Democracia à brasileira – partidos falaciosos e a imposição do status quo. – por Moacir Pereira Alencar Junior

A salada mista partidária brasileira

A salada mista partidária brasileira

Nos países intelectualmente subdesenvolvidos – e, parcialmente, até em certos países desenvolvidos -, graças à magia das palavras, ‘ser de esquerda’ é chique, revelando um espírito moderno e ‘progressista’, sem os ranços do conservadorismo próprio a seus avós. O ‘esquerdista’ se imagina ‘liberado’, aberto, compreensivo, de visão larga e profundamente humanitário. Liberado, obviamente, com moderação, de forma a desfrutar das vantagens de ‘estar a favor do sentido da história’, que ‘marcha para o socialismo’… mas sem apressar-se muito para que ela chegue lá …

Ninguém, por outro lado, bota a carapuça de ‘direitista radical’…. O ‘direitista radical’ seria, no vocabulário corrente dos políticos, o ‘fascista’ ou o ‘nazista’… É um tipo vocabularmente superado e fora de moda. Ser ponta esquerda, muito bem, mas direita!

Mesmo o declarar-se ‘moderado de direita’, ‘meia direita’ ou pertencente à direita ajuizada e bem comportada, causa aos nossos políticos, assim como aos nossos intelectuais, um certo constrangimento, um dificilmente disfarçável mal-estar. Afinal, o que admite ser rotulado dessa maneira pode acabar considerado um ‘atrasadão’, demodé, perdido nas malhas do conservadorismo ou até mesmo – insulto dos insultos – um ‘reacionário’.

A vida política brasileira parece mesmo compelida a naufragar nos mares do relativismo aideológico e das indefinições doutrinárias. Em tal atmosfera, quem propugna o debate sério em torno de programas partidários, de doutrinas, de teorias e de idéias, corre o risco de ser tão mal recebido quanto um maestro que, em algum campo de futebol, se pusesse a reger músicas clássicas no momento em que a torcida festeja uma vitória!

Despojados de ideologia e de programas, os partidos rebaixaram sua atuação ao nível da barganha política em vista de interesses pessoais ou partidários. Este aspecto, comum em nossa vida política, toma importância particularmente grave.

Por mais evidências de clientelismo que se acumulem, é prática cotidiana na política brasileira negar qualquer acordo envolvendo a troca de cargos por apoio ou votos. …
Já começa o que se poderia chamar de temporada de redistribuição de postos públicos. …

Desvenda-se assim a engrenagem fisiológica menor, cuja existência é quase sempre nebulosa e clandestina, de que lança mão um governo – em qualquer nível – para conseguir ou ampliar seu apoio no campo político de modo geral, e no Poder Legislativo em particular. É desta forma que se costuma alimentar o emaranhado, também pouco discernível, das ‘bases’ sobre as quais se sustentam muitos votos no Congresso nacional, sobre as quais se erguem carreiras e até mesmo partido sem ideologia, sem representatividade e sem caráter.

Um regime democrático repousa seu equilíbrio sobre uma classe política razoavelmente representativa, com certa credibilidade, e instituições (partidos, sindicatos, organizações) que mantenham um mínimo de compromisso com seus filiados e suas teses. Se o descrédito ocorrer, o processo democrático se inviabiliza.

Ou seja, o processo de democratização já se inviabilizou, e isto não se refere a um partido ou um grupo sindical em especial…isto já faz parte da totalidade dos partidos, sindicatos e organizações.

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3 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Bom, a verdade que partidos e pessoas sempre confundiram suas visões com a de seus próprios empreendimentos particulares e públicos. Muita coisa pode ser questionada, principalmente o por quê mesmo vivendo em um estado “democrático”, com a existência de falsas expectativas de um politicamente correte, de um medo do debate que gera um aleijamento político, que gerará um mal-estar e uma crise dentre em breve. Tememos as armas, as ditaduras, mas discordar é realizar, concordar para tudo é suicídio cultural e social.

  2. Sei que sou totalmente descrente com relação às ditas instituições democráticas e ao ideal de democracia, que por ser tão amplo acaba não tendo nunca uma definição precisa; penso que esta confusão que temos no Brasil com relação a projetos ideológicos específicos ou a falta deles é um digamos, reflexo dessa inadaptação dos modelos à realidade. Uma coisa é a teoria e o que ela propõe como modelos ideais, outra é o que os fatos nos demonstram e como lidamos com eles. Ao mesmo tempo acho que existem sim diferenças entre os partidos e seus ideais, não pode-se dizer que um partido como o PSDB partilha dos mesmos ideais que o PT ou o PSOL. É certo que uma vez no poder valem todas as estratégias para mantê-lo, o que se vê pelas alianças e barganhas feitas entre partidos diferentes; mas ainda assim não se pode dizer que são todos iguais, portadores dos mesmos programas e modos de agir.

  3. Na minha visão, nas próximas duas décadas não existirão mais partidos de direita. Com a atual mudança dinâmica que a humanidade está cercada, não haverá mais possibilidade para se manter políticas atrasadas ou contestadas pela população. Com a disseminação das redes sociais, tudo vira notícia e aqueles que têm o poder hoje, podem cair por uma denúncia ou pressão no ambiente cibernético. Por isso, os governos no poder tendem a mudar constantemente sua visão, de acordo com a situação econômica ou a voz do mundo virtual que, a cada dia, invadem as principais ruas e avenidas dos backbones da informação. Será tudo muito rápido e confuso. Os partidos tendem-se a tornar-se mais homogêneos, caminhando pelo centro, por onde conseguem atender várias classes e instituições que os apoiam. Enfim, chegamos a um ponto que não há mais como fingir trabalhar ou fingir não roubar, tudo será monitorado e registrado (câmeras, logs, gravações) e a tecnologia será a grande arma e beneficiando a população a separar o joio do trigo.


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