Ceticismo – por Moacir Pereira Alencar Júnior

 

ceticismo

Vote em Bolsonaro: “Fascista” / Não vote em nenhum deles: “Colaboracionista do fascismo” / Vote em Haddad: “Baluarte da democracia”.

Muitos perguntam porque centrei meus ataques ao PT neste segundo turno, e “completamente nada falo” de Bolsonaro. Antes de mais nada já expus de vários modos minhas críticas a estas duas agendas de Brasil que hoje disputam o poder. Acredito que a democracia pode ter os mais variados espectros na seara política – dos extremistas de direita aos extremistas de esquerda. E é exatamente este contrabalanceamento que permite termos a construção da democracia – aos trancos e barrancos – e seu melhor aprimoramento.

Nossa redemocratização nasceu torta…se por um lado ela tem 30 anos, por outro ela nunca teve de forma clara um partido com propostas eminentemente conservadoras. Um caso similar é o chileno, que somente 20 anos depois do fim da ditadura de Pinochet, em 2010, elegeu um governo conservador com Sebastian Piñera (centro-direita apoiada por uma direita radical ainda saudosa de Pinochet). No caso chileno, o poder se revezava entre DC (Democrata Cristão) e PS (Partido Socialista) durante 20 anos, até o partido da Renovação Nacional eleger Piñera.

PT-PSDB, no Brasil, sempre foram “oposições” neste período, mas jamais um dos partidos era de fato antagônico em seus ‘projetos maiores’. Tal como o DC e o PS chileno, havia muito mais similaridades do que distinções entre as origens destas duas legendas. Mas no caso brasileiro, a narrativa de poder petista levou o PSDB a um campo da qual nunca soube se adaptar e mesmo se apresentar (centro-direita). Já tive a oportunidade de perguntar pessoalmente isso a Fernando Henrique Cardoso, em 2012.

Podemos falar da existência de grupos difusos em vários partidos brasileiros com defesa de agendas conservadoras, mas jamais poderíamos falar de partidos políticos. Natural que em um momento uma direita se organizaria no Brasil – seja ela moderada como radicalizada – e o PSL abraçou essa causa e agora representa tal agenda. E se a mesma ascendeu é porque os outros grupos não souberam enxergá-la da maneira devida. A direita pós-redemocratização foi sempre caricaturizada (Digo isso porque em meu mestrado estudei pensamento conservador, e sei como as análises sobre o mesmo são  tão reducionistas no mundo acadêmico, marginalizadas).  E aqui vale ser ressaltado que qualquer grupo ‘não petista’ foi estigmatizado nesta última década (sem diferenciação – PT sempre colocou todos no mesmo balaio – “todos são “fascistas”, “reacionários”, “golpistas”, etc”).

Hoje a “caricatura radicalizada” ganhou porte e asas, e assumirá o poder, pelas urnas. Porque não vejo nenhum intelectual dos outros grupos que estão sendo derrotados a fazer uma análise crítica deste por que? Sabemos que por 50 anos a ditadura militar fez de nossas universidades um polo de resistência ao autoritarismo. Mas um polo que apresentou muitas contradições, e ficou refém de uma única visão de mundo, também radicalizada. A ditadura militar jamais tentou incutir na mente dos brasileiros um monopólio de pensamento e formação ideologizada. Seu autoritarismo e repressão seguiram outros caminhos. Já após o fim da ditadura, a universidade se tornou um polo de formação majoritária de uma única visão ideológica. Permaneceu a mesma militante de via única, pouquíssimo aberta ao plural e ao diálogo nas ciências humanas.

Sabemos que o que molda uma população mais do que autoritarismo e repressão é ter o controle hegemônico do pensamento, por décadas e por gerações nas instituições de ensino secundário e no ensino superior. E quando você tenta naturalizar essa visão a vida da sociedade, corre o risco de criar uma reação como a que vemos hoje representada em Bolsonaro. Negar isso é impossível.  A Universidade Pública foi literalmente cooptada pelo petismo muito antes dos mesmos estarem no poder, e após estes 14 anos se tornaram indissociáveis. Se este governo Bolsonaro cair em erro, ou mesmo trocar os pés pelas mãos – para estas afirmações ainda cabe o benefício da dúvida – lembremos que uma comoção intestina não começa de um dia para noite. Por isso sou cético com estes dois grupos.

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PSDB : Renovação ou Morte – por Moacir Pereira Alencar Júnior

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Uma semana para as eleições presidenciais e o PSDB novamente se perde em meio as suas contradições e vaidades. Há 16 anos se acostumou em ser oposição sem realmente ser. Considerava que o próprio mecanismo de equilíbrio de forças manteria o partido sempre na posição antagônica ao PT por inércia e acomodação, como se nossa democracia fosse bipartidária. Perdeu quatro eleições presidenciais para o PT, mas no fundo assistia e aplaudia governos petistas, uma vez que a sua origem socialdemocrata tinha origem nos valores da centro-esquerda. Única diferença era ser pragmático no campo econômico, e saber adotar quando necessário medidas liberalizantes na economia; coisa que o PT jamais soube fazer, colocando a ideologia a frente dos problemas do país (vide caso do Joaquim Levy no governo Dilma).

Quando pesquisadores e cientistas políticos renomados do exterior – como Frances Hagopian, de Harvard; dizia que o PSDB deveria se reafirmar como de centro-direita, uma vez que o PT já tinha monopolizado fortemente todas as bandeiras de esquerda após mais de uma década no poder; FHC corria para negar essa possibilidade, e se mostrava ferrenhamente contra. Dizia Hagopian: “Acredito que eles (os tucanos) podem se destacar nesse espaço de centro-direita, se tiverem coragem para fazer isso”, afirmava a professora da Universidade Harvard. “Precisam mostrar o que fizeram, ser fiéis a si mesmos”, completa ela, referindo-se às transformações capitaneadas pela PSDB na gestão FHC (1995-2002) ”¹.

