O debate dos presidenciáveis e o “fascismo” meritocrático – por Moacir Pereira Alencar Júnior

merito

Neste ano de 2014, mais exatamente após os dois debates dos presidenciáveis, constatei que a política brasileira morreu, melhor, a própria classe política matou a política. Sou jovem, cientista político, 30 anos de vida…nunca presenciei uma campanha política pautada na mais vergonhosa sujeira e imoralidade…Descobri que meu país morreu junto com a política atual…De 1994 até hoje, portanto passados 20 anos, nunca se presenciou debates de presidenciáveis tão horrendos e desestimulantes para nossa democracia brasileira.

Lembro de FHC vs LULA em 1994 e 1998…Debates pautados por incrível que pareça em projetos de Brasil, metas programáticas…lembro perfeitamente de 2002, Serra vs Lula, e de 2006/2010, Alckmin vs Lula e Serra vs Dilma, respectivamente. A corrupção sistemática que assola o país sempre teve vez e espaço, entretanto ocupava algo em torno de 15% a 20% das discussões. Os partidos apresentavam metas de Brasil, eram incipientes e mal versadas perante ao público, mas existiam, ao menos na retórica de cada líder. Em 2014, ao chegarmos perto dos 30 anos do fim do regime militar, vemos um cenário catastrófico para todo amante de valores democráticos e que primam pela defesa das instituições.

Os Donos do Poder há 12 anos no Palácio do Planalto se encontram pela primeira vez correndo um verdadeiro risco de perderem o cetro e o trono. Como sabido, instrumentalizaram todo o aparato estatal, das fundações públicas, como as universidades federais, as grandes estatais, que se tornaram respectivamente doutrinadoras e máquinas de arregimentação de capital para a perpetuação dos mesmos no poder. Audiências públicas nada republicanas ocorrem e são organizadas nas instituições de ensino superior federais pregando o medo, a defesa ensandecida de um projeto hegemônico de poder que literalmente prega o ódio de classes, vicejando e defendendo abertamente que o PSDB representa o racismo, o genocídio, a defesa da casa grande e senzala, a representação do que há de mais degradante ao processo “democrático” que defendem.

Desde sempre fui abertamente crítico ao atual governo, nunca escondi isso na UFSCar…Em 9 anos e meio nesta instituição sempre fui conectado ao que sempre foi chamado pela intelligentsia da instituição o “lado negro da força”.  Sempre fui oposição ao PT em várias questões que perpassavam pelo modus operandi com o qual trabalhavam, principalmente na área de ciências humanas…Onde por opção escolhi por viver numa espécie de exílio acadêmico “democrático”, onde o silêncio em boa parte dos momentos, foi a opção pelo não debate em certos eventos; era a escolha mais racional a se fazer pelo bem-estar mental e pela boa relação no métier discente-docente – eu tentava me autocontrolar, mas sempre acabava demarcando terreno e ganhando desafetos ou admiradores.

Nunca vi nestas instituições, palestras e debates que proporcionassem a vinda de alguém que não fosse da linhagem dos Donos do Poder. Me acostumei com isso, mesmo sabendo que em uma democracia o certo não seria eu aceitar com conformismo isto. E hoje, infelizmente, vejo que parece que isso nunca existirá nas instituições de ensino superior federais do Brasil por muito tempo, já que em 12 anos a ideia “fascista” do mérito deu lugar a ideia do Estado que tudo faz e pensa pelo cidadão, do homem da rua ao bolsista do doutorado, que estuda a política do governo e produz um panfleto oficial das benesses daquele programa para sua classe social, seu grupo, sua ong, sua tribo. Alguns jovens universitários, por medo e baixa estima, reconhecem em si um incompleto e incapacitado, veem no Estado sua sobrevivência acadêmica e seu ingresso neste universo, não enxergando seus valores e dotes intelectuais existentes, logo, o Estado e o PT, que são indissociáveis pra este jovem, tornam-se tábua de salvação. (Lembrando que neste artigo não está sendo debatido a relevância e importância de programas sociais voltados para setores desfavorecidos da sociedade, caso do Bolsa-família como política de Estado, e não de um partido político).

Por mais ridículo que pareça, alguns destes jovens temerosos vivem a esbravejar que as universidades federais serão privatizadas pelos “satãs” tucanos…Como se USP, UNESP, UNICAMP e as FATECs por 20 anos geridas pelo PSDB tivessem sido privatizadas em São Paulo e em outros estados do país. O Petismo de Estado produz na atual intelectualidade incipiente (ainda nas carteiras das universidades) um atroz discurso antidemocrático e de criminalização das oposições. Parte desta juventude que ingressa nestas instituições foram domesticadas pela ideia de um Estado Babá que o colocou dentro da universidade, e fará dele um futuro graduado, mestre ou doutor…cabem a este jovem apenas beijar à mão da dirigente do país por essa “conquista” tutelada pelo Estado, e a ele nada cabe, a não ser cortejar a presidenta. A obrigação do Estado, passa a ser interpretada como um presente do Estado ao jovem universitário ingressante. Voltando a morte da política, digo, o debate dos presidenciáveis….mais quatro anos com os donos do poder representará não apenas a morte consumada da política, será a consagração da morte da dissidência sadia no ambiente acadêmico, será a dificuldade de dissidência eternizada com ou sem eles no poder por um período a perder de vista. Uma vez que o “fascismo” meritocrático acabou, e com ele também estará fadado a morte os “criminosos” de oposição, “genocidas” antipetistas, “racistas”, e outros “monstros”, que querem mudar o Brasil democraticamente pela via do voto para mudar o país.

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Basta de PT – por Marco Antonio Villa

Historiador Marco Antonio Villa

Historiador Marco Antonio Villa

Dilma foi a terceira pior presidente em termos de crescimento econômico. Só perdeu para Floriano Peixoto e Fernando Collor.

