O debate dos presidenciáveis e o “fascismo” meritocrático – por Moacir Pereira Alencar Júnior

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Neste ano de 2014, mais exatamente após os dois debates dos presidenciáveis, constatei que a política brasileira morreu, melhor, a própria classe política matou a política. Sou jovem, cientista político, 30 anos de vida…nunca presenciei uma campanha política pautada na mais vergonhosa sujeira e imoralidade…Descobri que meu país morreu junto com a política atual…De 1994 até hoje, portanto passados 20 anos, nunca se presenciou debates de presidenciáveis tão horrendos e desestimulantes para nossa democracia brasileira.

Lembro de FHC vs LULA em 1994 e 1998…Debates pautados por incrível que pareça em projetos de Brasil, metas programáticas…lembro perfeitamente de 2002, Serra vs Lula, e de 2006/2010, Alckmin vs Lula e Serra vs Dilma, respectivamente. A corrupção sistemática que assola o país sempre teve vez e espaço, entretanto ocupava algo em torno de 15% a 20% das discussões. Os partidos apresentavam metas de Brasil, eram incipientes e mal versadas perante ao público, mas existiam, ao menos na retórica de cada líder. Em 2014, ao chegarmos perto dos 30 anos do fim do regime militar, vemos um cenário catastrófico para todo amante de valores democráticos e que primam pela defesa das instituições.

Os Donos do Poder há 12 anos no Palácio do Planalto se encontram pela primeira vez correndo um verdadeiro risco de perderem o cetro e o trono. Como sabido, instrumentalizaram todo o aparato estatal, das fundações públicas, como as universidades federais, as grandes estatais, que se tornaram respectivamente doutrinadoras e máquinas de arregimentação de capital para a perpetuação dos mesmos no poder. Audiências públicas nada republicanas ocorrem e são organizadas nas instituições de ensino superior federais pregando o medo, a defesa ensandecida de um projeto hegemônico de poder que literalmente prega o ódio de classes, vicejando e defendendo abertamente que o PSDB representa o racismo, o genocídio, a defesa da casa grande e senzala, a representação do que há de mais degradante ao processo “democrático” que defendem.

Desde sempre fui abertamente crítico ao atual governo, nunca escondi isso na UFSCar…Em 9 anos e meio nesta instituição sempre fui conectado ao que sempre foi chamado pela intelligentsia da instituição o “lado negro da força”.  Sempre fui oposição ao PT em várias questões que perpassavam pelo modus operandi com o qual trabalhavam, principalmente na área de ciências humanas…Onde por opção escolhi por viver numa espécie de exílio acadêmico “democrático”, onde o silêncio em boa parte dos momentos, foi a opção pelo não debate em certos eventos; era a escolha mais racional a se fazer pelo bem-estar mental e pela boa relação no métier discente-docente – eu tentava me autocontrolar, mas sempre acabava demarcando terreno e ganhando desafetos ou admiradores.

Nunca vi nestas instituições, palestras e debates que proporcionassem a vinda de alguém que não fosse da linhagem dos Donos do Poder. Me acostumei com isso, mesmo sabendo que em uma democracia o certo não seria eu aceitar com conformismo isto. E hoje, infelizmente, vejo que parece que isso nunca existirá nas instituições de ensino superior federais do Brasil por muito tempo, já que em 12 anos a ideia “fascista” do mérito deu lugar a ideia do Estado que tudo faz e pensa pelo cidadão, do homem da rua ao bolsista do doutorado, que estuda a política do governo e produz um panfleto oficial das benesses daquele programa para sua classe social, seu grupo, sua ong, sua tribo. Alguns jovens universitários, por medo e baixa estima, reconhecem em si um incompleto e incapacitado, veem no Estado sua sobrevivência acadêmica e seu ingresso neste universo, não enxergando seus valores e dotes intelectuais existentes, logo, o Estado e o PT, que são indissociáveis pra este jovem, tornam-se tábua de salvação. (Lembrando que neste artigo não está sendo debatido a relevância e importância de programas sociais voltados para setores desfavorecidos da sociedade, caso do Bolsa-família como política de Estado, e não de um partido político).

Por mais ridículo que pareça, alguns destes jovens temerosos vivem a esbravejar que as universidades federais serão privatizadas pelos “satãs” tucanos…Como se USP, UNESP, UNICAMP e as FATECs por 20 anos geridas pelo PSDB tivessem sido privatizadas em São Paulo e em outros estados do país. O Petismo de Estado produz na atual intelectualidade incipiente (ainda nas carteiras das universidades) um atroz discurso antidemocrático e de criminalização das oposições. Parte desta juventude que ingressa nestas instituições foram domesticadas pela ideia de um Estado Babá que o colocou dentro da universidade, e fará dele um futuro graduado, mestre ou doutor…cabem a este jovem apenas beijar à mão da dirigente do país por essa “conquista” tutelada pelo Estado, e a ele nada cabe, a não ser cortejar a presidenta. A obrigação do Estado, passa a ser interpretada como um presente do Estado ao jovem universitário ingressante. Voltando a morte da política, digo, o debate dos presidenciáveis….mais quatro anos com os donos do poder representará não apenas a morte consumada da política, será a consagração da morte da dissidência sadia no ambiente acadêmico, será a dificuldade de dissidência eternizada com ou sem eles no poder por um período a perder de vista. Uma vez que o “fascismo” meritocrático acabou, e com ele também estará fadado a morte os “criminosos” de oposição, “genocidas” antipetistas, “racistas”, e outros “monstros”, que querem mudar o Brasil democraticamente pela via do voto para mudar o país.