Mas o PSDB não fez a tarefa de casa…se calava, titubeava e hoje o resultado é este…a redução esmagadora de intenções de votos nas pesquisas a presidência da república e a grande chance de perder o principal estado do país, onde por comodismo próprio e inércia de adversários, governou por 24 anos. Quem sabe sofrendo um abalo deste peso o partido busque se renovar e tirar o centro das decisões da cúpula paulista, buscando uma renovação de pensamento e quem sabe de revitalização de quadros. Afinal essa cúpula parece ter se perdido no tempo e não acompanhado as mudanças da sociedade brasileira…tanto não deu atenção como se acomodou e hoje amarga a quarta colocação na corrida presidencial.

Conversas de bastidores dizem que o presidente de honra do partido – Fernando Henrique Cardoso – deve declarar apoio a Haddad no segundo turno², contrariando posição de outros políticos do partido; confirmando quão frágil era e sempre foi de fato esse dito antagonismo, haja vista que nem o primeiro turno ocorreu e Alckmin ainda está na disputa (ao menos protocolar). Ao afirmar possível apoio ao PT e não adotar uma posição de liberação de votos de seus filiados e possíveis eleitores simpatizantes, o partido se apequena e fica totalmente sem bases claras junto ao eleitorado…uma hora a inanição daria nisso…e esta hora chegou.

1 Em 2011, publiquei esta entrevista de Hagopian dada ao Jornal Estadão em meu blog. Aqui coloco o link para os interessados na entrevista dada na época: https://moaciralencarjunior.wordpress.com/2011/10/02/%E2%80%98psdb-precisa-assumir-se-como-partido-de-centro-direita%E2%80%99-diz-pesquisadora-de-harvard/

2 https://www.oantagonista.com/brasil/a-implosao-do-psdb/

 

Democracia amordaçada pela idolatria – por Moacir Pereira Alencar Júnior

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A esquerda sempre se utilizou do marketing para estampar seus “heróis”… um exemplo clássico é a imagem de Ernesto Che Guevara estampada em camisetas, blusas, jaquetas, assim como em tatuagens em celebridades e em outras coisas mais. O revolucionário é tratado como um mártir, como figura transcendente no tempo e no espaço…um vigoroso representante do que seria um sonho da esquerda dos anos 1960 até os dias de hoje. Trazendo para o campo da razão, vemos que ele nada mais foi do que um líder autoritário, que uma vez no poder exerceu dos mesmos mecanismos de opressão, intolerância e ódio – que ele dizia combater – contra seus opositores. Sim, o meio de ação era matar, destruir, liquidar tudo aquilo que não estaria de acordo com a “revolução redentora” cubana. Agora no Brasil vemos essa mesma construção mitológica em torno de duas figuras. Uma é Lula, o líder sindical e ex-presidente,que foi elevado a figura sacrossanta, de ser intocável e acima das leis dos homens e de Deus – um “injustiçado incompreendido” e “odiado” gratuitamente, que não pode pagar por seus crimes – afinal quem é ele para cometer crimes, não é mesmo? “Ele é a alma mais honesta”, portanto pode e deve ser estampado em camisetas do seu poste presidenciável e nas camisas dos demais petistas, que nutrem em torno dele um sectarismo perverso e doentio.

No outro extremo temos a construção da figura de “mito” em torno de um deputado vergonhoso, inexpressivo, que por 30 anos não liderou uma comissão, um partido, ou sequer um movimento enfático na defesa de uma causa clara e concisa no Congresso Nacional. Parlamentar que sempre viveu na sombra das principais lideranças e sempre se perdeu nas incongruências de seu pensamento e ações quando tomava alguma posição, agora também é estampando em camisetas de dezenas de militantes, que já o elevaram a figura que paira sobre os demais humanos… um ataque criminoso de um radical politizado que tentou matá-lo há menos de um mês das eleições presidenciais aflorou ainda mais este sectarismo em torno de sua imagem. Bolsonaro não matou ninguém em nenhuma ditadura – mas como militar da reserva – gosta de cultuar os torturadores que no passado mataram em defesa de um projeto autoritário de poder (que fique claro que não são todos os militares que veem o mundo segundo a ótica de Bolsonaro). Estes dois grupos – lulistas e bolsonaristas – vivem da guerra santa, da construção de falsos ídolos e do deboche às instituições democráticas.

Que fim nosso país está tomando? Quem se diz religioso, em especial católico – ou tenha sua fé de variadas matizes – deveria saber que a Igreja está “fora e acima dos partidos” (ao menos deveria estar), e que esta cegueira em busca de falsos profetas é uma tremenda insensatez…uma marcha rumo a idolatria desvairada. A história nos mostra casos claros, e isso independe de viés ideológico, uma vez que a fé e religião já foram usados como instrumento político inúmeras vezes em nossa história. Esse ópio em torno do Lulismo e do Bolsonarismo é um ataque deliberado contra a liberdade. Essa guerra se mostra puramente secular, por conseguinte indigna. Se ambos grupos buscam “cruzados” para nos reger nos próximos quatro ou oito anos, saibam que o povo brasileiro é um, e a imposição da mordaça de um grupo sobre outro só se dá em uma nova ditadura, não em uma democracia.

 

Populismo, Ultraliberalismo e Messianismo: inimigos declarados da Democracia – por Moacir Pereira Alencar Júnior

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O aniversário de trinta anos da “Constituição Cidadã” de 1988 coincidirá com as eleições presidenciais de 2018, em outubro.  Após trinta anos, nossa democracia passou por diferentes episódios, ora nobres ora perversos, ora carregados de avanços e progressos, sempre acompanhados de controversas e retrocessos, que surrupiavam conquistas ou apenas apresentava promessas imediatistas sem um lastro de possibilidades de um desenvolvimento concreto.

Experimentamos experiências traumáticas e positivas no decorrer deste período. O primeiro presidente eleito pelo voto indireto pós regime militar, Tancredo Neves, morreu antes de tomar posse. José Sarney, apoiador do regime militar, até se tornar dissidente político do PDS por questões de poder, teve a experiência de como vice de Tancredo, assumir a liderança do país. Um período de estagnação econômica, inflação galopante e muita inconstância encerrava os anos 1980.

