Direita e Esquerda – por Alceu Amoroso Lima

Este artigo foi escrito por Alceu Amoroso Lima em Outubro de 1960, nas vésperas das eleições presidenciais brasileiras, que tinham como candidatos: Teixeira Lott , Jânio Quadros e Adhemar de Barros. A análise de Alceu sobre o conceito de ‘direita’ e ‘esquerda’ é muito interessante, mostrando as mutações que estes enquadramentos ideológicos receberam durante os Século XIX e XX no Brasil e no mundo, e as diferentes formas de anacronismo e erros semânticos que foram dados a estas palavras em variados momentos. É vital destacar que estes constantes equívocos permanecem até hoje, em pleno século XXI, sendo difíceis de serem desfeitos. Certamente, conforme destacou Alceu: “pela simples razão de inércia e de rotina”.

_______________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

Alceu Amoroso Lima (1893-1983). - Pensador Católico, escritor e jornalista.

Alceu Amoroso Lima (1893-1983). – Pensador Católico, escritor e jornalista.

Durante a campanha eleitoral deste ano, voltou-se muito a falar em esquerda e direita. Para muitos, esquerda é sinônimo de comunismo. Direita, sinônimo de democracia. E, em certos meios católicos, a esquerda é o Anticristo e a direita, a Igreja ou pelo menos a posição político-social em que se encontra a Igreja.

Nada mais falso. Mas também nada mais difícil de esclarecer, já que as palavras sofreram realmente uma alteração semântica no sentido que o povo lhes dá, esse povo anônimo, que faz e desfaz linguagens.

A expressão esquerda-direita vem, como se sabe, do uso parlamentar latino: à direita se colocavam os conservadores; ao centro os liberais, à esquerda os socialistas. Daí, passou a palavra a significar a ideologia representada pela respectiva colocação dos parlamentares em suas bancadas. Houve, além disso,  uma alteração histórica no dispositivo parlamentar em leque, segundo o modelo francês ou americano e não paralelo, segundo o britânico ou canadense. Destacou se da direita a extrema-direita, reacionária, de tipo fascista. Como se destacou da esquerda a extrema-esquerda revolucionária, do tipo comunista. E assim que uma ou outra tomaram o poder de modo violento, cessou naturalmente o dispositivo pluralista e ficou apenas, em reuniões periódicas e sem importância, a unanimidade comunista ou fascista. A esquerda ia assim igualar-se a comunismo. A direita, a fascismo ou conservadorismo. E a opinião pública passou então a ligar uma coisa e outra.

Com os católicos se deu coisa semelhante. O socialismo, à esquerda dos parlamentos, foi a princípio, todo ele, anticatólico e, mais do que isso, anticlerical. O conservadorismo, à direita, se manteve ou se fez católico, por sinceridade ou por política. De modo que o termo socialista ficou sendo sinônimo de esquerdista e anticatólico.  E conservador, sinônimo de direitista e católico.

Mas tudo isso mudou radicalmente, ao longo do século XIX e, sobretudo, no século XX. Introduziram-se os maiores elementos de complexidade real e não apenas imaginária. O comunismo se destacou do socialismo. Este, por sua vez,  se desdobrou em várias correntes, mais próximas ou afastadas do comunismo.  O liberalismo se dividiu, pelo menos, em dois, mais conservador ou mais radical. E os conservadores, por sua vez, se mantiveram conservadores, republicanos ou monarquistas, e se separaram dos reacionários, à extrema-direita tão próximos por vezes da extrema-esquerda, pois os extremos quase sempre se tocam, especialmente em política.

As expressões esquerda, sinônimo de progresso e reforma social, e direita, sinônimo de ordem e tradição social, perderam com isso toda a sua exatidão. Mantiveram-se e continuam a ser empregadas por uma simples razão de inércia e rotina.

O mesmo aconteceu nos meios católicos. Com o interesse crescente da Igreja pela questão social, a partir do fim do século XIX e de Leão XIII, a equivalência entre catolicismo e conservadorismo, hostilidade ao progresso, defesa do status quo social, ordem e autoridade acima de tudo, sem distinção de como e porque , perdeu também toda significação autêntica. Passou a haver cada vez mais católicos não-conservadores em política. Como passou a haver  um número cada vez maior de conservadores não-católicos ou de radicais e socialistas, no sentido puramente político da expressão, de fé católica. Surgiu o termo trabalhismo, neutro.

Nesse terreno, também, a equiparação de esquerdismo com anticatolicismo e de direitismo com catolicismo se tornou anacrônica e semanticamente errada.

