O inferno somos nós – por Moacir Pereira Alencar Júnior

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A máxima de Jean Paul Sartre: “O inferno são os outros”, nunca teve tanta significância como agora para tratar da análise de um partido político e toda sua trajetória histórica. Em pouco mais de 35 anos de história, o PT sempre colocava-se como uma vanguarda do seu tempo no campo ético e moral. Ainda no regime militar gostava de se colocar como um partido acima dos demais, irretocável e onipotente. Durante o Regime militar o petismo seria a consagração e o caminho do céu. Findo o regime militar, o partido continuou em sua sanha de se colocar como porta-voz único do povo contra as “amarras imperialistas e ferozes do capitalismo”. Após termos Sarney, Collor, Itamar e FHC como presidentes, esta visão de mundo ainda era a definição de ação e de pensar do petismo…”O inferno são os outros”. Após a chegada de Lula no poder, parecia ter se iniciado o Anno Domini….o “salvador da Pátria” tinha alcançado à presidência da república. Após 8 anos de governo que combatia agora o “inferno oposicionista” tudo eram louros e glória. O “Messias” com popularidade inabalável iria fazer uma “discípula” levar adiante o legado do reino de “Deus na Terra” ;reino este que já aparentava apresentar desvios de conduta no campo ético e moral e também no campo econômico, todavia sabia fazer os “fiéis” sedentos e “vislumbrados” pelo poder do salvador a confiar em sua prédica. Com sua discípula, a prédica permaneceu a mesma, mas a realidade do país passava a ser outra, e cada vez mais esta pregação ganhava sentido de “charlatanismo”. Abalos éticos e morais graves atingiram a Torre de Babel do Império, império de “fiéis parnasianos”, que não enxergavam mais que a máxima de Jean Paul Sartre tinha se alterado em sua essência. O inferno não era os outros, e buscar encontrar no outro seu problema não era mais cabível de exemplo explicativo para a realidade apavorante e decadente na qual o império se prostrava. Agora “o inferno somos nós” passava a reger a vida do “ex salvador da pátria”. Nunca antes na história deste país o inferno era a representação fidedigna do “Messias”… Ora, agora “o inferno somos nós”.

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O debate dos presidenciáveis e o “fascismo” meritocrático – por Moacir Pereira Alencar Júnior

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Neste ano de 2014, mais exatamente após os dois debates dos presidenciáveis, constatei que a política brasileira morreu, melhor, a própria classe política matou a política. Sou jovem, cientista político, 30 anos de vida…nunca presenciei uma campanha política pautada na mais vergonhosa sujeira e imoralidade…Descobri que meu país morreu junto com a política atual…De 1994 até hoje, portanto passados 20 anos, nunca se presenciou debates de presidenciáveis tão horrendos e desestimulantes para nossa democracia brasileira.

Lembro de FHC vs LULA em 1994 e 1998…Debates pautados por incrível que pareça em projetos de Brasil, metas programáticas…lembro perfeitamente de 2002, Serra vs Lula, e de 2006/2010, Alckmin vs Lula e Serra vs Dilma, respectivamente. A corrupção sistemática que assola o país sempre teve vez e espaço, entretanto ocupava algo em torno de 15% a 20% das discussões. Os partidos apresentavam metas de Brasil, eram incipientes e mal versadas perante ao público, mas existiam, ao menos na retórica de cada líder. Em 2014, ao chegarmos perto dos 30 anos do fim do regime militar, vemos um cenário catastrófico para todo amante de valores democráticos e que primam pela defesa das instituições.

Os Donos do Poder há 12 anos no Palácio do Planalto se encontram pela primeira vez correndo um verdadeiro risco de perderem o cetro e o trono. Como sabido, instrumentalizaram todo o aparato estatal, das fundações públicas, como as universidades federais, as grandes estatais, que se tornaram respectivamente doutrinadoras e máquinas de arregimentação de capital para a perpetuação dos mesmos no poder. Audiências públicas nada republicanas ocorrem e são organizadas nas instituições de ensino superior federais pregando o medo, a defesa ensandecida de um projeto hegemônico de poder que literalmente prega o ódio de classes, vicejando e defendendo abertamente que o PSDB representa o racismo, o genocídio, a defesa da casa grande e senzala, a representação do que há de mais degradante ao processo “democrático” que defendem.