Nos anos 1990, o “Caçador de Marajás”, Fernando Collor de Mello, surgia como o salvador da Pátria, aquele que iria colocar o Brasil na rota do crescimento e reconhecimento na economia global. Iria combater os corruptos e pôr fim aos privilégios do estamento burocrático. Ao trocar os pés pelas mãos, cometeu erros crassos na economia e sofreu impeachment exatamente por praticar aquilo que dizia combater. Itamar Franco foi o presidente para a transição necessária do contexto. Com ele surge as primeiras medidas econômicas que poriam fim ao flagelo da inflação, que vivia a corroer o salário do cidadão brasileiro e davam ao Brasil uma imagem de país displicente com sua situação econômica e social.

 Fernando Henrique Cardoso (PSDB) assume a presidência em 1995, efetivando e concretizando as medidas econômicas iniciadas com Itamar e com a criação do Plano Real. A inflação é domada, e a estabilização da economia, que há décadas era uma busca, se confirma. Surge então, os primeiros programas de perspectiva social dirigidos a setores da sociedade, ainda acanhados. Todavia, a estabilização da economia custou durante este período muita recessão e especulação econômica, fatores que tornavam o país carente de possibilidades de crescimento econômico constante e distribuição de renda efetiva. A aprovação da Emenda Constitucional da reeleição, em 1997, causou danos catastróficos no funcionamento da nossa democracia, dificultando a renovação de novos quadros e tornando a política um jogo de poder pelo poder. Perpetuação a todo custo. Sem contar a intensa polêmica sobre a compra de votos na Câmara para a Emenda sair do papel. Mais um episódio de corrupção manchava um governo.

Em 2003, Lula chegava a presidência da república com apoio de movimentos sociais e variados setores da sociedade. Ao tomar posse, Lula adotou uma política econômica conservadora, que mantêm o acordo feito por FHC com o FMI, e elevou as taxas de juros. A postura agradou o mercado internacional e manteve o dólar estável abaixo dos três reais. Em relação ao antecessor, o governo Lula é marcado pela ênfase em programas sociais e pelo aumento do salário mínimo acima da inflação, tendo como resultado uma melhora na distribuição de renda no país. Neste momento, as commodities brasileiras tinham alto valor no mercado mundial e este fenômeno foi acompanhado pelo aumento acentuado do crédito, algo até então inédito na história do real.  O crédito disparou porque o nível de confiança aumentou, fazendo com que consumidores passassem a consumir mais e empresários voltassem a investir mais. Em 2005, estourava o escândalo do “Mensalão”. O PT era acusado de pagar propina a parlamentares da base de apoio para aprovarem projetos de interesse do governo. Dirigentes da alta cúpula do partido participaram do esquema, e a credibilidade do governo foi colocada à prova. Mas a alta popularidade de Lula faz a sua sucessora ser eleita presidente.

Com Dilma Rousseff, a partir de 2010, num outro contexto e cenário econômico mundial, a Nova Matriz Econômica adotada pelo governo acarretou efeitos perversos na estabilidade econômica e no crescimento do país. A grande expansão do crédito e investimentos errados fizeram com que a renda real do trabalhador se estagnasse, e com que os desarranjos da conta do governo atingissem toda a população em cadeia, e passamos a assistir a volta do crescimento da inflação. A reeleição de Dilma em 2014, se dá em meio a eclosão de um novo e mais sofisticado esquema de corrupção, conhecido como “Petrolão”, que envolve várias lideranças do governo e de partidos aliados. Mais um mecanismo de perpetuação do poder levado a cabo pelo governo via corrupção abalava as estruturas. O desfecho de seu governo se dá com seu “Impeachment Tabajara” em 2016, por ‘pedaladas fiscais’, já que suas ações iriam contra a Lei de Responsabilidade Fiscal. Todavia, ela goza de todos os direitos políticos, não sofrendo as penalidades previstas em qualquer impeachment, referente a seus desmandos e mal feitos.

A “pinguela”   do governo Temer, que caminha para seu fim, também se notabilizou por estar mergulhada em escândalos de corrupção; lideranças de sua cúpula de governo também se beneficiaram do escândalo do Petrolão. Já na esfera da política econômica, tenta adotar reformas ortodoxas visando reestabelecer a credibilidade na economia nacional, buscando impulsionar seu crescimento. Coisa difícil de ocorrer, já que o governo se demonstra fraco e sem qualquer crédito diante de variados setores socioeconômicos.

CHEGAMOS EM 2018

Fiz um raio X destes trinta anos para chegar no ponto central deste artigo. O descomedimento das ações da classe política – seja na gestão do país, como no envolvimento em escândalos de corrupção – levou a população brasileira a um profundo desalento. A Operação Lava Jato ao combater a corrupção, e em certos momentos indo além de seu papel central, ajudou a criar um cenário ainda maior de antipolítica e pensamentos radicalizados. Em 2018, Lula, um dos presidentes com maior popularidade quando deixou o poder, em 2010, foi preso por corrupção e lavagem de dinheiro. E neste cenário o messianismo, o populismo e mesmo o ultraliberalismo deram as caras e estão personificados em candidatos que disputam a presidência do país.

Conforme as pesquisas de opinião, Lula – preso e condenado – lidera com cerca de 40% dos votos a escolha dos eleitores. Jair Bolsonaro, com cerca de 20% da intenção de votos ocupa o segundo lugar. O messianismo e o populismo se cruzam num momento de indefinição e nebulosidade da nação. Onde crise institucional, econômica e política se interconectam perigosamente.

Lula, em meio a insegurança jurídica do país, se utilizou do messianismo em torno de seu nome para tentar uma nova reeleição até o último momento, tendo o TSE decidido por sua inelegibilidade neste dia 31 de agosto. Agora a meta do petismo é transferir seus votos a um indicado, Fernando Haddad. A mística criada em torno do antigo governo de Lula e sua prisão, considerada por seus militantes e diferentes analistas como “ilegal” e “despropositada”, é sua arma de guerra nesta batalha. A fé cega nos dogmas, o fervor nos atos que lhe são úteis, o proselitismo dos militantes, ou a transformação de partidários caídos em combate em mártires, se tornam figuras a adorar como se fossem santos.

