O messianismo político e a mistificação petista – por Moacir Pereira Alencar Júnior

sasasda

Este artigo foi originalmente publicado na Revista Amálgama, no dia 11 de março de 2016 (http://www.revistaamalgama.com.br/03/2016/messianismo-politico-mistificacao-petista/)

Quatorze anos. Este é o tempo que o PT está completando em 2016 no Palácio do Planalto. Em seu quarto mandato consecutivo, o partido atravessa sua fase mais crítica e dramática no poder. O lulopetismo está sob pressão, e o cenário atual deixa claro que o segundo mandato de Dilma marcará uma virada de página na funcionalidade de nossas instituições republicanas.

Amparado por um discurso e uma propaganda eloquente, que construiu uma ideia de que o Brasil nasceu apenas em 2003, com a chegada de Lula ao poder, o PT criou em torno de sua órbita a imagem falaciosa de que apenas seus dirigentes são os legítimos representantes e a encarnação do povo brasileiro.

Ao promover a mistificação e criar um país de ficção nas propagandas político-partidárias, e ao mesmo tempo deslegitimar o processo democrático e a alternância de poder, o PT esqueceu há muito o projeto de Brasil e apenas se preocupou com o projeto de perpetuação sobre o controle da máquina pública, utilizando-se de mecanismos nefastos e hoje elucidados e conhecidos de todos: a corrupção institucionalizada, consagrando o presidencialismo de transação, exemplificados no Mensalão e no Petrolão.

Desde o início da Operação Lava Jato, no início de 2014, considerando dados atualizados até 8 de março de 2016 pelo Ministério Público Federal, já ocorreram mais de 627 manifestações, 118 buscas e apreensões, 108 quebras de sigilo fiscal, 128 quebras de sigilo bancário, 101 quebras de sigilo telefônico, 2 quebras de sigilo telemático, 1 quebra de sigilo de dados, 12 sequestros de bens, 4 sequestros de valores, 42 instaurações de inquéritos, 7 denúncias, 21 denunciados, 94 investigados, 4 prisões preventivas e R$78 milhões repatriados.

A reeleição de Dilma veio acompanhada de uma realidade diferente da ficção petista nas eleições: cortes orçamentários, repasses e recursos da União e Estados postergados, inflação fora do teto da meta, aumento de impostos, retração do crescimento da economia por tempo indeterminado e o aumento do desemprego, sem contar a cúpula do governo petista mergulhada no olho do furação das investigações por corrupção, caso do ex-presidente Lula e ministros do governo.

As oposições passaram a ser vistas pelos porta-vozes do petismo – que se encontram incrustados nas mais variadas esferas do Estado brasileiro – como algo incômodo, perturbador, capaz de ameaçar o “curso pacífico das transformações sociais”. E as investigações que atingem diretamente o Palácio do Planalto são categoricamente ridicularizadas e desqualificadas pelo PT e pela própria presidente, que abandona o cargo para ir acariciar a cabeça do investigado Lula em São Bernardo do Campo, em um gesto de subserviência ao criador e de profunda irresponsabilidade para com o povo brasileiro.

Em 4 de março, após a condução coercitiva de Lula para depor diante da Polícia Federal, o petismo mostrou que é capaz de tudo para defender seu líder messiânico; e Lula, sabendo de seu messianismo diante da militância, irresponsavelmente conclamou o séquito para a “guerra santa”. Tentar tripudiar e triturar todas as instituições que buscam “dessacralizá-lo” e mostrá-lo como um dos maiores responsáveis por este esquema de corrupção será sua “tônica de batalha”. Para isso vale tudo, até mesmo rasgar a Constituição e buscar foro privilegiado como ministro no Titanic comandado pela pior presidente da história da República.

Conforme destaca o historiador búlgaro Tzvetan Todorov, em Os inimigos íntimos da democracia, embora invoque o ideal de igualdade e liberdade, o messianismo político tem um objetivo final que lhe é próprio (estabelecer o equivalente do Paraíso na Terra), assim como meios específicos para alcançá-lo (Revolução e Terror). Em sua busca por uma salvação temporal, essa doutrina não reserva nenhum lugar a Deus, mas preserva outros traços da antiga religião, tais como a fé cega nos novos dogmas, o fervor nos atos que lhe são úteis, o proselitismo dos fiéis, ou a transformação de partidários caídos em combate em mártires, figuras a adorar como se fossem santos. As tentativas de impor um culto ao Ser supremo e de instituir uma festa para celebrá-lo resultam da mesma tendência.

