Diálogos de convertidos – Por Mario Vargas Llosa

O Nobel de literatura, Mario Vargas Llosa

O Nobel de literatura, Mario Vargas Llosa

Esta semana, duas coisas esplêndidas ocorreram na América Latina. A primeira foi o triunfo de Mauricio Macri na Argentina, uma severa derrota para o populismo do casal Kirchner que abre uma promessa de modernização, prosperidade e fortalecimento da democracia no continente; é, também, um duro golpe para o chamado “socialismo do século XXI” e para o Governo da Venezuela, a quem o novo mandatário eleito pelo povo argentino criticou sem complexos por sua violação sistemática dos direitos humanos e seus atropelos à liberdade de expressão. Tomara que essa vitória dê uma alternativa genuinamente democrática e liberal à demagogia populista e inaugure na América Latina uma etapa em que não voltem a conquistar o poder caudilhos tão nefastos para seus países como o equatoriano Correa, o boliviano Morales e o nicaraguense Ortega, que devem neste momento estar profundamente afetados pela derrota de um Governo aliado e cúmplice de seus abusos.

A outra excelente notícia é o lançamento no Chile do livro Diálogo de Conversos (Editorial Sudamericana, inédito no Brasil), escrito por Roberto Ampuero e Mauricio Rojas, que é, também no plano intelectual, um xeque-mate às utopias estatistas, coletivistas e autoritárias do presidente venezuelano Maduro e companhia e dos que ainda acreditam que a justiça social possa chegar à América Latina através do terrorismo e das guerras revolucionárias.

Roberto Ampuero e Mauricio Rojas acreditaram nessa utopia na juventude e militaram – o primeiro na Juventude Comunista e o segundo no Movimento de Esquerda Revolucionária (MIR). Contribuíram assim para criar o clima de crepitação social e caos econômico e político que foi o Governo de Salvador Allende e a Unidade Popular. Com o golpe militar de Pinochet e o início de uma era de repressão, tortura e terror no Chile, ambos tiveram que fugir e se refugiaram na Europa. Ampuero foi à Alemanha Oriental e de lá a Cuba. Rojas rumou para a Suécia. No exílio, continuaram militando na esquerda mais radical contra a ditadura. Mas a distância, o contato com outras realidades políticas e ideológicas e, no caso de Ampuero, conhecer e padecer em carne própria o “socialismo real” (de pobreza, burocratização, censura e asfixia política) os levaram àquela “conversão” à democracia primeiro e ao liberalismo depois. Sobre isso dialogam no livro, que, embora seja um ensaio político e de filosofia social, é lido com o interesse e a curiosidade com que se leem os bons romances.

Ambos falam com extraordinária franqueza e fundamentam tudo o que dizem e acreditam com experiências pessoais, o que dá a seu diálogo uma autenticidade e um realismo de coisa vivida, de reflexões e convicções calcadas na história real e que estão, por isso, a anos-luz do ideologismo tão frequente nos ensaios políticos, sobretudo da esquerda, ainda que também da direita, que se move num plano abstrato, de confusa e presunçosa retórica, e que parece totalmente divorciado do aqui e agora.

A “conversão” de Ampuero e Rojas não significa sua transferência com armas e bagagem ao inimigo de outrora: nenhum dos dois se tornou conservador nem reacionário. Ao contrário. Ambos são muito conscientes do egoísmo, da incultura e do quanto é relativa a defesa da democracia feita por uma certa direita que no passado apoiou as ditaduras militares mais corruptas, que confundia liberalismo com mercantilismo e que só entendia a liberdade como o direito de se enriquecer por qualquer meio. E ambos, também, embora sejam muito categóricos ao condenar o estatismo e o coletivismo, que empobrecem os povos e cerceiam a liberdade, reconhecem a generosidade e os ideais de justiça que animam muitas vezes esses jovens equivocados a acreditar, como Che Guevara e Mao, que só alcançamos o verdadeiro poder empunhando um fuzil.

Seria bom que alguns liberais recalcitrantes, que veem no livre mercado a panaceia milagrosa, lessem neste Diálogo de Conversos os argumentos com que Mauricio Rojas, que aproveitou tão bem a experiência sueca – onde chegou a ser por um tempo deputado do Partido Liberal – defende a necessidade de que uma sociedade democrática assegure a igualdade de oportunidades para todos através da educação e da regulação fiscal. O objetivo é que o conjunto da população tenha oportunidade de poder realizar seus ideais e desapareçam esses privilégios que no subdesenvolvimento (e, às vezes, no países avançados) estabelecem uma desigualdade de origem que anula ou dificulta extraordinariamente que alguém nascido em setores desfavorecidos possa competir realmente e ter sucesso no campo econômico e social. Para Mauricio, que defende ideias muito sutis para o que chama de “moralizar o mercado”, o liberalismo é mais a “doutrina dos meios que dos fins”, pois, como pensava Albert Camus, não são estes últimos os que justificam os meios, mas o contrário: os meios indignos e criminosos corrompem e envilecem sempre os fins.

