Imperialismo Econômico e Economia Socialista : faces da mesma moeda ? – Por Moacir Pereira Alencar Junior

Este artigo visa fazer uma síntese entre duas correntes de pensamento socioeconômico que foram estudadas por muitos teóricos na história :

  • o Socialismo, conjunto de doutrinas que se propõem a promover o bem comum pela transformação da sociedade e das relações entre as classes sociais, mediante a alteração do regime de propriedade, e

  • o Imperialismo, política de expansão e domínio territorial e/ ou econômico de uma nação sobre outras, que nas últimas décadas do século XX passou a também ser definida como Neoliberalismo. Sendo o Neoliberalismo uma doutrina que favorece uma redução do papel do estado na esfera econômica.

Introdução

O socialismo nasce em um período da história, século XIX, em oposição as idéias liberais e a expansão do capitalismo. Sendo a Revolução Industrial um dos principais fatos por ele discutido, uma vez que a revolução industrial provoca efeitos sociais irreversíveis.

Em seu primeiro momento, surge como um ideal, mas depois passa a ser visto como uma necessidade considerada histórica, que origina-se da crise do capitalismo. Esta corrente de pensamento baseia-se na análise da sociedade do século XIX, que de certa forma é eminentemente capitalista.

Para Karl Marx, o principal teórico do socialismo, o modo de produção capitalista determina as relações sociais ; relações estas que ele considera em sua obra “O Capital” como sendo desumanas, onde os trabalhadores são meros objetos de uso e são os únicos responsáveis por gerar toda a riqueza existente.

Porém esta sociedade que viveria em coletivismo, sem divisão de classes e sem a existência de um estado repressor , segundo Marx; não encontrou meios de se firmar em nenhuma nação, com exceção à França, onde a comuna de Paris governou por 72 dias no ano de 1871, e neste curto período acabou com os privilégios de classe, instituiu o ensino gratuito e obrigatório , além de promover a distribuição da renda em sistemas cooperativos.

Socialismo Científico  e “Socialismo” Soviético  – Antagonismos

Ao fim do século XIX, mais exatamente em 1885, na Conferência de Berlim, as principais nações européias dariam início a um processo conhecido como ‘imperialista’, ou também chamado neocolonialismo. Estas nações promoveram a Partilha da África,visando a exploração das riquezas naturais, e também, simultaneamente, buscaram por novos mercados consumidores em outras partes do globo, para expandir suas forças monopolistas e praticar suas políticas de cartelização internacional.

Foi neste contexto histórico que ocorreu a Primeira Grande Guerra Mundial, que durou de 1914 à 1918. Ela se deu devido ao revanchismo econômico e as rivalidades político-militares existentes entre as grandes potências mundiais, incluindo Alemanha, Itália, Japão, França, Império Turco-Otomano, EUA, Reino Unido e Rússia.

Em meio a esta guerra sem precedentes teria origem a primeira revolução de caráter socialista da história, a Revolução Russa, que ocorre em outubro de 1917.

Defendendo os lemas “pão , paz e terra” e “todo o poder aos sovietes” , os bolcheviques tomam o poder, assinam o tratado de Brest-Litovsk retirando -se da Primeira Grande Guerra e criam os conselhos populares com o objetivo de dar início as reformas sociais. Porém , a guerra civil permanece e só termina em 1921, quando o exército vermelho, comandado por Trótski, derrota o exército dos brancos, que é composto por czaristas e burgueses, que contavam com o apoio de franceses, britânicos, japoneses e norte-americanos.

Após a vitória bolchevique, a URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) é formada em 1922, e na seqüência surge o NEP – Nova Política Econômica, criada por Lênin, que viria a ser um misto de economia de mercado e projeto socialista, com objetivo de minimizar os problemas econômicos e sociais existentes. Este projeto permitiria a criação de empresas privadas e o comércio em pequena escala sob a supervisão constante do Estado, que permitia uma entrada limitada de capital externo.

