Hospital-Escola de São Carlos – da pedra fundamental ao abandono total – por Moacir Pereira Alencar Júnior

Hospital-Escola de São Carlos agoniza

“Hospital-Escola de São Carlos agoniza”

Lembro-me como se fosse agora – 31 de março de 2005 – o lançamento da pedra fundamental que daria início as obras de construção do Hospital-Escola de São Carlos iria ser oficializado. Era uma quinta-feira, eu estava tendo aula na UFSCar pela manhã (era então graduando de estatística), e muitos de meus colegas resolveram assistir a este cerimonial. O evento começou por volta das 10h da manhã, contando com um atraso característico dos cerimoniais públicos que ocorrem no país.

Estavam presentes ao evento, o então presidente Lula; José Dirceu, então ministro da Casa Civil; o então prefeito, Newton Lima; o então Ministro da Saúde, Humberto Costa; Márcio Fortes, então Ministro-interino do Desenvolvimento, Indústria e Comércio; Ricardo Berzoini, então Ministro do Trabalho; Eduardo Campos, então Ministro da Ciência e Tecnologia; o general Jorge Armando Félix, então ministro-chefe do Gabinete da Segurança Institucional; Oswaldo Baptista Duarte Filho (Barba), então reitor da Universidade Federal de São Carlos; assim como o então Senador Aloisio Mercadante, e os deputados federais João Paulo Cunha, João Herrmann, Barbieri, Roberto Gouveia, Marquezelli, Iara Bernardi e Lobbe Neto.

O discurso de Lula, investido de grande retórica, já dizia que seus dois anos de governo (2003-2004), tinham sido melhores dos que os 10 anos anteriores. Em suas palavras:”quisera Deus que o Brasil tivesse crescido nos últimos dez anos o que cresceu nos nossos dois primeiros anos”. A arte do discurso falacioso e destrutivo contra  seus antecessores já era arma consagrada de Lula. Não deve ser esquecido as vaias que Lula recebeu neste evento, uma vez que ele também aproveitou a ocasião pra falar da Reforma Universitária que viria a ser posta em prática pelo governo federal em breve. Neste contexto todo o movimento estudantil se mostrava contra a aprovação do REUNI, e foi assim até o último momento, quando o mesmo foi aprovado tendo grande oposição dos estudantes das universidades federais do país.

Lula destacou neste mesmo dia, a oficialização do apoio a criação do curso de Medicina da UFSCar. Em suas palavras: “O nosso papel é cuidar, companheiro Newton, para que outras cidades recebam os mesmos benefícios que São Carlos está recebendo. São Carlos já é uma cidade com boa infra-estrutura, já é uma cidade com uma belíssima universidade, mas não era possível que aqui não tivesse um hospital-escola, uma faculdade para ensinar medicina e, sobretudo, ensinar dando uma conotação de formação aos profissionais, para que eles aprendam a medicina social, o médico de família, para que saiam da universidade e possam trabalhar no serviço público com orgulho, não apenas pensar em se formar para montar um gabinete e ganhar dinheiro às custas da doença do povo pobre deste país. É importante que mesmo tendo o seu consultório, o médico tenha um tempo para trabalhar na rede pública para ajudar os milhões de brasileiros que só têm acesso à rede pública de saúde deste Brasil”.

Começava neste momento a história conturbada e inacabada do Hospital-Escola de São Carlos, e do malfadado curso de Medicina da UFSCar- que se iniciou no vestibular 2006, tendo uma concorrência de quase 200 candidatos/vaga no ano de lançamento – mais exatamente 191,88 candidatos/vaga.

Ao fim de 2006 – mais exatamente novembro – o grupo responsável por  avaliar o papel do Hospital-Escola na integração à Rede de Cuidados com a Saúde recomendava a inserção do hospital como Unidade de Urgência e Emergência, de modo a ter uma capacidade instalada de retaguarda no atendimento aos pacientes de risco. O primeiro módulo deveria ter leitos com características de suporte semi-intensivo e também contar com o apoio da Santa Casa de São Carlos, vindo a ser coordenado pela Central Municipal de Regulação Municipal. O projeto básico da Central já estaria estruturado e a sua instalação ocorreria com o objetivo de regular tanto a disponibilidade de vagas hospitalares, urgência e emergência quanto de consultas para iniciar o funcionamento junto com o hospital.