Entretanto, conforme demonstrou o filósofo francês Condorcet, no Século XVIII, uma religião política pode se assustar com o resultado ao qual chegou o processo que ela contribuiu para desencadear. A fusão entre poder temporal e poder espiritual sonhada pela “revolução” petista suscitou como reação um projeto simétrico de perspectiva “contrarrevolucionária”. E Bolsonaro encarna este projeto.

Bolsonaro surge como o “salvador da pátria” às avessas, como a ‘única’ figura ‘honesta’ para combater a corrupção sistemática dos últimos governos e a crise econômica e social que a nação enfrenta, sendo o “herói” para guiar o país a Terra Prometida. Seu populismo bebe da seiva petista e encontra militantes incondicionais na defesa de seu projeto de ‘futuro’ para o país.

O populismo de Bolsonaro concede especial relevo aos valores tradicionais. O populismo apresentado é mais moralista que programático.

Este populismo navega no militarismo. O próprio conceito do exército como povo armado, como soma das virtudes populares, como perene reserva de valores nacionais e populares autênticos, é um conceito populista típico. Este populismo bolsonariano partilha, fundamentalmente, da mesma falta de organização ideológica, do ecletismo e, até certo ponto, do desprezo pela ordem constituída e pelas formulações ideológicas; por isso, ele também se apresenta como contestação do sistema e como uma anti-ideologia. Constitui uma resposta à abordagem ideológica e à problemática política: a estruturação ideológica é considerada, seja qual for a sua origem, como mistificante e ilusória. A ideologia populista se reduz, portanto, a um núcleo suscetível de variações mesmo radicais, por motivos pragmáticos.

Todavia, seu assessor econômico, e possível ministro da Fazenda – Paulo Guedes – apresenta como modelo de um futuro governo Bolsonaro, uma agenda ultraliberal para as questões econômicas. Guedes já afirmou na imprensa que sua meta seria a privatização de “todas” as empresas estatais.

Enquanto o petismo aposta tudo na capacidade de intervenção do Estado, e já foi inclusive descomedido nas ações quando esteve no poder, provocando os danos socioeconômicos que agora enfrentamos; o bolsonarismo econômico aposta todas suas fichas na certeza que a economia domina a vida social e a rentabilidade material domina a economia.

Os desvios do espírito democrático destas duas forças políticas se chocam com os limites da liberdade…nada nos obriga a limitar-nos à escolha entre o “Estado é tudo” e o “Indivíduo é tudo”. Precisamos defender os dois, Estado e Indivíduo, cada um limitando os abusos do outro.

O inferno somos nós – por Moacir Pereira Alencar Júnior

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A máxima de Jean Paul Sartre: “O inferno são os outros”, nunca teve tanta significância como agora para tratar da análise de um partido político e toda sua trajetória histórica. Em pouco mais de 35 anos de história, o PT sempre colocava-se como uma vanguarda do seu tempo no campo ético e moral. Ainda no regime militar gostava de se colocar como um partido acima dos demais, irretocável e onipotente. Durante o Regime militar o petismo seria a consagração e o caminho do céu. Findo o regime militar, o partido continuou em sua sanha de se colocar como porta-voz único do povo contra as “amarras imperialistas e ferozes do capitalismo”. Após termos Sarney, Collor, Itamar e FHC como presidentes, esta visão de mundo ainda era a definição de ação e de pensar do petismo…”O inferno são os outros”. Após a chegada de Lula no poder, parecia ter se iniciado o Anno Domini….o “salvador da Pátria” tinha alcançado à presidência da república. Após 8 anos de governo que combatia agora o “inferno oposicionista” tudo eram louros e glória. O “Messias” com popularidade inabalável iria fazer uma “discípula” levar adiante o legado do reino de “Deus na Terra” ;reino este que já aparentava apresentar desvios de conduta no campo ético e moral e também no campo econômico, todavia sabia fazer os “fiéis” sedentos e “vislumbrados” pelo poder do salvador a confiar em sua prédica. Com sua discípula, a prédica permaneceu a mesma, mas a realidade do país passava a ser outra, e cada vez mais esta pregação ganhava sentido de “charlatanismo”. Abalos éticos e morais graves atingiram a Torre de Babel do Império, império de “fiéis parnasianos”, que não enxergavam mais que a máxima de Jean Paul Sartre tinha se alterado em sua essência. O inferno não era os outros, e buscar encontrar no outro seu problema não era mais cabível de exemplo explicativo para a realidade apavorante e decadente na qual o império se prostrava. Agora “o inferno somos nós” passava a reger a vida do “ex salvador da pátria”. Nunca antes na história deste país o inferno era a representação fidedigna do “Messias”… Ora, agora “o inferno somos nós”.

A vitória do partido do ‘mesmo’. – por Arnaldo Jabor

Arnaldo Jabor

A história de minha vida política sempre oscilou entre dois sentimentos: esperança e desilusão. Cresci ouvindo duas teses divergentes: ou o Brasil era o país do futuro ou era uma zorra sem nome, um urubu caindo no abismo. Nessa encruzilhada, eu cresci. Além disso, dentro dessa dúvida havia outra: UDN ou PTB? Reacionários da “elite” ou o “povo”? Brigadeiro Eduardo Gomes ou Getúlio, “finesse” ou “sujeira”? Comecei a me interessar por política quando votei em Jânio. Confesso. Eu tinha 18 anos e não consegui me interessar por Lott, aquele general com cara de burro, pescoço duro. Jânio me fascinava com sua figura dramática, era uma caricatura vesga, cheia de caspa e dava a impressão de que ele, sim, era de esquerda, doidão, “off”. Meses depois, estou no estribo de um bonde quando ouço: “Jânio tomou um porre e renunciou!” Foi minha primeira desilusão. Eleito esmagadoramente, largou o governo como se sai de um botequim. Ali, no estribo do bonde ‘Praia Vermelha’, eu entendi que havia uma grossa loucura brasileira rolando por baixo da política, mais forte que slogans e programas racionais. Percebi que existia uma ‘sub-história’ que nos dirigia para além das viradas políticas. Uma vocação, uma anomalia secular que faz as coisas ‘desacontecerem’, que criou ‘um país sob anestesia, mas sem cirurgia’, como diagnosticou Mário Henrique Simonsen.

