A Constitucionalidade das cotas raciais no Brasil – por Yvonne Maggie

Obama em ônibus onde Rosa Parks foi expulsa na década de 1950

Abrir o jornal e ver a foto de Barack Obama sentado em um ônibus antigo do sul dos EUA, olhando de lado pela janela, já produz emoção. Logo abaixo as imagens do mesmo veículo, há cinquenta anos atrás, e de Rosa Parks, a americana que foi retirada do ônibus pela polícia e presa por se recusar a ceder o lugar a um homem branco, no Alabama, trazem recordações sobre o estopim dos movimentos civis americanos que culminaram com a assinatura da Lei de Direitos Civis de 1964 e, um ano depois, a Lei de Direito ao Voto para os negros.

Andei em um ônibus parecido com este em 1961 no Tennessee, sul dos EUA e, desavisada, sentei-me no último banco. Não percebi que os passageiros se dividiam em brancos e negros – brancos na frente e negros atrás –, pois para mim, brasileiríssima, aos dezesseis anos, todos eram simplesmente pessoas. Senti muitos olhares estranhos na viagem de Nashville a Knoxville, uma cidade nas montanhas, sem atinar com o motivo. Quando paramos no meio da viagem, em uma lanchonete de beira de estrada, vi duas portas; em uma delas estava escrito colored only. Não percebi o significado daquele aviso e entrei pela porta reservada apenas às pessoas ditas negras. Lá dentro, no balcão, os  sucos e sanduíches servidos eram iguais para todos os passageiros, mas as pessoas mais escuras estavam de um lado e as mais claras do outro.

Fiquei entre os mais escuros apesar dos meus cabelos longos e louros e minha pele clara. Só quando cheguei ao destino e me encontrei com minha irmã e meu cunhado americano, que lá viviam e me explicaram as regras, pude entender porque havia aquela porta e porque o ônibus era assim dividido. Os americanos do Sul viviam sob a lei Jim Crow. Os cidadãos não eram iguais diante da lei e negros não votavam. Moravam em bairros separados e eram tratados de modo diverso.

Dez anos mais tarde voltei aos EUA,  depois da Lei dos Direitos, promulgada em 1964. Nos ônibus não havia mais separação legal entre negros e brancos graças a Rosa Parks, mas os EUA continuavam cindidos racialmente. No Texas, em 1971, tive a exata noção do que significa viver em um país construído pela segregação legal.

Em Thirteen ways of looking at a black man, de Henry Louis Gates Junior, professor de Harvard, há uma história reveladora do que se passou depois da lei dos direitos. Neste livro, Harry Belafonte conta que alguns anos depois de 1964 fora convidado para fazer um filme. O produtor, muito animado, lhe dissera: “Harry, será maravilhoso, vamos fazer um filme dirigido e estrelado por negros, produzido por negros, com música feita por negros e vai ser belíssimo”. Ao que o ator, nervoso, respondeu: “Não quero fazer parte disso, passei tantos anos lutando para sair do gueto, não serei eu a me enfiar de novo nele”. Gates conta que durante a entrevista, após esta declaração de Harry, seguiu-se um silêncio constrangedor,  só quebrado com uma sonora gargalhada  do entrevistado e a seguinte frase: “Eu não aceitei a armadilha, mas é claro que Sidney Poitier aceitou e ficou rico estrelando todos aqueles filmes”.

No país da segregação racial e da lei Jim Crow cotas raciais foram consideradas inconstitucionais em 1978, no famoso caso Regents of the University of Califórnia versus Bakke (1978), e a decisão foi reafirmada em 2003, nos julgamentos envolvendo a Universidade de Michigan, Grutter versus Bollinger et al. A Suprema Corte nos dois casos considerou inconstitucional a reserva de vagas para minorias em universidades. Em 2007, novamente, a Corte Suprema americana se viu diante da mesma questão, desta vez a respeito  de crianças brancas que haviam sido preteridas em algumas escolas do distrito de Seattle que praticavam uma  política de discriminação positiva. A corte decidiu que a cor da pele não deveria mais ser usada para matricular crianças em uma escola ou outra, pois segundo a maioria dos juízes, obrigar os indivíduos a se definirem racialmente tinha o efeito de perpetuar a proeminência da “raça” na vida pública americana. Um dos juízes da Suprema Corte Americana foi além ao dizer: “Fazer com que a raça tenha existência agora para que não tenha no futuro fortalece os preconceitos que queremos extinguir”.

Diante da eminência do julgamento, dia 25 de abril, da constitucionalidade das cotas raciais na UnB pelo STF, penso que os juízes de nossa Corte Suprema devem levar a sério a posição majoritária na decisão da Corte em 2007. Muitos dos intelectuais que assinaram a Carta dos cento e treze cidadãos antirracistas contra as leis raciais entregue ao Presidente do STF em abril de 2008 já disseram em várias ocasiões que, no Brasil, as cotas raciais não só consolidarão as categorias raciais, mas as farão literalmente existir.

O gesto de Rosa Parks em 1955 visava extinguir a diferença e a desigualdade legal entre brancos e negros nos EUA e acabar com o gueto.Vemos, porém, que até hoje os americanos se veem às voltas com a questão registrada por Harry Belafonte em 1960, porque não conseguem se livrar da terrível desgraça que lhes foi imposta pelos dominadores britânicos e perpetuada pelas leis até os anos 1950. A foto de Barack Obama naquele ônibus representa a necessidade de lembrar sempre dos heróis, anônimos ou não, que optaram por sair do gueto, não aceitá-lo jamais, nem que seja por força da discriminação positiva, ou afirmativa.