Para Lênin, aplicada de modo justo, a NEP não apresentaria perigos para a Rússia Soviética, mesmo que esta política econômica promovesse um certo ressurgimento e um desenvolvimento de elementos capitalistas. De modo que para Lênin, a NEP já tinha auxiliado no nascimento de um setor socialista, representado por empresas estatais, ferrovias, bancos, frota marinha e fluvial; e em questão de mais tempo, promoveria um número maior de melhorias na economia soviética.

Porém com sua morte, em 1924, a economia soviética passa a adotar um novo rumo. Com a chegada de Stálin ao poder, a sociedade passa a ser burocrática, tecnocrática e difícil de ser classificada como capitalista ou socialista.

Bruno Rizzi, um dos fundadores do Partido Comunista Italiano (PCI), torna-se crítico do Partido Bolchevique; ele afirmava que na URSS era a “posse do Estado” que dava à burocracia a propriedade dos meios de produção, que era coletiva e não mais privada. Segundo Rizzi, a burocracia tem a força do Estado, que vale bem mais que as propriedades e os títulos jurídicos da burguesia. Este totalitarismo, constituía a tendência também dos fascismos e das próprias democracias burguesas.

Segundo o ex-trotskista Max Schachtman, o stalininismo é uma contra-revolução-integral, principalmente nas relações econômicas e sociais. Para Schachtman, esta burocracia tem de ser destituída por meio de uma revolução social.

Schachtman viria a ser um dos criadores do neoconservadorismo, que defende o Estado minimamente burocrático. James Burnham, outro ex-trotskista, acreditava que assim como na economia moderna, atuando como Managers, os burocratas tem o poder de dirigir o aparelho produtivo, por conseqüência, também a sociedade.

Outras correntes da época dirão que o bolchevismo vem a ser uma variante do desenvolvimento capitalista.

Três grandes teóricos marxistas do século XX : Karl Korsch, Anton Pannekoek e Otto Rühle entraram em contradição com o estatismo centralizador que Josef Stálin pôs em prática. Segundo eles, a política de Stálin era a realização de uma nova fase da história do capitalismo e da modernização burguesa.

Segundo Korsch, o marxismo russo nada mais foi do que um processo de desenvolvimento do capitalismo em meio a uma Rússia czarista feudal , ou seja, a revolução socialista visava aproximar-se de um capitalismo triunfante.

Já para o holandês Anton Pannekoek, a Rússia stalinista praticava um socialismo de estado, uma vez que o estado era o único empresário; e também praticava o capitalismo de estado, uma vez que os trabalhadores não são donos dos meios de produção e são objetos de uso.

Encerrando esta lista de teóricos marxistas que se mostraram contra este estatismo centralizador de Stálin está o alemão Otto Rühle. Ele acreditava que as tendências teóricas, tanto de Lênin, como de Stálin, levariam a um regime burguês para servir como primeiro modelo ao totalitarismo fascista. Para ele, a luta contra o fascismo deveria começar pela luta contra o bolchevismo.

Analisando o significado da palavra socialismo, os ideais defendidos por Marx e o governo que se instaurou na URSS com Stálin, podemos concluir que o imperialismo econômico estava mais enraizado na economia “socialista” do que se esperava.

Em suma, o Estado Soviético tinha o monopólio de todos os meios de produção, praticava cartel, ou seja, fixava preços e quotas de produção, e além disso, manipulava a grande massa trabalhadora da linha de produção até o discurso ideológico, sem contar as atrocidades as quais os opositores tinham de passar nos campos de trabalho forçado, na Sibéria.

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Alteridades: Para diferentes culturas, há diferentes racionalidades ? – Por Moacir Pereira Alencar Junior

Este artigo busca fazer uma síntese de 4 obras :

  • o livroA conquista da América : a questão do outro”, do linguista búlgaro Tzvetan Todorov,

  • o filme O homem que queria ser rei”, baseado no livro do poeta indo-britânico Rudyard Kipling,

  • o livro “Raça e História”, do antropólogo francês Claude Lévi-Strauss,

  • e do livro Como pensam os nativos : sobre o Capitão Cook, por exemplo”, do antropólogo americano Marshall Sahlins.