Roberto Ampuero conta, numa das mais emotivas páginas do livro, o que significou para ele, após viver na quarentena intelectual de Cuba e da Alemanha Oriental, chegar aos países livres do Ocidente e ter acesso aos livros censurados e proibidos. Mauricio Rojas confirma a experiência recordando como foi, nas salas e bibliotecas da Universidade de Lund, viver a transformação ideológica que o fez passar de Marx a Adam Smith e Karl Popper.

Ambos se referem extensamente à situação do Chile, a esse curioso fenômeno que levou o país que mais progrediu na América Latina – fazendo retroceder a pobreza e com o surgimento de uma nova e robusta classe média graças a políticas democráticas e liberais – a um questionamento intenso desse modelo econômico e político. E os dois concluem, com razão, que o desenvolvimento econômico e material aproxima um país da justiça e de uma vida mais livre, mas não da felicidade, e que inclusive pode distanciá-lo ainda mais dela se o egoísmo e a ganância se transformarem no norte exclusivo e excludente da vida. A solução não está em voltar aos velhos esquemas e enteléquias que empobreceram e violentaram os países latino-americanos, e sim em reformar e aperfeiçoar sem trégua a cultura da liberdade, enriquecendo as conquistas materiais com uma intensa vida cultural e espiritual, que humanize cada vez mais as relações entre as pessoas, estimule a solidariedade e a vontade de serviço entre os jovens e amplie sem trégua essa tolerância para a diversidade, permitindo que os cidadãos cada vez mais escolham seu destino e pratiquem costumes e crenças sem outra limitação que não causar danos aos demais.

Faz tempo que não aparecia em nossa língua um ensaio político tão oportuno e estimulante. Tomara que Diálogos de Conversos tenha os muitos leitores que merece.

Estadão, 29 de novembro de 2015

Leia Mais:http://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,dialogos-de-convertidos,10000003236

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Populismo deixa rastro de ruínas no continente – Opinião O Globo

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Na alternância cíclica entre autoritarismo e abertura política, o nacional-populismo aparece como atalho perigoso, que impede a reconstrução democrática

A América Latina, como mostra a História, é marcada por ciclos alternados de autoritarismo e abertura política. Infelizmente, não é raro que, ao sair de um regime ditatorial, o caminho à democracia plena se veja desviado perversamente por atalhos populistas, também autoritários, interrompendo o processo de reconstrução das instituições fundamentais da república. Em nome de uma ideia difusa de “libertação” ou da “defesa nacional” contra um inimigo externo, adultera-se a democracia, intervém-se na economia, personaliza-se o que é público, apadrinham-se segmentos da sociedade e corrompem-se agentes do Estado e atores da sociedade, com alto custo para o desenvolvimento político, econômico e social.

Argentina e Venezuela são hoje exemplos bastante típicos desse processo. Bolívia e Equador também, mas sem ainda enfrentar tantas dificuldades econômicas.

Com os bons ventos da economia internacional, expressos sobretudo na valorização dos preços das commodities, Buenos Aires e Caracas falaram grosso em nome do bolivarismo, categoria política incensada por Hugo Chávez, supostamente a favor do povo e contra o capital e o mercado. O kirchnerismo é da mesma família do bolivarianismo. Os dois países recorreram à retórica nacionalista dos regimes militares para intervir na economia: a Venezuela desapropriou e estatizou empresas; ambos controlaram preços e o câmbio; destruíram institutos de estatística econômica; se isolaram da economia global com políticas protecionistas; cortaram juros a canetadas; subsidiaram setores específicos; e aumentaram salários acima da produtividade real da economia.Quando estourou a crise internacional em 2008 e os desequilíbrios de suas políticas econômicas bateram firme no bolso da sociedade, o lado autoritário desse nacional-populismo tomou a forma visível da repressão, para conter revoltas e coibir a decepção generalizada. No caso venezuelano, vê-se um país à beira de uma ditadura formal, com a prisão de líderes da oposição, repressão violenta contra manifestantes, cerceamento da imprensa, desequilíbrio entre os poderes, e todo tipo de coerção contra candidatos às eleições parlamentares, cujo realização é incerta. Na Argentina, assiste-se ao ataque contra a imprensa profissional e até mesmo à morte mais que suspeita do procurador que investigava a presidente Cristina Kirchner.