Basta de PT – por Marco Antonio Villa

Historiador Marco Antonio Villa

Historiador Marco Antonio Villa

Dilma foi a terceira pior presidente em termos de crescimento econômico. Só perdeu para Floriano Peixoto e Fernando Collor.

Estamos vivendo um momento histórico. A eleição presidencial de 2014 decidirá a sorte do Brasil por 12 anos. Como é sabido, o projeto petista é se perpetuar no poder. Segundo imaginam os marginais do poder — feliz expressão cunhada pelo ministro Celso de Mello quando do julgamento do mensalão —, a vitória de Dilma Rousseff abrirá caminho para que Lula volte em 2018 e, claro, com a perspectiva de permanecer por mais 8 anos no poder. Em um eventual segundo governo Dilma, o presidente de fato será Lula. Esperto como é, o nosso Pedro Malasartes da política vai preparar o terreno para voltar, como um Dom Sebastião do século XXI, mesmo que parecendo mais um personagem de samba-enredo ao estilo daquele imortalizado por Sérgio Porto.

Diferentemente de 2006 e 2010, o PT está fragilizado. Dilma é a candidata que segue para tentar a reeleição com a menor votação obtida no primeiro turno desde a eleição de 1994. Seu criador foi derrotado fragorosamente em São Paulo, principal colégio eleitoral do país. Imaginou que elegeria mais um poste. Não só o eleitorado disse não, como não reelegeu o performático e inepto senador Eduardo Suplicy, e a bancada petista na Assembleia Legislativa perdeu oito deputados e seis na Câmara dos Deputados.

A resistência e a recuperação de Aécio Neves foram épicas. Em certo momento da campanha, parecia que o jogo eleitoral estava decidido. Marina Silva tinha disparado e venceria — segundo as malfadadas pesquisas. Ele manteve a calma até quando um dos seus coordenadores de campanha estava querendo saltar para o barco da ex-senadora.

E, neste instante, a ação das lideranças paulistas do PSDB foi decisiva. Geraldo Alckmin poderia ter lavado as mãos e fritado Aécio. Mas não o fez, assim como José Serra, o senador mais votado do país com 11 milhões de votos. Foi em São Paulo que começou a reação democrática que o levou ao segundo turno com uma vitória consagradora no estado onde nasceu o PT.

Esta campanha eleitoral tem desafiado os analistas. As interpretações tradicionais foram desmoralizadas. A determinação econômica — tal qual como no marxismo — acabou não se sustentando. É recorrente a referência à campanha americana de 1992 de Bill Clinton e a expressão “é a economia, estúpido”. Com a economia crescendo próximo a zero, como explicar que Dilma liderou a votação no primeiro turno? Se as alianças regionais são indispensáveis, como explicar a votação de Marina? E o tal efeito bumerangue quando um candidato ataca o outro e acaba caindo nas intenções de voto? Como explicar que Dilma caluniou Marina durante três semanas, destruiu a adversária e obteve um crescimento nas pesquisas?

Se Lula é o réu oculto do mensalão, o que dizer do doleiro petista Alberto Youssef? Imagine o leitor quando o depoimento — já aceito pela Justiça Federal — for divulgado ou vazar? De acordo com o ministro Teori Zavascki, o envolvimento de altas figuras da República faz com que o processo tenha de ir para o STF. E, basta lembrar, segundo o doleiro, que só ele lavou R$ 1 bilhão de corrupção da Refinaria Abreu e Lima. Basta supor o que foi desviado da Petrobras, de outras empresas e bancos estatais e dos ministérios para entender o significado dos 12 anos de petismo no poder. É o maior saque de recursos públicos da História do Brasil.

Nesta conjuntura, Aécio tem de estar preparado para um enorme bombardeio de calúnias que irá receber. Marina Silva aprendeu na prática o que é o PT. Em uma quinzena foi alvo de um volume nunca visto de mentiras numa campanha presidencial que acabou destruindo a sua candidatura. Não soube responder porque, apesar de ter saído do PT, o PT ainda não tinha saído dela. Ingenuamente, imaginou que tudo aquilo poderia ser resolvido biblicamente, simplesmente virando a face para outra agressão. Constatou que o PT tem como princípio destruir reputações. E ela foi mais uma vítima desta terrível máquina.