Introdução

O homem sempre buscou estudar as diferenças sociais e culturais a partir de fatores históricos e aspectos coletivos. Com o passar dos séculos, o homem foi promovendo aprimorações na forma de avaliar, classificar e definir uma cultura, processo este que veio a originar a Antropologia.

A partir destas obras podemos ter uma breve idéia do desenvolvimento do pensamento do homem civilizado (o europeu) no decorrer dos séculos. Os habitantes do Velho Mundo passaram a enxergar melhor as diferenças extraculturais.

Alteridades – ‘diferenças culturais em questão’

Na obra de Todorov, que retrata os século XV e XVI, assistimos ao encontro de duas civilizações, com estilos de vida plenamente diferentes: os europeus, representado pelos espanhóis, que vivem em meio a uma sociedade desenvolvida que passa por um grande processo de expansão ultramarino e apresenta relativo desenvolvimento econômico e social, e os astecas (civilização até então desconhecida, que estava adaptada a um modelo de vida extremamente diferente no aspecto sociocultural).

Neste período da história, a inexistência de leis morais similares para regulamentar o comportamento destes dois povos fez com que uma barbárie fosse o desfecho desta relação extracultural. O mais forte, no caso os europeus, impuseram sua superioridade por meio de um massacre sem precedentes.

Não se poderia destruir uma raça humana daquela maneira, sem respeito às leis de humanidade.

Com o avanço do colonialismo (durante os séculos XV e XIX ) e do neocolonialismo (que ocorre nos séculos XIX e XX), as relações ente o homem civilizado e o homem primitivo passaram a se dar com maior freqüência, porém os colonizadores impunham suas formas de vida aos colonizados. Em nenhum momento a diversidade cultural dos povos primitivos foi respeitada.

Um exemplo é o filme de Rudyard Kipling, que retrata a tentativa de oficiais do Exército Britânico de conquistar a região do Kafiristão, território que ficou sob tutela inglesa durante o fim do século XIX e início do século XX, que hoje é uma região entre as montanhas de Hindukush no Afeganistão.

Um dos oficiais britânicos (Danny), se aproveita das lacunas existentes na cultura do povo kafiristanês e se passa por Deus, sendo entronizado e classificado pelo povo como uma divindade. Porém a farsa é desvendada e os oficiais britânicos são mortos. Mais um exemplo de relação entre colonizado e colonizador que termina de forma abrupta, a intolerância entre os povos volta a prevalecer.

A partir do séculos XIX e XX, com os primeiros processos de independência na América, na Ásia e na África passamos a assistir um processo de maior tolerância entre povos.

No século XIX, Gobineau, um filósofo francês, fez um estudo sobre a teoria das raças; para ele a miscigenação racial faria com que as raças perdessem suas qualidades próprias e ancestrais. Para ele, a raça prevalecia frente à cultura.

Porém, Segundo Lévi-Strauss, em sua obra ‘Raça e História’, há muito mais culturas humanas que raças humanas, homens pertencentes a mesma raça podem diferir plenamente. Continuando com seus pensamentos, Lévi-Strauss considera que há sociedades contemporâneas, umas próximas, outras afastadas, justapostas no espaço.

Merece ser destacado o Etnocentrismo – um conceito antropológico onde um grupo é considerado como parâmetro (centro) para determinar as relações entre os povos.

A partir desse conceito o ‘outroé considerado anti-natural, estranho e atrasado. Este conceito traz a tona o choque entre culturas, onde o outro passa a ser uma ameaça a identidade do grupo central, e isto faz com que o grupo central busque reforçar ainda mais sua identidade.

Vale ser citada uma corrente ideológica que nega o etnocentrismo, é o chamado relativismo cultural. Esta ideologia defende que o bem e o mal, o certo e o errado, e outras categorias de valores são relativos a cada cultura.

Em determinados momentos, Lévi-Strauss apresenta pensamentos que oscilam entre o etnocentrismo e o relativismo cultural. Quando ele divide a história das culturas em estacionárias e cumulativas, acaba defendendo que uma cultura é cumulativa porque se desenvolve num sentido análogo ao de sua civilização, portanto, ele acaba se julgando uma pessoa superior a de ‘outras’ culturas.