Os brasileiros que como eu, nos meus dezesseis anos e até hoje, não se veem e não foram legalmente divididos em brancos e negros, em sua grande maioria não aceitam as leis raciais. Mas quem os representa? Na audiência pública realizada em 2010 no STF a maioria dos convidados a se pronunciar era favorável às cotas raciais. Neste julgamento que se avizinha apenas duas vozes estarão defendendo a posição de Rosa Parks. A maioria quer reforçar a “raça” para depois extingui-la.  Nem sempre a posição majoritária prevalece nestas situações, mas neste caso temo pela sorte do povo brasileiro, que preferiu ao longo de séculos se pensar a partir da metáfora dos três rios que se juntam em um novo e caudaloso,  que não criou leis segregacionistas e não proibiu o casamento entre pessoas de cores diferentes. Será mesmo que estes juízes conhecem suficientemente a História para  decidirem sobre o destino de todos os brasileiros?

Yvonne Maggie é antropóloga e professora do departamento de Antropologia da UFRJ

”João Alfredo Corrêa de Oliveira” – por Plínio Corrêa de Oliveira

João Alfredo Corrêa de Oliveira

João Alfredo foi Presidente do Gabinete do Conselho de Ministros do Segundo Reinado ( março de 1888 – junho de 1889 ), foi durante sua presidência que ocorreu a abolição da escravatura, em maio de 1888.  Ele era do Partido Conservador, abolicionista e defensor da Monarquia. Neste artigo, seu sobrinho, Plínio, faz uma breve descrição de João Alfredo.

Este artigo foi publicado no dia 21 de dezembro de 1936, no Jornal Diário de São Paulo.

Ignoramos as razões por que o riquíssimo arquivo deixado pelo conselheiro João Alfredo ainda não tentou o talento e a curiosidade de algum biógrafo. Nesse arquivo, ao par de documentos históricos de primeiro valor figuram trabalhos do conselheiro ainda inéditos, entre os quais uma história da Revolução de 1817 em que é cabalmente demonstrada a tese de que a maior parte de seus cabecilhas não desejava a proclamação da República.

O certo é que uma biografia de João Alfredo constituiria um estudo psicológico de interesse palpitante, pois que a sua evolução intelectual dos princípios dissolventes e igualitários de 1789 a um Catolicismo sincero e praticante, oferece uma complexidade de aspectos em nada inferior à conversão de Nabuco (1) ou Calógeras (2).

Eleito deputado aos vinte anos sua longa atividade política só sofreu uma interrupção de cinco anos quando se extinguiu a primeira legislatura de que fez parte. Em toda a sua longa carreira, João Alfredo mostrou-se profundamente embebido dos preconceitos dissolventes da Revolução Francesa e os defendeu sempre com ardor. Particularmente na famosa questão religiosa, sua atuação revelou o cunho fortemente anti-clerical e regalista da mentalidade dos estadistas de então. Com vigor que ele imprimia a todas as suas atividades, João Alfredo não hesitou em tomar a defesa da Maçonaria liberal, contra a Igreja, e na violência da luta, não lhe detiveram os passos nem sequer os laços do parentesco e amizade que o prendiam ao jovem Bispo D. Vital G. de Oliveira.

Depois de golpear a fundo o Altar, João Alfredo viu com tristeza que chegava a vez do Trono, de que ele era extremo defensor. No entanto, ainda aí, com uma coerência surpreendente em um liberal, não desmentiu seus princípios. Quando ele era Ministro do Império interpelou-o alguém sobre as providências tomadas contra a propaganda republicana, que grassava em todo o país. João Alfredo respondeu que não tinha providências a tomar, pois que, se algum dia os brasileiros optassem pela mudança do regime, ele saberia obedecer às injunções da maioria soberana.

Tibieza de opiniões? Indiferença para com a forma de governo? Não. Quando se proclamou a República, João Alfredo profundamente desgostoso, afastou-se definitivamente da política. Se cruzou os braços ante a propaganda republicana, fê-lo portanto por mera obediência às suas convicções liberais.

No entanto, esse liberal de grande estilo era, no cenário de nossa política, um autêntico Bismarck taciturno, de poucas palavras. Sua tática parlamentar se destacava pela perícia das manobras efetuadas com virulência disciplinadora de um chefe e a habilidade aveludada de um maneiroso diplomata. Muito cedo, pela manhã já era visto a percorrer as residências dos deputados, confabulando com uns e com outros, animando, coordenando, estimulando, ameaçando. Nos debates parlamentares era antes de tudo um general que dirigia de cima e de longe, sem se envolver pessoalmente na peleja oratória. Mas, quando o fazia, entrava no mais renhido do fogo, com a ferocidade fogosa de um nordestino combativo, a atacar, defender, argumentar, vencer. João Alfredo era grande orador, e disso deu provas sobejas, que hoje já ninguém discute. No entanto, seu invariável silêncio no Parlamento chegou a lhe valer a injusta fama de mau orador. Arcou com essa fama, em holocausto às suas idéias. O sacrifício foi duro, mas premiado de êxito, e quando João Alfredo encerrou sua carreira vitoriosa, a unanimidade dos brasileiros o aclamava como um dos maiores estadistas do Império.

Esse Bismarck taciturno e autoritário destoava singularmente do ambiente de retórica brilhante e talvez excessiva do Parlamento Imperial. Agia-se muito, falava-se mais ainda do que se agia. E assim parecia um prodígio a reserva inflexível do ilustre tribuno pernambucano, seu espírito autoritário e sua catadura de ditador.

Realmente havia em João Alfredo uma contradição íntima, que era um “superavit” de sua grande inteligência, em relação às idéias do século. Mal prevenido contra elas, por uma educação talvez deficiente do ponto de vista da segurança doutrinária, João Alfredo as abraçou por muito tempo. Mas sua inteligência lúcida e seu temperamento forte fizeram dele um liberal autoritário, amigo da ordem tanto quanto da liberdade. No estudante, no tribuno, o amor à liberdade excedia ao amor à ordem. No ministro, que viu do alto as verdadeiras necessidades do país, o amor à ordem acabou por vencer o amor à liberdade. E, com isso, João Alfredo foi evoluindo lentamente, até chegar ao polo oposto do liberalismo, que é o catolicismo.