Desde sempre fui abertamente crítico ao atual governo, nunca escondi isso na UFSCar…Em 9 anos e meio nesta instituição sempre fui conectado ao que sempre foi chamado pela intelligentsia da instituição o “lado negro da força”.  Sempre fui oposição ao PT em várias questões que perpassavam pelo modus operandi com o qual trabalhavam, principalmente na área de ciências humanas…Onde por opção escolhi por viver numa espécie de exílio acadêmico “democrático”, onde o silêncio em boa parte dos momentos, foi a opção pelo não debate em certos eventos; era a escolha mais racional a se fazer pelo bem-estar mental e pela boa relação no métier discente-docente – eu tentava me autocontrolar, mas sempre acabava demarcando terreno e ganhando desafetos ou admiradores.

Nunca vi nestas instituições, palestras e debates que proporcionassem a vinda de alguém que não fosse da linhagem dos Donos do Poder. Me acostumei com isso, mesmo sabendo que em uma democracia o certo não seria eu aceitar com conformismo isto. E hoje, infelizmente, vejo que parece que isso nunca existirá nas instituições de ensino superior federais do Brasil por muito tempo, já que em 12 anos a ideia “fascista” do mérito deu lugar a ideia do Estado que tudo faz e pensa pelo cidadão, do homem da rua ao bolsista do doutorado, que estuda a política do governo e produz um panfleto oficial das benesses daquele programa para sua classe social, seu grupo, sua ong, sua tribo. Alguns jovens universitários, por medo e baixa estima, reconhecem em si um incompleto e incapacitado, veem no Estado sua sobrevivência acadêmica e seu ingresso neste universo, não enxergando seus valores e dotes intelectuais existentes, logo, o Estado e o PT, que são indissociáveis pra este jovem, tornam-se tábua de salvação. (Lembrando que neste artigo não está sendo debatido a relevância e importância de programas sociais voltados para setores desfavorecidos da sociedade, caso do Bolsa-família como política de Estado, e não de um partido político).

Por mais ridículo que pareça, alguns destes jovens temerosos vivem a esbravejar que as universidades federais serão privatizadas pelos “satãs” tucanos…Como se USP, UNESP, UNICAMP e as FATECs por 20 anos geridas pelo PSDB tivessem sido privatizadas em São Paulo e em outros estados do país. O Petismo de Estado produz na atual intelectualidade incipiente (ainda nas carteiras das universidades) um atroz discurso antidemocrático e de criminalização das oposições. Parte desta juventude que ingressa nestas instituições foram domesticadas pela ideia de um Estado Babá que o colocou dentro da universidade, e fará dele um futuro graduado, mestre ou doutor…cabem a este jovem apenas beijar à mão da dirigente do país por essa “conquista” tutelada pelo Estado, e a ele nada cabe, a não ser cortejar a presidenta. A obrigação do Estado, passa a ser interpretada como um presente do Estado ao jovem universitário ingressante. Voltando a morte da política, digo, o debate dos presidenciáveis….mais quatro anos com os donos do poder representará não apenas a morte consumada da política, será a consagração da morte da dissidência sadia no ambiente acadêmico, será a dificuldade de dissidência eternizada com ou sem eles no poder por um período a perder de vista. Uma vez que o “fascismo” meritocrático acabou, e com ele também estará fadado a morte os “criminosos” de oposição, “genocidas” antipetistas, “racistas”, e outros “monstros”, que querem mudar o Brasil democraticamente pela via do voto para mudar o país.

Teste de pragmatismo – entrevista Estadão com Carlos Guilherme Mota (13/10/2013)

Neopopulismo dá espaço a uma opção ‘sonhática’ mais razoável

Carlos Guilherme Mota

Carlos Guilherme Mota

Indeferida, Marina Silva enganchou sua rede no PSB. E agora estão todos a especular se Eduardo Campos continua no topo da chapa ou se entregará a vaga de presidenciável à nova parceira. Na cabeceira da mesa da sala, Carlos Guilherme Mota sorve o café feito por ele. Diz que parece um café turco, porque consegue ver o pó no fundo. Mas não parece preocupado em ler a sina de uma aliança que chacoalhou o cenário político brasileiro. Está mais ansioso por perfilar os personagens em cena e levantar uniões que pouco contribuíram para modernizar a sociedade brasileira. “Vivemos um clima de barbárie, com as categorias sociais embrulhadas num vazio mental.”

No verso de uma folha, o historiador tica o que deseja pontuar: grã-burguesia deseducada, partidos sem ideologia, nacional-desenvolvimentismo precário, crise do regime democrático. Traça setas, liga uma coisa a outra, num raciocínio enciclopédico sapecado de referências. No verso do papel, ele circula um trecho da quarta edição de História do Brasil – Uma Interpretação, que assina com a mulher, Adriana Lopez. A nova versão, atualizada, sai em julho pela Editora 34. Carlos Guilherme quase entrega o unhappy end. Tem a ver com o fim de um ciclo histórico após a visita de Lula a Maluf durante a campanha de Fernando Haddad para a Prefeitura de São Paulo, algo envolvendo “república de coalizões estapafúrdias”. Depois daquele encontro, escreve ele, ficaram para trás as esperanças de efetiva e sólida renovação político-social. Já sobre o enlace Marina-Campos, o historiador quer abrir um capítulo. Na entrevista a seguir, feita no seu apartamento na Oscar Freire, “nossa 5ª Avenida com casa grande e senzala”, ele arrisca os primeiros parágrafos.