A primeira revelação que tive desse erro foi pela leitura, há trinta anos passados, de um admirável artigo do P. Congar O.P. ,Dieu est-il à Droit?, naquela famosa e tão saudosa revista dominicana francesa La Vie Intellectuelle. Deus não está à direita nem à esquerda. Esta acima. Domina a direita como a esquerda, enquanto estes termos ainda significarem alguma coisa, ao menos pelo uso e hábitos adquiridos. Há trinta anos que busco desfazer o equívoco. Em vão.

Nada mais difícil do que desenraizar tiriricas… Isto é a erva rasteira e vulgar, semelhante às palavras que vamos empregando sem pensar no seu sentido autêntico.

Há semanas atrás, durante a campanha eleitoral, eu tive escrúpulo até em publicar este artigo, pois já sei que iria, porventura, causar confusão, se lido, em algum eleitor apegado às fórmulas convencionais.  Mas agora passado o furação eleitoral, é hora de pensar de novo com calma e dar às palavras o sentido que realmente tem. A Igreja não está à direita. Como o comunismo ateu não está à esquerda. São incompatíveis. Mas estão por toda parte, face a face, lado a lado, lutando por bandeiras opostas, até que a Justiça e a Misericórdia de Deus tudo assuma.

Diferente, Exclusivo ou Igualitário? O Mundo e suas facetas. – por Moacir Pereira Alencar Junior

Há palavras no mundo que são utilizadas com uma frequência espetacular. Elas possuem o poder tempestuoso de organizar e desorganizar, de promover revoluções e reações. São elas : diferença, exclusãoigualdade.

Você é alguém diferente ou exclusivo em meio a todos?

Segundo o dicionário Aurélio, organizado por Aurélio Buarque de Hollanda, a palavra  diferença tem origem do latim differentia e significa a falta de semelhança ou igualdade, dessemelhança, dissimilitude, diversidade . Em suma, o resultado da subtração de duas ou mais quantidades para os matemáticos.

Já a palavra exclusão tem origem no latim exclusione e significa ato de excluir, exceção, exclusividade. Isto mesmo, a palavra exclusão leva à exclusividade.

Assim como as duas palavras anteriores, a palavra igualdade também tem origem no latim aequalitate, que significa paridade, uniformidade, eqüidade, justiça.

Em nossa atualidade estas palavras são interpretadas das formas mais variadas e distorcidas possíveis. Certamente haverá alguém que lerá este artigo e dirá que estou distorcendo conceitos de grandes pensadores. Sintam-se a vontade para questionar meu pensamento e minha perspectiva adotada neste tema.

Partindo da ideia de que não há uma verdade oficial, uma vez que todos bradam por suas verdades individuais, me sinto no direito de dizer que neste artigo a verdade floresce de mim.

Se a história da humanidade sempre foi construída a partir dos confrontos entre diferentes e pelo reconhecimento da exclusividade de ser e estar em um determinado lugar e em um determinado posto hierárquico, por que criar tantos esquematismos  e cismos quanto a estas questões?

Com a Revolução Russa consolidada, na década de 1930, o principal líder dirigente da então URSS, Josef Stalin, sempre frisou que o socialismo não era um regime de iguais. O sistema social desejado por Stalin e que subsistiu até o fim da URSS era hierárquico, mas com ampla mobilidade para cima. Stalin admitia com absoluta franqueza que isto implicava uma estratificação. Em 1931, Stalin atacou como extremista a prática do nivelamento dos salários. Marx e Lênin, dizia Stalin: “escreveram que as diferenças entre trabalho especializado e não-especializado existiriam também no socialismo, mesmo depois da abolição das classes”.(Stalin, Sotchinenia,vol XIII , pp.77-80)

Em outras palavras, o Socialismo que sempre foi defendido como a bandeira dajustiça e eqüidade”, criou a exclusividade, a igualdade entre diferentes.

A derrocada do Socialismo levou a vitória do Capitalismo, da ideologia liberal e do mercado total. Com o Capitalismo as diferenças e o caráter de ser exclusivo conquistaram cada vez mais força e determinaram as relações sociais, políticas e econômicas.

Isto fez com que a igualdade fosse posta novamente em pauta, por meio de discursos que defendiam a ideia de que não havia diferença entre povos, culturas e nações. Afinal, todos possuem mesmos direitos e deveres como um cidadão do mundo, tal como diz a Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU. A defesa do Homem uno e indissociável como átomo foi um dos motivos da consolidação de milhares de movimentos sociais pelo mundo nos anos 1980.

