“Estudo das características do cidadão São-Carlense”

CATEDRAL -são carlosSão Carlos é um município brasileiro localizado no interior do estado de São Paulo, próximo de seu centro geográfico, e a uma distância rodoviária de 231 quilômetros da capital paulista. Com uma população estimada em 218.080 habitantes (IBGE/2008), distribuídos em uma área total de 1.141 km², é a 14ª maior cidade do interior do estado em número de residentes.

A cidade é um importante centro regional, com a economia fundamentada em atividades industriais e na agropecuária (neste setor, destaca-se a produção de cana-de-açúcar, laranja, leite e frango). Bem servida por vias de transporte como rodovias e ferrovias, São Carlos conta com unidades de produção de algumas empresas multinacionais, dentre as quais Volkswagen, Faber-Castell (a subsidiária são-carlense é a maior do grupo em todo o mundo, produzindo 1,5 bilhões de lápis por ano), Electrolux, Tecumseh e Husqvarna. Algumas unidades de produção de empresas nacionais, dentre as quais Toalhas São Carlos, Tapetes São Carlos, Papel São Carlos, Prominas Brasil, Cardinali e Latina.

Atendendo às necessidades locais, e, em certos aspectos, regionais, há uma rede de comércio e serviços distribuída em lojas de rua, postos de conveniência e um Shopping Center da marca Iguatemi. No campo de pesquisas, além das universidades, estão presentes no município dois centros de desenvolvimento técnico da Embrapa.

Os dois campi da Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), além de outras duas instituições de ensino superior particulares, o Centro Universitário Central Paulista (UNICEP) e as Faculdades Integradas de São Carlos (FADISC), tornam intensa a atividade universitária no município, que conta com uma população flutuante de cerca de vinte mil graduandos, boa parte atraída de outras cidades e estados.

São Carlos

Figura 1. Localização do município de São Carlos

A cidade de São Carlos é considerada uma cidade de porte médio, com uma taxa de crescimento populacional crescente desde 1950, com destaque para as décadas de 1970 a 1990. Como a cidade possui várias indústrias e renomadas universidades, existem fluxos populacionais interessados em melhores condições de trabalho e, conseqüentemente, melhores condições de vida e de sobrevivência.

O crescimento urbano desordenado, devido à forte ocupação urbana aliado à ausência de políticas agrárias, resulta no inchamento das cidades, baixa expansão da rede de serviços urbanos, aumento da pobreza e diminuição da qualidade de vida. São Carlos não foge desse problema, com seus bairros periféricos que cresceram vertiginosamente nas décadas de 80 e 90.

Objetivos

O projeto de pesquisa consiste em analisar as tipologias de famílias existentes em São Carlos e relacioná-las com as características dos Indivíduos por ela avaliados.

Definições

A pesquisa “ Condições de Vida e Pobreza em São Carlos: a Questão da Pobreza – Uma Abordagem Interdisciplinar”, realizada no 2o. semestre de 1994 pelo NPD (Núcleo de Pesquisa e Documentação “Professor Dr. José Albertino Rodrigues”) do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos, teve como objetivo dimensionar, localizar e qualificar a pobreza em São Carlos.

Na primeira etapa desta pesquisa a população de São Carlos, recenseada em 1991 pelo Censo do IBGE, foi distribuída em cinco categorias socioeconômicas: de A, a mais rica, a E, a mais pobre. Essas categorias foram criadas a partir dos seguintes critérios: os valores dos terrenos que serviam de base para o cálculo do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) e as condições de habitação e do entorno, a partir de impressões de alguns agentes imobiliários e de alguns recenseadores do Censo do IBGE de 1991 que auxiliaram na classificação das áreas dentro do continuum de A a E.

Conforme os dados apresentados, podemos observar que o padrão de vida em São Carlos em relação à Região Metropolitana de São Paulo é mais precário em relação à saúde e à renda, melhor nas condições de educação e expressivamente superior nas condições de habitação.