O antigo perseguidor de bispos, morreu católico fervoroso. No-lo atestam seu testamento, e suas “últimas palavras”, em que pede a Misericórdia de Deus para a sua grande alma, que deposita no regaço da Igreja Católica. Bem antes de morrer, fizera-se membro da Ordem Terceira do Carmo, em que tomou o nome de Irmão João da Cruz, e foi com o hábito austero dos penitentes do Monte Carmelo que quis ir à última morada, para aguardar lá a ressurreição.

Seu fim piedoso e sereno seguindo-se a uma vida de liberal combativo faz lembrar involuntariamente a famosa sentença. “L’Eglise est une enclume qui a usé bien de marteaux” [A Igreja é uma bigorna que gastou muitos martelos].

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Obs:  por estarmos em 2012, eu resolvi fazer uma breve descrição de quem foi Joaquim Nabuco e João Calógeras para uma melhor análise do artigo:

(1) Nabuco foi o maior tribuno do Abolicionismo – Filho de Nabuco de Araújo – foi uma das principais lideranças do Partido Liberal, sendo o principal representante do movimento abolicionista. Excelente orador e polemista, escreveu vários libelos anti-escravistas e buscou apoio na Europa para o movimento. Ele era alvo predileto do ódio dos escravocratas.

(2) Calógeras foi um dos mais cultos e competentes funcionários públicos do Império. Entrou para o serviço público em 1859 como primeiro oficial do Ministério dos Negócios Estrangeiros e terminou a carreira como chefe de seção do Ministério do Império, 15 anos depois. Em suas cartas que tratam do período do Império, ele destacou as intrincadas manipulações que se faziam para conseguirem nomeações, promoções e licenças, envolvendo superiores hierárquicos, políticos, amigos e até mesmo o Imperador. A trajetória de Calógeras sempre se deu pelos seus méritos pessoais.

LIBERAL? – por Alceu Amoroso Lima

ALCEU AMOROSO LIMA

Este artigo foi escrito em setembro de 1958. Alceu Amoroso Lima – famoso pelo seu pseudônimo Tristão de Athayde – foi crítico literário, membro da Academia Brasileira de Letras, foi diretor nacional da Ação Católica Brasileira, político e advogado.

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Quando os reacionários pretendem ferir-me, chamam-me de liberal. Quando os revolucionários ou liberais desejam lisonjear-me, também me chamam de … liberal! De modo que me encontro, num caso como no outro, entre a cruz e a caldeirinha. E arrostando, uma vez mais, o haïssable moi* de Pascal, eis-me aqui, como sempre, a recorrer ao espírito de distinção, que faz com que me sinta perfeitamente a vontade ao afirmar, sem contradição alguma, a amigos e inimigos, que sou e não sou liberal.

Sou liberal, como adjetivo, mas não sou liberal como substantivo. Já o meu velho amigo Dom Rosalvo Costa Rêgo, Arcebispo Auxiliar do Rio, durante o período áureo do integralismo, costumava dizer enfaticamente que “era liberal em política, mas antiliberal em religião”. Porque sabia fazer a distinção indispensável entre liberalidade e liberalismo, entre liberal adjetivo e liberal substantivo.. Ser adjetivamente liberal é amar a liberdade, lutar por ela, colocá-la hierarquicamente acima da autoridade embora abaixo da verdade, abrir a inteligência, pugnar pela justiça social, detestar o fanatismo, combater todas as formas de totalitarismo, ser sensível a muitas formas de beleza, respeitar os adversários, compreender a existência dos contrários sem equipará-los – em suma procurar ser um homem livre e afrontar os riscos da liberdade.

Ser substantivamente liberal é não fazer distinção entre a verdade e o erro, entre religião verdadeira e falsa, entre sistemas filosóficos. É nivelar todos os valores, fora o da liberdade. É pregar o individualismo, sob todos os matizes. E, indiretamente, aluir todas as instituições fundamentais da humanidade – da família à Igreja – sobre pretexto de defender os direitos do homem, confundindo a personalidade com o indivíduo e o bem comum com o bem próprio.

Liberal no sentido adjetivo e por isso anti-reacionário, isso o sou de todo coração e com todas as forças do meu espírito.

Mas substantivamente liberal, no outro sentido, isso bem sei que não o sou ou pelo menos faço todo o possível para que o amor intrínseco da liberdade não se transforme em sua negação pela idolatria.

* haïssable moi = eu odiava

PSDB de São Carlos será Hexa – ‘A arte da inépcia e a paixão pela derrota’. – por Moacir Pereira Alencar Júnior

Moacir Pereira Alencar Júnior

O PSDB nasceu no ano de 1988, em meio ao processo constituinte, como uma facção de dissidentes do antigo MDB. Caminhando hoje para seus 24 anos de vida, o partido não conseguiu atingir sua maioridade e sua maturidade política em certos municípios do Brasil.

De 1992 até 2008, foram cinco eleições municipais para a escolha de prefeito e vereadores. Nestes 16 anos tivemos diferentes conjunturas, diferentes senadores, diferentes governadores, diferentes presidentes; além de diferentes candidatos nos mais variados partidos que optaram por disputar a prefeitura são-carlense. Porém, o PSDB de São Carlos  não soube em nenhum momento aproveitar cenários favoráveis, seja da conjuntura estadual, seja da conjuntura federal.

De 1992 até então, o partido demonstra estar petrificado no que tange a candidatura a prefeitura do município de São Carlos. Em 1992, Paulo Altomani se lançou candidato à prefeito em um momento onde o PSDB ainda se mostrava incipiente, já que tinha apenas 4 anos de estrada, e quase nada a mostrar de factível e concreto a população.