Porém, Lévi-Strauss crê que a chamada história estacionária não é uma história não-cumulativa, na essência toda história é cumulativa, com diferenças de grau, podendo ser mensurada conforme o contexto histórico de cada cultura. Nesta conclusão ele demonstra sua visão relativista.

Graças a esta oscilação entre etnocentrismo e relativismo, Lévi-Strauss considera um absurdo declarar uma cultura superior à outra. Nenhuma cultura está só, ela é sempre dada em coligação com outras culturas, ou seja, para Lévi-Strauss só pode haver exploração no seio da coligação.

Apesar de existir uma maior tolerância entre culturas na atualidade, ao menos no papel, por meio de leis que visam a igualdade para todo indivíduo, nós vivemos em meio a crises de intolerância sociocultural.

A imparcialidade ainda esta longe de ser atingida nestas 4 obras que envolvem a antropologia.

Isto fica claro na obra de Marshall Sahlins : ‘Como pensam os nativos : sobre o Capitão Cook , por exemplo’ , onde o norte-americano trava algumas discussões conceituais com o antropólogo cingalês Obeyesekere.

O relativismo cultural ganha grande importância neste embate ideológico de antropólogos que tem origens distintas. Apesar de cingalês, Obeyesekere leciona nos EUA, na Universidade de Princeton, onde estudou com rigor a cultura de seu país, o Sri Lanka, nação subdesenvolvida asiática que foi protetorado britânico entre 1833 e 1948.

Marshall Sahlins, norte-americano, conclui em seu livro que ele é visto como alguém que compete favoravelmente com James Cook pelo título de principal vilão da obra de Obeyesekere, “A apoteose do Capitão Cook”.

Marshall Sahlins, em 1988, atribui a idéia de que a história é governada pela reprodução impensada de códigos culturais.

Sahlins crê que quando James Cook chegou ao Havaí , foi recepcionado como um ser divino, o Deus Lono. Segundo Sahlins, isto se dá devido a um mito de inspiração ocidental, promovido em grande parte por missionários cristãos e seus principais convertidos após 1820.

As divergências de Sahlins para Obeyesekere surgem nesta busca por respostas sobre o verdadeiro comportamento do povo havaiano frente ao navegador britânico James Cook e sua tripulação. Obeyesekere, segundo Sahlins, crê que os havaianos adotaram uma postura mais racional ao recepcionar Cook, visando a buscar um parceiro, porque não dizer, comercial e militar.

Buscando um equilíbrio nas informações aqui dadas, enviei um e-mail a Obeyesekere, que foi respondido por ele no dia 26 de abril de 2009 , no qual ele me disse:


Eu aconselho você a evitar o binário ou as distinções das oposições. Não há necessariamente uma diferença radical entre universalismo e particularidade ou relativismo e universalismo. Como o poeta William Blake disse: fora de uma essência, nós podemos ter múltiplas diferenças.”

clique abaixo para ver a resposta do e-mail:gananath-obeyesekere

Este antagonismo de pensamentos e conceitos antropológicos entre Sahlins e Obeyesekere levanta uma questão muito interessante:

Há antietnocentrismo e antiantropologia sendo praticada na obra de um desses autores ?

Creio que ao tomarmos partido por um dos escritores, estamos ignorando a existência de uma segunda hipótese, discutível, e que apresenta, de certa forma, uma visão que não pode ser considerada como sendo contra a particularidade cultural de um povo.

Apenas provar que um esta certo e outro esta errado, seria, de certa maneira, um comportamento destrutivo, que não vem a somar conhecimento e informações históricas baseadas em visões diferentes de mundo.

Afinal, em diferentes culturas, há diferentes racionalidades.

Assim como pode haver mesmas racionalidades em diferentes culturas.

Em suma, o que se define como intolerante para um “povo” , pode ser o que há de mais tolerável para um “outro povo”.