Já na UNE, eu participei febrilmente da luta pela posse do vice João Goulart, que a direita queria impedir. O Exército do Sul, com Brizola à frente, garantiu a posse de Jango e botei na cabeça que, com militares ‘legalistas’ e heróis de esquerda, finalmente o Brasil ia ascender a seu grande futuro.

Nos dois anos seguintes, vivi a esperança de um paraíso vermelho que ia tomar o País todo, numa réplica da rumba socialista de Cuba, a revolução alegre e tropical que ia acabar com a miséria e instalar a cultura popular, a grande arte, a beleza, sem entraves, com o presidente Jango e sua linda mulher fundando a ‘Roma tropical’, como berrava Darcy Ribeiro em sua utopia. Um velho mundo ia cair sem resistência. Não haveria golpes, pois o ‘Exército é de classe média e portanto a favor do País’ – nos ensinava o PCB. Dá arrepios lembrar da assustadora ingenuidade política da hora. No dia 31 de março de 64, estou na UNE comemorando a ‘vitória de tudo’.

Havia um show com Grande Otelo, Elza Soares, celebrando a ‘vitória do socialismo’. Um amigo me abraçou, gritando: “Vencemos o imperialismo norte-americano; agora, só falta a burguesia nacional!” Horas depois, a UNE pegava fogo e eu pulava pelos fundos sob os tiros das brigadas juvenis de direita. No dia seguinte, diante de mim, materializou-se a figura absurda de Castelo Branco, como um ET verde-oliva. Acho que virei adulto naquela manhã, com a UNE em fogo, com os tanques tomando as ruas. Eu acordara de um sonho para um pesadelo.

No entanto, os tristes dias militares de Castelo ainda tinham um gosto democrático mínimo, que até serviu para virilizar nossa luta política. Agora, o inimigo tinha rosto e uniforme e contra ele se organizou uma resistência cultural rica e fértil, que se refinou pelo trauma e que perdeu o esquematismo ingênuo pré-64. As ideias e as artes se engrandeceram na maldição. Nossa impotência estimulou uma nova esperança. A partir daí, as passeatas foram enchendo as ruas, num movimento democrático que acreditava que os militares cederiam à pressão das multidões. Era ilusão.

Ventava muito em Ipanema, dezembro de 68, enquanto o ministro Gama e Silva lia o texto do Ato Institucional 5 na TV, virando o País num sinistro campo de concentração. Com uma canetada, o Costa e Silva, com sua cara de burro, instado pela louca ‘lady MacBrega Yolanda’, fechou o País por mais 15 anos. Esperança. Desilusão. Vieram os batalhões suicidas das guerrilhas urbanas. Nos anos do milagre brasileiro, os jovens românticos ou foram massacrados à bala ou caíram no desespero da contracultura mística, enquanto os mais caretas enchiam o rabo de dinheiro nos ‘milagres’ de São Paulo.

O bode durou 15 anos e a democracia virou uma obsessão. “Quando vier a liberdade, tudo estará bem!”, dizíamos. Só pensávamos na democracia e ninguém reparou que ela foi voltando menos pelos comícios das Diretas e mais pelas duas crises do petróleo que criaram a recessão mundial, acabando com a grana que sustentava os militares no poder. Os milicos e a banca internacional nos devolveram a liberdade na hora de pagar a conta da dívida externa. Os militares queriam se livrar da batata quente da falência do Estado e entregaram-no aos paisanos eufóricos com a vitória de Tancredo. Nova esperança! Aí, veio um micróbio voando, entrou no intestino do Tancredo e mudou nossa história. E começou a grande desilusão. Com a volta da democracia, no período Sarney, tudo piora. Nossos velhos vícios reapareceram. Apavorado, vi que a democracia só existia de boca, não estava entranhada nas instituições que passaram a ser pilhadas pelos famintos corruptos e políticos que tomaram o poder – todos ‘nobres’ vítimas da ditadura. Daí para frente, só desilusão e dor: inflação a 80% ao mês (lembram?), o messianismo de Collor, montado no cavalo louco da República, vergonha e horror. Depois, nova esperança com o impeachment; depois, mais esperança com o Plano Real, vitória da razão reformista com FHC, logo depois do Brasil no tetra, céu azul, esperança sem inflação. Nunca acreditei tanto na vida.

Mas, hoje, estou aqui, com medo e com tristes pressentimentos. Dilma pode ser uma nova esperança, se criar uma ponte entre a teimosia regressista e uma modernização mais liberal. O problema é que, para além das ideologias, existe no Brasil a maldição do Mesmo, uma grande empada de detritos que clama pelo atraso. O maior inimigo do Brasil é a aliança entre uma ideologia ‘de esquerda’ e a oligarquia ‘de direita’ – como é hoje. Nem UDN nem PTB. Ganha sempre o Partido do Mesmo.

Sinal de Vida – por Fernando Henrique Cardoso

Fernando Henrique Cardoso,  em evento de setembro de 2011

Tenho dito e escrito que o Brasil construiu o arcabouço da democracia, mas falta dar-lhe conteúdo. A arquitetura é vistosa: independência entre os poderes, eleições regulares, alternância no poder, liberdade de imprensa e assim por diante. Falta, entretanto, o essencial: a alma democrática. A pedra fundamental da cultura democrática, que é a crença e a efetividade de todos sermos iguais perante a lei, ainda está por se completar. Falta-nos o sentimento igualitário que dá fundamento moral à democracia. Esta não transforma de imediato os mais pobres em menos pobres. Mas deve assegurar a todos oportunidades básicas (educação, saúde, emprego) para que possam se beneficiar de melhores condições de vida. Nada de novo sob o sol, mas convém reafirmar.

Dizendo de outra maneira, há um déficit de cidadania entre nós. Nem as pessoas exigem seus direitos e cumprem suas obrigações, nem as instituições têm força para transformar em ato o que é princípio abstrato. Ainda recentemente um ex-presidente disse sobre outro ex-presidente, em uma frase infeliz, que diante das contribuições que este teria prestado ao país não deveria estar sujeito às regras que se aplicam aos cidadãos comuns… O que é pior é que esta é a percepção da maioria do povo, nem poderia ser diferente porque é a prática habitual.