A aliança de Marina Silva com Eduardo Campos foi chamada de ‘golpe de mestre’. O senhor concorda com essa avaliação?

CARLOS GUILHERME MOTA – Marina não me parece ter uma biografia ligada a golpes. Não faz parte do perfil e da trajetória dela. E não estou seguro se caberia na de Eduardo Campos, porque ele tem uma genealogia respeitável. Ninguém é neto de Miguel Arraes impunemente, assim como ninguém é neto de Tancredo Neves impunemente. Então respeite-se a visão avoenga da história. No caso da Marina, ela foi braço direito, cria, amiga e interlocutora de Chico Mendes. Ou seja, descarto essa hipótese do golpe.

Como chamaríamos então essa aproximação surpreendente?

CARLOS GUILHERME MOTA – Vivemos e assistimos à crise de um regime em que as parcerias fazem parte do jogo político. Elas se dão num patamar inesperado, mas são, do ponto de vista histórico, bastante apreciáveis. Marina tem a tradição de movimentar e pensar as classes populares. Campos esboça contornos de projeto nacional – e que não vem dele apenas. Ele está num Estado importante, fala da principal capital do Nordeste, cuja tradição histórica vem de 1817, 1818, 1824, 1848, depois a Revolução de 30, depois todo o movimento das ligas camponesas. Vem de um clima histórico-cultural que, além de Jarbas Vasconcelos, contou com seu avô, mas também com Gregório Bezerra. Enfim, ele sabe que tem história embaixo dele, com a qual não precisa concordar nem a ela aderir. E ele também tem interlocutores, alguns deles pernambucanos de muito valor, como Roberto Freire, afora sua circulação bem razoável no meio empresarial, inclusive em São Paulo.

Mas quem vai encabeçar a chapa para presidente no ano que vem? Um aceitaria o outro encabeçando?

CARLOS GUILHERME MOTA – Falar em rixa nessa altura, uma semana depois do anúncio da aliança, acho que fica um pouco absurdo. Eles estão numa aposta. O que vai acontecer, nenhum dos dois sabe, nem nós. Eu poderia ter imaginado dificuldades no relacionamento entre Collor e Itamar, por exemplo. Ou entre Serra e Índio da Costa. Quando falamos de junções, acho que o Serra fez um programa de índio de fato, e depois fica perguntando por que não deu certo. O Tancredo com o Sarney, outra junção estranha. O Lula procurando o Maluf na casa de Maluf, não o Maluf na casa de Lula. E Fernando Henrique com o Marco Maciel, um professor de direito civil com certa compostura, que não se exporia a ser vaiado em Frankfurt, como o foi o grande poeta Michel Temer. Mas Marco Maciel tinha como contrapeso o ACM. Então, do que estamos falando exatamente? Marina e Campos são pessoas dignas. Do que se pode verificar, não existem manchas nas respectivas biografias. Já o caso do Caiado mostra que há choques anafiláticos, e nós vamos assistir a muitos outros assim. Mas não entre Marina e Campos, possivelmente.

A opção de Marina foi essencialmente pragmática?

CARLOS GUILHERME MOTA – Mais que pragmática: maquiavélica. E como fugir de um maquiavelismo tendo em vista o que tem acontecido com os outros partidos, com exceção do PSOL, daqueles mais à esquerda, inclusive de certos militantes do PT que querem acabar com a política de balcão? Nesse quadro, não estamos falando de política de balcão, nem de uma terceira via. Uma terceira via mais nítida seria ela se juntar ao PPS. Mas seguramente ela fez essa análise com muita mais cuidado do que imaginamos.

Acha que a aparente fragilidade dela, de alguma forma, chama votos?

CARLOS GUILHERME MOTA – O que temo na Marina é sua saúde messiânica, sobretudo quando ela olha para o céu. Ao mesmo tempo, durante a campanha em que obteve 20 milhões de votos, mais de uma vez ela disse que a questão religiosa estava à parte. Marina vai ter de se mostrar pragmática nisso e em outras questões, como as células-tronco, o aborto, porque os marqueteiros do outro lado vão provocá-la.