Já em 1996, durante um período de relativa estabilidade econômica, e tendo Mario Covas como governador e FHC como presidente, o partido saiu das eleições derrotado. Melo, do então PFL, teve 36,4% dos votos; Altomani, pelo PSDB, teve 34,0%; e Lobbe Neto, então no PMDB , teve 14,7%. O regionalismo rasteiro e a completa ausência de unidade das coligações de então, levaram a segunda derrota do candidato do PSDB no município.

No ano 2000, buscando a reeleição, agora pelo PTB, Melo perdeu por 128 votos para Newton Lima (PT). O ex-reitor da UFSCar(1992-1996), vinha se destacando neste período, por sua capacidade administrativa e planejamento estratégico, atuando na FAI-UFSCar. Newton era uma imagem de ruptura frente aos candidatos anteriores, assim como Altomani, já que muito dos candidatos que disputavam, ainda estavam vinculados a grupos que gerenciaram a cidade em tempos de restrição dos direitos políticos, e representavam o famoso coronelismo que assola o país. Altomani teve nestas eleições apenas 11,7% dos votos. Certamente a campanha não decolou, uma vez que ele demonstrava ser mais do mesmo, não conseguiu conquistar os anseios e as aspirações de quem clamava por mudança.

Dentro do senso comum, uma derrota como a de 2000 – após três eleições seguidas – representaria o fim da trajetória política de Altomani como candidato a prefeito.  Porém em 2004, Altomani se lançaria a quarta candidatura sucessiva a prefeito de São Carlos, também pelo PSDB. Em uma realidade e contexto totalmente adverso, com a expansão do PT nas esfera municipal e federal, o PSDB pecou novamente. Newton Lima foi reeleito com 42,8% dos votos. Restou ao Altomani, 28% dos votos e uma sensação de definitivo e já tardio déjà vu.

Mas a surpresa ainda viria a bater as portas; em 2008, novamente ele – Altomani – se mostraria como uma ‘nova figura política’ para por fim aos 8 anos de gestão petista em São Carlos.  Sedento por poder dentro do partido – ou por falta de figuras credenciadas e qualificadas para disputar as eleições –  e crente que desta vez o povo votaria nele, ele conquistou o pentacampeonato consecutivo de derrotas para o executivo do município. Neste episódio, o partido demonstrou também uma incapacidade elevadíssima para buscar parcerias partidárias, e não conseguiu nem se quer união com o DEM – que lançou Aírton Garcia, que teve 30% dos votos, em um partido que na esfera estadual e federal sempre estava alinhado ao PSDB. Oswaldo Barba, ex-reitor da UFSCar (2004-2008), representando os legados e conquistas de Newton, não precisou de esforço para sair vencedor, já que a inépcia de ação e comunicação entre DEM e PSDB demonstrou a que ponto chega a fome pelo poder, tanto para se manter imutáveis dentro de seus respectivos diretórios, como também pela excessiva ambição de ‘chegar ao trono’ municipal.

Estamos em 2012, os 12 anos de PT no município já demonstram desgastes e problemas graves nos mais variados setores. Há problemas de infra-estrutura na área de Saúde, Educação, Transporte,  e muitos outros. Centenas de milhares de cidadãos reclamam dos atendimentos das Unidades Básicas de Saúde, ora por falta de médicos qualificados em diferentes áreas médicas, além de problemas de atendimento, ora pela morosidade, ora pelo descaso de certos médicos para com a comunidade em variados bairros do município.

Na questão do transporte, a concorrência – tão cara e bela em uma verdadeira democracia, onde deveria predominar opção de escolhas e qualidades de serviços – é substituída pelo monopólio de uma empresa de ônibus (Athenas Paulista) que atende a população a seu bel prazer, furtando os cidadãos com suas taxas altas e serviços deficitários, distantes de uma boa qualidade.

Na questão da educação, certas escolas municipais agonizam devido a problemas de investimento, e a um constante problema de demanda para receber alunos nas séries iniciais e no ensino fundamental. A questão da infância e juventude é usada como modelo pela gestão municipal, mas problemas em conselhos tutelares e em algumas entidades de auxilio a jovens é constante e preocupante.

Chegamos a um período que precede os 6 meses para as eleições; o PSDB, julgando estar inovando, novamente lançará o desgastado e colecionador de derrotas Paulo Altomani, sendo que o apoio do DEM ainda está em aberto, ou seja, talvez voltaremos a assistir a oposição se degladiando mais uma vez.

O PT, gerenciando pessimamente a cidade, com sua política de pão e  circo, continua majestoso, mesmo em meio a inépcia administrativa e a incompetência de seu prefeito, uma vez que a oposição se mostra amorfa, apática e totalmente incapaz de mostrar onde está seu projeto hegemônico caso chegue ao poder.

O cenário político das eleições de 2012 em São Carlos promete:

Estas campanhas prometem ser uma tragédia muito maior do que nossas próprias forças. Os nossos “líderes políticos”, afirmando hoje as mentiras de ontem, negando amanhã as verdades de hoje, mostrarão a imagem da virtude da democracia, quem és o pai da ‘pátria’ são-carlense. E que ‘pátria’…

 

“Os intelectuais e a paixão pela catástrofe” – por Slavoj Zizek

SLAVOJ ZIZEK

Publico aqui a introdução ao novo livro do filósofo esloveno Slavoj Zizek, intitulado Gli intelletuali e la passione per la catastrofe. O trecho foi publicado no jornal La Repubblica, 31-03-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

‘Eis o texto’.

“Dizem que, na China, se você realmente odeia alguém, você o amaldiçoa assim: “Que você viva em tempos interessantes!”. Historicamente, os “tempos interessantes” foram períodos de irrequietação, de guerra e lutas pelo poder que trouxeram sofrimentos a milhões de inocentes.

