Brasil busca pela China por Política Industrial – diz Financial Times (11/04/2011)

"Chegada de Dilma Roussef na China"

Quando a presidente do Brasil Dilma Rousseff, inicia sua primeira visita à China hoje para uma cúpula de líderes do clube dos Brics, de rápido crescimento dos mercados emergentes, estará interessada em mais do que apenas a diplomacia.

Enquanto ela vai levantar queixas do Brasil com Pequim, como a moeda altamente desvalorizada  da China e uma maior reciprocidade para as exportações brasileiras de manufaturados, Dilma Rousseff estará disposta a testemunhar em primeira mão a experiência bem sucedida da potência econômica asiática na política industrial estatal – uma marcha de aproximação do seu governo está cada vez mais avançando  no mesmo sentido no Brasil.

Preocupado com a crescente dependência do Brasil em exportações de matérias-primas, Dilma Rousseff e seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva, ambos do esquerdista Partido dos Trabalhadores, vêm buscando promover um maior desenvolvimento da indústria nacional através de políticas públicas direcionadas à grandes empresas controladas pelo Estado. Eles também têm conseguido construir agressivamente campeões nacionais através do uso do crédito do Estado.

“Um dos modelos que eles (o governo do Brasil) têm em mente é o chinês, o caminho que os chineses, direta ou indiretamente fazem para  guiar o sistema financeiro do setor privado que tem como objetivo principal atingir um maior desenvolvimento econômico”,disse Tony Volpon, Chefe de pesquisa sobre mercados emergentes para as Américas da Universidade de Nomura.

A primeira prioridade de Dilma, durante a visita de cinco dias, será  a construção de uma relação comercial bilateral. Dois anos atrás, a China superou os EUA para se tornar o maior parceiro comercial do Brasil e, no ano passado, ser seu maior investidor estrangeiro direto.

Maior economia da América Latina, o Brasil quer que os chineses não só comprem o minério de ferro, farelo de soja e outras commodities, mas também produtos manufaturados brasileiros, como os jatos produzidos pela Embraer. Para este fim, Dilma Rousseff será acompanhada por 309 empresários, uma das maiores delegações do Brasil. Além disso, ela deve levantar preocupações do Brasil com a manipulação de câmbio efetuada  pelos  EUA e pela  China.

Para uma “economista desenvolvimentista”, como Dilma Rousseff, a visita também será uma excelente oportunidade para testar pontos de vista de seu governo sobre o planejamento do estado e do corporativismo. Em um exemplo da crescente importância desta nova doutrina no Brasil, os acionistas da Vale que representam o governo na mineradora brasileira, decidiram na semana passada, não prorrogar o mandato de Roger Agnelli, presidente-executivo da companhia, depois que ele ignorou os pedidos de investir mais fortemente em  indústrias do aço e de fertilizantes locais.

Historicamente ,o Brasil tem vindo a prosseguir com políticas de desenvolvimento industrial conduzidas pelo Estado. Durante os anos 1980 e 1990, os governos se preocuparam com a inflação galopante e a dívida nacional. Foi somente depois que a economia do Brasil estabilizou-se durante meados dos anos 2000, desta forma o governo foi capaz de se concentrar novamente na política industrial.

“A grande mudança que tem ocorrido no Brasil nos últimos cinco anos é um retorno da política industrial”, disse Christopher Garman, diretor para América Latina da consultoria de riscos políticos Eurasia.

O governo de Lula deu o primeiro passo importante, mudando a lei para dar a Petrobras, a produtora de petróleo controlada pelo Estado, o papel central no desenvolvimento dos novos achados do petróleo no Brasil. O objetivo é criar uma indústria petrolífera nacional de serviços, mesmo que isso signifique custos mais elevados para a Petrobras.

O governo também intensificou a concessão de empréstimos pelo banco de fomento estatal, o BNDES, que tomou participações em empresas. Hoje, até 20% das empresas brasileiras cotadas – representando 47% da capitalização bolsista do mercado de ações – têm governos federal ou estadual, direta ou indiretamente, entre seus cinco principais acionistas, de acordo com um relatório da Itaú Securities, uma empresa privada do setor de corretagem.

Analistas advertem, entretanto, que o Partido dos Trabalhadores de Dilma Rousseff – bem como do partido dominante da China – é uma roupa mais pragmática, de centro-esquerda , diferente do que era há uma década, e está adotando uma abordagem baseada em regras de política industrial.