O primeiro módulo do Hospital-Escola Municipal viria a ser uma Unidade de Urgência e Emergência com suporte técnico para atendimento de vítimas em situação de risco. A cidade de São Carlos disporia em 2006 de dois tipos de leitos hospitalares: os comuns para a internação de pacientes na Santa Casa e os leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Os 32 leitos do primeiro módulo do Hospital-Escola teriam o objetivo de desafogar o atendimento nos leitos da Santa Casa, vindo a atender a demanda do atendimento intermediário para os pacientes que não necessitassem da UTI, mas que precisassem de um leito com retaguarda maior que a de um leito normal.

Após 32 meses de obras – março de 2005 à novembro de 2007 – o primeiro módulo do Hospital-Escola era inaugurado. A princípio ele nascia como uma “virtual” base vital de suporte ao curso de Medicina da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). O hospital foi construído com recursos do Ministério da Saúde e da prefeitura, e atenderia pacientes do Sistema Único de Saúde. O hospital também serviria para o aprendizado dos médicos residentes a serem formados pela UFSCar. O então secretário de Saúde de São Carlos, Artur Pereira,  informava também que a conclusão do segundo módulo atenderia os alunos da UFSCar, que necessitariam da conclusão da obra para terem acesso a todos os equipamentos de um hospital. O segundo módulo contaria com 188 leitos de internação, nas áreas clínica, cirúrgica, pediátrica e obstétrica, além de laboratório de analises clínicas, UTI adulto, centro cirúrgico e obstétrico e serviços de apoio como manutenção, lavanderia, nutrição e dietética e central de esterilização de materiais.

Entre 2008-2013, mais de cinco anos, ocorreu problemas sistemáticos de gestão e ação da Reitoria da UFSCar com relação ao Hospital-Escola e o curso de Medicina. A incompetência do reitor Targino de Araújo Filho ( incrivelmente eleito (como!?) para um segundo mandato em 2012) foi fator central do descaso e da situação calamitosa do curso de medicina hoje. A retórica, típica de Lula, também passou a ser o modo de ação do reitor Targino, que é totalmente  incapaz de gerir o curso (também a universidade) que ganha a maior verba da instituição e é mantido na UTI ad eternum. Mas também não podemos esquecer do Barba…o então reitor da UFSCar entre 2001-2008, e prefeito do município entre 2009-2012, não teve capacidade alguma de levar adiante a tão ‘sonhada’ regularização plena do funcionamento do hospital e a parceria junto aos alunos de medicina, que foram deixados a míngua da maneira mais clamorosa possível. Foram 4 anos de tergiversações (pra usar a expressão da presidenta Dilma) como prefeito sem agir de modo eloquente pela redinamização da funcionalidade do Hospital e a eficiência das parcerias junto ao curso de Medicina (até hoje o módulo 2 do Hospital-Escola está inacabado).

Somado a isso, a população que depende do SUS (eu e meus pais já utilizamos mais de uma dúzia de vezes os serviços do Hospital-Escola), recorrem a um “hospital” (puxadinho) que não tem condições de atender de maneira adequada a população já de longa data. A entrada de Altomani no poder no ano de 2013 – como novo prefeito de São Carlos – veio a acelerar o processo de total paralisia do Hospital-Escola. Uma incompetente administração nestes seis meses iniciais decretou o ponto de alerta da situação periclitante que vive o Hospital- Escola.

O início de 2013 contou com um greve de estudantes da Medicina que durou mais de 80 dias, e não se conseguiu chegar a um ‘mínimo denominador comum’ da questão  problemática do curso junto a Reitoria. Agora a prefeitura atual, administrada por Paulo Altomani (dizem que ele consegue administrar, será?! Parece que não sabe agir de modo coeso em nada) vem a somar as forças de incompetência que gerem(geriram) o município e a universidade nos últimos 12 anos.