Pois bem, parece que as coisas começam a mudar. Os debates travados no Supremo Tribunal Federal e as decisões tomadas até agora (não prejulgo resultados, nem é preciso para argumentar) indicam uma guinada nesta questão essencial. O veredicto valerá por si, mas valerá muito mais pela força de sua exemplaridade. Condene-se ou não os réus o modo como a argumentação se está desenrolando é mais importante do que tudo. A repulsa aos desvios do bom cumprimento da gestão democrática expressada com veemência por Celso Mello e com suavidade, mas igual vigor, por Ayres Britto e Cármen Lúcia, são páginas luminosas sobre o alcance do julgamento do que se chamou de “mensalão”. Ele abrange um juízo, não político-partidário, mas dos valores que mantém viva a trama democrática. A condenação clara e indignada do mau uso da máquina pública revigora a crença na democracia. Assim como a independência de opinião dos juízes mostra o vigor de uma instituição em pleno funcionamento.

É este, aliás, o significado mais importante do processo do mensalão. O Congresso levantou a questão com as CPI’s, a Polícia Federal investigou, o Ministério Público controlou o inquérito e formulou as acusações e o Supremo, depois de anos de dificultoso trabalho, está julgando. A sociedade estava tão desabituada e descrente de tais procedimentos quando eles atingem gente poderosa que seu julgamento – coisa banal nas democracias avançadas – se transformou em atrativo de TV e do noticiário, quase paralisando o país em pleno período eleitoral. Sinal de vida. Alvíssaras!

Não é a única novidade. Também nas eleições municipais o eleitorado está mandando recados aos dirigentes políticos. Antes da campanha acreditava-se que o “fator Lula” propiciaria ao PT uma oportunidade única para massacrar os adversários. Confundia-se a avaliação positiva do ex-presidente e da atual com submissão do eleitor a tudo que “seu mestre” mandar. É cedo para dizer que não foi assim, pois as urnas serão abertas esta noite. Mas ao que tudo indica, o recado está dado: foi preciso que os líderes aos quais se atribuía a capacidade milagrosa de eleger um poste suassem a camisa para tentar colocar seu candidato no segundo turno em São Paulo. Até agora o candidato do PT não ultrapassou nas prévias os minguados 20%.

No Nordeste, onde o lulismo com as bolsas-família parecia inexpugnável, a oposição leva a melhor em várias capitais. São poucos os candidatos petistas competitivos. Sejam o PSDB, o DEM, o PPS, sejam legendas que formam parte “da base”, mas que se chocam nestas eleições com o PT, são os opositores eleitorais deste que estão a levar vantagem. No mesmo andamento, em BH, sob as vestes do PSB (partido que cresce) e em Curitiba são os governadores e líderes peessedebistas, Aécio Neves e Beto Richa, que estão por trás dos candidatos à frente. Em um caso podem vencer no primeiro turno, noutro no segundo.

Não digo isso para cantar vitória antecipada, nem para defender as cores de um partido em particular, mas para chamar a atenção para o fato de que há algo de novo no ar. Se os partidos não perceberem as mudanças de sentimento dos cidadãos e não forem capazes de expressá-las essa possível onda se desfará na praia. O conformismo vigente até agora, que aceitava os desmando e corrupções em troca de bem estar, parece encontrar seus limites. Recordo-me de quando Ulysses Guimarães e João Pacheco Chaves me procuram em 1974, na instituição de pesquisas onde eu trabalhava, o CEBRAP, pedindo ajuda para a elaboração de um novo programa de campanha para o partido que se opunha ao autoritarismo. Àquela altura, com a economia crescendo a 8% ao ano, com o governo trombeteando projetos de impacto e com a censura à mídia, pareceria descabido sonhar com vitória. Pois bem, das 22 cadeiras em disputa para o Senado o MDB ganhou 17.. Os líderes democráticos da época sintonizaram com um sentimento ainda difuso, mas já presente, de repulsa ao arbítrio.

Faz falta agora, mirando 2014, que os partidos que poderão eventualmente se beneficiar do sentimento contrário ao oportunismo corruptor prevalecente, especialmente PSDB e PSB, se disponham cada um a seu modo ou aliando-se a sacudir a poeira que até agora embaçou o olhar de segmentos importantes da população brasileira. Há uma enorme massa que recém alcançou os níveis iniciais da sociedade de consumo que pode ser atraída por valores novos. Por ora atuam como “radicais livres” flutuando entre o apoio a candidatos desligados dos partidos mais tradicionais e os candidatos destes partidos. Quem quiser acelerar a renovação terá de mostrar que decência, democracia e bem estar social podem novamente andar juntos. Para isso, mais importante do que palavras são atos e gestos. Há um grito parado no ar. É hora de dar-lhe conseqüência.

Na política vale tudo – opinião Estadão

Quando para muitos parecia que nossos políticos tinham esgotado o repertório de subterfúgios para abusar da coisa pública em benefício próprio, descobre-se que o dono do PDT em São Paulo, deputado federal Paulinho da Força, candidato a prefeito da capital, mantinha controle sobre a Secretaria de Estado de Emprego e Relações de Trabalho por intermédio de seu filho, Alexandre Pereira da Silva, que, apesar de não ter nenhum vínculo formal com a pasta, ali dispunha de um gabinete completo, a partir do qual, em nome do pai, mandava e desmandava na área de operações. Alexandre é funcionário da Fundação para o Desenvolvimento das Artes e da Comunicação (Fundac), fundação de direito privado, sem fins lucrativos, que só este ano recebeu R$ 3,7 milhões da Secretaria do Trabalho.

Tendo o Estado revelado a maracutaia, o governador Geraldo Alckmin ordenou à Corregedoria-Geral da Administração, vinculada à Casa Civil, a investigação dos fatos. E na tarde da quarta-feira o pivô do imbróglio afastou-se da Secretaria, obedecendo à determinação provinda do Palácio dos Bandeirantes. Mas Alckmin, antecipando-se à rigorosa apuração que ordenara, fez eco às declarações de Paulinho da Força de que não havia no episódio “nenhuma irregularidade”.