Isto pode ser visto no caso da Vale, onde o governo irá substituir Agnelli quando seu contrato expirar no próximo mês por um antigo executivo respeitado da empresa, Murilo Ferreira, em vez de um político. O governo também vai buscar orientar a Vale na construção de mais indústrias nacionais através de uma nova política de mineração, em vez da intervenção do dia-a-dia na gestão, segundo analistas.

E o governo parece disposto a abandonar a ortodoxia quando necessário, dizem analistas. Para acelerar o desenvolvimento dos aeroportos do país, por exemplo,o governo brasileiro quer em parte, privatizar a Infraero, a operadora aérea estatal.

“Quem é Dilma – tecnocrata ou estadista? Ela é ambas ao mesmo tempo “, disse Garman da Consultoria Eurásia. “Essa é uma política de indústria que é mais sofisticada do que tínhamos no passado.”

Traduzido por Moacir Pereira Alencar Junior, da reportagem original em inglês do Financial Times (http://www.ft.com/cms/s/0/1f82a382-646a-11e0-a69a-00144feab49a.html#ixzz1JGOLmgEN)

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Imperialismo Econômico e Economia Socialista : faces da mesma moeda ? – Por Moacir Pereira Alencar Junior

Este artigo visa fazer uma síntese entre duas correntes de pensamento socioeconômico que foram estudadas por muitos teóricos na história :

  • o Socialismo, conjunto de doutrinas que se propõem a promover o bem comum pela transformação da sociedade e das relações entre as classes sociais, mediante a alteração do regime de propriedade, e

  • o Imperialismo, política de expansão e domínio territorial e/ ou econômico de uma nação sobre outras, que nas últimas décadas do século XX passou a também ser definida como Neoliberalismo. Sendo o Neoliberalismo uma doutrina que favorece uma redução do papel do estado na esfera econômica.

Introdução

O socialismo nasce em um período da história, século XIX, em oposição as idéias liberais e a expansão do capitalismo. Sendo a Revolução Industrial um dos principais fatos por ele discutido, uma vez que a revolução industrial provoca efeitos sociais irreversíveis.

Em seu primeiro momento, surge como um ideal, mas depois passa a ser visto como uma necessidade considerada histórica, que origina-se da crise do capitalismo. Esta corrente de pensamento baseia-se na análise da sociedade do século XIX, que de certa forma é eminentemente capitalista.

Para Karl Marx, o principal teórico do socialismo, o modo de produção capitalista determina as relações sociais ; relações estas que ele considera em sua obra “O Capital” como sendo desumanas, onde os trabalhadores são meros objetos de uso e são os únicos responsáveis por gerar toda a riqueza existente.

Porém esta sociedade que viveria em coletivismo, sem divisão de classes e sem a existência de um estado repressor , segundo Marx; não encontrou meios de se firmar em nenhuma nação, com exceção à França, onde a comuna de Paris governou por 72 dias no ano de 1871, e neste curto período acabou com os privilégios de classe, instituiu o ensino gratuito e obrigatório , além de promover a distribuição da renda em sistemas cooperativos.

Socialismo Científico  e “Socialismo” Soviético  – Antagonismos

Ao fim do século XIX, mais exatamente em 1885, na Conferência de Berlim, as principais nações européias dariam início a um processo conhecido como ‘imperialista’, ou também chamado neocolonialismo. Estas nações promoveram a Partilha da África,visando a exploração das riquezas naturais, e também, simultaneamente, buscaram por novos mercados consumidores em outras partes do globo, para expandir suas forças monopolistas e praticar suas políticas de cartelização internacional.

Foi neste contexto histórico que ocorreu a Primeira Grande Guerra Mundial, que durou de 1914 à 1918. Ela se deu devido ao revanchismo econômico e as rivalidades político-militares existentes entre as grandes potências mundiais, incluindo Alemanha, Itália, Japão, França, Império Turco-Otomano, EUA, Reino Unido e Rússia.

Em meio a esta guerra sem precedentes teria origem a primeira revolução de caráter socialista da história, a Revolução Russa, que ocorre em outubro de 1917.