Hoje, o que é paraíso para o PT, é inferno para a população brasileira. Não precisamos de líderes messiânicos, ainda mais corruptos. Não precisamos de falsos mártires, que se autodenominam jararacas e são tratados como “guerreiros do povo brasileiro” por um séquito doentio e tresloucado. O país não é o PT, e incompetência e irresponsabilidade têm limite.

Anúncios

Alteridades: Para diferentes culturas, há diferentes racionalidades ? – Por Moacir Pereira Alencar Junior

Este artigo busca fazer uma síntese de 4 obras :

  • o livroA conquista da América : a questão do outro”, do linguista búlgaro Tzvetan Todorov,

  • o filme O homem que queria ser rei”, baseado no livro do poeta indo-britânico Rudyard Kipling,

  • o livro “Raça e História”, do antropólogo francês Claude Lévi-Strauss,

  • e do livro Como pensam os nativos : sobre o Capitão Cook, por exemplo”, do antropólogo americano Marshall Sahlins.

Introdução

O homem sempre buscou estudar as diferenças sociais e culturais a partir de fatores históricos e aspectos coletivos. Com o passar dos séculos, o homem foi promovendo aprimorações na forma de avaliar, classificar e definir uma cultura, processo este que veio a originar a Antropologia.

A partir destas obras podemos ter uma breve idéia do desenvolvimento do pensamento do homem civilizado (o europeu) no decorrer dos séculos. Os habitantes do Velho Mundo passaram a enxergar melhor as diferenças extraculturais.

Alteridades – ‘diferenças culturais em questão’

Na obra de Todorov, que retrata os século XV e XVI, assistimos ao encontro de duas civilizações, com estilos de vida plenamente diferentes: os europeus, representado pelos espanhóis, que vivem em meio a uma sociedade desenvolvida que passa por um grande processo de expansão ultramarino e apresenta relativo desenvolvimento econômico e social, e os astecas (civilização até então desconhecida, que estava adaptada a um modelo de vida extremamente diferente no aspecto sociocultural).

Neste período da história, a inexistência de leis morais similares para regulamentar o comportamento destes dois povos fez com que uma barbárie fosse o desfecho desta relação extracultural. O mais forte, no caso os europeus, impuseram sua superioridade por meio de um massacre sem precedentes.

Não se poderia destruir uma raça humana daquela maneira, sem respeito às leis de humanidade.

Com o avanço do colonialismo (durante os séculos XV e XIX ) e do neocolonialismo (que ocorre nos séculos XIX e XX), as relações ente o homem civilizado e o homem primitivo passaram a se dar com maior freqüência, porém os colonizadores impunham suas formas de vida aos colonizados. Em nenhum momento a diversidade cultural dos povos primitivos foi respeitada.

Um exemplo é o filme de Rudyard Kipling, que retrata a tentativa de oficiais do Exército Britânico de conquistar a região do Kafiristão, território que ficou sob tutela inglesa durante o fim do século XIX e início do século XX, que hoje é uma região entre as montanhas de Hindukush no Afeganistão.

Um dos oficiais britânicos (Danny), se aproveita das lacunas existentes na cultura do povo kafiristanês e se passa por Deus, sendo entronizado e classificado pelo povo como uma divindade. Porém a farsa é desvendada e os oficiais britânicos são mortos. Mais um exemplo de relação entre colonizado e colonizador que termina de forma abrupta, a intolerância entre os povos volta a prevalecer.

A partir do séculos XIX e XX, com os primeiros processos de independência na América, na Ásia e na África passamos a assistir um processo de maior tolerância entre povos.

No século XIX, Gobineau, um filósofo francês, fez um estudo sobre a teoria das raças; para ele a miscigenação racial faria com que as raças perdessem suas qualidades próprias e ancestrais. Para ele, a raça prevalecia frente à cultura.

Porém, Segundo Lévi-Strauss, em sua obra ‘Raça e História’, há muito mais culturas humanas que raças humanas, homens pertencentes a mesma raça podem diferir plenamente. Continuando com seus pensamentos, Lévi-Strauss considera que há sociedades contemporâneas, umas próximas, outras afastadas, justapostas no espaço.

Merece ser destacado o Etnocentrismo – um conceito antropológico onde um grupo é considerado como parâmetro (centro) para determinar as relações entre os povos.

A partir desse conceito o ‘outroé considerado anti-natural, estranho e atrasado. Este conceito traz a tona o choque entre culturas, onde o outro passa a ser uma ameaça a identidade do grupo central, e isto faz com que o grupo central busque reforçar ainda mais sua identidade.