Se os marqueteiros a provocarem, seus clientes também serão provocados…

CARLOS GUILHERME MOTA – Aí todos estarão no fio da navalha. Esse, de fato, não seria um problema da Marina apenas. De qualquer forma, não seria muito pedir afirmação de laicidade do PSB.

Falando em marqueteiros, João Santana aposta na reeleição de Dilma já no primeiro turno devido à ‘antropofagia dos anões’. O que acha dessa previsão?

CARLOS GUILHERME MOTA – Em primeiro lugar, o João Santana deve entender dos anões porque esteve, ombro a ombro, com os aloprados. Em segundo, não consigo imaginá-lo como estadista à altura para estar no Aeroporto de Congonhas, num dia de crise, com Lula e Dilma pensando a República. Não vejo nele título para falar em nome da República, nem nele nem em nenhum marqueteiro. Numa sociedade em que há manipulação de massas, em que se tira dos documentos a ideia de luta de classes, o que é isso? É conversa de marqueteiro. Ficamos preocupados com a espionagem, e não com essa atuação nociva? Uma cultura que vive dos marqueteiros é uma cultura falida nas instituições principais, que são as escolas, os hospitais, as universidades, a Justiça.

Aécio Neves se apresentou como líder da oposição no Brasil. Ele o é, de fato?

CARLOS GUILHERME MOTA – Para ter uma liderança, precisa ter uma voz nacional bem formada, e ele tem alguma. Mas precisaria ter mais estrada. E precisaria ter um quadro de interlocutores em várias áreas. Não se ouve falar de equipe, senão dele sozinho, um pouco borboleteando por aí. E mesmo o legado da herança de Tancredo não é bem usado.

Ele não tem um bom marketing?

CARLOS GUILHERME MOTA – Seguramente, não tem. Mas acho que não é questão de marketing. Falta um interlocutor. O Juscelino, por exemplo, tinha o Pedro Nava, o Santiago Dantas, o Eduardo Portella, o Darcy Ribeiro, o Celso Furtado, uma constelação para pensar o Brasil. Com quem o Aécio de fato conversa?

Aécio quer a Presidência?

CARLOS GUILHERME MOTA – É uma pergunta tão profunda que só a namorada dele, agora esposa, pode responder. Eu não sei.

A política brasileira, no geral, é mais pragmática que programática?

CARLOS GUILHERME MOTA – Alguns conceitos das revoluções liberais, e mesmo socialistas, não atravessarão o Atlântico, já dizia Raimundo Faoro. Elas não chegarão ao Brasil. O liberalismo sempre foi uma ideia fora do lugar, como mostrou o Roberto Schwarz. Os socialismos que aqui chegaram, chegaram pela via stalinista em algum canto, depois superficialmente no pós-68 e não se adensaram em comunidades. O próprio PT hoje é um partido sem ideologia, como diz o Lincoln Secco, historiador petista muito competente e muito sério, militante inclusive.

O PT perdeu a ideologia ou tem outra hoje?

CARLOS GUILHERME MOTA – É a ideologia do neopopulismo, do nacional-desenvolvimentismo de araque. O projeto nacional-desenvolvimentista implica um plano em que o eixo econômico esteja bem definido. Não me parece que esteja definido, com um projeto histórico-cultural a ele associado e um projeto social que saia das prebendas e do assistencialismo.

E os demais partidos?

CARLOS GUILHERME MOTA – Os partidos já foram mais ideológicos e com melhor nível. Quando se discutia nacionalismo, havia nacionalismo de direita e de esquerda. Ou mesmo o trabalhismo, que não foi essa água de barrela em que se transformou o PT. Mas eu gostaria de colocar isso na moldura maior do esgotamento, da mesmice e do oportunismo de dois partidos: o PT e o PSDB. Eles polarizaram e polarizam para desmobilizar. O PSDB já veio desmobilizado porque conseguiu fazer as jogadas erradas nas horas erradas. E, com isso, o Fernando Henrique ficou falando sozinho. Você pode encontrar um Álvaro Dias no Paraná, mais três ou quatro que preciso fazer um esforço para lembrar, mas o esvaziamento é algo mortal para um partido. De outro lado tem o PT, de um autoritarismo desmobilizador, como diria o Michel Debrun, em cima dessa palavra horrenda que é o carisma. Se Lula sair candidato, Dilma dificilmente aguenta. E talvez o maior baque dessa aliança entre Marina e Campos tenha sido para Lula. Eu posso imaginar, no seu ABC, como deve ter sido descobrir que não era o grão-senhor do jogo.

Há carismas positivos?