Mas este grande momento de reverberação da igualdade nasceu das diferenças entre grupos. Afinal de contas, o que levava um professor secundário em Genebra a ganhar 56700 francos suíços em 1979, enquanto no Rio de Janeiro o salário anual era de 7350 francos suíços? Como iguais podem ser tratados de forma diferente como esta? Seria a construção de uma cultura que tem como base o respeito a tradição e a valores primordiais como a educação? Para efeito de comparação, no Rio de Janeiro no mesmo período um administrador ganhava em média anualmente  53040 francos suíços enquanto em Genebra o salário de um administrador era de 71760 francos suíços.

Estes dados mostram a diferença de pensamento de diferentes povos para assuntos primordiais para a busca da igualdade. A igualdade nasce do acesso a cultura, da busca pelo reconhecimento via mérito. E todos os grupos podem atingir este patamar de enriquecimento cultural, independente das diferenças e quistos sociais existentes.

A igualdade, em contrapartida, não pode existir na plenitude. A diferença é e continuará a ser a determinante das mudanças  existentes no mundo, seja no cultural , no econômico e no social. Caberá aos grupos mostrarem as ferramentas para caminhar rumo ao exclusivo dentro da diferença, e por consequência se afastar da ideia do igual.

A igualdade tem que se dar em diferentes grupos que buscam se adequar ao mundo visando suas exclusividades. A Diferença, A Exclusão, A Igualdade; formam um tripé que levará a um compreensão maior das relações e das conquistas multiculturais à humanidade.

O caráter da diferenciação, da exclusividade e da igualdade permanecerão no cerne da vida humana, criando e recriando duelos nas mais variadas áreas do conhecimento. Basta ao homem saber empregá-las, e com mais equilíbrio torná-las aceitáveis e passíveis de interpretação em meio a diversidade.


Alexis de Tocqueville (1805 – 1859) e “A democracia na América”. – por Moacir Pereira Alencar Junior

tocqueville

Tocqueville nasceu em 1805, em uma família aristocrática, na região da Normandia, na França. Sensibilizado com a alteração da realidade política e social na França pós revolução, ele avaliava com tristeza o que ocorreu com seus familiares, que vieram a ser presos , executados e assistiram a redução do poder aristocrático após o Período do Terror, do governo de Robespierre. Isto fez com que Tocqueville passasse a ter raiva da Revolução e dos populares, os quais ele considerava serem personagens farsescos.

Em sua obra sobre a democracia na América ele explicava que os EUA eram um país único entre as nações ocidentais, pois teriam formado uma democracia pura , sem as nódoas do Feudalismo. Sem ter herdado posições sociais, todo americano era cidadão, igual a todos os outros perante a lei. A cidadania estava entronizada na Constituição Federal e era sustentada economicamente pela revisão do sistema legal inglês de primogenitura, que determinava a divisão patrimonial entre todos os filhos de forma igualitária. Isto veio a diluir o poder da riqueza herdada baseada na terra e aumentou o poder do dinheiro, uma base mais apurada de distinção social.

O direito universal masculino, imposto desde os primórdios da república, segundo Tocqueville, fazia do governo o resultado cumulativo da democracia participativa.

Um sistema político de “baixo para cima” surgiu em associações locais, como nas cidades da Nova Inglaterra e na sequência os condados, estados e o governo federal evoluíram sobre esta  base popular. As administrações estaduais tinham seus próprios setores de governo e sua própria constituição, além de existir grupos de cidadãos, que em conjunto buscavam contrabalancear o poder do governo federal. Todo cidadão tinha na Constituição a garantia de certos “direitos inalienáveis”.

Para Tocqueville, um dos problemas mais graves da democracia na América era a “tirania da maioria”. Criavam-se fortes pressões sociais para se internalizar o controle social. Os cidadãos eram leais ao “aplauso a si mesmo”. Para Tocqueville, a liberdade de opinião não existia na América. Quanto aos negros e indígenas, Tocqueville dizia que eles estavam ligados à democracia, mas não faziam parte dela, eles viviam em sociedades paralelas.

Mesmo que ocorresse a aboliçã0 da escravatura, Tocqueville dizia que os negros viveriam uma falsa liberdade. Já os indígenas, apenas ocupariam menos terras e não as possuiriam. Para Tocqueville, a extinção destas raças seria inevitável.

Tocqueville também dizia que o individualismo era um traço característico notório dos americanos. Eles viviam a satisfação dos desejos imediatos. Eles tenderiam a se isolar em grupos e deixariam o resto da sociedade cuidar de si mesma.