A questão em debate paira acima dos partidos, está em jogo a situação da saúde do município, que hoje tem como secretário interino de Saúde, um completo incompetente, Julio César Soldado, inapto mesmo pra administrar uma portaria de prédio (ser porteiro não é demérito, que fique bem claro!), imagine então uma Secretaria de Saúde de uma cidade de mais de 220 mil habitantes (pasmem, ele também é secretário de Governo). Este senhor não tem nenhum conhecimento da área profissional de medicina, e se tornou o tampão titular do Altomani para ocupar todas as secretarias que vão sendo abandonadas neste governo (e já foram 5).

Júlio César Soldado, o mestre da incompetência da Gestão Altomani - multitarefas, gerencia duas secretarias.

Júlio César Soldado, o mestre da incompetência da Gestão Altomani – multitarefas, gerencia duas secretarias.

A população tem que agir…..assim como tivemos a manifestação no final de junho pela baixa das passagens de ônibus (que obteve êxito), está na hora da população são-carlense, tanto estudantes como demais trabalhadores atuarem de modo efetivo pela melhora do sistema de saúde da cidade.Vamos nos unir em um verdadeiro ATO, distante de partidarização (mas que tenha militantes de variados partidos), que realmente venham a mostrar aos poderes municipal e federal, nosso total descontentamento com tudo isto que ocorre em São Carlos. Uma MOBILIZAÇÃO que consiga de fato reverberar o abandono do sistema de saúde da cidade e do país…este é o momento.

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“Fantasia desorganizada” – por Rubens Ricupero

Rubens Ricupero

Diplomata Rubens Ricupero

Não é com as Diretas Já ou o Fora Collor que se parecem as manifestações atuais. Aquelas iniciativas foram enquadradas e dirigidas por líderes políticos. Possuíam objetivo único e bem definido: o fim da ditadura, o fim de um presidente. Visavam, no fundo, substituir os que detinham o poder.

O movimento de agora é um primo pobre e muito longínquo de Maio de 68. Não apenas na maciça participação de jovens e estudantes, na caótica desorganização (Maio de 68 era bem mais estruturado), na rejeição do sistema político.

As maiores semelhanças são de essência: não querem conquistar o poder, mas, num caso, o de 68, “mudar a vida”, no outro, “mudar o Brasil”.

O Movimento Passe Livre é muito mais prosaico no ponto de partida: o protesto contra o aumento das passagens. Se desta vez o protesto “pegou”, foi porque o descaso com a inflação provocou o agravamento dos conflitos distributivos, como dizem os economistas.

O MPL não tem nem de longe a radicalidade universal do sonho utópico de Maio de 68. Tampouco se compara com os parisienses no sopro poético de buscar no Manifesto Surrealista a inspiração para inesquecíveis slogans como: “Seja realista: exija o impossível!”.

Não obstante, os manifestantes brasileiros não carecem de virtudes estimáveis. Restabeleceram o exercício direto da cidadania, demonstraram que o mar de corrupção não afogou a consciência moral dos jovens, revelaram senso de hierarquia de valores e prioridades superior ao de um governo empenhado em anestesiar os cidadãos com o desperdício circense da Copa.

Onde os nossos jovens se meteram num beco sem saída foi na rejeição em bloco de toda a política. Se quiserem purificar o sistema político, terão de enfiar as mãos na massa, canalizar a insatisfação para as eleições, único meio legítimo de conquistar o poder e mudar a sociedade.

Os discípulos de Marcuse não queriam virar governo por crerem que todo poder é dominação e alienação. Condenaram-se à impotência e ao niilismo: não é de surpreender que tenham dado lugar aos movimentos terroristas dos anos de chumbo.

Nosso movimento é uma manifestação a mais da crise mundial da democracia representativa. A saída, porém, está em construir mecanismos de participação direta que corrijam os desvios do sistema. Como, por exemplo, o “recall”, a revogação do mandato pelos eleitores.

A euforia das passeatas, a intoxicação de se sentir ator e sujeito do próprio destino, traz de volta o que ensinavam os gregos: a mais nobre expressão da vida humana é participar do governo da cidade. Para isso, é preciso ter, como dizia Celso Furtado, uma “fantasia organizada”.