No Brasil, as instituições republicanas mostraram até agora boa resistência às tentativas de hegemonização política do lulopetismo, representante deste nacional-populismo. Mas, no campo da economia, a adoção da “nova matriz macreconômica” empurrou o país para o mesmo caminho de infortúnio dos vizinhos bolivarianos.

O resultado, uma grave crise sem perspectiva de solução a curto prazo, cobra seu preço sobretudo da população mais pobre, inclusive aquele segmento que deixara estatisticamente a pobreza absoluta e corre agora o risco de retroceder. Por ironia, em nome de quem opera o populismo.

O GLOBO , 18 de outubro de 2015

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/opiniao/populismo-deixa-rastro-de-ruinas-no-continente-17800377#ixzz3oxuyESLv
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A greve nas universidades federais – por Simon Schwartzman

Simon Schwartzman

A greve das universidades federais não é um evento isolado, mas parte de um processo que, infelizmente, tem tudo para acabar mal. Para entender, é importante lembrar que, diferentemente da maioria dos outros países da América Latina, o Brasil nunca teve grandes universidades nacionais abertas para todos que concluem o ensino médio, e optou, desde o início, por universidades seletivas, abrindo espaço para o crescimento cada vez maior do ensino superior privado, que, com seus cursos noturnos, de baixo custo e sem vestibulares difíceis, acabou atendendo à grande demanda por ensino superior de pessoas mais pobres e sem condições passar nos vestibulares e estudar de dia, que o setor público não atendia. Hoje, apesar do esforço do governo federal em aumentar a matrícula em suas universidades, 75% dos estudantes estão do setor privado.

Com um setor público pequeno e seletivo, as universidades brasileiras conseguiram criar um corpo de professores de tempo integral e dedicação exclusiva, desenvolver a pós-graduação e criar muitos cursos de qualidade, coisas que quase nenhum outro país da região conseguiu. Mas, como parte do serviço público, elas possuem um sistema homogêneo de contratos de trabalho, regras e promoção de professores e programas de ensino que não tomam em conta o fato de que elas são, na verdade, muito diferentes entre si – algumas têm programas de qualidade de graduação e pós-graduação em áreas dispendiosas como engenharia e medicina e fazem pesquisas relevantes, enquanto outras simplesmente copiam os modelos organizacionais, as regras de funcionamento e os custos das primeiras, com muito pouco de sua cultura institucional e conteúdos. Com a generalização dos contratos de tempo integral e a estabilidade dos professores, os custos subiram, sem mecanismos para controlar a qualidade e o uso adequado de recursos, que variam imensamente de um lugar para outro, independentemente de resultados.

Na década de 90, com Paulo Renato de Souza como Ministro da Educação, houve algumas tentativas de colocar esta situação sob controle, introduzindo um sistema de avaliação de resultados (o provão), vinculando parte do salario dos professores ao número de aulas dadas, e tentando introduzir legislação dando às universidades autonomia não somente para gastar, mas também para assumir a responsabilidade pelo uso eficiente dos recursos públicos através de orçamentos globais, e tentando fazer valer a prerrogativa do governo federal de escolher reitores a partir das listas tríplices selecionadas pelas universidades. Estas políticas encontraram grande resistência, os orçamentos globais nunca foram instituídos, o “provão” na prática só afetou alguns segmentos do setor privado, e o conflito entre as universidades e o governo no episódio da nomeação do reitor da UFRJ, em um tempo em que os salários não aumentavam, mobilizou grande parte dos professores, alunos e administradores das universidades federais contra o Ministério da Educação e o governo Fernando Henrique Cardoso.