Em suma, os EUA de Tocqueville era um estado descentralizado e baseado em direitos, e legitimado pela vontade da população. Tocqueville acreditava que a liberdade prevalecia sobre a igualdade. Ele também era contra o Socialismo, considerando-o uma demagogia.

Karl Heinrich Marx ( 1818 – 1883 )

KARL MARX

Filósofo alemão , foi autor de vários conceitos que fundamentaram a ideologia socialista – comunista do século XX.

Nasceu em Trier , filho de familia judia, e estudou filosofia nas Universidades de Berlim e Jena.

Em 1842 chefiou a redação do jornal Nova Gazeta Renana em Colônia, no qual escreveu artigos considerados radicais em defesa da democracia. Mudou-se para Paris em 1844 e lá conheceu Friedrich Engels.

Em 1848 publicou o Manifesto do Partido Comunista ,em parceria com Engels , em que defende a solidariedade entre os trabalhadores na busca de sua emancipação política e social .O documento defende uma revolução de caráter internacional que leve a burguesia e o capitalismo ao declínio , podendo assim implantar o comunismo.

A divulgação do manifesto provoca sua expulsão de Paris. Mudou-se para Londres, onde estuda história e economia , escreve artigos na imprensa e ajuda a fundar a Primeira Internacional dos Trabalhadores, que reúne partidos de esquerda de diversos países.

Em 1867 publica o primeiro volume de “ O Capital “, na qual expõe os seus conceitos ( chamados marxistas ) , como a teoria do valor , a da mais-valia e da acumulação do capital. Os outros volumes da mesma obra só são conhecidos após sua morte.

Imperialismo Econômico e Economia Socialista : faces da mesma moeda ? – Por Moacir Pereira Alencar Junior

Este artigo visa fazer uma síntese entre duas correntes de pensamento socioeconômico que foram estudadas por muitos teóricos na história :

  • o Socialismo, conjunto de doutrinas que se propõem a promover o bem comum pela transformação da sociedade e das relações entre as classes sociais, mediante a alteração do regime de propriedade, e

  • o Imperialismo, política de expansão e domínio territorial e/ ou econômico de uma nação sobre outras, que nas últimas décadas do século XX passou a também ser definida como Neoliberalismo. Sendo o Neoliberalismo uma doutrina que favorece uma redução do papel do estado na esfera econômica.

Introdução

O socialismo nasce em um período da história, século XIX, em oposição as idéias liberais e a expansão do capitalismo. Sendo a Revolução Industrial um dos principais fatos por ele discutido, uma vez que a revolução industrial provoca efeitos sociais irreversíveis.

Em seu primeiro momento, surge como um ideal, mas depois passa a ser visto como uma necessidade considerada histórica, que origina-se da crise do capitalismo. Esta corrente de pensamento baseia-se na análise da sociedade do século XIX, que de certa forma é eminentemente capitalista.

Para Karl Marx, o principal teórico do socialismo, o modo de produção capitalista determina as relações sociais ; relações estas que ele considera em sua obra “O Capital” como sendo desumanas, onde os trabalhadores são meros objetos de uso e são os únicos responsáveis por gerar toda a riqueza existente.

Porém esta sociedade que viveria em coletivismo, sem divisão de classes e sem a existência de um estado repressor , segundo Marx; não encontrou meios de se firmar em nenhuma nação, com exceção à França, onde a comuna de Paris governou por 72 dias no ano de 1871, e neste curto período acabou com os privilégios de classe, instituiu o ensino gratuito e obrigatório , além de promover a distribuição da renda em sistemas cooperativos.

Socialismo Científico  e “Socialismo” Soviético  – Antagonismos

Ao fim do século XIX, mais exatamente em 1885, na Conferência de Berlim, as principais nações européias dariam início a um processo conhecido como ‘imperialista’, ou também chamado neocolonialismo. Estas nações promoveram a Partilha da África,visando a exploração das riquezas naturais, e também, simultaneamente, buscaram por novos mercados consumidores em outras partes do globo, para expandir suas forças monopolistas e praticar suas políticas de cartelização internacional.

Foi neste contexto histórico que ocorreu a Primeira Grande Guerra Mundial, que durou de 1914 à 1918. Ela se deu devido ao revanchismo econômico e as rivalidades político-militares existentes entre as grandes potências mundiais, incluindo Alemanha, Itália, Japão, França, Império Turco-Otomano, EUA, Reino Unido e Rússia.

Em meio a esta guerra sem precedentes teria origem a primeira revolução de caráter socialista da história, a Revolução Russa, que ocorre em outubro de 1917.

