliado, o oásis onde a salvação se realiza de forma exemplar, como representação para todos os demais. Ocorre que esse oásis e pedaço de mundo reconciliado é uma ideia platônica, realidade que nunca existiu. A Igreja está no mundo como as demais realidades, sujeita a vulnerabilidades da condição humana. Os antigos diziam e sobre isso o teólogo Ratzinger escreveu algumas belas páginas: a Igreja é uma casta meretriz. De noite ela peca como meretriz. De dia Deus a limpa, a torna casta e a faz sua esposa. Quanto à pedofilia na Igreja, a estratégia do Vaticano é desviante ao separá-la do celibato. O elo entre os dois temas é a sexualidade. Notoriamente a educação dos candidatos ao sacerdócio, e ao celibato, tem sido insuficiente, fazendo da sexualidade o mundo da tentação e do pecado. Ora, uma educação inadequada faz com que muitos deem azo a expressões perversas e criminosas da sexualidade. O normal seria a Igreja rever a lei do celibato e torná-lo facultativo, como o fizeram todas as igrejas.

Como o senhor compara o estilo João Paulo II ao de Bento XVI no contato com fiéis?

Podemos discutir a teologia conservadora de João Paulo II, mas não podemos desconhecer seu irradiante carisma, que galvanizava multidões. Num mundo sem figuras carismáticas, pois hoje a maioria dos chefes de Estado, opacos burocratas, sai das escolas de administração, a figura de João Paulo II se sobrelevava. Não possuía boa teologia, tanto que sua tese doutoral sobre a fé em São João da Cruz não foi aprovada. Mas era um grande pastor. Falava mais por gestos que por palavras. Sua aparição ao público era uma encenação. Vê-se que tinha sido na juventude ator. E foi ator a vida inteira, encenou a própria morte. Sua irradiação era tão grande que fascinou e, eu diria, até cegou Ratzinger, que, em seu entusiasmo, logo o beatificou. Já o papa atual preserva dentro de si o mestre, que de fato foi, de uma rigorosa universidade alemã. Não possui carisma por isso não projeta aura benfazeja, mas severa, contida. O professor com quem privei sempre foi uma pessoa gentil, fina, mas extremamente tímida. Sim, Bento XVI é um homem muito tímido. Posso imaginar como deve sofrer longe de seus livros e da leitura de Santo Agostinho, do qual é eminente especialista, tendo que fazer saudações e dar manifestações públicas de carinho, algo inimaginável na sua atividade de Herr Professor.

João Paulo II e Fidel desenvolveram, guardadas as distâncias, um contato sincero aparentemente. E tem-se que a Igreja católica em Cuba recuperou terreno social e até presença política. Isso poderá ser ‘reeditado’ com Bento XVI e Raúl Castro?

Quem seguiu de perto o encontro de Fidel Castro com João Paulo II teve a clara percepção de que eles se afinavam profundamente. Pudera, tinham as mesmas características de base: o exercício autoritário do poder. E ambos eram figuras carismáticas. Com o papa atual é diferente. Eu diria que nessa semana vimos o encontro de dois chefes de Estado, cada qual com sua identidade, sem nenhum gesto que rompesse o plano burocrático. Como de praxe o papa tem que falar dos direitos humanos, já que a Igreja levanta a pretensão de ser especialista em humanidade, mas quem a conhece por dentro percebe a falácia da presunção.

Cuba e o contato com a gente simples de lá podem mudar concepções em Bento XVI?

O encontro é sempre criativo, muda a cabeça das pessoas. Seria preciso ser inimigo da própria humanidade e não se comover diante dos humildes que acenam e estendem a mão para uma figura que representa algo de sagrado, de uma realidade que ultrapassa a nossa. Para João Paulo II as viagens significavam grande aprendizado. Para Bento XVI deve também haver um quociente de aprendizado, mas como é intelectual de grandes conhecimentos teóricos, num nível realmente alto, penso que o aprendizado servirá para confirmar as próprias convicções. Mas talvez eu esteja subestimando a força intrínseca que todo encontro possui… Isso já é filosofia, não é análise.

Mas ele desembarcou no México, primeira etapa desta viagem, anunciando-se como ‘peregrino da fé, da esperança e do amor’.

Que outra mensagem poderia dizer? Ele não é um político, porém maneja símbolos poderosos, que alcançam fundo a alma das pessoas. Todos anseiam por amor, fé, esperança. Não será um Berlusconi ou um Sarkozy que farão semelhantes discursos. Então o papa está em seu papel.

Na coletiva para 70 jornalistas no voo Roma-León, rumo à primeira escala mexicana, o papa disse textualmente: ‘Hoje é evidente que a ideologia marxista, como foi concebida, já não responde à realidade’. Mas a frase chegou a ser publicada como ‘o papa disse que comunismo em Cuba não funciona’…

Como a maioria dos alemães, ele é profundamente anticomunista. E não diferencia os tipos de marxismo como fez inteligentemente João XXIII na Mater et Magistra, ele que era bem menos culto que Ratzinger. Se Bento XVI tivesse se restringido ao marxismo como teoria social, como conjunto de ferramentas para entender uma sociedade e analisar a lógica perversa do capital, talvez falasse o contrário. Hoje, dizem-no livreiros da Europa e dos Estados Unidos, Marx é um dos autores mais lidos e estudados por financistas que foram à falência e procuram entender por quê.