Nos primeiros anos do governo Lula as relações das universidades federais com o governo passaram por um período de lua de mel: tudo era concedido, e nada era cobrado. A gratificação de docência foi incorporada aos salários, que passaram a crescer graças à melhora da economia e do aumento geral dos gastos públicos; o “provão” foi substituído por um pretensioso sistema de avaliação, o SINAES, que demorou em se organizar e continuou sem afetar as instituições federais; e a nomeação dos reitores eleitos internamente pelas universidades se transformou em regra. Para atender à demanda crescente por educação superior, o governo comprou vagas no setor privado com o Prouni, em troca de isenção de impostos, aumentando cada vez mais a proporção de estudantes no setor privado. Ao mesmo tempo, o governo iniciava uma política de expansão do acesso às instituições federais, primeiro com a introdução de cotas raciais e sociais, depois com a criação de novas instituições e a abertura de novas sedes das universidades existentes, e finalmente com o programa Reuni que, em troca de mais recursos, exigiu que as universidades federais praticamente duplicassem o número de vagas abrindo novos cursos, sobretudo noturnos, e aumentassem o número de aulas dadas por professor. Ao mesmo tempo, os antigos centros federais de educação tecnológica, os CEFETs, foram transformados em Institutos Federais de Tecnologia e equiparados às universidades em termos de custos e prerrogativas. Segundo dados do INEP, o gasto por aluno do governo federal passou de 9 mil reais ao ano em 2001 para 18 mil em 2010, acompanhando a inflação. Como o número de alunos do sistema federal duplicou nestes dez anos, devendo estar hoje em cerca de um milhão, os custos do sistema aumentaram na mesma proporção em termos reais, embora o número de formados tenha aumentado pouco. Só o programa REUNI custou 4 bilhões de reais, metade para investimentos e outra metade que passou a se incorporar ao orçamento das universidades federais.

Esta política de expansão acelerada não obedeceu a nenhum plano ou avaliação cuidadosa sobre prioridades, abrindo instituições aonde não havia demanda, admitindo alunos antes de existirem os edifícios e instalações adequadas, forçando as universidades a criar cursos noturnos e contratar mais professores mesmo quando não havia candidatos qualificados, e sobretudo sem preparar as universidades para lidar com alunos que chegavam do ensino médio cada vez menos preparados. Ao mesmo tempo, a necessidade de contenção de gastos do governo Dilma tornou impossível atender às expectativas de aumento salarial dos professores, gerando um clima generalizado de insatisfação revelado pela greve.

É possível que a greve leve a algumas concessões salariais por parte do governo federal, como costuma acontecer, mas o efeito mais visível deste tipo de movimento é o de prejudicar os estudantes e professores mais comprometidos com o estudo e pesquisa, levando à desmoralização das instituições, sem que as questões de fundo sejam tocadas. A principal questão de fundo é a impossibilidade de o setor público continuar se expandindo e aumentando seus custos sem modificar profundamente seus objetivos e formas de atuação, diferenciando as instituições dedicadas à pesquisa, à pós-graduação e ao ensino superior de alta qualidade, que são necessariamente mais caras e centradas em sistema de mérito, das instituições dedicadas ao ensino de massas em carreiras menos exigentes, que é onde o setor privado atua com custos muito menores e qualidade pelo menos equivalente. Esta é uma tese que provoca enorme reação nas instituições federais e os sindicatos docentes, que querem sempre continuar iguais e niveladas por cima em seus direitos, embora esta nivelação não exista em relação aos resultados. Mas a conta, simplesmente, não fecha.

Uma diferenciação efetiva exigiria limitar os contratos de trabalho de tempo integral e dedicação exclusiva às instituições que consigam demonstrar excelência em pesquisa, pós-graduação e formação profissional; introduzir novas tecnologias de ensino de massas e à distancia, aumentando fortemente o número de alunos por professor; e criar mecanismos efetivos que estimulem as instituições a definir seus objetivos, trabalhar para eles, e receber recursos na proporção de seus resultados. Um exemplo do que poderia ser feito é o processo de Bologna que está ocorrendo na Europa, que cria um primeiro estágio de educação de superior de massas de três anos, com muitas opções, e depois as instituições se especializam em oferecer cursos avançados de tipo profissional e científico conforme sua vocação e competência. É necessário, também, criar condições e estimular as instituições federais a buscar recursos próprios, inclusive cobrando anuidades dos alunos que podem pagar. Esta diferenciação exigiria que as universidades federais fossem muito mais autônomas e responsaveis pelos seus resultados do que são hoje, sobretudo na gestão de seus recursos humanos e financeiros, o que se torna impraticável quando os salários dos professores são negociados diretamente entre os sindicatos e o Ministério da Educação e as tentativas de diferenciar benefícios e financiamento em função do desempenho são sistematicamente combatidas.

Se nada disto for feito, o mais provável é que as universidades federais continuem a se esgarçar, com greves sucessivas e piora nas condições de trabalho dos professores e de estudo para os alunos, abrindo espaço para que o setor privado ocupe cada vez mais o segmento de educação superior de qualidade, como ocorreu no passado com o ensino médio.