Não se pode ter manifestação sem itinerário, sem segurança que elimine os provocadores, sem respeito à liberdade e propriedade alheia. Na falta disso, cai-se no “espontaneísmo”. Na Espanha, espontâneo é aquele entusiasta de tourada que salta na arena para tourear com o paletó. Quase sempre acaba em tragédia e chifrada

“A volta do Neobobismo” – por Mailson da Nóbrega

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A velha esquerda muito acusou o presidente Fernando Henrique de neoliberal. Numa das vezes, em 1997, FHC reagiu. “Só quem não tem nada na cabeça é que fica repetindo que o governo é neoliberal isso é neobobismo.” Agora, o neobobismo ressurge para fanfarronar as administrações do PT, no livro 10 anos de Governos Pós-Neoliberais no Brasil: Lula e Dilma organizado por Emir Sader (Editora Boitempo).

O neoliberalismo, corrente nascida nos anos 1930, se opunha à intervenção estatal adotada na Europa e nos Estados Unidos para enfrentar a Grande Depressão. Nos anos 1970 defendia a reforma do estado intervencionista ao qual atribuía a perda de dinamismo e o surto inflacionário de então nos países ricos. A esquerda passou a usar o termo em tom pejorativo.

Na América Latina, os mesmos problemas decorriam também das políticas de substituição de importações, que ficaram insustentáveis com as crises do petróleo (1973 e 1979) mas foram mantidas mediante elevação da dívida externa. O modelo ruiu de vez com a moratória mexicana de 1982, que fez secar a fonte de recursos do exterior. A inflação evoluiu para hiperinflação em muitos países.

No Brasil, chegara a hora de rever o modelo, que havia legado uma industrialização ineficiente e uma inaceitável concentração de renda. As bases do modelo eram o fechamento da economia o desregramento orçamentário, a tolerância com a inflação, a concessão de subsídios e favores fiscais a certos segmentos, e a escolha de vencedores pela burocracia.

Era preciso superar a hiperinflação, abrir a economia, redefinir o papel do Estado, privatizar estatais ineficientes — inclusive para assegurar o acesso da população a serviços básicos como o das telecomunicações — e construir moderna regulação econômica e de defesa da concorrência. A redistribuição de renda viria com o fim da corrosão inflacionária da renda dos trabalhadores e com programas sociais focalizados nos mais pobres. A universalização do ensino fundamental e novos investimentos em educação eram parte da grande empreitada.

Tais mudanças ciclópicas — “neoliberais” para a velha esquerda — atingiram o auge com FHC. A velha esquerda nunca entendeu a realidade. Manteve suas convicções estatistas mesmo depois da queda do Muro de Berlim. Não percebeu que o fracasso da substituição de importações e também do comunismo tinha a mesma origem, isto é a ausência de incentivos à inovação.

O governo Lula foi o maior herdeiro dessas transformações. O crescimento foi impulsionado pelos correspondentes ganhos de produtividade e pela emergência da China como nosso principal parceiro comercial. Havia, ainda, disponibilidade de mão de obra para incorporar ao processo produtivo. Foi possível, por tudo isso, ampliar os programas sociais, agora unificados no Bolsa Família. Mas o êxito dificilmente viria se o presidente não houvesse abandonado as ideias erradas do PT sobre política econômica.

Isso aconteceu com sua Carta ao Povo Brasileiro (2002). O objetivo era afastar temores de uma ruptura desastrosa, caso o PT ganhasse as eleições presidenciais. Lula jurou cumprir contratos e se comprometeu com o superávit primário do setor público, um dos ícones do que a esquerda via como neoliberalismo. No governo, manteve as privatizações, ampliou o superávit primário e reforçou a autonomia operacional do Banco Central. Lula também seria um neoliberal? Infelizmente, ele abandonou as reformas, o que em grande parte explica a recente queda da produtividade.

Quem mudou rumos foi a presidente Dilma. Ela por certo agrada a neobobos com a ação política sobre o Banco Central, a reinstituição do controle de preços, o protecionismo e outras políticas típicas da era do intervencionismo excessivo e da substituição de importações. Colhe inflação alta e PIB baixo.