Analisando a pobreza em São Carlos, em suas várias dimensões, podemos notar que com exceção das condições de habitação, que mostram uma situação privilegiada de São Carlos em relação à região metropolitana de São Paulo e as condições de inserção de mercado de trabalho que mostram uma situação de correspondência entre as duas regiões tomadas para análise, às outras dimensões revelam uma situação de carência mais acentuada no que diz respeito a São Carlos.

Isto indica que a cidade convive com uma realidade de pobreza, em algumas de suas dimensões, pior do que a realidade da região metropolitana de São Paulo, já caracterizada por altos índices de “exclusão social”.

Esta pesquisa construiu cinco tipologias de carência familiar baseadas numa perspectiva multidimensional da condição de vida que enfatizava as seguintes dimensões: acesso à renda, à educação, ao emprego, aos equipamentos de saúde e a condições dignas de habitação.

Na dimensão da saúde foram consideradas carentes as famílias que dependiam do Sistema Unificado de Saúde (SUS); em renda, as famílias que possuíam rendimentos inferiores a 2 salários mínimos por adulto equivalente; em educação, as famílias nas quais os chefes da família não possuíam escolaridade básica – primeiro grau completo; em habitação as famílias que residiam em imóvel construído com material adaptado ou moravam em domicílios com menos de três cômodos básicos (quarto, sala e cozinha) ou utilizavam coletivamente com outras famílias banheiro,tanque ou cozinha ou aquelas que para dormir serviam-se de outro cômodo, além dos quartos.

São Carlos também não escapa do principal problema dos tempos modernos: o desemprego. A destruição de postos de trabalhos e a crescente precariedade das relações de trabalho são fatores que incidem diretamente na renda e conseqüentemente na sobrevivência das pessoas e da família.

O crescente desemprego se torna ainda mais perverso nos segmentos populacionais mais pobres, pois, a escassez do emprego soma-se a baixa escolaridade e baixa qualificação o que torna mais difícil a inserção no mercado de trabalho, sobram sempre os empregos mais precários e menos remunerado. Para a sociedade fica a responsabilidade de construir alternativas viáveis que gerem emprego e renda.

Assim, o que é possível constatar é que o município de São Carlos, apesar de estar localizado em uma das regiões mais desenvolvidas do país e apresentar uma economia dinâmica, não conseguiu administrar o padrão de crescimento desigual já conhecido do cenário nacional. A pobreza e a miséria fazem parte de sua realidade, fato que impõe a necessidade de serem propostas e operacionalizadas políticas de inclusão social”.

Figura 2 – Tipologias: cidade de São Carlos

São Carlos2

Fonte:Pesquisa “Condições de vida e pobreza em São Carlos : a Questão da Pobreza. Uma abordagem interdisciplinar” NPD – Núcleo de Pesquisa e Documentação “Prof. Dr. José Albertino Rodrigues“ – DCSo / UFSCar , 1994.

Hipóteses

  • Existe relação entre as cinco tipologias estudadas (habitação, educação, saúde, mercado de trabalho e renda) e quais as classes socioeconômicas a elas associadas?

  • Existe relação entre as características do indivíduo (qualidade de inserção no mercado de trabalho, posição na família e cor)?

  • Há ligação entre os anos de escolaridade do indivíduo com a qualidade de inserção no mercado de trabalho?

Metodologia

O conjunto de dados a ser analisado foi obtido pela pesquisa “Condições de vida em São Carlos. A questão da pobreza: uma abordagem interdisciplinar”. Consiste em 923 observações de 21 variáveis relativas à saúde, renda, mercado de trabalho, entre outras.

Este estudo levará em consideração as cinco categorias socioeconômicas existentes no município, categorias estas classificadas nas classes A, B, C, D e E. Baseado nestas classificações será relacionado essas categorias com cinco tipologias de carência familiar, sendo elas: Habitação, Saúde, Educação, Renda e Emprego.