Ao mestre, sem retoques – Jornal Estado de São Paulo

Vinte anos após deixar o sacerdócio, Leonardo Boff, teólogo censurado por Ratzinger, analisa o papa em excursão latina

BOFF / RATZINGER

Até o âncora da CNN saiu do sério no último domingo quando, quase incrédulo, abriu os braços para mostrar o tamanho do sombrero que Bento XVI afundou na cabeça ao ouvir um conjunto de mariachis na cidade mexicana de León. Era o início da primeira viagem do bávaro Joseph Ratzinger à América de língua espanhola desde que virou papa, em 2005. Observadores mais entusiasmados, ou mais fervorosos, podem ter vislumbrado ali uma latinidade que sairia do armário, com desdobramentos inesperados em Cuba, terra não dos sombreros, mas das guayaberas. Falso foguetório. Bento XVI, 85 anos incompletos, rapidamente se reconduziu à sobriedade germânica que o caracteriza. Do México saltou para a ilha caribenha, encontrou-se com os irmãos Castro, repetiu a palavra “liberdade” em diferentes momentos e arrumou outras tantas para condenar o bloqueio econômico americano. Daí pegou seu aeropapa e voltou para casa.

E a empatia esperada? E aquela sedução diante das massas que fez de seu antecessor, o polonês Karol Wojtyla, o João de Deus neste lado do mundo? Enfim, o que fica do primeiro ensaio de Bento XVI no terreiro da latino-americanidade? Quem reflete sobre essas e outras questões é o catarinense Leonardo Boff, 73 anos, que o papa conhece de longa data e a quem ainda se refere como “der frommer theologe”, o teólogo piedoso. “Esse tratamento tem a ver com o que ele me dizia no passado, ao aprovar meu jeito de aproximar teologia e espiritualidade. Ele leu o que escrevi, e gostava. Em compensação me condenou em outros campos”, relembra Boff, ex-aluno dileto de Joseph Ratzinger, depois confrontado irremediavelmente com o mestre quando este se tornou prefeito da poderosa Congregação para a Doutrina da Fé, ex-Santo Ofício, no pontificado de João Paulo II.

Sentar-se no banco de Galileu diante dos inquisidores da Igreja, tendo à frente o mestre que o formou e pressionado a renegar teses da Teologia da Libertação, da qual era um dos formuladores, não é experiência de vida que o tempo apague. Em 1985, o franciscano indexado como rebelde recebeu uma condenação ao silêncio obsequioso. Depois seguiu-se um leve relaxamento das sanções. Mas, em 1992, portanto há exatos 20 anos, veio o enquadramento mais forte de Roma: silêncio total, sem direito a escrever, recolhido a um convento nas Filipinas ou na Coreia. Boff então se despediu da Ordem dos Frades Menores, abandonou os votos sacerdotais e se declarou leigo.

Mas a Igreja, especialmente a dos pobres, segue dentro dele. A teologia, também. Recentemente acrescentou um título à lista de mais de 60 livros com o lançamento de Cristianismo: Mínimo do Mínimo (ed. Vozes), em que discute como as igrejas criam respostas complicadas para o mistério da fé, “que é feito de simplicidade”. Vê-se que o aluno continua na trilha oposta à do seu mestre na Universidade de Munique. Boff quer simplificar. Ratzinger, feito papa, quer recuperar a simbologia católica mais tradicional e austera. São antípodas que se referenciam mutuamente.

Nesta conversa em torno de Bento XVI, Boff traz à tona momentos em que ambos atuaram juntos, ou bem próximos, desde os anos que se seguiram ao Concílio Vaticano II (1961-62) até o derradeiro momento da ruptura. Professor emérito da Uerj, honoris causa das universidades de Turim (Itália) e Lund (Suécia) e detentor em 2001 do Right Livelihood Award, Nobel alternativo concedido em Estocolmo, hoje mora em Araras (RJ) com a mulher, a também teóloga Márcia Miranda, cercado da prole que adotou como sua. Além de falar aos movimentos sociais, mantém agenda extensa de palestras dentro e fora do País. “Vivo neste ciganismo intelectual”, brinca.

No sétimo ano do pontificado e na sua 23ª viagem internacional, esta é a primeira vez que Bento XVI empreende uma visita à América de língua espanhola. Sendo o continente um reduto do catolicismo, terá demorado a vir para esses lados?

A preocupação central do atual papa é recuperar visibilidade para a Igreja no continente europeu. É isso. Ele considera que o processo de secularização fez com que a Igreja perdesse importância social, tornando-se mais e mais invisível. Diante de um cristianismo agônico, como se vê em muitas partes da Europa, ele traça uma estratégia de reconquista, que não se aplica à América Latina, considerada já conquistada. Aqui ele procura reforçar o existente. Considero uma estratégia equivocada, pois implica optar pelos ricos e não pelas maiorias empobrecidas do mundo. Mas é justamente dessa estratégia que vem toda uma valorização do catolicismo tradicional, uma parafernália de símbolos religiosos recuperados, algo que a mim soa como coisa meio vaidosa. Acredito que a renovação não virá do centro, mas da periferia onde vivem 52% dos católicos. O cristianismo tornou-se uma religião do Terceiro Mundo que um dia teve origem no Primeiro Mundo. Mas isso é de difícil compreensão para o papa.