Hoje, estamos claramente nos aproximando de uma nova época de tempos interessantes. Depois de décadas de Estado social, em que os cortes financeiros eram limitados a breves períodos e eram sustentados pela promessa de que as coisas logo voltariam ao normal, estamos entrando em um novo período em que a crise econômica se tornou permanente, é agora um simples modo de vida.

Essas mudanças não podem senão despedaçar a cômoda posição subjetiva dos intelectuais radicais, bem representada por um dos seus exercícios mentais preferidos ao longo de todo o século XX: o impulso a “catastrofizar” a situação. Seja qual fosse a situação presente, ela devia ser declarada “catastrófica”, e quanto mais as coisas pareciam positivas, mais nos comprazia esse exercício. Assim, independentemente das nossas diferenças “puramente ônticas”, todos fazemos parte da mesma catástrofe ontológica.

Heidegger acusou a nossa época de ser a do “perigo” do niilismo consumado. Adorno e Horkheimer viram nela o ápice da “dialética do iluminismo” no “mundo administrado”. Giorgio Agamben chegou até a definir os campos de concentração do século XX como a “verdade” de todo projeto político ocidental. Era como se a frase irônica de Churchill – a democracia é o pior sistema político possível, se excluirmos todos os outros – fosse repetida de forma séria: a “sociedade administrada” do Ocidente é pura barbárie escondida sob as vestes de civilização, o extremo limite da alienação, a desintegração do indivíduo autônomo, e assim por diante. E, entretanto, a partir do momento em que todas as outras estruturas sociopolíticas são piores, no fim das contas não nos resta outra alternativa senão apoiá-la…

Somos, portanto, tentados a propor uma interpretação radical dessa síndrome: talvez o que esses infelizes intelectuais não conseguem suportar é o fato de levar uma vida fundamentalmente feliz, segura e cômoda e, assim, para justificar a sua vocação mais elevada, são forçados a construir um cenário de catástrofe radical.

Sob tratamento psicanalítico, aprende-se a ser claro sobre os próprios desejos: eu quero verdadeiramente aquilo que penso querer? Tomemos o caso proverbial de um marido envolvido em uma paixão relacional extraconjugal, que sonha com o dia em que sua esposa desapareça e assim ele estará livre para viver com a amante. Quando isso finalmente acontece, o seu mundo inteiro entra em colapso, e ele descobre que, no fim das contas, ele não quer verdadeiramente a amante.

Como diz o velho ditado: só há uma coisa pior do que não ter o que se quer: é chegar a tê-lo. Os acadêmicos de esquerda estão se aproximando hoje de um desses momentos de verdade: queriam uma mudança de verdade, agora vocês a têm!”

DOM PEDRO II (1825 – 1891)

DOM PEDRO II

Segundo Imperador do Brasil, Pedro de Alcântara João Carlos Salvador Bebiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel Gabriel Gonzaga nasce no Rio de Janeiro, sétimo Filho de Dom Pedro I e da imperatriz Maria Leopoldina. Herda o direito ao trono com a morte dos irmãos mais velhos, Miguel e João Carlos.

É coroado aos 15 anos, em 1841. Em 1843 se casa com a princesa Teresa Cristina Maria de Bourbon, filha de Francisco I, rei das Duas Sicílias. Viaja muito, mantém correspondência com cientistas europeus, entre eles Louis Pasteur (1822-1895), e protege intelectuais e escritores.

Obtém prestígio promovendo o progresso na economia com a introdução do café e a ampliação das redes ferroviária e de telégrafo. Em 1889, sai do país dois dias depois da proclamação da República. Passa a viver na França , onde assiste a espetáculos de arte e participa de palestras e conferências. Morreu de pneumonia em Paris.

DOM PEDRO I (1798 – 1834)

DOM PEDRO I

Primeiro imperador do Brasil, Pedro de Alcântara Francisco Antônio João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon nasce no Palácio de Queluz, nos arredores de Lisboa. Filho de Dom João VI, torna-se príncipe herdeiro com a morte do irmão mais velho, Antônio, em 1801.

Chega ao Brasil em 1808, com a família real. Fica no país como príncipe regente quando Dom João VI retorna a Portugal, em 1821, e, no ano seguinte, proclama a Independência. É coroado imperador do Brasil e outorga a primeira Constituição, em 1824. Por governar de forma autoritária, perde popularidade.

Diante do desgaste político, em 1831 resolve abdicar em favor do filho Dom Pedro II. Volta a Portugal, onde restitui sua filha ao trono, tomado por seu irmão Dom Miguel. Durante a luta, contrai tuberculose. Assume a Coroa portuguesa como Dom Pedro IV e morre logo depois. Em 1972, seus restos mortais são trazidos para a cripta do Monumento do Ipiranga, em São Paulo.

Ao mestre, sem retoques – Jornal Estado de São Paulo

Vinte anos após deixar o sacerdócio, Leonardo Boff, teólogo censurado por Ratzinger, analisa o papa em excursão latina

BOFF / RATZINGER

Até o âncora da CNN saiu do sério no último domingo quando, quase incrédulo, abriu os braços para mostrar o tamanho do sombrero que Bento XVI afundou na cabeça ao ouvir um conjunto de mariachis na cidade mexicana de León. Era o início da primeira viagem do bávaro Joseph Ratzinger à América de língua espanhola desde que virou papa, em 2005. Observadores mais entusiasmados, ou mais fervorosos, podem ter vislumbrado ali uma latinidade que sairia do armário, com desdobramentos inesperados em Cuba, terra não dos sombreros, mas das guayaberas. Falso foguetório. Bento XVI, 85 anos incompletos, rapidamente se reconduziu à sobriedade germânica que o caracteriza. Do México saltou para a ilha caribenha, encontrou-se com os irmãos Castro, repetiu a palavra “liberdade” em diferentes momentos e arrumou outras tantas para condenar o bloqueio econômico americano. Daí pegou seu aeropapa e voltou para casa.