CARLOS GUILHERME MOTA – Qualquer carisma é negativo para quem quer montar uma sociedade civil moderna e nova. Inclusive não posso ser simpático ao carisma da Marina, dentro da minha lógica. A sociedade precisa de líderes civis que se imponham pela formação, pela competência, pela capacidade de ver o conjunto, no sentido de aprofundar as relações democráticas. O carisma infantiliza. Pode-se dizer que o Bill Clinton tinha carisma? Não, era uma pessoa muito bem formada. O carisma do Obama tende a zero. É só um homem bem formado, casado com uma mulher bem formada. Merkel apenas sabe o que quer.

Que sociedade civil é a brasileira?

CARLOS GUILHERME MOTA – É uma cidadania machucada, com uma grã-burguesia deseducada. Em outros países, com aqueles financiamentos de universidades, de museus, de hospitais, a alta burguesia dá referência civilizadora. Não fica andando nesses Pajeros de vidro preto jogando latinhas de Coca na rua. Vivemos um clima de barbárie, com as categorias sociais embrulhadas, sem projetos sociais políticos e sociais claros. Não é uma sociedade sem terra, sem teto. É sem história e facilmente paternalizada. Há outra coisa grave nesse quadro: o vazio mental. Ele pode ser preenchido com qualquer coisa. Não por acaso se dá o avanço dos pentecostais. Onde estão as universidades formando quadros para a rede de escolas públicas? Estão no silêncio, no corporativismo, na ascensão da classe C de certa época que virou classe B nos quadros universitários. “Ganhei, subi, acomodei.” Há uma nova classe média satisfeita na universidade, apesar dos salários não tão confortáveis. O ganho é em status, um statusinho.

As manifestações de rua estão mais para sonháticas ou para pragmáticas?

CARLOS GUILHERME MOTA – Eu traduziria “sonhar” por construir novas utopias. É preciso procurar novas utopias, porque sem isso nenhuma sociedade anda. Mas as manifestações de rua mostram que nossos conceitos não têm dado conta de explicar o que está acontecendo. Dizer que a água transbordou do leito do rio é precário. Tirando a espuma, o que tem embaixo é saúde, educação, transporte, segurança e ética. Tivemos o desfecho cambaio do mensalão e um propinoduto do PSDB não explicado até agora. Como a opinião pública pode reagir positivamente? Em outros países, em outros momentos, os advogados foram mobilizados para grandes causas. Na Revolução Francesa, nas revoluções inglesas do século 17, eles chegavam para malhar o regime antigo e construir um novo. Na época do Roosevelt, na crise de 29, os advogados criaram uma legislação nova. Aqui os advogados, cada vez que vêm, é para reforçar uma visão de D. João IV no século 17: “Nós devemos aprimorar a arte de protelar”. No mundo luso-brasileiro, temos a tradição de nunca resolver a questão. E mais, dizia ele: “Governar é nomear”. Enfim, não estamos bem na fotografia.

“Um cidadão acima de qualquer suspeita” – por Marco Antonio Villa

Marco Antonio Villa

Marco Antonio Villa

Luís Inácio Lula da Silva se considera um cidadão acima de qualquer suspeita. Mais ainda: acha que paira sobre as leis e a Constituição. Presume que pode fazer qualquer ato, sem ter que responder por suas consequências.

Simula ignorar as graves acusações que pesam sobre sua longa passagem pela Presidência da República. Não gosta de perguntas que considera incômodas. Conhecedor da política brasileira, sabe que os limites do poder são muito elásticos. E espera que logo tudo caia no esquecimento.

Como um moderno Pedro Malasartes vai se desviando dos escândalos. Finge ser vítima dos seus opositores e, como um sujeito safo, nas sábias palavras do ministro Marco Aurélio, ignora as gravíssimas acusações de corrupção que pesam sobre o seu governo e que teriam contado, algumas delas, com seu envolvimento direto.

Exigindo impunidade para seus atos, o ex-presidente ainda ameaça aqueles que apontam seus desvios éticos e as improbidades administrativas. Não faltam acólitos para secundá-lo. Afinal, a burra governamental parece infinita e sem qualquer controle.

Indiferente às turbulências, como numa comédia pastelão, Lula continua representando o papel de guia genial dos povos. Recentemente, teve a desfaçatez de ditar publicamente ordens ao prefeito paulistano Fernando Haddad, que considerou a humilhação, por incrível que pareça, uma homenagem.

Contudo, um espectro passou a rondar os dias e noites de Luís Inácio Lula da Silva: o espectro da justiça. Quem confundiu impunidade com licença eterna para cometer atos ilícitos está, agora, numa sinuca de bico.