O artigo de Sader no livro é uma ode à alienação. Numa de suas pérolas, afirma que a Carta ao Povo Brasileiro contribuiu para a crise política iniciada em 2005, a do mensalão. A origem do maior escândalo político da história seriam a continuidade da política econômica e a oposição, “dirigida por uma mídia privada e refugiada nas denúncias de corrupção contra o governo”. Neobobismo puro

O militante imaginário – por Arnaldo Jabor

Arnaldo Jabor

Arnaldo Jabor

O Brasil está infestado de ‘militantes imaginários’. Mas, o que é um “militante imaginário”? (Ouvi essa expressão do José Arthur Gianotti – na mosca. Já escrevi sobre isso e volto). O militante imaginário (MI) é encontrado em universidades, igrejas, conventos, jornais, bares. O militante imaginário é um revolucionário que não faz nada pelo bem do povo; ele se julga em ação, só que não se mexe. A revolução imaginária não tem armas, nem sangue, nem dificuldades estratégicas, nem soldados. Trata-se apenas de um desejo ou de ignorantes ou de pequenos burgueses que sonham com uma vitória sem lutas. É uma florescência romântica, poética que nos espera numa ‘parusia’ (Google, gente boa) ao fim da história.

O militante imaginário precisa de algo que ilumine sua vida, uma fé, como os evangélicos – o ‘bem’ de um futuro, o bem de uma sigla, de um slogan. Pensando assim, tudo lhe é permitido e perdoado. “Sou de esquerda” – berra o publicitário, o agiota, o lobista. É tão prático… O grande poeta Ferreira Gullar, ex-exilado, perseguido na ditadura, foi dar uma palestra na USP e ficou perplexo com a obviedade ideológica dos jovens, como se estivéssemos ainda na chegada de Fidel a Havana. Tudo comuna. Ser ‘de esquerda’ dá um charme extra a ignorantes de politica. Não há mais esquerda e direita; certo seria falar em ‘progressistas e reacionários’. Com essa dualidade antiga, o PT é ‘de direita’. Mas o MI não quer saber disso – continua sonhando com o surgimento mágico de Lula, com seu dedinho cortado.

A revolução do imaginário militante é uma herança modernista que ficou, desde a coragem de barbudos de Cuba, dos Panteras Negras, dos vietcongues. Nós, no Brasil, amantes do gesto abstrato, inventamos a “revolução cordial”. Preferimos o mundo da teoria. A realidade atrapalha, com suas vielas, esgotos e becos sem saída. Bem ou mal, um militante do PT trabalha, luta por seus ideais delirantes. Mas o militante imaginário é o revolucionário que não gosta de acordar cedo. É muito chato ir para a porta da fabrica panfletar. Militantes imaginários espalham-se pelo país torcendo por uma ‘esquerda’ como por um time. Isso garante-lhes um charme de revolta, de serem ‘contra o Sistema’. Os jovens por exemplo preferem o maniqueísmo de uma ‘esquerda’ que desconhecem às complicadas equações para entender o mundo atual. (A propósito, não percam na internet o manifesto a favor da Coreia do Norte no site do PC do B. É caso de hospício).

O militante imaginário é uma variante do “patrulheiro ideológico”. Só que o patrulheiro vigia a liberdade dos outros. O militante imaginário só pensa em si – para ele, todos somos burgueses, malvados, contra o bem. Ele nem nos dá a esmola de uma crítica. Ele sorri de nossos argumentos, olhando-nos, superior, complacente com nossa ‘alienação’.

O militante imaginário (MI) tem uma espécie de saudade. Saudade de um mundo que já foi bom. Só que ninguém sabe dizer quando o mundo foi bom. Quando o mundo foi bom? Durante a guerra de 14, no stalinismo, nos anos 40, quando? O MI tem saudade de um tempo quando se achava que o mundo “poderia” ser bom; é a saudade de uma saudade.