O senhor reconhece no Bento XVI de hoje o Ratzinger dos anos 80, que o condenou ao silêncio obsequioso e o levou, por fim, a abandonar a Ordem e o sacerdócio?

Há um Ratzinger anterior, com quem estudei e trabalhei nos anos 60, 70. Era um professor adorado pelos alunos, teólogo de posições avançadas, tínhamos estreita ligação. A partir de 1965, com a criação da revista Concilium, formou-se o grupo dos 25 teólogos mais influentes no mundo, grupo que se reunia uma vez ao ano em alguma cidade europeia, sempre na semana de Pentecostes, para discutir os rumos da igreja pós-Vaticano II. Ratzinger estava lá, conosco. Ficou tão entusiasmado com a minha tese de doutorado na Universidade de Munique, sobre a Igreja como sinal no mundo secularizado, que tratou de arrumar editora e financiamento de 14 mil marcos para a publicação. O que o teria feito mudar? Acho que ele chegou à Congregação para a Doutrina da Fé muito rapidamente. De simples teólogo em Munique foi a cardeal em pouco tempo e logo promovido a um posto importantíssimo no Vaticano, graças à amizade com Karol Wojtyla. Quando este virou papa, logo o chamou para a congregação. E é como eu sempre digo: Roma tem uma enzima que transforma todo mundo.

Roma mudou Ratzinger?

O papa, no meu modo de ver, vive um processo de regressão em sua capacidade de formular uma visão coerente do mundo, seja do ponto de vista da análise, seja do ponto de vista da teologia. Ele é cada vez mais conservador. É risível teologicamente ressuscitar a idéia medieval de que fora da Igreja Católica não há salvação e de que a romana é a única igreja verdadeira. Comete-se um erro teológico. Seria o mesmo que dizer: Evangelho é somente o de Marcos, o mais antigo. Os demais, de Mateus, Lucas e João, que vieram depois, têm apenas elementos evangélicos, mas não são o Evangelho. Ora, ele próprio me ensinou que, assim como os quatro Evangelhos se aceitam mutuamente, assim deveria acontecer com as igrejas. Juntas elas formam o legado de Jesus. Ele aceitou essa tese como teólogo, mas a renegou no Vaticano. E por quê? Eis uma coisa tão alemã… Ao ir para a congregação, Ratzinger o fez como um típico burocrata alemão, assumindo como algo pessoal o que era oficial. Lembro de uma passagem: logo depois de sua nomeação, escrevi uma carta para ele felicitando-o e dizendo que, enfim, a teologia iria florescer no mundo. Quinze dias depois recebi carta dele avisando que havia processos abertos contra mim na congregação e que daria andamento a eles. Pensei, puxa, vida, em 15 dias ele já terá mudado tanto?

A visita ao México e a Cuba servirá para diluir a imagem de Ratzinger como desagregador da Teologia da Libertação?

O papa carrega um fardo negativo na história da teologia cristã. Não apenas perseguiu teólogos levando-os a julgamento em Roma, como fez comigo e Gustavo Gutiérrez (teólogo e frade dominicano nascido no Peru), como proibiu que publicássemos a primeira Suma Teológica (obra doutrinária e filosófica de São Tomás de Aquino, do século 13) na perspectiva da libertação.

Como assim?

Eu coordenava um grupo de cem teólogos da América Latina envolvidos na publicação da obra, em 53 volumes. Quando lhe expus o projeto, o então cardeal Ratzinger perguntou “e quem paga?”.Depois me disse que deveríamos publicar apenas um volume por ano, mas argumentei: “Eminência, não viveremos para ver o final do trabalho”. Por fim condicionou a autorização da publicação, o imprimatur, a uma licença especial que deveria vir de bispos espanhóis muito conservadores. Abandonamos o projeto. Tudo isso causou grande dano às comunidades que ter-se-iam enriquecido na sua compreensão da fé e também de seu compromisso político a partir da fé.

O giro latino-americano dos últimos dias também não poderá distrair a opinião mundial dos escândalos sexuais na Igreja?