Defendendo os lemas “pão , paz e terra” e “todo o poder aos sovietes” , os bolcheviques tomam o poder, assinam o tratado de Brest-Litovsk retirando -se da Primeira Grande Guerra e criam os conselhos populares com o objetivo de dar início as reformas sociais. Porém , a guerra civil permanece e só termina em 1921, quando o exército vermelho, comandado por Trótski, derrota o exército dos brancos, que é composto por czaristas e burgueses, que contavam com o apoio de franceses, britânicos, japoneses e norte-americanos.

Após a vitória bolchevique, a URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) é formada em 1922, e na seqüência surge o NEP – Nova Política Econômica, criada por Lênin, que viria a ser um misto de economia de mercado e projeto socialista, com objetivo de minimizar os problemas econômicos e sociais existentes. Este projeto permitiria a criação de empresas privadas e o comércio em pequena escala sob a supervisão constante do Estado, que permitia uma entrada limitada de capital externo.

Para Lênin, aplicada de modo justo, a NEP não apresentaria perigos para a Rússia Soviética, mesmo que esta política econômica promovesse um certo ressurgimento e um desenvolvimento de elementos capitalistas. De modo que para Lênin, a NEP já tinha auxiliado no nascimento de um setor socialista, representado por empresas estatais, ferrovias, bancos, frota marinha e fluvial; e em questão de mais tempo, promoveria um número maior de melhorias na economia soviética.

Porém com sua morte, em 1924, a economia soviética passa a adotar um novo rumo. Com a chegada de Stálin ao poder, a sociedade passa a ser burocrática, tecnocrática e difícil de ser classificada como capitalista ou socialista.

Bruno Rizzi, um dos fundadores do Partido Comunista Italiano (PCI), torna-se crítico do Partido Bolchevique; ele afirmava que na URSS era a “posse do Estado” que dava à burocracia a propriedade dos meios de produção, que era coletiva e não mais privada. Segundo Rizzi, a burocracia tem a força do Estado, que vale bem mais que as propriedades e os títulos jurídicos da burguesia. Este totalitarismo, constituía a tendência também dos fascismos e das próprias democracias burguesas.

Segundo o ex-trotskista Max Schachtman, o stalininismo é uma contra-revolução-integral, principalmente nas relações econômicas e sociais. Para Schachtman, esta burocracia tem de ser destituída por meio de uma revolução social.

Schachtman viria a ser um dos criadores do neoconservadorismo, que defende o Estado minimamente burocrático. James Burnham, outro ex-trotskista, acreditava que assim como na economia moderna, atuando como Managers, os burocratas tem o poder de dirigir o aparelho produtivo, por conseqüência, também a sociedade.

Outras correntes da época dirão que o bolchevismo vem a ser uma variante do desenvolvimento capitalista.

Três grandes teóricos marxistas do século XX : Karl Korsch, Anton Pannekoek e Otto Rühle entraram em contradição com o estatismo centralizador que Josef Stálin pôs em prática. Segundo eles, a política de Stálin era a realização de uma nova fase da história do capitalismo e da modernização burguesa.

Segundo Korsch, o marxismo russo nada mais foi do que um processo de desenvolvimento do capitalismo em meio a uma Rússia czarista feudal , ou seja, a revolução socialista visava aproximar-se de um capitalismo triunfante.

Já para o holandês Anton Pannekoek, a Rússia stalinista praticava um socialismo de estado, uma vez que o estado era o único empresário; e também praticava o capitalismo de estado, uma vez que os trabalhadores não são donos dos meios de produção e são objetos de uso.

Encerrando esta lista de teóricos marxistas que se mostraram contra este estatismo centralizador de Stálin está o alemão Otto Rühle. Ele acreditava que as tendências teóricas, tanto de Lênin, como de Stálin, levariam a um regime burguês para servir como primeiro modelo ao totalitarismo fascista. Para ele, a luta contra o fascismo deveria começar pela luta contra o bolchevismo.

Analisando o significado da palavra socialismo, os ideais defendidos por Marx e o governo que se instaurou na URSS com Stálin, podemos concluir que o imperialismo econômico estava mais enraizado na economia “socialista” do que se esperava.

Em suma, o Estado Soviético tinha o monopólio de todos os meios de produção, praticava cartel, ou seja, fixava preços e quotas de produção, e além disso, manipulava a grande massa trabalhadora da linha de produção até o discurso ideológico, sem contar as atrocidades as quais os opositores tinham de passar nos campos de trabalho forçado, na Sibéria.