Muitos pensam que são ‘marxistas’. Não são. São restos de um mal entendimento da herança de Hegel, que nos brindou com as “contradições negativas”, ou seja, o erro é apenas o inevitável caminho para uma vitória futura do Espírito. Quanto mais erro houver, mais comprovação de sucesso; quanto mais derrota, mais brilha a solidão da esperança.

Não me esqueço de um debate do grande intelectual liberal José Guilherme Merquior com dois marxistas sérios e sinceros. Eles faziam “autocrítica” de todos os erros sucessivos do socialismo real: 1956 na Hungria foi um erro, 1968 em Praga foi um erro, terrível a matança de Pol Pot no Camboja, na revolução cultural da China, 64 e 68 foram duas subestimações do inimigo. E concluíram: continuaremos tentando, chegaremos lá. Merquior atalhou na hora: “Mas, por que vocês não desistem?”. É isso. Mesmo com todas as evidências de ilusões perdidas, os militantes produzem mais fé – como evangélicos. Não são de partido algum, mas com sua torcida ridícula, desinformada, ajudam a eleição dos velhos bolcheviques tropicais.

O MI não quer a vitória, pois seria o fim do sonho e o inicio de um inferno administrativo. Já pensou? Ter de trabalhar na revolução? O militante imaginário detesta contas, balanços, safras de grãos, estatísticas, tudo que interessa à chamada ‘direita’ concreta. Por isso, ela ganha sempre. A esquerda tem “princípios” e “fins”. Mas a direita tem “meios”; a direita é um fim em si mesma. A esquerda é idealista, franco-alemã. A direita é “materialista histórica”.

A esquerda sonha com o “futuro”. A direita sonha com o “mercado futuro”.

A esquerda é contra a social democracia – deu em Hitler. A direita é contra a social democracia – deu em Hitler.

Esquerda e direita se unem numa coisa: nunca são culpados e nunca pagam a conta, como os usineiros.

Estamos vivendo um momento histórico gravíssimo. Estão ameaçadas todas as realizações do governo de FHC, que modernizou institucionalmente o país, enquanto pôde, sob a mais brutal oposição do PT. Seus líderes diziam: “Se o Fernando Henrique for pela ajuda a criancinhas com câncer, temos de ser contra”. As obras do medíocre PAC estão todas atrasadas, as concessões à iniciativa privada são lentas e aleijadas, a inflação está voltando, os gastos públicos subiram 20% e os investimentos caem, o estimulo ao consumo em vez do estimulo à produção vai produzir a catástrofe, e tem muita gente da própria “esquerda” querendo que a Dilma se ferre para a volta do mais nefasto homem do país: o Lula.

Não É possível que homens inteligentes não vejam este óbvio uivante, ululante.

Mas qual intelectual ou artista famoso teria coragem, peito, cu, para denunciar isso publicamente? Quem?

É melhor ficarem quietos e não se comprometerem. O mito da esquerda impede que se pense o país, trava a análise crítica.

Deus vai castigá-los.

“Ligar direita liberal à ditadura é mau-caratismo da esquerda”, diz Pondé

Entrevista concedida ao Portal Imprensa

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Luiz Felipe Pondé

Luiz Felipe Pondé

Fumando um charuto cubano Montecristo, o filósofo Luiz Felipe Pondé recebe IMPRENSA no escritório-biblioteca de seu apartamento na zona oeste de São Paulo. “É o único produto cubano que aprecio. Talvez, o único produto cubano que exista”, brinca.

Na sala repleta de livros, muitos empilhados no chão, e estantes cheias de imagens religiosas – de santos a orixás – o filosofo ateu (desde os oito anos) trabalha às segundas, terças e quartas. Na quinta, dá aulas na Faap. Na sexta, vai à Faap pela manhã, PUC pela tarde e TV Cultura à noite.

Colunista às segundas da “Ilustrada”, da Folha, é, hoje, um intelectual pop. Mesmo imerso em temas densos, está na TV, revistas e é best-seller, principalmente com os seus “Contra um mundo melhor” [Editora Leya, 2010] e o “Manual do Politicamente Incorreto da Filosofia” [Editora Leya, 2012].