Defendendo os lemas “pão , paz e terra” e “todo o poder aos sovietes” , os bolcheviques tomam o poder, assinam o tratado de Brest-Litovsk retirando -se da Primeira Grande Guerra e criam os conselhos populares com o objetivo de dar início as reformas sociais. Porém , a guerra civil permanece e só termina em 1921, quando o exército vermelho, comandado por Trótski, derrota o exército dos brancos, que é composto por czaristas e burgueses, que contavam com o apoio de franceses, britânicos, japoneses e norte-americanos.

Após a vitória bolchevique, a URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) é formada em 1922, e na seqüência surge o NEP – Nova Política Econômica, criada por Lênin, que viria a ser um misto de economia de mercado e projeto socialista, com objetivo de minimizar os problemas econômicos e sociais existentes. Este projeto permitiria a criação de empresas privadas e o comércio em pequena escala sob a supervisão constante do Estado, que permitia uma entrada limitada de capital externo.

Para Lênin, aplicada de modo justo, a NEP não apresentaria perigos para a Rússia Soviética, mesmo que esta política econômica promovesse um certo ressurgimento e um desenvolvimento de elementos capitalistas. De modo que para Lênin, a NEP já tinha auxiliado no nascimento de um setor socialista, representado por empresas estatais, ferrovias, bancos, frota marinha e fluvial; e em questão de mais tempo, promoveria um número maior de melhorias na economia soviética.

Porém com sua morte, em 1924, a economia soviética passa a adotar um novo rumo. Com a chegada de Stálin ao poder, a sociedade passa a ser burocrática, tecnocrática e difícil de ser classificada como capitalista ou socialista.

Bruno Rizzi, um dos fundadores do Partido Comunista Italiano (PCI), torna-se crítico do Partido Bolchevique; ele afirmava que na URSS era a “posse do Estado” que dava à burocracia a propriedade dos meios de produção, que era coletiva e não mais privada. Segundo Rizzi, a burocracia tem a força do Estado, que vale bem mais que as propriedades e os títulos jurídicos da burguesia. Este totalitarismo, constituía a tendência também dos fascismos e das próprias democracias burguesas.

Segundo o ex-trotskista Max Schachtman, o stalininismo é uma contra-revolução-integral, principalmente nas relações econômicas e sociais. Para Schachtman, esta burocracia tem de ser destituída por meio de uma revolução social.

Schachtman viria a ser um dos criadores do neoconservadorismo, que defende o Estado minimamente burocrático. James Burnham, outro ex-trotskista, acreditava que assim como na economia moderna, atuando como Managers, os burocratas tem o poder de dirigir o aparelho produtivo, por conseqüência, também a sociedade.

Outras correntes da época dirão que o bolchevismo vem a ser uma variante do desenvolvimento capitalista.

Três grandes teóricos marxistas do século XX : Karl Korsch, Anton Pannekoek e Otto Rühle entraram em contradição com o estatismo centralizador que Josef Stálin pôs em prática. Segundo eles, a política de Stálin era a realização de uma nova fase da história do capitalismo e da modernização burguesa.

Segundo Korsch, o marxismo russo nada mais foi do que um processo de desenvolvimento do capitalismo em meio a uma Rússia czarista feudal , ou seja, a revolução socialista visava aproximar-se de um capitalismo triunfante.

Já para o holandês Anton Pannekoek, a Rússia stalinista praticava um socialismo de estado, uma vez que o estado era o único empresário; e também praticava o capitalismo de estado, uma vez que os trabalhadores não são donos dos meios de produção e são objetos de uso.

Encerrando esta lista de teóricos marxistas que se mostraram contra este estatismo centralizador de Stálin está o alemão Otto Rühle. Ele acreditava que as tendências teóricas, tanto de Lênin, como de Stálin, levariam a um regime burguês para servir como primeiro modelo ao totalitarismo fascista. Para ele, a luta contra o fascismo deveria começar pela luta contra o bolchevismo.

Analisando o significado da palavra socialismo, os ideais defendidos por Marx e o governo que se instaurou na URSS com Stálin, podemos concluir que o imperialismo econômico estava mais enraizado na economia “socialista” do que se esperava.

Em suma, o Estado Soviético tinha o monopólio de todos os meios de produção, praticava cartel, ou seja, fixava preços e quotas de produção, e além disso, manipulava a grande massa trabalhadora da linha de produção até o discurso ideológico, sem contar as atrocidades as quais os opositores tinham de passar nos campos de trabalho forçado, na Sibéria.

Leon Trótski ( 1879 – 1940 )

russian_civil_war_1918-1920_leon_trotsky

Lev Davídovitch Bronstein nasce na Ucrânia, numa família de agricultores judeus.