E a empatia esperada? E aquela sedução diante das massas que fez de seu antecessor, o polonês Karol Wojtyla, o João de Deus neste lado do mundo? Enfim, o que fica do primeiro ensaio de Bento XVI no terreiro da latino-americanidade? Quem reflete sobre essas e outras questões é o catarinense Leonardo Boff, 73 anos, que o papa conhece de longa data e a quem ainda se refere como “der frommer theologe”, o teólogo piedoso. “Esse tratamento tem a ver com o que ele me dizia no passado, ao aprovar meu jeito de aproximar teologia e espiritualidade. Ele leu o que escrevi, e gostava. Em compensação me condenou em outros campos”, relembra Boff, ex-aluno dileto de Joseph Ratzinger, depois confrontado irremediavelmente com o mestre quando este se tornou prefeito da poderosa Congregação para a Doutrina da Fé, ex-Santo Ofício, no pontificado de João Paulo II.

Sentar-se no banco de Galileu diante dos inquisidores da Igreja, tendo à frente o mestre que o formou e pressionado a renegar teses da Teologia da Libertação, da qual era um dos formuladores, não é experiência de vida que o tempo apague. Em 1985, o franciscano indexado como rebelde recebeu uma condenação ao silêncio obsequioso. Depois seguiu-se um leve relaxamento das sanções. Mas, em 1992, portanto há exatos 20 anos, veio o enquadramento mais forte de Roma: silêncio total, sem direito a escrever, recolhido a um convento nas Filipinas ou na Coreia. Boff então se despediu da Ordem dos Frades Menores, abandonou os votos sacerdotais e se declarou leigo.

Mas a Igreja, especialmente a dos pobres, segue dentro dele. A teologia, também. Recentemente acrescentou um título à lista de mais de 60 livros com o lançamento de Cristianismo: Mínimo do Mínimo (ed. Vozes), em que discute como as igrejas criam respostas complicadas para o mistério da fé, “que é feito de simplicidade”. Vê-se que o aluno continua na trilha oposta à do seu mestre na Universidade de Munique. Boff quer simplificar. Ratzinger, feito papa, quer recuperar a simbologia católica mais tradicional e austera. São antípodas que se referenciam mutuamente.

Nesta conversa em torno de Bento XVI, Boff traz à tona momentos em que ambos atuaram juntos, ou bem próximos, desde os anos que se seguiram ao Concílio Vaticano II (1961-62) até o derradeiro momento da ruptura. Professor emérito da Uerj, honoris causa das universidades de Turim (Itália) e Lund (Suécia) e detentor em 2001 do Right Livelihood Award, Nobel alternativo concedido em Estocolmo, hoje mora em Araras (RJ) com a mulher, a também teóloga Márcia Miranda, cercado da prole que adotou como sua. Além de falar aos movimentos sociais, mantém agenda extensa de palestras dentro e fora do País. “Vivo neste ciganismo intelectual”, brinca.

No sétimo ano do pontificado e na sua 23ª viagem internacional, esta é a primeira vez que Bento XVI empreende uma visita à América de língua espanhola. Sendo o continente um reduto do catolicismo, terá demorado a vir para esses lados?

A preocupação central do atual papa é recuperar visibilidade para a Igreja no continente europeu. É isso. Ele considera que o processo de secularização fez com que a Igreja perdesse importância social, tornando-se mais e mais invisível. Diante de um cristianismo agônico, como se vê em muitas partes da Europa, ele traça uma estratégia de reconquista, que não se aplica à América Latina, considerada já conquistada. Aqui ele procura reforçar o existente. Considero uma estratégia equivocada, pois implica optar pelos ricos e não pelas maiorias empobrecidas do mundo. Mas é justamente dessa estratégia que vem toda uma valorização do catolicismo tradicional, uma parafernália de símbolos religiosos recuperados, algo que a mim soa como coisa meio vaidosa. Acredito que a renovação não virá do centro, mas da periferia onde vivem 52% dos católicos. O cristianismo tornou-se uma religião do Terceiro Mundo que um dia teve origem no Primeiro Mundo. Mas isso é de difícil compreensão para o papa.

O senhor reconhece no Bento XVI de hoje o Ratzinger dos anos 80, que o condenou ao silêncio obsequioso e o levou, por fim, a abandonar a Ordem e o sacerdócio?

Há um Ratzinger anterior, com quem estudei e trabalhei nos anos 60, 70. Era um professor adorado pelos alunos, teólogo de posições avançadas, tínhamos estreita ligação. A partir de 1965, com a criação da revista Concilium, formou-se o grupo dos 25 teólogos mais influentes no mundo, grupo que se reunia uma vez ao ano em alguma cidade europeia, sempre na semana de Pentecostes, para discutir os rumos da igreja pós-Vaticano II. Ratzinger estava lá, conosco. Ficou tão entusiasmado com a minha tese de doutorado na Universidade de Munique, sobre a Igreja como sinal no mundo secularizado, que tratou de arrumar editora e financiamento de 14 mil marcos para a publicação. O que o teria feito mudar? Acho que ele chegou à Congregação para a Doutrina da Fé muito rapidamente. De simples teólogo em Munique foi a cardeal em pouco tempo e logo promovido a um posto importantíssimo no Vaticano, graças à amizade com Karol Wojtyla. Quando este virou papa, logo o chamou para a congregação. E é como eu sempre digo: Roma tem uma enzima que transforma todo mundo.

Roma mudou Ratzinger?