Tanta perspicácia política não possuem os estrategistas do Vaticano. A concepção deles é centrada sobre a Igreja em si mesma, bastião de defesa contra o secularismo, ateísmo e materialismo do mundo moderno. Roma apoia o cristianismo da América Latina desde que mantenha sua lógica colonial, dependente do centro, e não pretenda fazer aqui um ensaio original com outras culturas, de onde saia um rosto índio-negro-latinoamericano de cristianismo. Ou seja, cristianismo, sim, desde que romano. Agora, a pedofilia atacou de fato o coração da Igreja Católica, aquele capital simbólico e espiritual do qual vivia sua legitimidade e força moral. Isso tudo deve causar uma tremenda perplexidade ao papa.

Por quê?

A concepção que eu ouvia em suas aulas era de que a Igreja deve ser o pequeno rebanho, um pedaço do mundo reconciliado, o oásis onde a salvação se realiza de forma exemplar, como representação para todos os demais. Ocorre que esse oásis e pedaço de mundo reconciliado é uma ideia platônica, realidade que nunca existiu. A Igreja está no mundo como as demais realidades, sujeita a vulnerabilidades da condição humana. Os antigos diziam e sobre isso o teólogo Ratzinger escreveu algumas belas páginas: a Igreja é uma casta meretriz. De noite ela peca como meretriz. De dia Deus a limpa, a torna casta e a faz sua esposa. Quanto à pedofilia na Igreja, a estratégia do Vaticano é desviante ao separá-la do celibato. O elo entre os dois temas é a sexualidade. Notoriamente a educação dos candidatos ao sacerdócio, e ao celibato, tem sido insuficiente, fazendo da sexualidade o mundo da tentação e do pecado. Ora, uma educação inadequada faz com que muitos deem azo a expressões perversas e criminosas da sexualidade. O normal seria a Igreja rever a lei do celibato e torná-lo facultativo, como o fizeram todas as igrejas.

Como o senhor compara o estilo João Paulo II ao de Bento XVI no contato com fiéis?

Podemos discutir a teologia conservadora de João Paulo II, mas não podemos desconhecer seu irradiante carisma, que galvanizava multidões. Num mundo sem figuras carismáticas, pois hoje a maioria dos chefes de Estado, opacos burocratas, sai das escolas de administração, a figura de João Paulo II se sobrelevava. Não possuía boa teologia, tanto que sua tese doutoral sobre a fé em São João da Cruz não foi aprovada. Mas era um grande pastor. Falava mais por gestos que por palavras. Sua aparição ao público era uma encenação. Vê-se que tinha sido na juventude ator. E foi ator a vida inteira, encenou a própria morte. Sua irradiação era tão grande que fascinou e, eu diria, até cegou Ratzinger, que, em seu entusiasmo, logo o beatificou. Já o papa atual preserva dentro de si o mestre, que de fato foi, de uma rigorosa universidade alemã. Não possui carisma por isso não projeta aura benfazeja, mas severa, contida. O professor com quem privei sempre foi uma pessoa gentil, fina, mas extremamente tímida. Sim, Bento XVI é um homem muito tímido. Posso imaginar como deve sofrer longe de seus livros e da leitura de Santo Agostinho, do qual é eminente especialista, tendo que fazer saudações e dar manifestações públicas de carinho, algo inimaginável na sua atividade de Herr Professor.

João Paulo II e Fidel desenvolveram, guardadas as distâncias, um contato sincero aparentemente. E tem-se que a Igreja católica em Cuba recuperou terreno social e até presença política. Isso poderá ser ‘reeditado’ com Bento XVI e Raúl Castro?

Quem seguiu de perto o encontro de Fidel Castro com João Paulo II teve a clara percepção de que eles se afinavam profundamente. Pudera, tinham as mesmas características de base: o exercício autoritário do poder. E ambos eram figuras carismáticas. Com o papa atual é diferente. Eu diria que nessa semana vimos o encontro de dois chefes de Estado, cada qual com sua identidade, sem nenhum gesto que rompesse o plano burocrático. Como de praxe o papa tem que falar dos direitos humanos, já que a Igreja levanta a pretensão de ser especialista em humanidade, mas quem a conhece por dentro percebe a falácia da presunção.

Cuba e o contato com a gente simples de lá podem mudar concepções em Bento XVI?

O encontro é sempre criativo, muda a cabeça das pessoas. Seria preciso ser inimigo da própria humanidade e não se comover diante dos humildes que acenam e estendem a mão para uma figura que representa algo de sagrado, de uma realidade que ultrapassa a nossa. Para João Paulo II as viagens significavam grande aprendizado. Para Bento XVI deve também haver um quociente de aprendizado, mas como é intelectual de grandes conhecimentos teóricos, num nível realmente alto, penso que o aprendizado servirá para confirmar as próprias convicções. Mas talvez eu esteja subestimando a força intrínseca que todo encontro possui… Isso já é filosofia, não é análise.