O problema de pesquisa a ser estudado, que buscaremos esclarecer é a importância da educação e a sua relação com a posição de um cidadão na família, sua cor e sua inserção no mercado de trabalho. Além da qualidade da inserção do profissional no mercado de trabalho, avaliando informações como estas: procura por trabalho nos últimos 7 dias , se trabalhou nos últimos 7 dias , procura por trabalho nos últimos 30 dias e caso não procurou por trabalho , quais são as razões.

Para a análise estatística dos dados, serão utilizadas técnicas multivariadas, de Análise Fatorial de Correspondências Simples e Múltiplas. Estamos interessados em identificar relações entre as unidades de observação, entre as características observadas e entre unidades de observação e característica simultaneamente.

Os métodos estatísticos para este tipo de estudo, assim como o uso de qualquer procedimento estatístico, depende do tipo de informação disponível, ou seja, do tipo de característica observada. Quando as características observadas são quantitativas as metodologias de Análise de Componentes Principais (ACP), Análise Fatorial (AF) e Análise de Conglomerados (Cluster) são apropriadas para o estudo. Porém, em muitas situações práticas particularmente nas Ciências Humanas e Sociais, com destaque na parte de pesquisa de opinião, as características de interesse são em quase sua totalidade, características qualitativas. Nestes casos, caso exista alguma característica quantitativa dentre aquelas de interesse, ela poderá ser categorizada e assim receber o mesmo tratamento das demais. Para estas situações é que a Analise Fatorial de Correspondências aparece como uma alternativa para análise do problema em estudo.

Por suas propriedades estatísticas e pela riqueza de suas interpretações, corroborada pelo desenvolvimento de recursos computacionais, a análise de correspondências tornou-se um método privilegiado na descrição de dados qualitativos. Com estas características, constitui-se numa ferramenta com inúmeras possibilidades de uso, particularmente nas áreas de ciências humanas e sociais onde a presença de variáveis qualitativas de interesse é bastante usual.

Podemos destacar dois grandes objetivos gerais da Análise Fatorial de Correspondências:

  1. Analisar toda informação contida em uma Tabela de Contingência;

  2. Representar Graficamente a estrutura de uma Tabela de Contingência.

A Análise de Correspondência tem por objetivo, identificar as relações das linhas, colunas e entre linhas e colunas de uma tabela de contingência, ou ainda, analisar a similaridade e dissimilaridade das linhas e colunas.

Em uma tabela de contingência, a semelhança entre duas linhas, ou entre duas colunas, se expressa de maneira totalmente simétrica. Duas linhas são consideradas próximas se estão associadas da mesma forma em relação ao conjunto das colunas, ou seja, se elas apresentam freqüências próximas para todas as colunas. Simetricamente, duas colunas estão próximas se estão associadas de um mesmo modo no conjunto das linhas.

Esquematicamente, o estudo do conjunto das linhas consiste em expor uma técnica na qual se buscam as linhas cuja distribuição se desvia mais do conjunto da população, aquelas que assemelham entre si (no sentido determinado anteriormente) e as que se opõem. Para relacionar a tipologia das linhas com o conjunto das colunas, caracteriza-se cada grupo de linhas pelas colunas a que este grupo se associa muito ou muito pouco. O estudo do conjunto das colunas é totalmente análogo.

Está claro que esta aproximação, segundo a noção de semelhança utilizada, permite estudar a relação entre as duas variáveis, isto é, o desvio da tabela da situação de independência. A análise desta relação é o objetivo fundamental da AFCS.

Finalmente é importante destacar que a AFC (Simples e Múltiplas) como toda Análise Fatorial também é utilizada para uma redução da dimensão dos dados conservando maior parte da informação possível.

A representação gráfica de uma Análise Fatorial de Correspondências é feita através do gráfico das coordenadas de cada plano fatorial. Usualmente os primeiros planos fatoriais são suficientes para análise do problema em estudo.