O vazamento do depoimento de Marcos Valério – sentenciado no processo do mensalão a 40 anos de prisão ─ e as denúncias que pesam sobre a ex-chefe do gabinete da Presidência da República em São Paulo, Rosemary Noronha, deixam Lula contra a parede. O figurino de presidente que nada sabe, o Forrest Gump tupiniquim, está desgastado.

No processo do mensalão Lula representou o papel do traído, que desconhecia tratativas realizadas inclusive no Palácio do Planalto – o relator Joaquim Barbosa chamou de “reuniões clandestinas” ─; do mesmo modo, nada viu de estranho quando, em 2002, o então Partido Liberal foi comprado por 10 milhões, em uma reunião que contou com sua presença.

Não percebeu a relação entre o favorecimento na concessão para efetuar operações de crédito consignado ao BMG, a posterior venda da carteira para a Caixa Econômica Federal e o lucro milionário obtido pelo banco.

Também pressionou de todas as formas, para que, em abril de 2006, não constasse do relatório final da CPMI dos Correios, as nebulosas relações do seu filho, Fábio Luís da Silva, conhecido como Lulinha, e uma empresa de telefonia.

No ano passado, ameaçou o ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes. Fez chantagem. Foi repelido. Temia o resultado do julgamento do mensalão, pois sabia de tudo. Tinha sido, não custa lembrar, o grande favorecido pelo esquema de assalto ao poder, verdadeira tentativa de golpe de Estado.

A resposta dos ministros do STF foi efetuar um julgamento limpo, transparente, e a condenação do núcleo político do esquema do mensalão, inclusive do chefe da quadrilha – denominação dada pelo procurador-geral da República Roberto Gurgel ─ sentenciado também por corrupção ativa, o ex-ministro (e todo poderoso) José Dirceu, a 10 anos e 10 meses de prisão. Para meio entendedor, meia palavra basta.

As últimas denúncias reforçam seu desprezo pelo respeito às leis. Uma delas demonstra como sempre agiu. Nomeou Rosemary Noronha para um cargo de responsabilidade. Como é sabido, não havia nenhum interesse público na designação.

Segundo revelações divulgadas na imprensa, desde 1993 tinham um “relacionamento íntimo” (para os simples mortais a denominação é bem distinta). Levou-a a mais de duas dúzias de viagens internacionais ─ algumas vezes de forma clandestina ─, sem que ela tenha tido qualquer atribuição administrativa.

Nem vale a pena revelar os detalhes sórdidos descritos por aqueles que acompanharam estas viagens. Tudo foi pago pelo contribuinte. E a decoração stalinista do escritório da presidência em São Paulo? Também foi efetuada com recursos públicos.

E, principalmente, as ações criminosas dos nomeados por Lula ─ para agradar Rosemary ─ que produziram prejuízos ao Erário, além de outros danos? Ele não é o principal responsável? Afinal, ao menos, não perguntou as razões para tais nomeações?

Se isto é motivo de júbilo, ele pode se orgulhar de ter sido o primeiro presidente que, sem nenhum pudor, misturou assuntos pessoais com os negócios de Estado em escala nunca vista no Brasil. E o mais grave é que ele está ofendido com as revelações (parte delas, registre-se: e os 120 telefonemas trocados entre ele e Rosemary?).

Lula sequer veio a público para apresentar alguma justificativa. Como se nós, os cidadãos que pagamos com os impostos todas as mazelas realizadas pelo ex-presidente, fôssemos uns intrusos e ingratos, por estarmos “invadindo a sua vida pessoal.”

Hoje, são abundantes os indícios que ligam Lula a um conjunto de escândalos. O que está faltando é o passo inicial que tem de ser dado pelo Ministério Público Federal: a investigação das denúncias, cumprindo sua atribuição constitucional.

Ex-presidente, é bom que se registre, não tem prerrogativa de estar acima da lei. Em um Estado Democrático de Direito ninguém tem este privilégio, obviamente. Portanto, a palavra agora está com o Ministério Público Federal.

Brazil’s presidential poll heads for run-off – says Financial Times

Brazil’s presidential election took a surprising turn on Sunday evening when Dilma Rousseff failed to win a convincing victory and early exit polls suggested she may have to take her chances in a run-off on October 31.

Ms Rousseff of the ruling leftwing PT had appeared to be heading for victory on a wave of popular support for outgoing president Luiz Inácio Lula da Silva, her political mentor, who has overseen eight years of booming prosperity and leaves office with an approval rating of 80 per cent.

But with 80 per cent of the vote counted Ms Rousseff, a stern technocrat with no popular touch, had only 45.5 per cent, far short of outright victory. Her biggest rivals, José Serra of the centrist PSDB, had 33.9 per cent and Marina Silva of the Green party had 20 per cent. Ms Rousseff needed 50 per cent plus one vote to avoid a run-off.

