A perversão maniqueísta do petismo – por Moacir Pereira Alencar Junior

Dilma Rousseff

Dilma Rousseff

Este artigo foi publicado originalmente na Revista Amálgama em 1ª de maio de 2016 (http://www.revistaamalgama.com.br/05/2016/perversao-maniqueista-do-petismo/)

Na última sexta-feira, durante cerimônia no Palácio do Planalto onde anunciou a prorrogação de contrato dos Mais Médicos, a presidente Dilma Rousseff classificou de “ridícula” a acusação que recebe no processo de impeachment. Dilma também criticou as medidas anunciadas pelo vice-presidente Michel Temer caso o mesmo venha a assumir o governo, alertando para o “grande retrocesso” em um ajuste fiscal que cortaria direitos. A presidente declarou ainda que “luta não só para se manter no Planalto, mas para preservar conquistas da população”, que é “acusada de ter ampliado gastos sociais”, e que, nessa tese, se sente “orgulhosa” de transferir mais renda para a população pobre.

Dilma discursa para as “massas”, como se a nação vivesse um cenário de bonança econômica, política e social, e ela fosse uma pobre vítima de elites “golpistas” que visam destruir o “doce sonho brasileiro” representado pelas ações do governo petista em 14 anos de poder. O Brasil do discurso de Dilma inexiste na realidade. A recessão econômica é clamorosa, acompanhada de profundo desemprego e de falências de várias empresas em diferentes setores, assim como de queda acentuada da renda dos trabalhadores nos mais variados extratos da população.

O teatro farsesco levado adiante por Dilma, na maratona de eventos que antecede a votação do processo de impeachment no Senado, tem dois intentos: 1) é o último apelo e suspiro do governo aos “movimentos sociais”, que foram cooptados historicamente pelo partido e se desvirtuaram progressivamente conforme o PT ia se apoderando da estrutura do estado brasileiro, e que hoje se auto-intitulam “exército contra o golpe”; 2) sabendo do estrago das finanças e do rombo orçamentário, os gastos fora da realidade, anunciados como “bondades” pela equipe do governo nesta maratona de eventos, caminham na contramão da “responsabilidade” e do compromisso com a “austeridade fiscal” necessária para adoção de políticas fiscais e econômicas que tirem o país do atoleiro em que se encontra. Mais uma comprovação do descompromisso de Dilma Rousseff como comandante em chefe da nação com a Lei de Responsabilidade Fiscal e com a Lei de Diretrizes Orçamentárias, por sinal um dos fatores principais que desaguaram na abertura de processo de impeachment na Câmara dos Deputados.

Para fazer uma breve análise de nossa situação econômica e política, recorrerei a Vilfredo Pareto, um dos fundadores da Teoria das Elites. Adaptando Nicolau Maquiavel, Pareto dividiu as elites políticas em raposas e leões. Os dois tipos conquistavam o poder recrutando o apoio de coalizões de grupos sociais e econômicos muito mais heterogêneos, que possuíssem características paralelas associadas aos “especuladores” inovadores ou aos investidores “rentistas”, respectivamente. Pareto afirmou existir uma circulação cíclica de elites que acompanhava os ciclos socioeconômicos. Assim, as raposas adulavam os especuladores, ajudando-os tácita ou ativamente a espoliar os rentistas – fossem eles poupadores da pequena burguesia ou acionistas majoritários. Inicialmente, a prosperidade crescente seria acompanhada do questionamento da moralidade tradicional e de uma expansão do consumo. Mas o governo e o populacho  se endividariam devido ao sobreconsumo baseado no crédito, enquanto a escassez de capital e a falta de investimento produtivo levariam a economia a se contrair. A necessidade de comedimento e de poupança se tornaria evidente, e um governo mais conservador, de leões, assumiria a ribalta, apoiado pela classe econômica dos rentistas. Ao final, a economia começaria a estagnar e as pessoas se cansariam da austeridade leonina, precipitando assim a ascensão das raposas e dos especuladores e o início de um novo ciclo.

O que vivenciamos com o PT – as raposas neste processo – foi um desastre sem precedentes, acompanhado de um escândalo de corrupção de proporções dantescas. A persistência em adotar uma política acíclica na economia de forma equivocada e irresponsável, devido ao dogmatismo e à falta de sensatez e racionalidade, levou o país à pior crise em 25 anos.

Tal como na Rússia stalinista, em todos os campos, da economia à ideologia, o governo petista estabeleceu “frentes” nas quais deveriam ser travadas numerosas batalhas do bem contra o mal. Não existem mediações nem possibilidades diversas, sendo que os problemas admitem apenas a possibilidade de se responder sim ou não. A argumentação impositiva de Dilma e seus asseclas não admitem outra solução além do consenso ou da condenação. Ao se colocar como um partido de “sucessos” e “triunfos”, e ao ironizar as posições diversas das demais tendências políticas de modo desdenhoso e caricatural, a concepção maniqueísta do governo vai se tornando soberana e, por conseguinte, mais inevitável é a simplificação, a esquematização, a vulgarização. Esse maniqueísmo reforçado por “lutas” e “sucessos” influencia no hábito mental de milhares de militantes petistas.

Ao adotar a negação da realidade como política de Estado e como “plena verdade”, a simplista interpretação petista da realidade histórica nacional faz com que o fatalismo se misture com certo voluntarismo exacerbado. As decisões contingentes são exaltadas como expressões definitivas do “desenvolvimento histórico”, e proclamadas como infalíveis. Decisões pautadas na singularidade são identificadas com as leis gerais do desenvolvimento histórico, de modo que toda dúvida e toda crítica que venha a ser apresentada são a priori vistas como ridículas, exatamente por estarem em contradição com a férrea necessidade da história petista. Por isso, os críticos se tornam por um lado, “ridículos”, e por outro, “criminosos”.

Na essência, é esse o núcleo do mundo mental do petismo. Trata-se da contradição e da conexão entre o que o PT disse e o que fez, entre a palavra e a ação, entre a teoria e a práxis, entre a terminologia e o crime. Falar de mentira, engano, simulação, é algo demasiadamente fácil. O problema é de maior complexidade. O petismo e seus comandantes, caso de figuras como Dilma, Lula e lideranças parlamentares, bolaram dogmas “criadores” para justificar a posteriori a razão de Estado e determinadas decisões.

Em suma, o petismo, em sua maratona de eventos (que tem neste 1º de maio participações de Dilma e Lula ao lado dos “movimentos sociais” de sempre), nada mais faz do que adotar uma medida desesperada, com a finalidade de salvar um regime em agonia, sem condições de mobilizar o povo em nome de uma virada política. É um governo inteiramente desacreditado, com a iminência do afastamento da presidente sendo mais que certa. É o preço que se paga pela empáfia e arrogância de se sentirem os donos do poder e do Brasil.