Mas ele desembarcou no México, primeira etapa desta viagem, anunciando-se como ‘peregrino da fé, da esperança e do amor’.

Que outra mensagem poderia dizer? Ele não é um político, porém maneja símbolos poderosos, que alcançam fundo a alma das pessoas. Todos anseiam por amor, fé, esperança. Não será um Berlusconi ou um Sarkozy que farão semelhantes discursos. Então o papa está em seu papel.

Na coletiva para 70 jornalistas no voo Roma-León, rumo à primeira escala mexicana, o papa disse textualmente: ‘Hoje é evidente que a ideologia marxista, como foi concebida, já não responde à realidade’. Mas a frase chegou a ser publicada como ‘o papa disse que comunismo em Cuba não funciona’…

Como a maioria dos alemães, ele é profundamente anticomunista. E não diferencia os tipos de marxismo como fez inteligentemente João XXIII na Mater et Magistra, ele que era bem menos culto que Ratzinger. Se Bento XVI tivesse se restringido ao marxismo como teoria social, como conjunto de ferramentas para entender uma sociedade e analisar a lógica perversa do capital, talvez falasse o contrário. Hoje, dizem-no livreiros da Europa e dos Estados Unidos, Marx é um dos autores mais lidos e estudados por financistas que foram à falência e procuram entender por quê.

Fidel, no breve encontro com Bento XVI em Havana, ousou perguntar ‘o que faz um papa’. O que o senhor acha da indagação?

Se eu fosse o papa responderia com toda a simplicidade: “Não faço nada. Fazem tudo por mim”. Porque o que ele tem que fazer, e essa é sua única missão, é viajar pelo mundo para fortificar os irmãos na fé, mantendo a unidade de uma instituição que hoje tem o tamanho de uma China inteira. No mais, fazem tudo por ele. Uma vez alguém perguntou a João XXIII quantas pessoas trabalhavam na Cúria Romana. E ele disse: “A metade” (risos). É assim mesmo, metade trabalha, metade vagabundeia.

A secularização, como já se disse aqui, está no topo das preocupações do Vaticano. E o papa prega que é possível redescobrir Deus como orientação fundamental de vida no contexto da racionalidade moderna. O senhor está de acordo com ele?

Estimo que o papa possua um conceito reducionista de secularização. Na verdade é um conceito nascido no interior da teologia protestante do século 19 e começo do século 20 para afirmar a legítima autonomia do saeculum, quer dizer, do mundo, da criação. Na secularização, Deus não é pronunciado, o que não significa que esteja ausente. Ele está presente sob o nome de justiça, amor, retidão, boa consciência, solidariedade e compaixão. Ilusão dos cristãos pensarem que Deus esteja presente somente onde seu nome é pronunciado, pois muitos se dão por piedosos e comportam-se como malfeitores. Nosso mundo político está cheio deles. Já o “secularismo” é a patologia da secularização ao afirmar que só existe este mundo e qualquer aceno a algo que o transcenda é ilusão ou alienação. Creio que o papa deveria ter feito a distinção para não condenar aquilo que é são.

Ele quer uma Igreja menor, mais disciplinada e homogênea. No ano passado, se não me engano, visitou sua Baviera natal, pregando ‘uma outra Alemanha’, não a Berlim secular, administrada por um prefeito gay…

Quem conhece a Baviera entende suas palavras. Vivi lá cinco anos ininterruptos e pude conversar muito com Ratzinger sobre o tipo de catolicismo que se originou na região. Para o professor aquilo significa uma das mais perfeitas e completas encarnações da fé cristã numa cultura rústica, camponesa, de virtudes ligadas ao trabalho, à piedade familiar, às festas de Igreja e à impregnação de elementos religiosos em todas as casas. Ele me disse várias vezes que “o caminho romano passa pela Baviera”. Só que se trata de um cristianismo que não se confrontou com a modernidade!

Depois de deixar a ordem e o sacerdócio, o senhor esteve com seu ex-professor?

Não, não. Numa famosa conferência que fez em Florença, sobre o Vaticano II, ainda cardeal, Ratzinger me citou em público. Curioso, ele se refere a mim como “der frommer theologe” (o teólogo piedoso), aprovando a maneira como eu aproximo espiritualidade e teologia, mas me criticando duramente em outros textos… Pois bem, depois da conferência houve uma entrevista e um jornalista indagou por que, afinal, fizera a citação de alguém que havia condenado. E ele respondeu algo assim: “Boff é um homem inteligente, bom teólogo, espero que um dia volte e acolha o magistério da Igreja”. Continuará esperando.