Direita e Esquerda – por Alceu Amoroso Lima

Este artigo foi escrito por Alceu Amoroso Lima em Outubro de 1960, nas vésperas das eleições presidenciais brasileiras, que tinham como candidatos: Teixeira Lott , Jânio Quadros e Adhemar de Barros. A análise de Alceu sobre o conceito de ‘direita’ e ‘esquerda’ é muito interessante, mostrando as mutações que estes enquadramentos ideológicos receberam durante os Século XIX e XX no Brasil e no mundo, e as diferentes formas de anacronismo e erros semânticos que foram dados a estas palavras em variados momentos. É vital destacar que estes constantes equívocos permanecem até hoje, em pleno século XXI, sendo difíceis de serem desfeitos. Certamente, conforme destacou Alceu: “pela simples razão de inércia e de rotina”.

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Alceu Amoroso Lima (1893-1983). - Pensador Católico, escritor e jornalista.

Alceu Amoroso Lima (1893-1983). – Pensador Católico, escritor e jornalista.

Durante a campanha eleitoral deste ano, voltou-se muito a falar em esquerda e direita. Para muitos, esquerda é sinônimo de comunismo. Direita, sinônimo de democracia. E, em certos meios católicos, a esquerda é o Anticristo e a direita, a Igreja ou pelo menos a posição político-social em que se encontra a Igreja.

Nada mais falso. Mas também nada mais difícil de esclarecer, já que as palavras sofreram realmente uma alteração semântica no sentido que o povo lhes dá, esse povo anônimo, que faz e desfaz linguagens.

A expressão esquerda-direita vem, como se sabe, do uso parlamentar latino: à direita se colocavam os conservadores; ao centro os liberais, à esquerda os socialistas. Daí, passou a palavra a significar a ideologia representada pela respectiva colocação dos parlamentares em suas bancadas. Houve, além disso,  uma alteração histórica no dispositivo parlamentar em leque, segundo o modelo francês ou americano e não paralelo, segundo o britânico ou canadense. Destacou se da direita a extrema-direita, reacionária, de tipo fascista. Como se destacou da esquerda a extrema-esquerda revolucionária, do tipo comunista. E assim que uma ou outra tomaram o poder de modo violento, cessou naturalmente o dispositivo pluralista e ficou apenas, em reuniões periódicas e sem importância, a unanimidade comunista ou fascista. A esquerda ia assim igualar-se a comunismo. A direita, a fascismo ou conservadorismo. E a opinião pública passou então a ligar uma coisa e outra.

Com os católicos se deu coisa semelhante. O socialismo, à esquerda dos parlamentos, foi a princípio, todo ele, anticatólico e, mais do que isso, anticlerical. O conservadorismo, à direita, se manteve ou se fez católico, por sinceridade ou por política. De modo que o termo socialista ficou sendo sinônimo de esquerdista e anticatólico.  E conservador, sinônimo de direitista e católico.

Mas tudo isso mudou radicalmente, ao longo do século XIX e, sobretudo, no século XX. Introduziram-se os maiores elementos de complexidade real e não apenas imaginária. O comunismo se destacou do socialismo. Este, por sua vez,  se desdobrou em várias correntes, mais próximas ou afastadas do comunismo.  O liberalismo se dividiu, pelo menos, em dois, mais conservador ou mais radical. E os conservadores, por sua vez, se mantiveram conservadores, republicanos ou monarquistas, e se separaram dos reacionários, à extrema-direita tão próximos por vezes da extrema-esquerda, pois os extremos quase sempre se tocam, especialmente em política.

As expressões esquerda, sinônimo de progresso e reforma social, e direita, sinônimo de ordem e tradição social, perderam com isso toda a sua exatidão. Mantiveram-se e continuam a ser empregadas por uma simples razão de inércia e rotina.

O mesmo aconteceu nos meios católicos. Com o interesse crescente da Igreja pela questão social, a partir do fim do século XIX e de Leão XIII, a equivalência entre catolicismo e conservadorismo, hostilidade ao progresso, defesa do status quo social, ordem e autoridade acima de tudo, sem distinção de como e porque , perdeu também toda significação autêntica. Passou a haver cada vez mais católicos não-conservadores em política. Como passou a haver  um número cada vez maior de conservadores não-católicos ou de radicais e socialistas, no sentido puramente político da expressão, de fé católica. Surgiu o termo trabalhismo, neutro.

Nesse terreno, também, a equiparação de esquerdismo com anticatolicismo e de direitismo com catolicismo se tornou anacrônica e semanticamente errada.