Combate o regime czarista desde os 17 anos .

Preso em 1898, é deportado para a Sibéria.

Foge e exila-se em Londres, onde conhece Lênin.

Colabora no jornal Iskra e participa do POSDR.

Em 1905 retorna à Rússia e torna-se líder do soviete de São Petesburgo.

Deportado de novo para a Sibéria, foge para Viena , onde trabalha como jornalista até 1914.

Em 1917 volta para a Rússia.

Com a vitória bolchevique na revolução, passa a comissário das Relações Exteriores; depois, organiza o Exército Vermelho.

Por influência de Stálin – com quem disputa o poder após a morte de Lênin -, é expulso do partido e deportado em 1929.

Morre assassinado por ordem de Stálin, no México, em 1940.

assista aqui: Trótski e sua importância na consolidação da Revolução Russa – legendado em inglês e francês

Lênin ( 1870 – 1924 )

lenin

Vladímir Ilitch Ulianóv nasce em Sibirsk, atual Ulianovsk.

Forma-se em direito e muda-se para São Petesburgo, onde adota idéias marxistas, dedicando-se à propaganda do comunismo nos bairros proletários.

Em 1895 é preso e deportado para a Sibéria .

Cumprida a pena, parte com a esposa para a Suíça, em 1900, onde lança o jornal Iskra ( A Centelha ), sob o pseudônimo Lênin.

Em 1902 funda no exterior o Partido Operário Social-Democrata Russo ( POSDR ).

Em 1917 , quando o czar Nicolau II abdica, Lênin retorna à Rússia e lidera a oposição ao governo do moderado Aleksandr Kerenski, até a tomada do poder pelos bolcheviques.

Em 1922 forma a União Soviética.

Em 1923 sofre um derrame que o deixa paralítico.

Morre no ano seguinte.

assista aqui: Tributo à Lênin , imagens de sua trajetória , monumentos  em sua homenagem , ao som do Hino Soviético.

Fidel Castro (1927 – …. )

538px-fidel_castro_-_mats_terminal_washington_1959

Líder Comunista cubano, Fidel forma-se em direito.

Em 1953, após tentativa de golpe contra o ditador Fulgencio Batista, é condenado a 15 anos de prisão.

Anistiado em 1955, vai para o México, onde planeja retomar a guerrilha em Cuba.

Assume o poder em 1959, instalando um regime que, em 1961, se alinha ao bloco soviético.

Castro converte-se em um ditador, chefiando um regime que não permite a liberdade de expressão  nem a existência de outros partidos políticos além do Partido Comunista Cubano.

Com o colapso da União Soviética, em 1991, permite a entrada de empresas de capital estrangeiro para arejar a economia .

Com a ascensão de Hugo Chávez, na Venezuela, em 1998, ganha novo aliado.

Em 2006, transfere o poder pela primeira vez a seu irmão Raúl Castro por causa de problemas de saúde.

Em 2008, afasta-se de vez, mas segue influente.

assista aqui : o então deputado Jânio Quadros visita Cuba e encontra-se com Fidel (ano de 1959)


Ernesto Che Guevara (1928 – 1967)

che-havana

Guerrilheiro argentino, Ernesto Guevara de la Serna se forma em medicina em Buenos Aires .

Ainda estudante , em 1952 , faz uma viagem pela América do Sul.

Sensibilizado com a pobreza dos camponeses , inicia militância de esquerda.

Depois de formado , viaja por países da América Central , como a Guatemala , onde se casa e tem a primeira filha.

Instala-se no México e vive como professor e médico.

Lá , conhece Raúl Castro e depois Fidel Castro , aderindo ao grupo de revoluciónarios cubanos.

Chega em Cuba em 1956 e vira um dos líderes da revolução.

Afasta-se do poder para organizar ações de guerrilha pelo mundo.

Luta na África e, em 1967, na Bolívia , é morto por soldados.

Seu corpo desaparece por 30 anos.

Em 1997 é enterrado com honras em Cuba.

assista aqui: discurso de Che referente aos progressos sociais de Cuba , mesmo com o bloqueio econômico americano vigorando.

Federação Russa ( Rossíyskaya Federátsiya )

russia

moscou-russia

Palco da primeira revolução socialista da história , a Federação Russa é tradicionalmente chamada de Rússia , então república hegemônica da antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Desde o fim da Guerra Fria  , no início da década de  1990 , procura re-definir seu papel no cenário mundial e, ao mesmo tempo , solucionar os problemas internos decorrentes da transição do comunismo para o capitalismo. As máfias proliferam e o padrão de vida da população cai drasticamente. Movimentos nacionalistas ameaçam a unidade da federação , composta de cerca de 130 etnias. O mais conflituoso deles ocorre na Chechênia.