Não é incomum ouvir seu nome associado a outros adjetivos como direitista, conservador, “reaça” (para os leigos: reacionário). E outros menos gentis. Entre adeptos e adversários, certo é que ele é polêmico. E não nega os dois últimos “rótulos”.

“Eu me vejo como um liberal conservative [um direitista liberal]. Sou conservador em política, liberal no resto. Por exemplo, sou a favor do casamento gay. Eu me sinto uma pessoa muito mais liberal e menos moralista do que pessoas de esquerda que conheço”, diz.

Em entrevista exclusiva à IMPRENSA, Pondé fala da dicotomia direita/esquerda, PT, Chávez, Deus, e, é claro, mídia e imprensa. Como de praxe, bem longe do muro. “É bom ter um veículo como a Veja que chamou a responsabilidade para si de fazer oposição, já que não existe oposição no país.” Confira o papo na íntegra.

MÍDIA E IMPRENSA

IMPRENSA – O politicamente correto também pauta a mídia e a imprensa brasileira?

LUIZ FELIPE PONDÉ – Está presente, sim. E tem se instaurado pelas universidades, pelas ciências sociais, pelo curso de jornalismo, pela escola de direito, de magistratura e tudo mais. Isso tudo acaba desaguando na mídia, porque o jornalista, na sua raiz, tem uma imagem de si mesmo como uma espécie de pregador do bem, que vai corrigir os problemas do mundo.

A seu ver, assumir qualquer papel nesse sentido é bobagem?

Sabe aquela piada de que a diferença entre o publicitário e o jornalista é que ambos vão para o inferno, mas que o jornalista não sabe? O jornalista se vê como um cara puro. Muitas vezes, o que dá viés no jornalismo é a ideologia do editor, do repórter. É na pergunta que ele faz. Isso é pior no jornalismo do que o dono do jornal. Quer ver outra forma, esta indireta, de politicamente correto? No medo, medo de escrever. Uma das coisas que os leitores identificam em mim é que eu não tenho medo do leitor, não estou preocupado em agradá-lo.

O jornalismo brasileiro está cheio de medo?

Sim. Pelo menos o opinativo está. É menos medo consciente, e mais medo de não agradar o leitor. Você fala o que todo mundo quer porque faz parte do pacotinho ético que se espera de você. Isso é o politicamente correto comendo pelas bordas. Um dos problemas das democracias é que ela revelou aos idiotas a sua maioria numérica. Essa é do Nelson Rodrigues.

Discute-se muito se a mídia deve ser isenta ou pode ser política. Qual é o “modelo” de imprensa que mais te agrada?

Acredito mais no modelo de veículo plural, como a Folha, que publica eu e o [filósofo Vladimir] Safatle. Isso gera controvérsia e polêmica. No contexto nacional, você pode ter um veículo como a Folha, outro como o Estadão, que tem uma linha editorial que não é conservadora liberal como muita gente acha que é, porque a massa média das redações é de formação de esquerda.

E qual é sua opinião sobre a Veja?

Acho importante que exista uma revista como a Veja, que assume que é conservadora liberal, que chamou para a si a responsabilidade de fazer oposição, já que não existe oposição no país. Nós temos um partido no poder que tem um projeto de esquerda de nunca mais sair do poder. E isso é perigoso. A saída da Veja é honesta.

A Veja está só nessa?

Se você compara Estadão à Veja, a Veja é a verdadeira liberal conservative no Brasil. O Estadão é conservador no sentido de não gostar de polêmica. Isso faz com que ele faça matérias e análises muito boas e densas, mas é um jornal bem comportado. O Estadão é um conservador comportado e a Veja é um conservador rebelde.

Como você vê o jornalismo da Carta Capital, por ser mais à esquerda e mais sintonizada com o governo?

É o veículo da esquerda brasileira. É honesta, sendo de esquerda. O problema é que a esquerda tem uma desonestidade de se achar pura. A esquerda herdou um puritanismo hipócrita do cristianismo medieval e moderno. O [escritor Mario Vargas] Llosa fala uma coisa muito boa. A esquerda perdeu em tudo, menos na cultura. Ela domina a cultura. Aí é forte, porque aí ela vai formando cabeça. A Carta Capital não acha que está em uma luta política, mas na luta do bem.