Vale ser citada uma corrente ideológica que nega o etnocentrismo, é o chamado relativismo cultural. Esta ideologia defende que o bem e o mal, o certo e o errado, e outras categorias de valores são relativos a cada cultura.

Em determinados momentos, Lévi-Strauss apresenta pensamentos que oscilam entre o etnocentrismo e o relativismo cultural. Quando ele divide a história das culturas em estacionárias e cumulativas, acaba defendendo que uma cultura é cumulativa porque se desenvolve num sentido análogo ao de sua civilização, portanto, ele acaba se julgando uma pessoa superior a de ‘outras’ culturas.

Porém, Lévi-Strauss crê que a chamada história estacionária não é uma história não-cumulativa, na essência toda história é cumulativa, com diferenças de grau, podendo ser mensurada conforme o contexto histórico de cada cultura. Nesta conclusão ele demonstra sua visão relativista.

Graças a esta oscilação entre etnocentrismo e relativismo, Lévi-Strauss considera um absurdo declarar uma cultura superior à outra. Nenhuma cultura está só, ela é sempre dada em coligação com outras culturas, ou seja, para Lévi-Strauss só pode haver exploração no seio da coligação.

Apesar de existir uma maior tolerância entre culturas na atualidade, ao menos no papel, por meio de leis que visam a igualdade para todo indivíduo, nós vivemos em meio a crises de intolerância sociocultural.

A imparcialidade ainda esta longe de ser atingida nestas 4 obras que envolvem a antropologia.

Isto fica claro na obra de Marshall Sahlins : ‘Como pensam os nativos : sobre o Capitão Cook , por exemplo’ , onde o norte-americano trava algumas discussões conceituais com o antropólogo cingalês Obeyesekere.

O relativismo cultural ganha grande importância neste embate ideológico de antropólogos que tem origens distintas. Apesar de cingalês, Obeyesekere leciona nos EUA, na Universidade de Princeton, onde estudou com rigor a cultura de seu país, o Sri Lanka, nação subdesenvolvida asiática que foi protetorado britânico entre 1833 e 1948.

Marshall Sahlins, norte-americano, conclui em seu livro que ele é visto como alguém que compete favoravelmente com James Cook pelo título de principal vilão da obra de Obeyesekere, “A apoteose do Capitão Cook”.

Marshall Sahlins, em 1988, atribui a idéia de que a história é governada pela reprodução impensada de códigos culturais.

Sahlins crê que quando James Cook chegou ao Havaí , foi recepcionado como um ser divino, o Deus Lono. Segundo Sahlins, isto se dá devido a um mito de inspiração ocidental, promovido em grande parte por missionários cristãos e seus principais convertidos após 1820.

As divergências de Sahlins para Obeyesekere surgem nesta busca por respostas sobre o verdadeiro comportamento do povo havaiano frente ao navegador britânico James Cook e sua tripulação. Obeyesekere, segundo Sahlins, crê que os havaianos adotaram uma postura mais racional ao recepcionar Cook, visando a buscar um parceiro, porque não dizer, comercial e militar.

Buscando um equilíbrio nas informações aqui dadas, enviei um e-mail a Obeyesekere, que foi respondido por ele no dia 26 de abril de 2009 , no qual ele me disse:


Eu aconselho você a evitar o binário ou as distinções das oposições. Não há necessariamente uma diferença radical entre universalismo e particularidade ou relativismo e universalismo. Como o poeta William Blake disse: fora de uma essência, nós podemos ter múltiplas diferenças.”

clique abaixo para ver a resposta do e-mail:gananath-obeyesekere

Este antagonismo de pensamentos e conceitos antropológicos entre Sahlins e Obeyesekere levanta uma questão muito interessante:

Há antietnocentrismo e antiantropologia sendo praticada na obra de um desses autores ?

Creio que ao tomarmos partido por um dos escritores, estamos ignorando a existência de uma segunda hipótese, discutível, e que apresenta, de certa forma, uma visão que não pode ser considerada como sendo contra a particularidade cultural de um povo.

Apenas provar que um esta certo e outro esta errado, seria, de certa maneira, um comportamento destrutivo, que não vem a somar conhecimento e informações históricas baseadas em visões diferentes de mundo.

Afinal, em diferentes culturas, há diferentes racionalidades.

Assim como pode haver mesmas racionalidades em diferentes culturas.

Em suma, o que se define como intolerante para um “povo” , pode ser o que há de mais tolerável para um “outro povo”.