A Federação Russa é o país de maior extensão do mundo. Mais de 10 mil quilômetros e dez fusos horários separam São Petesburgo ,  no oeste , de Petropavlovsk , no extremo leste. Seu vasto território se espalha por dois continentes : Europa e Ásia. A parte européia  , delimitada pelos Montes Urais , reúne quatro quintos da população e as principais cidades. As planícies da Sibéria na porção asiática concentram as reservas minerais que fazem do país um dos líderes mundiais na produção de carvão , petróleo e gás natural.

—————————————————————————————————————————————————————————————————————English version

Stage of the first socialist revolution in history, the Russian Federation is traditionally called Russia, then hegemonic republic of the former Union of Soviet Socialist Republics (USSR). Since the end of the Cold War in the early 1990s, seeking re-define its role on the world stage and at the same time, solve the internal problems of the transition from communism to capitalism. The gangs proliferate and standard of living drops dramatically. Nationalist movements threaten the unity of the federation, composed of about 130 ethnic groups. The most contentious of them occur in Chechnya.

The Russian Federation is the country with the largest extension of the world. More than 10 thousand miles and ten time zones apart St. Petersburg in the west of Petropavlovsk, in the far east. Its vast territory stretches over two continents: Europe and Asia. The European leg, bounded by the Ural Mountains, meets four fifths of the population and major cities. The plains of Siberia in the Asian portion of concentrated mineral reserves that make the country a world leader in the production of coal, oil and natural gas.

FATOS RECENTES (2000 – … )

Em 2001 , Putin dá apoio à coalizão contra o terrorismo liderada pelos EUA e expressa o desejo de que a Federação Russa seja admitida na Otan. No ano seguninte , é criado em Roma o Conselho Otan-Federação Russa . O governo russo , com França e Alemanha, opõe-se no início de 2003 ao ataque anglo-americano ao Iraque.

assista aqui:

Controle do Gás e do Petróleo

Internamente , Putin procura recuperar a economia e reunir , sob o controle do governo , empresas que exploram os principais recursos energéticos do país. A Gazprom , companhia de gás natural que havia sido privatizada no governo de Iéltsin , passa a ter mais de 50% das ações em poder do Estado e passa a ser utilizada como uma arma de pressão contra países vizinhos e a União Européia(UE). O bloco europeu compra dos russos um quarto do gás que consome.

Há também uma ofensiva contra os chamados oligarcas – empresários que obtiveram altos lucros com as privatizações. Um dos casos mais rumorosos é o da Yukos , a segunda maior companhia petrolífera do país  , que tem dois dos seus principais executivos presos em 2003 , sob suspeita de crimes fiscais e fraudes. Eles são condenados em 2005 a nove anos de prisão. A principal subsidiária da Yukos tem seu controle acionário comprado por uma companhia estatal , a Rosneft. Ao definir esse objetivo estratégico de controle das matérias-primas do país , o governo não interfere , porém , nos demais setores da economia . A maior parte da indústria e dos serviços continua nas mãos da iniciativa privada.

Novo Mandato

Em 2004 , Vladimir Putin conquista novo mandato ao obter mais de 70% dos votos nas eleições. Uma série de atentados atinge o país durante o ano. Em setembro , ocorre o mais violento: a tomada de reféns em uma escola de Beslan ( Ossétia do Norte ) por rebeldes chechenos.

Conflitos externos

No início de 2006 , a Gazprom corta o fornecimento de gás a Ucrânia , exigindo aumento no preço pago pelo país vizinho. Um acordo viabiliza um valor intermediário , mas a polèmica coloca em alerta a União Européia. No mesmo ano , abre-se grave crise diplomática entre a Federação Russa e a Geórgia , quando o governo georgiano prende quatro militares russos sob a acusação de espionagem. Putin ordena a retirada de diplomatas , endurece a lei de imigração e expulsa georgianos de seu território. A Geórgia acusa a Federação Russa de pretender anexar a Abkházia e a Ossétia do Sul (territórios separatistas na Geórgia , onde há significativa população russa) . Os militares são soltos depois de alguns dias.

OMC

Após 13 anos de negociações , a Federação Russa chega a um acordo preliminar com os EUA para entrar na OMC (Organização Mundial do Comércio) . O estado russo é a única grande economia do mundo fora da instituição. Para que o ingresso seja formalizado , todos os membros da OMC tem de aprová-lo.