O arsenal petista de dossiês contra Aécio já está pronto. Os aloprados não têm princípios, simplesmente cumprem ordens. Sabem que não sobrevivem longe da máquina de Estado. Contarão com o apoio entusiástico de artistas, intelectuais e jornalistas. Todos eles fracassados e que imputam sua insignificância a uma conspiração das elites. E são milhares espalhados por todo o Brasil.

Teremos o mais violento segundo turno de uma eleição presidencial. O que Marina sofreu, Aécio sofrerá em dobro. Basta sinalizar que ameaça o projeto criminoso de poder do petismo. O senador tucano vai encontrar pelo caminho várias armadilhas. A maior delas é no campo econômico. O governo do PT gestou uma grave crise. Dilma foi a terceira pior presidente da história do Brasil republicano em termos de crescimento econômico. Só perdeu para Floriano Peixoto — que teve no seu triênio presidencial duas guerras civis — e Fernando Collor — que recebeu a verdadeira herança maldita: uma inflação anual de quatro dígitos. O PT deve imputar a Aécio uma agenda econômica impopular que enfrente radicalmente as mazelas criadas pelo petismo. Daí a necessidade imperiosa de o candidato oposicionista deixar claro — muito claro — que quem fala sobre como será o seu governo é ele — somente ele.

Aécio Neves tem todas as condições para vencer a eleição mais difícil da nossa história. Se Tancredo Neves foi o instrumento para que o Brasil se livrasse de 21 anos de arbítrio, o neto poderá ser aquele que livrará o país do projeto criminoso de poder representado pelo PT. E poderemos, finalmente, virar esta triste página da nossa história.

Publicado em O Globo – 07/10/2014

Plínio Corrêa de Oliveira: Pensamento Católico e Ação Política na Era Vargas (1930-1945)

Plínio Corrêa de Oliveira em foto de 1933, quando deputado Constituinte entre 1933/1934.  a Assembleia Constituinte de 1933/1934

Plínio Corrêa de Oliveira em foto de 1933, quando deputado Constituinte por São Paulo, atuando na Assembleia Constituinte de 1933/1934

Hoje disponibilizo minha dissertação de mestrado em Ciência Política, em sua versão final digitalizada (PDF) para todos interessados no estudo do catolicismo e na ação política dos intelectuais católicos na Era Vargas.  O intelectual católico analisado foi  Plínio Corrêa de Oliveira, a quem dediquei mais de três anos de estudos. Comecei a estudá-lo ainda na graduação em ciências sociais, em 2011, com o historiador Marco Antonio Villa. Minha monografia analisou a Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição Família e Propriedade, e o papel da instituição como grupo de pressão na Assembleia Constituinte de 1987/1988.

Já no mestrado,  me dediquei a estudar o intelectual e pensador católico Plínio Corrêa de Oliveira na Era Vargas (1930-1945); sua atuação no pensamento católico e sua ação política neste cenário. Nesta fase de mestrado contei com a orientação inicial de Marco Antonio Villa, e após sua aposentadoria, quem assumiu a batuta e caminhou comigo até o fim foi a cientista política Vera Cepêda.  Agradeço imensamente aos dois pelo auxílio e atenção prestada durante todo este período

Disponibilizo aqui o resumo que determina o foco central da minha dissertação:

A década de 1930 representou uma nova fase na História do Brasil. A Revolução de 1930 pôs fim a Primeira República, que perdurou por exatos 41 anos (1889-1930). Também merece ser ressaltada a conjuntura internacional do período, onde uma grave crise econômica abala os EUA e os países europeus, levantando questionamentos sobre a funcionalidade das instituições democráticas, aumentando o surgimento de estados fortes, pautados em uma postura mais intervencionista, seja na estrutura social como na economia. Dentro desta perspectiva, no Brasil, as novas elites no poder, vinculadas a Getúlio Vargas, governam o país em meio a uma grande quantidade de eventos. Assistiremos a uma época de verdadeira ebulição de ideologias e de ações doutrinárias movimentando a intelectualidade nacional. O país assiste a ascensão de variados movimentos: políticos, católicos, sociais, etc. Neste momento ocorre a ascensão do PCB (Partido Comunista Brasileiro), o surgimento da AIB (Ação Integralista Brasileira), assim como a consolidação da LEC (Liga Eleitoral Católica). O movimento católico, representado por diferentes figuras intelectuais, mantém uma ala eminentemente conservadora e tradicionalista, que passará a visualizar em seu horizonte os primeiros sinais e mobilizações que virão a originar no país – com mais força, a partir da segunda metade da década de 1940 – o catolicismo progressista e modernista, inspirado no humanismo integral. Uma das principais figuras intelectuais deste período, no estado de São Paulo, será Plínio Corrêa de Oliveira. Advogado e católico fervoroso, filho de uma família de formação ultramontana e monarquista, ele representará por meio de seu pensamento e ação política a vertente conservadora católica. A meta desta dissertação é analisar a trajetória de Plínio Corrêa de Oliveira neste período. Pensamento e ação, a partir de sua atuação como líder católico e político, tanto na Liga Eleitoral Católica e depois como Deputado Constituinte, assim como sua atuação no Jornal ‘O Legionário’ e também como Presidente da Junta Arquidiocesana da Ação Católica Paulista. Para isso serão analisados os seus artigos publicados em jornais, além de seus livros, discursos e entrevistas.

clique no link abaixo para fazer o download:

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Os perdedores – por Demétrio Magnoli

Demétrio Magnoli

Demétrio Magnoli

O PT investe na indignidade e na difamação. Por isso, perdendo ou ganhando, já perdeu.