Estamos vivendo um momento histórico. A eleição presidencial de 2014 decidirá a sorte do Brasil por 12 anos. Como é sabido, o projeto petista é se perpetuar no poder. Segundo imaginam os marginais do poder — feliz expressão cunhada pelo ministro Celso de Mello quando do julgamento do mensalão —, a vitória de Dilma Rousseff abrirá caminho para que Lula volte em 2018 e, claro, com a perspectiva de permanecer por mais 8 anos no poder. Em um eventual segundo governo Dilma, o presidente de fato será Lula. Esperto como é, o nosso Pedro Malasartes da política vai preparar o terreno para voltar, como um Dom Sebastião do século XXI, mesmo que parecendo mais um personagem de samba-enredo ao estilo daquele imortalizado por Sérgio Porto.

Diferentemente de 2006 e 2010, o PT está fragilizado. Dilma é a candidata que segue para tentar a reeleição com a menor votação obtida no primeiro turno desde a eleição de 1994. Seu criador foi derrotado fragorosamente em São Paulo, principal colégio eleitoral do país. Imaginou que elegeria mais um poste. Não só o eleitorado disse não, como não reelegeu o performático e inepto senador Eduardo Suplicy, e a bancada petista na Assembleia Legislativa perdeu oito deputados e seis na Câmara dos Deputados.

A resistência e a recuperação de Aécio Neves foram épicas. Em certo momento da campanha, parecia que o jogo eleitoral estava decidido. Marina Silva tinha disparado e venceria — segundo as malfadadas pesquisas. Ele manteve a calma até quando um dos seus coordenadores de campanha estava querendo saltar para o barco da ex-senadora.

E, neste instante, a ação das lideranças paulistas do PSDB foi decisiva. Geraldo Alckmin poderia ter lavado as mãos e fritado Aécio. Mas não o fez, assim como José Serra, o senador mais votado do país com 11 milhões de votos. Foi em São Paulo que começou a reação democrática que o levou ao segundo turno com uma vitória consagradora no estado onde nasceu o PT.

Esta campanha eleitoral tem desafiado os analistas. As interpretações tradicionais foram desmoralizadas. A determinação econômica — tal qual como no marxismo — acabou não se sustentando. É recorrente a referência à campanha americana de 1992 de Bill Clinton e a expressão “é a economia, estúpido”. Com a economia crescendo próximo a zero, como explicar que Dilma liderou a votação no primeiro turno? Se as alianças regionais são indispensáveis, como explicar a votação de Marina? E o tal efeito bumerangue quando um candidato ataca o outro e acaba caindo nas intenções de voto? Como explicar que Dilma caluniou Marina durante três semanas, destruiu a adversária e obteve um crescimento nas pesquisas?

Se Lula é o réu oculto do mensalão, o que dizer do doleiro petista Alberto Youssef? Imagine o leitor quando o depoimento — já aceito pela Justiça Federal — for divulgado ou vazar? De acordo com o ministro Teori Zavascki, o envolvimento de altas figuras da República faz com que o processo tenha de ir para o STF. E, basta lembrar, segundo o doleiro, que só ele lavou R$ 1 bilhão de corrupção da Refinaria Abreu e Lima. Basta supor o que foi desviado da Petrobras, de outras empresas e bancos estatais e dos ministérios para entender o significado dos 12 anos de petismo no poder. É o maior saque de recursos públicos da História do Brasil.

Nesta conjuntura, Aécio tem de estar preparado para um enorme bombardeio de calúnias que irá receber. Marina Silva aprendeu na prática o que é o PT. Em uma quinzena foi alvo de um volume nunca visto de mentiras numa campanha presidencial que acabou destruindo a sua candidatura. Não soube responder porque, apesar de ter saído do PT, o PT ainda não tinha saído dela. Ingenuamente, imaginou que tudo aquilo poderia ser resolvido biblicamente, simplesmente virando a face para outra agressão. Constatou que o PT tem como princípio destruir reputações. E ela foi mais uma vítima desta terrível máquina.

O arsenal petista de dossiês contra Aécio já está pronto. Os aloprados não têm princípios, simplesmente cumprem ordens. Sabem que não sobrevivem longe da máquina de Estado. Contarão com o apoio entusiástico de artistas, intelectuais e jornalistas. Todos eles fracassados e que imputam sua insignificância a uma conspiração das elites. E são milhares espalhados por todo o Brasil.

Teremos o mais violento segundo turno de uma eleição presidencial. O que Marina sofreu, Aécio sofrerá em dobro. Basta sinalizar que ameaça o projeto criminoso de poder do petismo. O senador tucano vai encontrar pelo caminho várias armadilhas. A maior delas é no campo econômico. O governo do PT gestou uma grave crise. Dilma foi a terceira pior presidente da história do Brasil republicano em termos de crescimento econômico. Só perdeu para Floriano Peixoto — que teve no seu triênio presidencial duas guerras civis — e Fernando Collor — que recebeu a verdadeira herança maldita: uma inflação anual de quatro dígitos. O PT deve imputar a Aécio uma agenda econômica impopular que enfrente radicalmente as mazelas criadas pelo petismo. Daí a necessidade imperiosa de o candidato oposicionista deixar claro — muito claro — que quem fala sobre como será o seu governo é ele — somente ele.

Aécio Neves tem todas as condições para vencer a eleição mais difícil da nossa história. Se Tancredo Neves foi o instrumento para que o Brasil se livrasse de 21 anos de arbítrio, o neto poderá ser aquele que livrará o país do projeto criminoso de poder representado pelo PT. E poderemos, finalmente, virar esta triste página da nossa história.

Publicado em O Globo – 07/10/2014