Fidel, no breve encontro com Bento XVI em Havana, ousou perguntar ‘o que faz um papa’. O que o senhor acha da indagação?

Se eu fosse o papa responderia com toda a simplicidade: “Não faço nada. Fazem tudo por mim”. Porque o que ele tem que fazer, e essa é sua única missão, é viajar pelo mundo para fortificar os irmãos na fé, mantendo a unidade de uma instituição que hoje tem o tamanho de uma China inteira. No mais, fazem tudo por ele. Uma vez alguém perguntou a João XXIII quantas pessoas trabalhavam na Cúria Romana. E ele disse: “A metade” (risos). É assim mesmo, metade trabalha, metade vagabundeia.

A secularização, como já se disse aqui, está no topo das preocupações do Vaticano. E o papa prega que é possível redescobrir Deus como orientação fundamental de vida no contexto da racionalidade moderna. O senhor está de acordo com ele?

Estimo que o papa possua um conceito reducionista de secularização. Na verdade é um conceito nascido no interior da teologia protestante do século 19 e começo do século 20 para afirmar a legítima autonomia do saeculum, quer dizer, do mundo, da criação. Na secularização, Deus não é pronunciado, o que não significa que esteja ausente. Ele está presente sob o nome de justiça, amor, retidão, boa consciência, solidariedade e compaixão. Ilusão dos cristãos pensarem que Deus esteja presente somente onde seu nome é pronunciado, pois muitos se dão por piedosos e comportam-se como malfeitores. Nosso mundo político está cheio deles. Já o “secularismo” é a patologia da secularização ao afirmar que só existe este mundo e qualquer aceno a algo que o transcenda é ilusão ou alienação. Creio que o papa deveria ter feito a distinção para não condenar aquilo que é são.

Ele quer uma Igreja menor, mais disciplinada e homogênea. No ano passado, se não me engano, visitou sua Baviera natal, pregando ‘uma outra Alemanha’, não a Berlim secular, administrada por um prefeito gay…

Quem conhece a Baviera entende suas palavras. Vivi lá cinco anos ininterruptos e pude conversar muito com Ratzinger sobre o tipo de catolicismo que se originou na região. Para o professor aquilo significa uma das mais perfeitas e completas encarnações da fé cristã numa cultura rústica, camponesa, de virtudes ligadas ao trabalho, à piedade familiar, às festas de Igreja e à impregnação de elementos religiosos em todas as casas. Ele me disse várias vezes que “o caminho romano passa pela Baviera”. Só que se trata de um cristianismo que não se confrontou com a modernidade!

Depois de deixar a ordem e o sacerdócio, o senhor esteve com seu ex-professor?

Não, não. Numa famosa conferência que fez em Florença, sobre o Vaticano II, ainda cardeal, Ratzinger me citou em público. Curioso, ele se refere a mim como “der frommer theologe” (o teólogo piedoso), aprovando a maneira como eu aproximo espiritualidade e teologia, mas me criticando duramente em outros textos… Pois bem, depois da conferência houve uma entrevista e um jornalista indagou por que, afinal, fizera a citação de alguém que havia condenado. E ele respondeu algo assim: “Boff é um homem inteligente, bom teólogo, espero que um dia volte e acolha o magistério da Igreja”. Continuará esperando.

“A Assembleia Nacional Constituinte e o papel da TFP como grupo de pressão no processo de promulgação da Constituição de 1988” – por Moacir Pereira Alencar Junior

Desfile dos 500 anos da Descoberta da América, realizado pela TFP, em 1992.

Monografia apresentada ao Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) como parte dos requisitos necessários à obtenção de título de Bacharel em Ciências Sociais. 

“A Assembleia Nacional Constituinte e o papel da TFP como grupo de pressão no processo de promulgação da Constituição de 1988″ – monografia na íntegra em PDF [CLIQUE AQUI]

Nesta monografia busco analisar historicamente o papel da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição Família e Propriedade(TFP) na Assembleia Nacional Constituinte de 1988. Para isto, foi feito uma análise histórica do grupo entre os anos de 1960-1988, chegando ao momento no qual ele atuou como grupo de pressão em defesa de ideias patriarcalistas, hierárquicas e conservadoras na sociedade brasileira; buscando defender privilégios de uma elite agrária econômica e de grupos tradicionalistas da Igreja Católica.

Palavras-chave: TFP, Assembleia Nacional Constituinte de 1987/1988, grupo de pressão, religião, política.

Monografia defendida em 30 de novembro de 2011.

ÚLTIMA ATUALIZAÇÃO DO DOCUMENTO PDF, com revisão ortográfica ocorreu em 26 de abril de 2012.