Escudo Antimísseis

Putin disfere pesadas críticas ,no decorrer de 2007, contra o plano norte-americano de instalar um sistema de escudos antimísseis na Europa do Leste. Os EUA pretendem utilizar uma estação de radares na República Tcheca e dez interceptadores de foguetes na Polônia . O objetivo oficial é a defesa contra possíveis ataques de mísseis do Irã e da Coréia do Norte. O governo russo, entretanto , dizsentir-se diretamente ameaçado pela colocação do sistema . Ameaça até mesmo apontar mísseis russos contra cidades da Europa , como forma de defesa. Analistas veem nessa postura a inquietação de Putin com o avanço dos EUA em regiões antes consideradas zonas de influência direta dos russos. O presidente suspende , a partir de dezembro , a participação da Federação Russa no Tratado de Forças Convencionais na Europa ( CFE , na sigla em inglês ), que regula o deslocamento de armas convencionais no continente europeu.

Eleições Parlamentares

Nas eleições parlamentares de dezembro de 2007 , o partido do presidente , Rússia Unida , obtém esmagadora vitória , com 64,3% dos votos . O partido comunista da Federação Russa obtém 11,6% e o Partido Liberal Democrático da Rússia , 8,1%. Em seguida , Putin indica como seu candidato a presidente , nas eleições de março de 2008 , o vice-primeiro-ministro Dmitri Medvedev.

Direitos Humanos

A Anistia Internacional divulga relatório , em fevereiro de 2008 , no qual afirma que aumentaram as restrições aos direitos civis e à liberdade de expressão durante o governo Putin. No mesmo mês , relatório da Human Rights Watch registra que há pressões do governo contra a oposição , as organizações de locais como a Chechênia e as entidades que documentam casos de violação dos direitos humanos.

Medvedev Presidente

Dmitri Medvedev é eleito presidente ,em março , com 70,3% dos votos . Seu principal oponente , o comunista Gennady Zyuganov , obtém 17,7%. Em maio , em seu último ato na Presidência , Putin assina decreto que regulamenta os investimentos estrangeiros no país. O texto lista 42 setores da economia – entre os quais a indústria de armamentos , aeroespacial e de telecomunicações – em que há restrições à participação externa. No mesmo mês , Medvedev toma posse como presidente e indica Putin como primeiro-ministro.

Guerra contra a Geórgia

Em agosto eclode sério conflito militar entre a Federação Russa e a Geórgia. A crise tem início depois que tropas georgianas atacam a república separatista da Ossétia do Sul. Os russos são aliados dos ossetas e mantêm ali , desde 1992 , tropas de paz.  A resposta russa é arrasadora : em menos de uma semana , retoma o controle da Ossétia do Sul e ocupa também a outra república separatista georgiana, a Abkházia , além de territórios da Geórgia em torno dessas duas regiões.

A ofensiva georgiana , ordenada pelo presidente Mikheil Saakashvili , é interpretada por analistas como uma tentativa de envolver diretamente a Otan e os  EUA ( aliados do governo da Geórgia) nas disputas com os russos. Não há , porém , envolvimento militar das nações ocidentais . A Otan , a UE e o governo norte-americano condenam de forma enérgica a ação russa , mas somente no campo diplomático. O conflito provoca 100 mil refugiados, segundo cálculos da ONU. Estima-se que haja centenas de mortos.

assista aqui:

O presidente francês , Nicolas Sarkozy , que ocupa a presidência da UE , negocia um acordo de cessar-fogo  , que põe fim a guerra. A Federação Russa , entretanto , mantém cerca de 8 mil soldados nas duas repúblicas separatistas. Em atitude que irrita os países da Otan e provoca o rompimento de relações por parte da Geórgia  , o governo russo reconhece a independência da Ossétia do Sul e da Abkházia. A medida é vista como resposta à declaração de independência de Kosovo , província da Sérvia  , que recebeu o apoio dos EUA  e da maioria da UE , e a forte oposição dos russos.

Crise Econômica

A crise econômica mundial atinge com força o mercado acionário russo.Entre setembro e outubro , quedas violentas dos preços de ações provocam diversas interrupções nas bolsas da Federação Russa. Um dos motivos centrais é o fato de que a economia do país tem como base matérias-primas , como o petróleo , cujos preços despencaram . O governo decide cortar impostos e conceder ajuda aos bancos , entre outras medidas para estancar a crise.

mais informações aqui: https://www.cia.gov/library/publications/the-world-factbook/geos/rs.html