O papa, no meu modo de ver, vive um processo de regressão em sua capacidade de formular uma visão coerente do mundo, seja do ponto de vista da análise, seja do ponto de vista da teologia. Ele é cada vez mais conservador. É risível teologicamente ressuscitar a idéia medieval de que fora da Igreja Católica não há salvação e de que a romana é a única igreja verdadeira. Comete-se um erro teológico. Seria o mesmo que dizer: Evangelho é somente o de Marcos, o mais antigo. Os demais, de Mateus, Lucas e João, que vieram depois, têm apenas elementos evangélicos, mas não são o Evangelho. Ora, ele próprio me ensinou que, assim como os quatro Evangelhos se aceitam mutuamente, assim deveria acontecer com as igrejas. Juntas elas formam o legado de Jesus. Ele aceitou essa tese como teólogo, mas a renegou no Vaticano. E por quê? Eis uma coisa tão alemã… Ao ir para a congregação, Ratzinger o fez como um típico burocrata alemão, assumindo como algo pessoal o que era oficial. Lembro de uma passagem: logo depois de sua nomeação, escrevi uma carta para ele felicitando-o e dizendo que, enfim, a teologia iria florescer no mundo. Quinze dias depois recebi carta dele avisando que havia processos abertos contra mim na congregação e que daria andamento a eles. Pensei, puxa, vida, em 15 dias ele já terá mudado tanto?

A visita ao México e a Cuba servirá para diluir a imagem de Ratzinger como desagregador da Teologia da Libertação?

O papa carrega um fardo negativo na história da teologia cristã. Não apenas perseguiu teólogos levando-os a julgamento em Roma, como fez comigo e Gustavo Gutiérrez (teólogo e frade dominicano nascido no Peru), como proibiu que publicássemos a primeira Suma Teológica (obra doutrinária e filosófica de São Tomás de Aquino, do século 13) na perspectiva da libertação.

Como assim?

Eu coordenava um grupo de cem teólogos da América Latina envolvidos na publicação da obra, em 53 volumes. Quando lhe expus o projeto, o então cardeal Ratzinger perguntou “e quem paga?”.Depois me disse que deveríamos publicar apenas um volume por ano, mas argumentei: “Eminência, não viveremos para ver o final do trabalho”. Por fim condicionou a autorização da publicação, o imprimatur, a uma licença especial que deveria vir de bispos espanhóis muito conservadores. Abandonamos o projeto. Tudo isso causou grande dano às comunidades que ter-se-iam enriquecido na sua compreensão da fé e também de seu compromisso político a partir da fé.

O giro latino-americano dos últimos dias também não poderá distrair a opinião mundial dos escândalos sexuais na Igreja?

Tanta perspicácia política não possuem os estrategistas do Vaticano. A concepção deles é centrada sobre a Igreja em si mesma, bastião de defesa contra o secularismo, ateísmo e materialismo do mundo moderno. Roma apoia o cristianismo da América Latina desde que mantenha sua lógica colonial, dependente do centro, e não pretenda fazer aqui um ensaio original com outras culturas, de onde saia um rosto índio-negro-latinoamericano de cristianismo. Ou seja, cristianismo, sim, desde que romano. Agora, a pedofilia atacou de fato o coração da Igreja Católica, aquele capital simbólico e espiritual do qual vivia sua legitimidade e força moral. Isso tudo deve causar uma tremenda perplexidade ao papa.

Por quê?

A concepção que eu ouvia em suas aulas era de que a Igreja deve ser o pequeno rebanho, um pedaço do mundo reconciliado, o oásis onde a salvação se realiza de forma exemplar, como representação para todos os demais. Ocorre que esse oásis e pedaço de mundo reconciliado é uma ideia platônica, realidade que nunca existiu. A Igreja está no mundo como as demais realidades, sujeita a vulnerabilidades da condição humana. Os antigos diziam e sobre isso o teólogo Ratzinger escreveu algumas belas páginas: a Igreja é uma casta meretriz. De noite ela peca como meretriz. De dia Deus a limpa, a torna casta e a faz sua esposa. Quanto à pedofilia na Igreja, a estratégia do Vaticano é desviante ao separá-la do celibato. O elo entre os dois temas é a sexualidade. Notoriamente a educação dos candidatos ao sacerdócio, e ao celibato, tem sido insuficiente, fazendo da sexualidade o mundo da tentação e do pecado. Ora, uma educação inadequada faz com que muitos deem azo a expressões perversas e criminosas da sexualidade. O normal seria a Igreja rever a lei do celibato e torná-lo facultativo, como o fizeram todas as igrejas.

Como o senhor compara o estilo João Paulo II ao de Bento XVI no contato com fiéis?

Podemos discutir a teologia conservadora de João Paulo II, mas não podemos desconhecer seu irradiante carisma, que galvanizava multidões. Num mundo sem figuras carismáticas, pois hoje a maioria dos chefes de Estado, opacos burocratas, sai das escolas de administração, a figura de João Paulo II se sobrelevava. Não possuía boa teologia, tanto que sua tese doutoral sobre a fé em São João da Cruz não foi aprovada. Mas era um grande pastor. Falava mais por gestos que por palavras. Sua aparição ao público era uma encenação. Vê-se que tinha sido na juventude ator. E foi ator a vida inteira, encenou a própria morte. Sua irradiação era tão grande que fascinou e, eu diria, até cegou Ratzinger, que, em seu entusiasmo, logo o beatificou. Já o papa atual preserva dentro de si o mestre, que de fato foi, de uma rigorosa universidade alemã. Não possui carisma por isso não projeta aura benfazeja, mas severa, contida. O professor com quem privei sempre foi uma pessoa gentil, fina, mas extremamente tímida. Sim, Bento XVI é um homem muito tímido. Posso imaginar como deve sofrer longe de seus livros e da leitura de Santo Agostinho, do qual é eminente especialista, tendo que fazer saudações e dar manifestações públicas de carinho, algo inimaginável na sua atividade de Herr Professor.

João Paulo II e Fidel desenvolveram, guardadas as distâncias, um contato sincero aparentemente. E tem-se que a Igreja católica em Cuba recuperou terreno social e até presença política. Isso poderá ser ‘reeditado’ com Bento XVI e Raúl Castro?