A semente transgênica e o Código Florestal; a hidrelétrica e a licença ambiental; os evangélicos e os jovens libertários; o Estado e as ONGs; os serviços públicos e os tributos; a “nova política” e o Congresso; a política e os partidos; o PSB e a Rede. Na candidatura de Marina Silva, não é difícil traçar círculos de giz em torno de ângulos agudos, superfícies de tensão, contradições represadas. O PT preferiu investir na indignidade, na mentira, na difamação. Por isso, perdendo ou ganhando, já perdeu.

As peças incendiárias de marketing, referenciadas no pré-sal e na independência do Banco Central, inscrevem-se na esfera da delinquência eleitoral. A primeira organiza-se em torno de uma mentira (a suposta recusa de explorar o pré-sal), de cujo seio emana um corolário onírico (a “retirada” de centenas de bilhões de reais supostos e futuros da Educação). A segunda converte em escândalo um modelo que pode ser legitimamente combatido, mas está em vigor nos EUA, no Canadá, no Japão, na União Europeia, na Grã-Bretanha e no Chile –e que, no Brasil, surgiu embrionariamente sob Lula, durante a gestão de Henrique Meirelles.

Na TV, o partido do governo acusa a candidata desafiante de conspirar com banqueiros para lançar os pobres no abismo da miséria. O fenômeno vexaminoso não chega a causar comoção, pois tem precedentes. Contra Alckmin (2006) e Serra (2010), o PT difundiu as torpezas de que pretendiam privatizar a Petrobras e cortar os benefícios do Bolsa Família, ambas já reprisadas para atingir Marina. A diferença, significativa apenas no plano eleitoral, está na circunstância de que, agora, a ignomínia entrou no jogo antes do primeiro turno. A semelhança, por outro lado, evidencia que o PT aposta na ignorância, na desinformação, na pobreza intelectual –enfim, no fracasso do país.

Algo se rompeu quando eclodiu o escândalo do mensalão. Naquela hora, os intelectuais do PT depredaram a praça do debate político, ensinando ao partido que a saída era qualificar a imprensa como “mídia golpista” e descer às trincheiras de uma guerra contra a opinião pública. A lição deu frutos envenenados. O STF converteu-se em “tribunal de exceção”, e os políticos corruptos, em “presos políticos”. Os críticos passaram a ser classificados como representantes da “elite branca paulista” (se apontam as incongruências da “nova matriz econômica”), “fascistas” (se nomeiam como ditadura todas as ditaduras, inclusive as “de esquerda”) ou “racistas” (se objetam às leis de preferências raciais).

O projeto de um partido moderno de esquerda dissolveu-se num pote de ácido que corrói a convivência com a opinião dissonante. Do antigo PT, partido da mudança, resta uma sombra esmaecida. As estatísticas desagregadas das sondagens eleitorais revelam o sentido da regressão histórica. A presidente-candidata tem suas fortalezas no Nordeste e no Norte, nas cidades pequenas e entre os menos escolarizados, mas enfrenta forte rejeição no Centro-Sul, nas metrópoles e entre os jovens. Não é um “voto de classe”, como interpretam cientistas políticos embriagados com um economicismo primário que confundem com marxismo. É um voto do país que, ainda muito pobre, depende essencialmente do Estado. A antiga Arena vencia assim, espelhando um atraso social persistente.

Obviamente, a regressão tem causas múltiplas, ligadas à experiência de 12 anos de governos lulopetistas que estimularam o consumo de bens privados, mas não produziram bens públicos adequados a um país de renda média. A linguagem, contudo, ocupa um lugar significativo. O país moderno, cujos contornos atravessam todas as regiões, sabe identificar a empulhação, a mistificação e a truculência.

Na sua fúria destrutiva, a campanha de Dilma explode pontes, queima arquivos. O PT pode até triunfar nas eleições presidenciais, mas já perdeu o futuro.

Artigo publicado em Folha de São Paulo – 20 de setembro de 2014

Presente Passado, passado presente – Uma reflexão de Tony Judt e Timothy Snyder sobre a História

Tony Judt e Timothy Snyder

Tony Judt e Timothy Snyder

Uma reflexão do historiador britânico Tony Judt (1948-2010) em conversa com o historiador americano Timothy Snyder (1969-… ), que se encaixa muito bem em nossa realidade brasileira presente, principalmente em anos eleitorais no Brasil, um país onde o povo é tipicamente sem memória – e onde a intelligentsia pró- Status Quo ou anti- Status Quo reproduzem a “verdade do bem” e a “verdade do mal”. Essa reflexão vale também como uma análise para muitas coisas referentes a construção do conhecimento e do discernimento de um cidadão nas mais variadas searas da vida, em qualquer sociedade democrática atual decente  (Brasil, quem sabe um dia seja uma, ‘não que as outras democracias sejam modelos perfeitos’). Afinal, a História, diferentemente do que muitos pós-modernos dizem (Fukuyama entre eles), não morreu…e ainda é determinante do nosso presente e futuro.

