O MARXISMO NA FILOSOFIA DE LINGUAGEM: “A infra-estrutura como determinante de uma boa superestrutura.” – por Moacir Pereira Alencar Junior

Este artigo busca fazer uma síntese do:

  • Capítulo 2 da Obra “Marxismo e Filosofia de Linguagem”- do filósofo russo Mikhail Bakhtin (1895 – 1975), que tem como título :

“A relação sobre a infra-estrutura e as superestruturas.”

  • Além de tentar demonstrar o papel da infra-estrutura nas superestruturas da atualidade.

Introdução

No século XIX , Karl Marx (1818-1883) daria origem ao materialismo histórico, que foi proposto pela primeira vez em “A ideologia alemã ”, no ano de 1847, e que viria a ser corporificado no ano seguinte com o “Manifesto do Partido Comunista”. Deste modo, Marx tentava defender abertamente uma visão de mundo e um programa de caráter político que buscava romper com as fantasias, segredos e conspirações das organizações sociais vigentes.

Marxismo segundo Marx

Para Marx, em “A produção da Consciência”, a emancipação do indivíduo se dava na medida que a História se transformasse completamente em História Universal. A verdadeira riqueza espiritual do mundo, segundo Marx, dependeria plenamente da riqueza de suas relações reais, ou seja, todos os indivíduos teriam condições de adquirir uma capacidade de usufruir de toda a produção universal em todas as esferas do conhecimento. Porém a dependência universal fazia com que a sociedade fosse vista na qualidade de sujeito, como algo subjugado , dependente de diversos fatores. Um indivíduo único realizava o mistério de gerar a si mesmo. Porém, os indivíduos criavam-se ‘uns aos outros’ no ponto de vista físico e espiritual , mas não criavam-se a si próprios ( homem feito “ele” próprio ).

Ciência e Ideologia

Karl Marx imaginava que não havia como tentar dissociar a ciência da ideologia , pois para ele , ideologia fazia parte da ciência. Segundo ele, ciência só é ciência porque explica os objetos tais como eles são, porém o conhecimento não poderia ser considerado como sendo neutro, já a política era determinada pela luta de classes.

Mikhail Bakhtin e o Marxismo segundo uma filosofia de linguagem

Bakhtin defende que tudo que é ideológico possui um significado e remete a algo situado fora de si mesmo. Ou seja , Bakhtin crê que tudo que é ideológico é um signo , sendo que o domínio dos signos é a esfera ideológica.

Bakhtin também ressalta que a consciência individual não é o arquiteto das superestruturas ideológicas , mas apenas um dos inquilinos da edificação social dos signos ideológicos. Por conseqüência , a materialização da comunicação obedece a uma idéia na qual o “todo será sempre maior do que a soma das partes associadas”. E nesta filosofia de linguagem ,a palavra será a protagonista , o fenômeno ideológico por excelência.

O material privilegiado da comunicação na vida cotidiana é a palavra. A palavra acompanha e comenta todo ato ideológico,ela está presente em todos os atos de compreensão e em todos os atos de interpretação.

É graças a palavra que a consciência desenvolve-se de modo flexibilizador e passível de expansão. A palavra é capaz de registrar de modo único as fases transitórias mais íntimas e mais efêmeras das mudanças sociais.

Partindo de um ponto de vista sócio-interacionista podemos destacar milhares de processos de relações sociais que vêem se marcados pelo horizonte social de uma época e de um grupo social pré-estabelecido ou determinado.

Buscando analisar a filosofia de linguagem em nosso contexto atual segundo uma ótica marxista, com sua metodologia estruturada na dialética, com ênfase nas contradições internas e na mutação constante de um determinado grupo social ou conteúdo, buscarei retratar um exemplo sócio-interacionista de nossa atualidade para melhor destacar as funções das infra-estruturas e das superestruturas em nosso cotidiano.

Como a infra-estrutura pode impedir o funcionamento de uma superestrutura? – Um exemplo nas relações sociais.

A infra-estrutura de um a corporação capitalista precisa estar totalmente sustentada em um tripé que tem como bases: a intensificação do trabalho, a produtividade e a economicidade.

Apenas o processo de intensificação do trabalho não é sinal de garantia de sucesso para o empreendimento do capitalista. O processo de intensificação do trabalho pode ser desgastante para o funcionário, que ao trabalhar extra e produzir a mais-valia não necessariamente manterá a mesma qualidade em produzir na linha de montagem, lembrando que, cada funcionário exerce um papel específico na linha de montagem, sendo que, uma falha individual desencadeará danos em toda a superestrutura da corporação, já que a produtividade é comprometida e acarreta uma perda de capital cumulativo, ou seja, ocorre uma reação em cadeia negativa, de grandes proporções.

Outro exemplo, que pode ser considerado quase impraticável na realidade, é quando o capitalista passa a ter a intensificação do trabalho de seus funcionários de certa maneira tão custosa, que torna-se inviável manter a dada metodologia de trabalho praticada, já que a economicidade acaba sendo excluída do tripé que determina o bem-estar do sistema ( funcionamento pleno da superestrutura ).

A realidade ( infra-estrutura ) neste exemplo, busca determinar o signo, e este signo reflete e refrata a realidade em transformação. Merece ser destacado que este signo, só originará uma superestrutura quando o bem-estar do sistema vigorar por excelência; e quando vigorar , a realidade não corresponderá a toda infra-estrutura (intensificação do trabalho, produtividade, economicidade) , mas sim a soma de cada uma das bases de sustentação da corporação capitalista associadas, ou seja:

  • infra-estrutura = (1)+(1)+(1) = 3
  • superestrutura = (1+1+1) > 3

Conclusões

Baseando se na idéia bakhtiniana de que o estudo do signo lingüístico permite observar de maneira mais fácil e de forma mais profunda a continuidade do processo dialético de evolução que vai da infra-estrutura às superestruturas, pode-se concluir que cada signo constituído possui seu tema , ou seja, uma funcionalidade vital. Sendo que, o todo existe nas suas partes, mas uma parte só é compreensível no todo.

Neste contexto podemos concluir que a palavra é neutra em relação a qualquer tipo de função ideológica específica, conforme dizia Bakhtin. Ela tem o poder de preencher qualquer espécie das funções das idéias; tanto na estética , na ciência , na moral , como na religião.

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Karl Heinrich Marx ( 1818 – 1883 )

KARL MARX

Filósofo alemão , foi autor de vários conceitos que fundamentaram a ideologia socialista – comunista do século XX.

Nasceu em Trier , filho de familia judia, e estudou filosofia nas Universidades de Berlim e Jena.

Em 1842 chefiou a redação do jornal Nova Gazeta Renana em Colônia, no qual escreveu artigos considerados radicais em defesa da democracia. Mudou-se para Paris em 1844 e lá conheceu Friedrich Engels.

Em 1848 publicou o Manifesto do Partido Comunista ,em parceria com Engels , em que defende a solidariedade entre os trabalhadores na busca de sua emancipação política e social .O documento defende uma revolução de caráter internacional que leve a burguesia e o capitalismo ao declínio , podendo assim implantar o comunismo.

A divulgação do manifesto provoca sua expulsão de Paris. Mudou-se para Londres, onde estuda história e economia , escreve artigos na imprensa e ajuda a fundar a Primeira Internacional dos Trabalhadores, que reúne partidos de esquerda de diversos países.

Em 1867 publica o primeiro volume de “ O Capital “, na qual expõe os seus conceitos ( chamados marxistas ) , como a teoria do valor , a da mais-valia e da acumulação do capital. Os outros volumes da mesma obra só são conhecidos após sua morte.