Ibope, a market research company, said an exit poll had given Ms Rousseff 51 per cent but added its margin of error was 2 percentage points, making the race too close to call.

However, a corruption scandal that unseated her former right-hand woman, has dented Ms Rousseff’s lead over the past fortnight and on Sunday morning opinion polls gave her half of all valid votes, leaving the outcome in the balance. The result was expected to emerge late on Sunday in Brazil. If she is taken to a second round, however, opinion polls show her winning by a large majority.

If the partial result is confirmed it will be a stunning blow to Mr Lula da Silva who made securing his succession the priority of his last year in power. “A vote for Dilma is a vote for me,” he said on Friday.

If the presidential race goes to a second round it promises to be a gruelling campaign. Ms Rousseff will be forced into a direct confrontation with Mr Serra, something both candidates have so far avoided.

For most of the past four months, since her candidacy was officially declared, Ms Rousseff has been content to bask in Mr Lula da Silva’s popularity. Meanwhile Mr Serra has failed to present either a critique or an alternative to the president’s powerful mixture of tight monetary policy and generous social spending.

Business leaders, the natural constituency of the former governor of São Paulo, have griped about the growing role of the state in Brazil’s economy, championed by Ms Rousseff, and the need for fiscal and other market-friendly reforms, while complaining about his reluctance to take the initiative.

In a televised debate before the poll Mr Serra ducked the chance of direct exchanges with Ms Rousseff in a lacklustre performance.

Political analysts said it would be impossible to avoid a potentially bruising confrontation in a run-off between two candidates.

Furthermore, the second round would boost the standing of Ms Silva, Mr Lula da Silva’s former environment minister and no relation, who resigned first from his government and then from his party after public disagreements with senior ministers, including Ms Rousseff.

Merval Pereira, a political commentator, said the second round could see Ms Silva in the role of kingmaker and said her support had already been courted by senior figures in Mr Serra’s party, including Fernando Henrique Cardoso, the former president.

Investors have to date largely ignored the election, believing it to be a non-event on the assumption that neither Ms Rousseff nor Mr Serra would deviate much from the orthodox macroeconomic policies pursued by Mr Lula da Silva and Mr Cardoso over the past 16 years.

Analysts have believed that, even if Ms Rousseff failed to win on Sunday, she would go on to victory in the second round – an assumption that now looks questionable.

Marina (PV) e Serra (PSDB) empatam entre alunos, professores e funcionários da USP – diz DATAFOLHA (20/09/2010)


Alunos, professores e funcionários têm escolhas diferentes

Em pesquisa Datafolha – ECA/USP a menos de 20 dias para o primeiro turno das eleições, na USP – Universidade de São Paulo, a candidata do PV à presidência da República, Marina Silva, tem 30% e José Serra (PSDB) tem 27% das intenções de voto na USP. Considerando a margem de erro máxima para essa amostra, de três pontos percentuais para mais ou para menos, Marina poderia ter entre 27% e 33%, e Serra, entre 30% e 24%, configurando um empate técnico. Dilma Rousseff (PT) tem 21% das citações e Plínio (PSOL), 7%. Com 1%, cada surgem os candidatos Zé Maria (PSTU) e Eymael (PSDC). Ivan Pinheiro (PCB) foi citado porém não alcançou 1% das intenções de voto na maior universidade do país. Dos entrevistados, 9% anulariam o voto, e 1% votariam em branco. Não sabem, 3%.

Para essa pesquisa, foram ouvidos 1014 entrevistados, de 16 anos ou mais, nos dias 14, 15 e 16 de setembro de 2010 em 29 faculdades ou institutos da USP na cidade de São Paulo, sendo 698 alunos de graduação ou pós-graduação, 154 docentes e 162 funcionários da Universidade de São Paulo. A abordagem aleatória foi realizada por alunos da ECA – Escola de Comunicação e Artes da USP, que cursam o 4º semestre de Jornalismo, instruídos pelo Datafolha. A pesquisa de campo, de responsabilidade dos alunos, foi supervisionada pelo Prof. Dr. José Coelho Sobrinho, responsável pela cadeira de laboratório de jornalismo impresso, e processada pelo Datafolha. A margem de erro máxima para essa pesquisa é de 3,0 pontos percentuais para mais ou para menos.

Entre os alunos de graduação e pós-graduação, Marina tem 31% das intenções de voto, Serra tem 28% e Dilma 20%. Entre os professores da USP, porém, as preferências se modificam e Serra se destaca, com 38% das citações, ante 25% de Dilma e 22% de Marina. Entre os funcionários não docentes, mais uma vez as preferências se alteram, e Dilma passa a 37%, Marina, a 28% e Serra, 14%.