É isto o que posto em meu blog hoje:

“Na verdade, não acho que negligenciar o passado é o nosso maior risco; o erro característico do presente é citá-lo na ignorância. [...]Como estamos fadados a explorar o passado para justificar o comportamento público presente, o argumento em favor de realmente conhecer a história é irresponsável. Um cidadão bem informado tem menos probabilidade de ser enganado em explorações abusivas do passado para erros presentes.

[...] Fraudar o passado é a mais antiga forma de controle do conhecimento: se você tem poder sobre a interpretação do que aconteceu antes (ou pode simplesmente mentir sobre isso) , o presente e o futuro estão à sua disposição. Portanto, é simples prudência democrática assegurar que os cidadãos sejam historicamente informados.

Aqui, me preocupo com o ensino de história “progressista”. Em nossa infância, com certeza na minha e imagino que na sua, a história era um monte de informações. Você a aprendia de uma maneira organizada, em série – muitas vezes em uma linha cronológica do tempo.  O objetivo deste exercício era fornecer  às crianças um mapa mental – estendido para trás ao longo do tempo – do mundo em que habitavam.  Aqueles que insistiam em que essa abordagem era acrítica não estavam errados. Mas se revelou um grave erro substituir a história carregada de dados  pela intuição de que o passado foi um conjunto  de mentiras e preconceitos que precisam ser corrigidos: preconceitos em favor de povos e homens brancos, mentiras sobre o capitalismo ou o colonialismo, ou o que quer que seja.

Você não pode ensinar às crianças a história americana dizendo: acredita-se amplamente que a Guerra Civil ocorreu por causa da abolição da escravidão, mas ha! – posso lhes garantir que ela ocorreu de fato  por conta de algo completamente diferente. Pois as coitadinhas na fileira da frente vão virar umas para as outras e perguntar: “Espere um pouco, o que ela  está falando? O que é Guerra Civil? Quando ela aconteceu? Quem ganhou?”

Essas abordagens supostamente críticas, que pretendem – sejamos generosos – ajudar crianças e estudantes a formar seus próprios julgamentos, são contraproducentes. Semeiam confusão em vez de discernimento, e a confusão é inimiga do conhecimento. Antes que alguém – seja criança ou estudante universitário – possa se envolver com o passado, tem de saber o que aconteceu, em que ordem e com que resultado. Em vez disso, criamos duas gerações de cidadãos completamente desprovidos de referências comuns. Em consequência, eles podem contribuir pouco para a governança da sociedade. A tarefa do historiador, se quiser pensar desta forma, é fornecer a dimensão do conhecimento e da narrativa sem a qual não podemos ser um todo cívico. Se temos uma responsabilidade cívica como historiadores, é essa.

[...] Os alunos não podem questionar o que não conhecem.

[...] A condição necessária de uma sociedade verdadeiramente democrática ou civil – o que Popper chamou de “sociedade aberta” – é uma consciência coletiva sustentada das maneiras como as coisas estão sempre mudando, e no entanto a mudança total é sempre ilusória. Quanto a Fukuyama, ele não fez nada mais que adaptar a história comunista a seus próprios fins. Em vez de o próprio comunismo fornecer o fim e objetivo na direção do qual a história se move, esse papel foi atribuído a queda do comunismo. O trabalho do historiador é pegar esse disparate arrumadinho e bagunçá-lo.

Assim, cada vez que algum imbecil declara que um Saddam Hussein é Hitler reencarnado, nosso trabalho é entrar na briga e complicar essa asneira simplória.  Uma bagunça precisa é muito mais verdadeira para a vida do que inverdades elegantes. Mas, ao desacreditar declarações políticas enganosas, continuamos obrigados a pôr algo em seu lugar: uma linha narrativa, uma explicação coerente, uma história compreensível. Afinal, se não tivermos claro em nossa própria cabeça exatamente o que foi e não foi o caso no passado, como podemos nos oferecer ao mundo como uma fonte confiável de autoridade imparcial?

Portanto, há um equilíbrio,  e não vou dizer que ele é fácil de alcançar. Se você só quer fazer bagunça – se vê a tarefa do historiador como borrar todas as linhas – , torna-se irrelevante. Se tornarmos a história caótica para nossos alunos ou leitores, perderemos qualquer reivindicação sobre a conversa cívica.

Reflexão feita a partir de trechos do livro “Pensando o Século XX” – páginas 283-289. Editora Objetiva, 2012.

