Bolsonarismo e a relativização da morte – por Moacir Pereira Alencar Júnior

confira-a-charge-do-amarildo-de-28032020-216522-article

Descobrimos que uma sociedade –  no campo cultural e social – chegou ao fundo do poço quando ocorre a relativização da morte de seus compatriotas. No caso brasileiro, mortes causadas por uma pandemia de escala global estão sendo tratadas como se fossem nada mais que instrumentos de narrativa política.

O próprio presidente da República, ser abjeto e desprezível, teve a sordidez de promover uma tese negacionista com relação a mortes causadas pelo covid-19 no estado epicentro do problema no país – São Paulo – durante entrevista concedida ao jornalista José Luis Datena, ontem.

No ponto de vista do presidente, as mortes divulgadas pelo estado são uma farsa, apenas pra atingir seu governo “celestial”. Sim, o defensor da tortura e da ditadura militar nega os próprios dados divulgados diariamente pelo Ministério da Saúde, que ele como comandante em chefe da nação, institucionalmente seria responsável de administrar e legitimar.

Já são quase 100 mortes em todo país e mais de 3500 casos confirmados de pessoas infectadas pelo vírus. Número que pode ser muito maior, segundo algumas autoridades médicas, em razão da demora dos resultados dos testes que levam a constatação da causa morte.

Sua militância legitima seu negacionismo ao dizer que a morte não é culpa do coronavirus, mas sim das comorbidades que as pessoas que tiveram suas vidas interrompidas apresentavam. Sim…a militância bolsonarista desdenha dos mortos e defende o vírus. A culpa seria das pessoas – “fracas, estragadas e doentes” – de perderem a batalha para essa “gripezinha”, esse “resfriadinho”.

Quem tem “histórico de atleta” e pertence a uma classe superior de seres humanos não precisa se preocupar. A “raça ariana” na versão tupiniquim já tem suas teses sendo defendidas e consagradas de forma nítida e bem desenvolta no cotidiano da pandemia e principalmente nas redes sociais.

Notem que a populacão “estragada, sem histórico de atleta e doente” permanecia viva antes da chegada do vírus. “Fraquejaram” porque não mereciam mais viver.

Carreatas em defesa do Novo Reich tupiniquim pululam em algumas regiões do país, pedindo o fim do isolamento e das medidas de distanciamento social para combater a expansão de casos do coronavirus. Os defensores do vírus e parceiros da morte dizem que a manifestação é necessária para a economia do país não parar.

A esquizofrenia social torna-se uma arma na mão do presidente da república e de seus asseclas, o poder é usado para adormecer a consciência de parcela dos sujeitos para fazer com que os mesmos subestimem a gravidade daquilo que fazem e da realidade que de fato os cerca.

A desumanização das vítimas que morrem em decorrência do covid-19 por parte do presidente e do seu exército de militantes sinaliza o triste momento que vivemos. Estamos sem um chefe de estado íntegro e qualificado para governar no momento mais grave que o Brasil enfrenta.

Pelo poder, Bolsonaro e seu “exército” já mostrou que pode criar inimigos e apagar da memória quem sempre lhe estendeu a mão, vide o silêncio e o total descaso com que tratou a morte de Bebianno, personagem que foi peça-chave para o mesmo se eleger. Foi descartado e apagado da memória afetiva dos Bolsonaro após críticas ao governo e aos filhos do presidente, como se não tivesse méritos ou relevância alguma.

Bolsonaro já desprezou os próprios eleitores pelos votos que recebeu, dizendo que ele não está nem ai com quem se desapontou com ele como presidente, e que não deve satisfação alguma aos mesmos. Pensamento de um nítido ditador. Que não necessita prestar contas e dar satisfações a seu povo.

Que os chefes do poder executivo dos estados e municípios continuem firmes em sua luta contra o coronavirus, seguindo as diretrizes e normas defendidas e esclarecidas pela OMS, sem se curvarem as sandices e atitudes tresloucadas do presidente da república…que demonstra a cada novo dia ser um total irresponsável com a vida de milhares de pessoas e a condução da nação.

 

The URI to TrackBack this entry is: https://moaciralencarjunior.wordpress.com/2020/03/28/bolsonarismo-e-a-relativizacao-da-morte-por-moacir-pereira-alencar-junior/trackback/

RSS feed for comments on this post.

One CommentDeixe um comentário

  1. Bolsonaro segue sendo o que sempre foi: um líder institucionalmente fraco, que se move conforme interesses e retóricas sem sentido, o que é quase um pleonasmo. Esperar clareza de quem não respeita (ou mesmo entende) a ciência é o mesmo que esperar abstinência de um alcoólico.
    Justamente por esses aspectos, menospreza discursos oposicionistas e ridiculariza o que pode ser uma crítica construtiva. Segue assim, fechado em argumentos e pessoas que o apoiam, mas em contrapartida tem instâncias que suprem os argumentos mais “diferenciados”.
    Parece que em meio a muita informação, se perde. Mas um mérito tem: de ter aglutinado bons técnicos e especialistas em seu governo. Exemplos são vários.
    E, diferentemente, do pregado por uma esquerda doente, o presidente não é o próprio governo. Mais um aspecto de uma democracia robusta.
    Sim, sem dúvida as informações passadas em seus discursos oficiais foram desencontradas, ora tardias, ora apressadas. Porém, por ser tão restrito em suas ideias, só podemos esperar para que sejam voltadas para seus apoiadores.
    Além, temos vários líderes mundiais que se enquadram nesse cenário desolador, como o prefeito de Lombardia que defendeu que a Itália não poderia parar e semanas depois veio a público pedir desculpas aos mortos e seus familiares.
    O Brasil vai passar por mais este teste de sobrevivência e como sempre, todos precisaram saber ponderar o que consideram mais importante.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: