Buscarei destacar neste artigo, alguns trechos do romance de Gonzaga Duque – Mocidade Morta – escrita no ano de 1900. Gonzaga Duque é considerado pela crítica literária como o mais destacado ficcionista do simbolismo brasileiro, graças a este romance.
Mocidade Morta, segundo o pesquisador e professor Carlos Alberto Iannone, é um romance de revolta, crítica e sátira social demasiadamente vinculado à moda preciosista do Simbolismo, e por conseguinte, prejudicado por certa nebulosidade (influência, talvez, das Evocações, de Cruz e Sousa) e pelo estilo difícil e rebuscado.
Neste romance, ele busca destacar a figura de alguns jovens que se viam deslocados da realidade em que se encontravam, e visavam construir uma nova onda, uma nova realidade a suas práticas.
Estes jovens, chamados insubmissos, segundo Duque, apresentavam epigramas e facécias, destacando-os da boçalidade admirada dos ajuntamentos existentes. Merece se ressaltar que os insubmissos tinham uma paixão em comum – todos eram artistas - pintores – que viam na arte sua base de vida e de ascensão social.
O idolatrado Telésforo de Andrade [ laureado artista e modelo de sucesso para os insubmissos] bradava:
“Em todo caso, se me permitem a imodéstia, hei de desaparecer como o sol!…
Telésforo também destacava:
“Ora! Que me importa o rabear das víboras?! Eu não vivo nas trevas! Ataquem me de face !…
Os insubmissos, em meio aos problemas da sociedade, e em meio as dificuldades na carreira das artes, mostravam seu descontentamento das formas mais variadas. Viotti acalmava Colaço [ fã de Richard Wagner] com as seguintes palavras:
“Que queres , Tannhauser*, que queres ? … Nesta terra tudo está torto, desde a consciência dos homens até a calçada das ruas.” (* poeta alemão medieval)
…e Colaço rosnava:
“Eu sei, eu bem sei… O que é preciso é um dilúvio de petróleo flamante neste monturo. Um fim de Gomorra ! Uma maldição bíblica!”
Camilo e Agrário buscavam a renovação em meio ao amorfismo, e em meio a estas reflexões, Sandoz perseverava:
“Allons nous en travailler !”** (** “Vamos trabalhar!”)
E em uma crítica ao Academicismo da época diziam:
“O trabalho será nosso murro de Hércules, será nossa força convincente. Mas, trabalho com entusiasmo, trabalho enérgico, que se o tenha simbolizado na persistência encorajada dos malhadores das forjas. [...] O Academicismo nos impõe suas formas, não é? Desprezemo-lo e desprezemo-las. Costas à Academia ! E vamos fazer em nossa oficina o contrário do que é letra dos seus códices , do que é dogma de seus cânones, porque faremos novo e bom, vivo e forte!”
[...] “Vocês vivem na Academia, como se vivessem num internato de padralhões sórdidos, sob o jugo da rotina e a infecção do sodomismo, bestializam-se e esgotam-se. Para cada parede que olham, em cada passo que fazem, têm o mau exemplo, uma arte sem valor técnico e sem espiritualidade. A pinacoteca ali esta, reparem em suas coleções. Que pobreza! Que impotência ! Não se nota na maioria dessas obras uma alma, um temperamento. Concepções tomadas de empréstimo ou servilmente imitadas, execução frouxa, fraca, inútil; ali tudo é negativo, é reles ou é chato; não afirma talento, não constata saber.”
A perseverança de insubmissos como Camilo, levava ânimo a pessoas como Agrário, com as seguintes palavras:
“Porque não fazemos uma reunião definitiva de todos os que querem resistir à contagiosa estupidez do nosso meio social? Combinando, agremiando, poderíamos formar uma oposição vitoriosa, fundaríamos ateliers livres, teríamos exposições independentes, em suma, seríamos uma corporação vivendo vida própria, exercendo uma profissão.”
Mas toda mobilização e perseverança caiam por terra, quando as malhas do retrocesso mostravam que necessitaria ter uma figura centralizadora [Telésforo] para dar visibilidade as aspirações do grupo de insubmissos:
“Eles precisavam de um nome feito, de um mérito acolhido, porque tentar reformas sem o prestígio de um chefe era acender rebeldia de maltrapilhos. Não discordava de que, desde já, fossem opondo à ditadura dos atrasados as aspirações dos novos, porém, a título de preparo para uma conquista, para a realização de um ideal a que não falhasse critério.”
Em um certo momento, muitos tiveram que baixar a cabeça e tristemente concluir que eles não podiam ser criadores, não poderiam trazer a chama messiânica. Seriam continuadores, não teriam mais que seguir as pegadas dos que inovaram, ou pelo menos dos que reformaram.
Teriam que se subjugar, ao menos temporariamente.
Para um obra de ficção escrita em 1900, ela ganha um caráter altamente visionário, se avaliarmos a realidade brasileira do século XXI. O Academicismo corroe e não se abre a inovação. O progresso é visto como uma rebeldia de maltrapilhos; e a imposição da ditadura dos atrasados ainda esmaga as aspirações dos novos.
112 anos se passaram desta obra ao ano que nos encontramos…uma ponte de mais de um século…
… o Brasil da FICÇÃO de Gonzaga Duque [de 1900], é o Brasil de hoje [2012], na sua plena REALIDADE…