A tropa petista vai ao ataque – Opinião Estadão

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A presidente Dilma Rousseff, seu estafe e grão-petistas em geral têm reagido de forma agressiva e autoritária a todo tipo de reparo sobre o modo como o País vem sendo governado. Relatórios e análises que desmintam o cenário róseo descrito pela propaganda oficial logo são desqualificados pelas autoridades federais, como se os críticos – ainda que pertencentes a instituições internacionais importantes – fossem despreparados ou estivessem apenas movidos por má-fé.

É óbvio que os nervos afloram em época de campanha eleitoral, mas o que se espera da presidente é serenidade, pois ela ainda é a responsável pela administração do País. O que se tem notado, no entanto, é um crescente destempero.

O caso mais recente envolveu um relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI) que colocou o Brasil entre as cinco economias emergentes mais suscetíveis de sofrer os efeitos de outra crise financeira global. As demais seriam Índia, Turquia, Indonésia e África do Sul. Segundo o relatório, esses países estariam vulneráveis em razão de inflação alta e rombo nas contas internas e externas, entre outros problemas. No caso específico do Brasil, a situação das contas externas é qualificada de “moderadamente frágil”.

A resposta do governo a essa análise correta dos fatos foi truculenta. “Não faz sentido a conclusão desse relatório”, disse o ministro da Fazenda, Guido Mantega. Para ele, uma instituição respeitável não faria uma análise dessas e o estudo só pode ter sido elaborado “por uma equipe do FMI que eu não sei quem é”.

O ímpeto petista para desqualificar os críticos já chegou às raias do ridículo. Em fevereiro, a senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR) propôs um voto de censura contra o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) depois que este incluiu o Brasil entre as economias vulneráveis. Segundo Gleisi, o relatório do Fed usou uma metodologia inadequada “para se chegar a conclusões confiáveis”. Na mesma sessão do Senado, outro petista, José Pimentel (CE), resumiu tudo ao dizer que o Fed é simplesmente incompetente.

Esse estilo arrogante é o mesmo que marcou a reação ao já famoso boletim do Santander, no qual o banco alertava os clientes que, se Dilma subir nas pesquisas, poderá haver “deterioração de nossos fundamentos macroeconômicos”.

Embora apenas retratasse o ambiente carregado do mercado e dos investidores graças aos sucessivos erros cometidos pelo governo, o texto foi tratado por indignados petistas como “terrorismo eleitoral”. Descontrolado, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou a exigir a demissão da analista que elaborou o boletim, recorrendo a palavrões para desqualificá-la.

Já a presidente Dilma, em lugar de apaziguar os ânimos, seguiu toada semelhante, ao dizer que vai tomar uma “atitude bastante clara em relação ao banco” – ameaça que ficou pairando no ar – e acusou o Santander de “interferência” no processo eleitoral. O desequilíbrio é evidente.

Outro caso recente em que o governo tratou de desmerecer informações que contradizem o alardeado sucesso de suas políticas ocorreu na divulgação, pela ONU, do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), que envolve expectativa de vida, escolaridade e renda média. Segundo a organização, o Brasil aparece em 79.º lugar entre 187 países, tendo subido apenas uma posição em relação ao ano anterior. O ligeiro avanço foi encarado pelo governo como uma ofensa.

Nada menos que três ministros convocaram a imprensa para contestar os números usados pela ONU. Se os dados estivessem atualizados, disseram eles, o Brasil apareceria em 67.º lugar. Não é a primeira vez que o atual governo critica as contas do IDH – para as autoridades, se o índice não refletir os extraordinários avanços sociais patrocinados pelo lulopetismo, então ele só pode estar errado.

Diante desses casos, fica claro que o governo não pretende se limitar a rebater avaliações e números negativos. A tropa petista está de prontidão para ir além, desacreditando com agressividade todo aquele que representar o contraditório. Recordando Dilma: “Nós podemos fazer o diabo na hora da eleição”.

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Montoro, pedagogo da política – por Marco Antonio Villa

Franco Montoro

Franco Montoro

Amanhã, dia 16 de julho, completam-se 15 anos do falecimento de André Franco Montoro. Ele percorreu um caminho raro entre os políticos brasileiros: foi vereador, deputado estadual, deputado federal, senador, governador e ministro de Estado. Contudo nunca afastou o exercício da função pública da elaboração de ideias que tivessem aplicação prática na vida das pessoas. O fortalecimento da sociedade civil sempre foi uma preocupação central da sua ação, isso num país onde o papel do Estado foi superdimensionado, tanto pela direita como pela esquerda.

Montoro teve na democracia cristã do pós-guerra a sua matriz ideológica. E com base nesse pensamento agiu como um pedagogo da política, escrevendo, debatendo e formando militantes. Por onde passou foi deixando a sua marca. Nos dez meses em que esteve à frente do Ministério do Trabalho, durante o Gabinete Tancredo Neves, foi pioneiro no incentivo à sindicalização rural – tema, à época, explosivo – e criou o salário-família.