Quanto às variaveis ; foram analisadas no estudo:

  • Tipologia de Família :

  1. habitação1 ( escala politômica )

  2. educação1

  3. saúde1

  4. mercado de trabalho

  5. renda1

  • Característica do Indivíduo :

  1. Qualidade de inserção do indivíduo no mercado de trabalho

  2. posição na família

  3. cor1

  4. anos de escolaridade

São Carlos3

Figura 3 – Análise Fatorial de Correspondências – Tipologias da Família

Na figura 3, identificamos alguns grupos. O primeiro relaciona indivíduos classificados como classe A relacionados à medicina privada, à habitação mais que satisfatória e à educação muito alta. O segundo grupo, relacionado à classe social E, é relacionado às faixas de renda miseráveis e indigentes, grau de educação muito baixo e habitação insatisfatória. O terceiro grupo associa indivíduos da classe social D com a faixa de renda pobre, mercado de trabalho intermediário e habitação precária.São Carlos4Figura 4 – Análise Fatorial de Correspondências – Características do Indivíduo

Analisando estes dados constatamos que podemos formar grupos de características mais correlacionadas entre si , sendo eles :

  • Quando a qualidade de inserção da pessoa no mercado de trabalho é considerada como sendo dependente há uma tendência de que ela venha a ser de cor amarela e ocupe posição de cônjuge na família.

  • Quando a qualidade de inserção da pessoa avaliada é considerada como sendo ruim e muito ruim há uma tendência de que ela venha a ser de cor parda e preta-mulata e ocupe posição de parente e outros na posição da família.

  1. Foi considerado parente :filho , enteado , neto , pai , sogro , genro , nora , etc.

  2. Foi considerado outros: agregado , pensionista , empregado doméstico , parente da empregada , etc.

  • Quando a qualidade de inserção da pessoa avaliada é considerada como sendo regular e muito boa há uma tendência que ele venha ser um chefe de família.

  • Pela variável suplementar idade observamos que os indivíduos mais escolarizados , ou seja , com 15 anos de estudo ou mais estão associados à qualidade de inserção no mercado de trabalho considerada ótima.

Conclusões

Após a análise dos resultados, podemos dizer que o município de São Carlos apresenta problemas de inserção das classes D e E em vários setores da sociedade, desde a educação até o atendimento médico. Essas classes sociais estão fortemente associadas aos níveis de educação, saúde e habitação mais baixos e degradantes, ao passo que vemos os cidadãos da classe A com os níveis mais altos. Como essas classes de nível socioeconômico baixo, além das tipologias analisadas, possuem pouca educação, podemos concluir que o futuro para estes indivíduos é obscuro e extremamente limitado. Assim como o abismo social , que tende a aumentar.

A inserção do indivíduo no mercado de trabalho é um dos pilares fundamentais para um desenvolvimento gradativo da sociedade são-carlense. Quanto melhor a inserção do indivíduo no mercado de trabalho, mais destacada será a sua posição perante os seus familiares. Os indivíduos de cor preta/mulata e parda continuam a sofrer com um mercado de trabalho excludente, que apresenta um pré-conceito que podemos chamar de anomia.

Vale ressaltar que os indivíduos com maior escolaridade no município, que seria de mais de 15 anos de estudo , tendem a obter os melhores empregos, uma vez que o município possui uma qualidade de ensino superior considerada a melhor do interior do Brasil.

Em suma , São Carlos como uma cidade de porte médio apresenta problemas que ocorrem em quase todos os municípios da federação , porém por apresentar um índice de acesso ao ensino superior público e gratuito acima da média nacional era de se imaginar que o governo do município pudesse apresentar uma política que buscasse integrar as classes D e E com maior efetividade ao mercado de trabalho , a saúde e a educação . Além de promover políticas públicas que venham a atender com mais acurácia e transparência o cidadão de baixa renda que necessita de uma moradia digna para viver , e não apenas para sobreviver.

Esta pesquisa foi realizada por Moacir Pereira Alencar Junior e Victor Ramos Zambrano , no 2º semestre de 2008.

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