Quem seguiu de perto o encontro de Fidel Castro com João Paulo II teve a clara percepção de que eles se afinavam profundamente. Pudera, tinham as mesmas características de base: o exercício autoritário do poder. E ambos eram figuras carismáticas. Com o papa atual é diferente. Eu diria que nessa semana vimos o encontro de dois chefes de Estado, cada qual com sua identidade, sem nenhum gesto que rompesse o plano burocrático. Como de praxe o papa tem que falar dos direitos humanos, já que a Igreja levanta a pretensão de ser especialista em humanidade, mas quem a conhece por dentro percebe a falácia da presunção.

Cuba e o contato com a gente simples de lá podem mudar concepções em Bento XVI?

O encontro é sempre criativo, muda a cabeça das pessoas. Seria preciso ser inimigo da própria humanidade e não se comover diante dos humildes que acenam e estendem a mão para uma figura que representa algo de sagrado, de uma realidade que ultrapassa a nossa. Para João Paulo II as viagens significavam grande aprendizado. Para Bento XVI deve também haver um quociente de aprendizado, mas como é intelectual de grandes conhecimentos teóricos, num nível realmente alto, penso que o aprendizado servirá para confirmar as próprias convicções. Mas talvez eu esteja subestimando a força intrínseca que todo encontro possui… Isso já é filosofia, não é análise.

Mas ele desembarcou no México, primeira etapa desta viagem, anunciando-se como ‘peregrino da fé, da esperança e do amor’.

Que outra mensagem poderia dizer? Ele não é um político, porém maneja símbolos poderosos, que alcançam fundo a alma das pessoas. Todos anseiam por amor, fé, esperança. Não será um Berlusconi ou um Sarkozy que farão semelhantes discursos. Então o papa está em seu papel.

Na coletiva para 70 jornalistas no voo Roma-León, rumo à primeira escala mexicana, o papa disse textualmente: ‘Hoje é evidente que a ideologia marxista, como foi concebida, já não responde à realidade’. Mas a frase chegou a ser publicada como ‘o papa disse que comunismo em Cuba não funciona’…

Como a maioria dos alemães, ele é profundamente anticomunista. E não diferencia os tipos de marxismo como fez inteligentemente João XXIII na Mater et Magistra, ele que era bem menos culto que Ratzinger. Se Bento XVI tivesse se restringido ao marxismo como teoria social, como conjunto de ferramentas para entender uma sociedade e analisar a lógica perversa do capital, talvez falasse o contrário. Hoje, dizem-no livreiros da Europa e dos Estados Unidos, Marx é um dos autores mais lidos e estudados por financistas que foram à falência e procuram entender por quê.

Fidel, no breve encontro com Bento XVI em Havana, ousou perguntar ‘o que faz um papa’. O que o senhor acha da indagação?

Se eu fosse o papa responderia com toda a simplicidade: “Não faço nada. Fazem tudo por mim”. Porque o que ele tem que fazer, e essa é sua única missão, é viajar pelo mundo para fortificar os irmãos na fé, mantendo a unidade de uma instituição que hoje tem o tamanho de uma China inteira. No mais, fazem tudo por ele. Uma vez alguém perguntou a João XXIII quantas pessoas trabalhavam na Cúria Romana. E ele disse: “A metade” (risos). É assim mesmo, metade trabalha, metade vagabundeia.

A secularização, como já se disse aqui, está no topo das preocupações do Vaticano. E o papa prega que é possível redescobrir Deus como orientação fundamental de vida no contexto da racionalidade moderna. O senhor está de acordo com ele?

Estimo que o papa possua um conceito reducionista de secularização. Na verdade é um conceito nascido no interior da teologia protestante do século 19 e começo do século 20 para afirmar a legítima autonomia do saeculum, quer dizer, do mundo, da criação. Na secularização, Deus não é pronunciado, o que não significa que esteja ausente. Ele está presente sob o nome de justiça, amor, retidão, boa consciência, solidariedade e compaixão. Ilusão dos cristãos pensarem que Deus esteja presente somente onde seu nome é pronunciado, pois muitos se dão por piedosos e comportam-se como malfeitores. Nosso mundo político está cheio deles. Já o “secularismo” é a patologia da secularização ao afirmar que só existe este mundo e qualquer aceno a algo que o transcenda é ilusão ou alienação. Creio que o papa deveria ter feito a distinção para não condenar aquilo que é são.

Ele quer uma Igreja menor, mais disciplinada e homogênea. No ano passado, se não me engano, visitou sua Baviera natal, pregando ‘uma outra Alemanha’, não a Berlim secular, administrada por um prefeito gay…

Quem conhece a Baviera entende suas palavras. Vivi lá cinco anos ininterruptos e pude conversar muito com Ratzinger sobre o tipo de catolicismo que se originou na região. Para o professor aquilo significa uma das mais perfeitas e completas encarnações da fé cristã numa cultura rústica, camponesa, de virtudes ligadas ao trabalho, à piedade familiar, às festas de Igreja e à impregnação de elementos religiosos em todas as casas. Ele me disse várias vezes que “o caminho romano passa pela Baviera”. Só que se trata de um cristianismo que não se confrontou com a modernidade!

Depois de deixar a ordem e o sacerdócio, o senhor esteve com seu ex-professor?

Não, não. Numa famosa conferência que fez em Florença, sobre o Vaticano II, ainda cardeal, Ratzinger me citou em público. Curioso, ele se refere a mim como “der frommer theologe” (o teólogo piedoso), aprovando a maneira como eu aproximo espiritualidade e teologia, mas me criticando duramente em outros textos… Pois bem, depois da conferência houve uma entrevista e um jornalista indagou por que, afinal, fizera a citação de alguém que havia condenado. E ele respondeu algo assim: “Boff é um homem inteligente, bom teólogo, espero que um dia volte e acolha o magistério da Igreja”. Continuará esperando.