Na Câmara dos Deputados destacou-se na defesa dos trabalhadores e da democracia. Tanto que, após a extinção dos partidos políticos, em 1965, foi um dos primeiros a organizar o MDB. Cinco anos depois foi eleito senador, numa eleição marcada pelo medo, no auge do regime militar.

Nos anos de vida parlamentar foi um incansável propagador da integração econômica e cultural com a América Latina. De início foi voz solitária. Poucos se interessavam.Mas a pregação foi ganhando adeptos até ser incorporada à Constituição de 1988.

Assumiu o governo de São Paulo em março de 1983. O País estava em recessão – o produto interno bruto (PIB) caiu 2,9% – e com uma inflação anual de 211%.A economia estadual passava por uma profunda crise. O número de desempregados não parava de aumentar. E as finanças estaduais estavam em petição de miséria após o trágico quadriênio Maluf-Marin.

Organizou um secretariado de nível ministerial. Teve entre seus principais colaboradores (incluindo os bancos e empresas estatais paulistas) José Serra, João Sayad, Luiz Carlos Bresser-Pereira, Almino Affonso, Miguel Reale Júnior, Almir Pazzianotto, José Gregori, Paulo Renato e Paulo de Tarso, entre outros. Nomeou para a Prefeitura de São Paulo Mário Covas. Entendeu que na administração pública deviam ser escolhidos os melhores. E que o governador não devia temer a competência dos seus auxiliares, muito pelo contrário.

Pôs em prática os princípios defendidos desde os anos 1950. Fez da descentralização um dos carros-chefes do governo. Insistiu na tese de que o município é a base da democracia, da boa gestão e onde o cidadão vive. Fez o saneamento financeiro zerando o déficit orçamentário graças à austeridade nos gastos. Diversamente do governo anterior, deu à ética um papel central. Relacionou-se com a Assembleia Legislativa de forma republicana. Acentuou a necessidade da participação do cidadão nos negócios públicos. E foi o primeiro governador a ter preocupação (e ação) com o meio ambiente – basta recordar o tombamento da Jureia, onde Paulo Maluf queria construir duas usinas nucleares.

Conviveu com diversos movimentos grevistas. Reivindicações contidas à força pelos governos anteriores acabaram eclodindo. Soube buscar soluções harmoniosas em meio à tensão política. No tristemente célebre episódio da derrubada das grades do Palácio dos Bandeirantes agiu com moderação. Sabia que estavam em jogo a abertura democrática e o exercício da autoridade. Era uma provocação arquitetada pelos extremismos à direita e à esquerda. Tomou as decisões necessárias e saiu engrandecido.

A campanha das diretas teve início – efetivamente – no dia 25 de janeiro de 1984, no comício da Praça da Sé. Foi um ato de ousadia e coragem política. Poucos acreditaram no sucesso do comício. E a participação de 300 mil pessoas demonstrou a correta análise de conjuntura do governador Montoro. A partir daí, a campanha deslanchou. Foram realizados dezenas de atos por todo o Brasil. E em São Paulo, em 16 de abril, foi encerrada com o maior comício da História do Brasil.

A derrota da Emenda Dante de Oliveira não desanimou o governador. Tornava-se indispensável a união da oposição. Passou a articular uma frente de governadores. Era natural que fosse o candidato oposicionista no Colégio Eleitoral. Afinal, o PMDB de São Paulo tinha a maior bancada na Câmara dos Deputados, o presidente nacional do partido era paulista, governava o mais importante Estado da Federação e tinha sido eleito com mais que o dobro de votos do segundo colocado.

O interesse do País, porém, estava acima de qualquer veleidade pessoal. Montoro identificou no governador de Minas Gerais, Tancredo Neves, o nome ideal para unir a oposição e dividir o PDS, estimulando o surgimento de uma dissidência, essencial para obter a maioria no Colégio Eleitoral. E foi no Palácio dos Bandeirantes que Tancredo foi lançado candidato do PMDB à Presidência da República. Não deve ser esquecido que naquele momento, agosto de 1984, a sorte da sucessão presidencial não estava decidida. O País corria o sério risco de ter Paulo Maluf como presidente da República por seis anos e com poderes arbitrários garantidos pela desastrosa Emenda Constitucional n.º 1 de 1969.

Desiludido com os rumos do PMDB, foi fundador do PSDB, em 1988. Criou o símbolo do partido: o tucano. Foi um defensor do parlamentarismo. Mesmo adoentado continuou entusiasmado pela política. Morreu quando estava a caminho de um seminário no México.

O esquecimento de Franco Montoro é um ato perverso. Perverso para a jovem democracia brasileira, tão carente de exemplos que dignifiquem o compromisso com o interesse público. Perverso porque vivemos um momento em que abundam políticos profissionais e são cada vez mais raros os homens públicos.