POLÍTICA, DIREITA E ESQUERDA

Como você tem visto a defesa da regulação da mídia, principalmente por parte do PT?

Toda forma da regulação sempre foi em nome do bem. E hoje continua assim. Os que querem regular, regulam sempre em nome do combate a algo ruim. Acho que a regulação deve vir dos próprios veículos.

Você se assume como conservador de direita. O que é isso para você?

Eu me vejo, como se fala em inglês, um liberal conservative. Sou conservador em política, liberal no resto. O que é isso? Acho que tem que ter propriedade privada, regime democrático republicano constitucional. A democracia é um regime imperfeito. Agora, acho que as pessoas têm a possibilidade e o direito de procurar realizar os sonhos delas de viver do jeito que quiserem. Lembro que em uma sabatina da Folha, três anos atrás, me perguntaram: “Você é a favor ou contra o casamento gay?” Eu disse: “Eu sou a favor.” Reagiram: “Como assim?” Então, tem essas dicotomias bobas. Eu me sinto uma pessoa muito mais liberal e menos moralista do que as pessoas de esquerda que conheço.

Apesar da polêmica de números e métodos (como as políticas assistencialistas), é inegável que o PT tenha executado uma política efetiva contra a miséria. É possível criticá-la de forma absoluta?

Só se pode redistribuir renda quando há aumento de produtividade real da sociedade. Já estamos pagando a conta da farra das bolsas agora.

Um governo como o de Chávez, na Venezuela, não primou pelo compromisso democrático em vários casos, mas fez um “acerto de contas” em benefício da classe historicamente explorada, a indígena. O governo chavista deixa alguma lição para países colonizados, como o Brasil?

Não, a não ser o velho caudilhismo na América Latina. Não vejo como se pode “fazer justiça social” dando coisas pras pessoas. “Justiça social” é mercado econômico ativo. Quando você torna alguém cliente do estado, você destroi o caráter da pessoa. Não concordo com a ideia de vitimas históricas.

Quando se fala em “direita” e pensamento conservador no Brasil, pensa-se logo em ditadura. O problema está em certo autoritarismo da direita ou na incapacidade de ela se desvencilhar deste rótulo?

Associar pensamento liberal conservative com ditadura é um falta de conhecimento e mau-caratismo da esquerda, que se saiu bem da ditadura mantendo os “meios de produção da cultura” e destruindo qualquer debate real de ideias. Não existe opção partidária para quem é liberal conservative (ou direita liberal em português) no Brasil.

Mudando um pouco de assunto. Na sua opinião, que mídia é a Internet?

É uma plataforma extremamente importante, que mudou a forma de se comunicar, mas junto traz o que é de bom e o que é de bosta. A banalidade do ser humano vem à tona, porque deu voz a todo mundo. Grande parte da vida é dominada por essas coisas. Você é tragado por “eu tenho dinheiro ou não tenho”, “sou amado ou não sou”, “consigo transar ou não consigo”, “consigo comer ou não”, “tenho casa ou não tenho.” Isso aparece na Internet. Sabe essa coisa de você colocar uma foto de dentro de um avião, porque você nunca andou de avião, ou uma foto da casa própria, porque você nunca teve?

Para finalizar, o ateísmo é a “categoria” que melhor define sua opinião sobre Deus?

O primeiro momento que me lembro como ateu, tinha oito anos. Lembro do dia, inclusive. Tenho o sentimento de que, aos oito ou dez anos, eu já era mais ou menos quem sou hoje. Escrevi isso no livro que eu publiquei com o João Pereira Coutinho e o Denis Rosenfield, “Porque virei à direita” [Ed. Três Estrelas, 2012]. Mas, hoje, acho o ateísmo banal, é a hipótese mais fácil. Ao mesmo tempo, acho Deus uma hipótese elegante. A ideia de que exista um ser inteligente, bondoso, que gerou o mundo, é filosoficamente interessante. Mas, não sinto necessidade no meu dia a dia. Nasci sem órgão metafísico