A primeira revelação que tive desse erro foi pela leitura, há trinta anos passados, de um admirável artigo do P. Congar O.P. ,Dieu est-il à Droit?, naquela famosa e tão saudosa revista dominicana francesa La Vie Intellectuelle. Deus não está à direita nem à esquerda. Esta acima. Domina a direita como a esquerda, enquanto estes termos ainda significarem alguma coisa, ao menos pelo uso e hábitos adquiridos. Há trinta anos que busco desfazer o equívoco. Em vão.

Nada mais difícil do que desenraizar tiriricas… Isto é a erva rasteira e vulgar, semelhante às palavras que vamos empregando sem pensar no seu sentido autêntico.

Há semanas atrás, durante a campanha eleitoral, eu tive escrúpulo até em publicar este artigo, pois já sei que iria, porventura, causar confusão, se lido, em algum eleitor apegado às fórmulas convencionais.  Mas agora passado o furação eleitoral, é hora de pensar de novo com calma e dar às palavras o sentido que realmente tem. A Igreja não está à direita. Como o comunismo ateu não está à esquerda. São incompatíveis. Mas estão por toda parte, face a face, lado a lado, lutando por bandeiras opostas, até que a Justiça e a Misericórdia de Deus tudo assuma.

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Karl Heinrich Marx ( 1818 – 1883 )

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Filósofo alemão , foi autor de vários conceitos que fundamentaram a ideologia socialista – comunista do século XX.

Nasceu em Trier , filho de familia judia, e estudou filosofia nas Universidades de Berlim e Jena.

Em 1842 chefiou a redação do jornal Nova Gazeta Renana em Colônia, no qual escreveu artigos considerados radicais em defesa da democracia. Mudou-se para Paris em 1844 e lá conheceu Friedrich Engels.

Em 1848 publicou o Manifesto do Partido Comunista ,em parceria com Engels , em que defende a solidariedade entre os trabalhadores na busca de sua emancipação política e social .O documento defende uma revolução de caráter internacional que leve a burguesia e o capitalismo ao declínio , podendo assim implantar o comunismo.

A divulgação do manifesto provoca sua expulsão de Paris. Mudou-se para Londres, onde estuda história e economia , escreve artigos na imprensa e ajuda a fundar a Primeira Internacional dos Trabalhadores, que reúne partidos de esquerda de diversos países.

Em 1867 publica o primeiro volume de “ O Capital “, na qual expõe os seus conceitos ( chamados marxistas ) , como a teoria do valor , a da mais-valia e da acumulação do capital. Os outros volumes da mesma obra só são conhecidos após sua morte.

Mao Tsé -Tung (1893 – 1976 )

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Líder comunista chinês , nasce em Shaoshan , filho de fazendeiro.

Torna-se professor de universidade de Pequim , onde toma contato com o marxismo.

Participa em 1921 , da fundação do Partido Comunista Chinês (PCCh) e cria seu braço armado , o Exército Popular de Libertação.

Em 1935 , com a derrota de seu exército para o Partido Nacionalista ( Kuomintang )  , lidera a Longa Marcha – 90 mil comunistas refugiam-se na região norte do país , percorrendo 9,6 mil quilômetros numa marcha de protesto contra o governo.

Em 1937 , nacionalistas e comunistas unem-se contra a invasão  japonesa na Manchúria.

Mas , depois da derrota do Japão na II Guerra Mundial , a disputa interna na China se reaviva.

Em outubro de 1949 , após intensa luta nas cidades , Mao proclama a República Popular da China.

Em 1958 , adota o Grande Salto para Frente , plano de desenvolvimento cujo  fracasso o faz ser afastado da liderança do Partido Comunista.

Em 1966 , recupera o poder ao lançar a Revolução Cultural.

Reata relações diplomáticas com os EUA e promove o ingresso da China na ONU em 1971.

Morre em 1976, em Pequim.

assista aqui: parte final de documentário sobre o poder político e a influência de Mao sobre a população chinesa – em espanhol

Fidel Castro (1927 – …. )

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Líder Comunista cubano, Fidel forma-se em direito.

Em 1953, após tentativa de golpe contra o ditador Fulgencio Batista, é condenado a 15 anos de prisão.

Anistiado em 1955, vai para o México, onde planeja retomar a guerrilha em Cuba.

Assume o poder em 1959, instalando um regime que, em 1961, se alinha ao bloco soviético.

Castro converte-se em um ditador, chefiando um regime que não permite a liberdade de expressão  nem a existência de outros partidos políticos além do Partido Comunista Cubano.

Com o colapso da União Soviética, em 1991, permite a entrada de empresas de capital estrangeiro para arejar a economia .

Com a ascensão de Hugo Chávez, na Venezuela, em 1998, ganha novo aliado.

Em 2006, transfere o poder pela primeira vez a seu irmão Raúl Castro por causa de problemas de saúde.

Em 2008, afasta-se de vez, mas segue influente.

assista aqui : o então deputado Jânio Quadros visita Cuba e encontra-se com Fidel (ano de 1959)