Artigo publicado em o Estado de S. Paulo, 15 de julho de 2014

A esquerda tinha ditaduras como modelo – por Marco Antonio Villa

Historiador Marco Antonio Villa

Historiador Marco Antonio Villa

Artigo publicado em O Estado de São Paulo – 30 de março de 2014

Durante a ditadura, a oposição de esquerda transformou a experiência dos países socialistas em referência de democracia. A ditadura do proletariado foi exaltada como o ápice da liberdade humana e serviu como contraponto ao regime militar. A falácia tinha uma longa história. Desde os anos 1930 brasileiros escreveram libelos em defesa do sistema que libertava o homem da opressão capitalista.

Tudo começou com URSS, Um Novo Mundo, de Caio Prado Júnior, publicado em 1934, resultado de uma viagem de dois meses do autor pela União Soviética. Resolveu escrevê-lo, segundo informa na apresentação, devido ao sucesso das palestras que teria feito em São Paulo descrevendo a viagem. À época já se sabia do massacre de milhões de camponeses (a coletivização forçada do campo, 1929-1933) e a repressão a todas os não bolcheviques.

Prado Júnior justificou a violência, que segundo ele “está nas mãos das classes mais democráticas, a começar pelo proletariado, que delas precisam para destruir a sociedade burguesa e construir a sociedade socialista”. A feroz ditadura foi assim retratada: “O regime soviético representa a mais perfeita comunhão de governados e governantes”. O autor regressou à União Soviética 27 anos depois. Publicou seu relato com o título O Mundo do Socialismo. Logo de início escreveu que estava “convencido dessa transformação (socialista), e que a humanidade toda marcha para ela”.

Em 1960, Caio Prado não poderia ignorar a repressão soviética. A invasão da Hungria e os campos de concentração stalinistas estavam na memória. Mas o historiador exaltava “o que ocorre no terreno da liberdade de expressão do pensamento, oral e escrito”, acrescentando: “Nada há nos países capitalistas que mesmo de longe se compare com o que a respeito ocorre na União Soviética”. E continua escamoteando a ditadura: “Os aparelhos especiais de repressão interna desapareceram por completo. Tem-se neles a mais total liberdade de movimentos, e não há sinais de restrições além das ordinárias e normais que se encontram em qualquer outro lugar.”

Seguindo pelo mesmo caminho está Jorge Amado, Prêmio Stalin da Paz de 1951. Isso mesmo: o tirano que ordenou o massacre de milhões de soviéticos dava seu nome a um prêmio “da paz”. Antes de visitar a União Soviética e publicar um livro relatando as maravilhas do socialismo – o que ocorreu em 1951 -, Amado escreveu uma laudatória biografia de Luís Carlos Prestes. A União Soviética foi retratada da seguinte forma: “Pátria dos trabalhadores do mundo, pátria da ciência, da arte, da cultura, da beleza e da liberdade. Pátria da justiça humana, sonho dos poetas que os operários e os camponeses fizeram realidade magnífica”.

A partir dos anos 1970, o foco foi saindo da União Soviética e se dirigindo a outros países socialistas. Em parte devido aos diversos rachas na esquerda brasileira. Cada agrupamento foi escolhendo a sua “referência”, o país-modelo. O Partido Comunista do Brasil (PCdoB) optou pela Albânia. O país mais atrasado da Europa virou a meca dos antigos maoistas, como pode ser visto no livro O Socialismo na Albânia, de Jaime Sautchuk. O jornalista visitou o país e não viu nenhuma repressão. Apresentou um retrato róseo. Ao visitar um apartamento escolhido pelo governo, notou que não havia gás de cozinha. O fogão funcionava graças à lenha ou ao carvão. Isso foi registrado como algo absolutamente natural.

O culto da personalidade de Enver Hoxha, o tirano albanês, segundo Sautchuk, não era incentivado pelo governo. Era de forma natural que a divinização do líder começava nos jardins de infância onde era chamado de “titio Enver”. As condenações à morte de dirigentes que se opuseram ao ditador foram justificadas por razões de Estado. Assim como a censura à imprensa.

Com o desgaste dos modelos soviético, chinês e albanês, Cuba passou a ocupar o lugar. Teve papel central neste processo o livro A Ilha, do jornalista Fernando Morais, que visitou o país em 1977. Quando perguntado sobre os presos políticos, o ditador Fidel Castro respondeu que “deve haver uns 2 mil ou 3 mil”. Tudo isso foi dito naturalmente – e aceito pelo entrevistador.

Um dos piores momentos do livro é quando Morais perguntou para um jornalista se em Cuba existia liberdade de imprensa. A resposta foi uma gargalhada: “Claro que não. Liberdade de imprensa é apenas um eufemismo burguês”. Outro jornalista completou: “Liberdade de imprensa para atacar um governo voltado para o proletariado? Isso nós não temos. E nos orgulhamos muito de não ter”. O silêncio de Morais, para o leitor, é sinal de concordância. O pior é que vivíamos sob o tacão da censura.

O mais estranho é que essa literatura era consumida como um instrumento de combate do regime militar. Causa perplexidade como os valores democráticos resistiram aos golpes do poder (a direita) e de seus opositores (a esquerda).

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