O secretário de Emprego e Relações de Trabalho chama-se Carlos Ortiz, é sindicalista filiado ao PDT e assumiu o cargo em março último, em decorrência de um acordo político por meio do qual Paulinho garantiu uma força – da legenda de que é dono e certamente também da central sindical da qual é presidente licenciado – à candidatura de Alckmin à reeleição, em 2014. A Coordenadoria de Operações da pasta é oficialmente dirigida por um funcionário de carreira sem filiação partidária, Marcos Wolff.

Mas era Alexandre quem dirigia de fato a unidade, recebendo diretamente os pleitos dos prefeitos e dispondo a seu critério dos recursos destinados à aplicação na área da Coordenadoria, que abrange 243 postos de atendimento a trabalhadores distribuídos por todo o Estado – uma base de operações perfeita… para cabos eleitorais.

Lamentável sob todos os aspectos, este é mais um episódio que evidencia, por um lado, o nível de banalização a que chegou a prática da mais deslavada apropriação privada dos bens e recursos públicos por parte de políticos e, por outro, que cada vez mais as principais legendas partidárias se revelam farinha do mesmo saco.

Há quase duas décadas governando o Estado de São Paulo, o PSDB age e deixa seus aliados agirem em seus domínios com a mesma falta de cerimônia com que seu figadal adversário, o PT, atropela a lei e os mais elementares princípios éticos para impor no plano federal seu desígnio de perpetuação no poder.

Da maneira como as coisas estão dispostas na política brasileira, os tucanos têm a pretensão de se apresentar como os principais opositores do lulopetismo. Mas o comportamento do PSDB, seja em seu principal reduto, o território paulista, seja em outras paragens como o Estado de Goiás – como a CPI do Cachoeira tem demonstrado -, revela que não existe muita diferença no modo como uns e outros manejam, na prática, o cotidiano da administração pública. O mesmo tipo de alianças de conveniência com que o PT procura garantir a “governabilidade” no plano federal se reproduz – guardadas as peculiaridades do jogo político no âmbito regional ou local – nos domínios tucanos.

A vala comum em que os políticos parecem atolados evoca o aparente conflito apontado na política, pela teoria weberiana, entre a ética das convicções, fundada em princípios, e a ética da responsabilidade, que procura compatibilizar princípios com genuína governabilidade. Escreveu um ilustre tucano, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em recente livro sobre A arte da política: “Se é certo que o político, para Weber, deve ser julgado pelas consequências de seus atos, isto não significa que a ação do político dispense convicções”.

Não tem sido tarefa fácil, porém, identificar na ação dos políticos brasileiros convicções que não sejam a de que na política vale tudo.

PSDB de São Carlos será Hexa – ‘A arte da inépcia e a paixão pela derrota’. – por Moacir Pereira Alencar Júnior

Moacir Pereira Alencar Júnior

O PSDB nasceu no ano de 1988, em meio ao processo constituinte, como uma facção de dissidentes do antigo MDB. Caminhando hoje para seus 24 anos de vida, o partido não conseguiu atingir sua maioridade e sua maturidade política em certos municípios do Brasil.

De 1992 até 2008, foram cinco eleições municipais para a escolha de prefeito e vereadores. Nestes 16 anos tivemos diferentes conjunturas, diferentes senadores, diferentes governadores, diferentes presidentes; além de diferentes candidatos nos mais variados partidos que optaram por disputar a prefeitura são-carlense. Porém, o PSDB de São Carlos  não soube em nenhum momento aproveitar cenários favoráveis, seja da conjuntura estadual, seja da conjuntura federal.

De 1992 até então, o partido demonstra estar petrificado no que tange a candidatura a prefeitura do município de São Carlos. Em 1992, Paulo Altomani se lançou candidato à prefeito em um momento onde o PSDB ainda se mostrava incipiente, já que tinha apenas 4 anos de estrada, e quase nada a mostrar de factível e concreto a população.

Já em 1996, durante um período de relativa estabilidade econômica, e tendo Mario Covas como governador e FHC como presidente, o partido saiu das eleições derrotado. Melo, do então PFL, teve 36,4% dos votos; Altomani, pelo PSDB, teve 34,0%; e Lobbe Neto, então no PMDB , teve 14,7%. O regionalismo rasteiro e a completa ausência de unidade das coligações de então, levaram a segunda derrota do candidato do PSDB no município.

No ano 2000, buscando a reeleição, agora pelo PTB, Melo perdeu por 128 votos para Newton Lima (PT). O ex-reitor da UFSCar(1992-1996), vinha se destacando neste período, por sua capacidade administrativa e planejamento estratégico, atuando na FAI-UFSCar. Newton era uma imagem de ruptura frente aos candidatos anteriores, assim como Altomani, já que muito dos candidatos que disputavam, ainda estavam vinculados a grupos que gerenciaram a cidade em tempos de restrição dos direitos políticos, e representavam o famoso coronelismo que assola o país. Altomani teve nestas eleições apenas 11,7% dos votos. Certamente a campanha não decolou, uma vez que ele demonstrava ser mais do mesmo, não conseguiu conquistar os anseios e as aspirações de quem clamava por mudança.

Dentro do senso comum, uma derrota como a de 2000 – após três eleições seguidas – representaria o fim da trajetória política de Altomani como candidato a prefeito.  Porém em 2004, Altomani se lançaria a quarta candidatura sucessiva a prefeito de São Carlos, também pelo PSDB. Em uma realidade e contexto totalmente adverso, com a expansão do PT nas esfera municipal e federal, o PSDB pecou novamente. Newton Lima foi reeleito com 42,8% dos votos. Restou ao Altomani, 28% dos votos e uma sensação de definitivo e já tardio déjà vu.