A pluralidade da maior universidade do país pode ser notada também entre as faculdades e/ou institutos. Quando cruzadas, as preferências nas faculdades são bastante heterogêneas, como pode ser notado. Na FEA – Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade, 45% escolhem o Serra como seu candidato, contra 27% de Marina e 16% de Dilma. Na POLI – Escola Politécnica, 45% declaram seu voto ao tucano, 27% a Marina, e 16% a Dilma. Na FFLCH – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas entretanto, Dilma tem 30%, Marina, 27% e Serra, 13%. Na EACH – Escola de Artes e Ciências e Humanidades, na USP – Leste, por sua vez, 37% afirmam votar em Marina, 25% em Serra e 19% em Dilma. Na Faculdade de Medicina, Serra tem 41%, Marina, 25% e Dilma, 8%. Na ECA – Escola de Comunicação e Artes, 30% votam em Marina, 29% em Dilma e 13% em Serra.

Lula é aprovado por 53% da comunidade uspiana

Perguntados sobre a avaliação do presidente Lula, 7% dos entrevistados afirmam que Lula está fazendo um ótimo governo e 46% que o seu governo é bom. Outros 36% acham o governo de Lula regular, 7% ruim e 3% péssimo. Entre as faculdades, a melhor avaliação de Lula é na Faculdade de Direito, onde ele obtém 66% de aprovação e a maior reprovação é na POLI, com 16% de citações “ruim ou péssimo”. Na ECA, Lula alcança 14% de citações para “ótimo”, 44% para “bom”, 36% “regular”, 4%, “ruim”, e outros 2% “péssimo”.

Entre os segmentos funcionais e estudantis da USP, aprovam mais Lula os funcionários, dos quais 69% afirmam que ele está fazendo um ótimo ou bom governo. Dos alunos, esse índice é de 52% e entre os professores, 51%. Desaprovam, 7% dos funcionários, 9% dos alunos e 24% dos docentes. Acham-no regular 38% dos alunos, 25% dos funcionários e 25% dos docentes.

Já entre as categorias internas da USP, Lula alcança nota média de 7,0 entre os funcionários, 6,2 entre os alunos e 5,9 entre os professores.

Alckmin (PSDB) tem 39% na USP;
Mercadante (PT) ganha entre os funcionários

Geraldo Alckmin (PSDB) tem 39% das intenções de voto na maior universidade pública do país. Ele é seguido por Aloizio Mercadante (PT), com 25%, Skaf (PSB), com 6%, Fabio Feldmann (PV), com 3%, Paulo Búfalo (PSOL) e Celso Russomano (PP), ambos com 2%, cada. Mancha (PSTU) é citado mas não alcança 1% das intenções de voto. Anulam seu voto 13% dos entrevistados, votam em branco, 2% e outros 6% não souberam responder.

Entre os docentes, o tucano se destaca, dos quais 43% afirmam votar no candidato, contra 26% que votariam em Mercadante, 6% em Fabio Feldmann e 1% em Skaf. Entre os alunos, 39% votam em Alckmin, 24% em Mercadante, 6% em Skaf e 3% em Fabio Feldmann. Caracterizando a heterogeneidade dos públicos presentes na maior universidade do país, entre os funcionários, o cenário entre os principais postulantes ao governo paulista se modifica, e o petista Aloizio Mercadante se destaca, com 39% das citações, contra 32% de Geraldo Alckmin, 5% de Skaf, e com 4% cada, Feldmann e Russomano.

Plural, inclusive entre as inúmeras faculdades, a USP demonstra seus diversos contornos também quando se trata de eleições. Na EEFE – Escola de Educação Física e Esportes por exemplo, 61% afirmam votar em Alckmin, 11% em Mercadante, e 2% em Skaf. Já na FFLCH – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, 33% afirmam votar no petista, contra 20% que dizem votar no tucano e 6% em Skaf. Na POLI – Escola Politécnica, Alckmin ganharia com 51% dos votos, contra 19% de Mercadante. Na ECA – Escola de Comunicação e Artes, outro cenário: 35% Alckmin, 32% Mercadante, 3% Feldmann e 2% Skaf. Entre as faculdades, o maior índice pró-Alckmin é na FEA – Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (70%), assim como o maior índice pró-Mercadante está na FFLCH (33%). Entre os candidatos com menores citações, destaca-se Paulo Búfalo, também na FFLCH (5%) e Skaf, na Faculdade de Direito (8%). No pólo USP – Leste, Mercadante tem 26% das intenções de voto, contra 40% de Alckmin.