Mas a surpresa ainda viria a bater as portas; em 2008, novamente ele – Altomani – se mostraria como uma ‘nova figura política’ para por fim aos 8 anos de gestão petista em São Carlos.  Sedento por poder dentro do partido – ou por falta de figuras credenciadas e qualificadas para disputar as eleições –  e crente que desta vez o povo votaria nele, ele conquistou o pentacampeonato consecutivo de derrotas para o executivo do município. Neste episódio, o partido demonstrou também uma incapacidade elevadíssima para buscar parcerias partidárias, e não conseguiu nem se quer união com o DEM – que lançou Aírton Garcia, que teve 30% dos votos, em um partido que na esfera estadual e federal sempre estava alinhado ao PSDB. Oswaldo Barba, ex-reitor da UFSCar (2004-2008), representando os legados e conquistas de Newton, não precisou de esforço para sair vencedor, já que a inépcia de ação e comunicação entre DEM e PSDB demonstrou a que ponto chega a fome pelo poder, tanto para se manter imutáveis dentro de seus respectivos diretórios, como também pela excessiva ambição de ‘chegar ao trono’ municipal.

Estamos em 2012, os 12 anos de PT no município já demonstram desgastes e problemas graves nos mais variados setores. Há problemas de infra-estrutura na área de Saúde, Educação, Transporte,  e muitos outros. Centenas de milhares de cidadãos reclamam dos atendimentos das Unidades Básicas de Saúde, ora por falta de médicos qualificados em diferentes áreas médicas, além de problemas de atendimento, ora pela morosidade, ora pelo descaso de certos médicos para com a comunidade em variados bairros do município.

Na questão do transporte, a concorrência – tão cara e bela em uma verdadeira democracia, onde deveria predominar opção de escolhas e qualidades de serviços – é substituída pelo monopólio de uma empresa de ônibus (Athenas Paulista) que atende a população a seu bel prazer, furtando os cidadãos com suas taxas altas e serviços deficitários, distantes de uma boa qualidade.

Na questão da educação, certas escolas municipais agonizam devido a problemas de investimento, e a um constante problema de demanda para receber alunos nas séries iniciais e no ensino fundamental. A questão da infância e juventude é usada como modelo pela gestão municipal, mas problemas em conselhos tutelares e em algumas entidades de auxilio a jovens é constante e preocupante.

Chegamos a um período que precede os 6 meses para as eleições; o PSDB, julgando estar inovando, novamente lançará o desgastado e colecionador de derrotas Paulo Altomani, sendo que o apoio do DEM ainda está em aberto, ou seja, talvez voltaremos a assistir a oposição se degladiando mais uma vez.

O PT, gerenciando pessimamente a cidade, com sua política de pão e  circo, continua majestoso, mesmo em meio a inépcia administrativa e a incompetência de seu prefeito, uma vez que a oposição se mostra amorfa, apática e totalmente incapaz de mostrar onde está seu projeto hegemônico caso chegue ao poder.

O cenário político das eleições de 2012 em São Carlos promete:

Estas campanhas prometem ser uma tragédia muito maior do que nossas próprias forças. Os nossos “líderes políticos”, afirmando hoje as mentiras de ontem, negando amanhã as verdades de hoje, mostrarão a imagem da virtude da democracia, quem és o pai da ‘pátria’ são-carlense. E que ‘pátria’…

 

Sistema partidário brasileiro entra em estágio delirante e preocupante. – por Moacir Pereira Alencar Junior

siglas sem significância

Joaquim Nabuco disse uma certa vez:

“A conciliação como coalizão e fusão dos partidos, para que se confundam os princípios, para que se obliterem as lutas políticas, é impraticável e mesmo perigosa, e por todos os princípios inadmissível.”

No início deste mês de fevereiro de 2012, algumas coalizões nas diferentes capitais do país passaram a ganhar forma e também um certo conteúdo, digamos bizarro.

Na capital do estado do Amapá – Macapá, a união da aliança PSOL – PSDB surpreendeu a muitos que acompanham o mundo da política, seguindo esta tendência, assistimos a quase concreta união PSD – PT pela disputa da capital do Estado de São Paulo – São Paulo.

Fiquei a refletir sobre afinidades políticas e ideológicas entre PSDB e PSOL, e conclui que esta união é uma das coisas mais delirantes no mundo da barganha política da Terra Brazilis. Pensei na união de opostos extremos – o mundo dos latifundiários, de mãos dadas com os trabalhadores sem terra, e o fim de qualquer defesa de princípios basilares para o funcionamento de uma democracia.

No caso do PT-PSD….nossaa…a vanguarda do atraso do antigo DEM está de mãos dadas com o partido que mais combateu durante toda sua história. Imagino Florestan Fernandes (coitado!) abraçando figuras como Ronaldo Caiado nos palanques do Processo Constituinte de 1987/1988. É a ruptura de todo e qualquer ideário partidário construído em mais de 32 anos de história do PT.

É  triste ver se esvair o ideal que originou cada um destes partidos citados: PT,PSDB, PSOL. O PSD é o único que nasceu sem um ideário, oficialmente como uma legenda de “autênticos barganheiros políticos”.

O jornalista e escritor, Harrison Oliveira, escreveu em uma de suas obras:

“A conciliação política implantada em 1853, pelo mineiro Honório Hermeto Carneiro Leão – o Marquês do Paraná – foi considerado pelo Senador José de Alencar, como uma Prostituição; e pelo Barão de Rio Branco, como a maior desgraça que já desabou sobre a nossa incipiente democracia. A conciliação implantada em 1985, por outro mineiro, o ex-presidente Tancredo Neves, destruindo a oposição política, incrementou o adesismo, o aulicismo e transformou um cenário de lutas ideológicas, na humilhante paz  dos pântanos, na solidão apavorante dos cemitérios abandonados e na venal licenciosidade dos bordéis”.

O Brasil de antes da Revolução de 1930 era rico ideologicamente. Num momento de crise de classes dominantes, surgiam correntes de orientações bem diversas: o sindicalismo anarquista e socialista; os primeiros militantes comunistas; embriões de movimentos que levariam a um pensamento próximo do fascismo, mais tarde expresso no integralismo. Além do forte movimento católico conservador, que afirmou-se na Liga Eleitoral Católica para as eleições constituintes.

Hoje o Brasil assiste ao desmoronamento das instituições partidárias/ideológicas. Episódio menosprezado por muitos, mas preocupante para a consolidação de um verdadeiro cenário de florescimento de embates consistentes e contundentes.